Histórico da Gestão Democrática

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1 INTRODUÇÃO

A gestão democrática em nosso país é um processo que vem sendo vivenciado ao longo dos anos por toda a sociedade, no que diz respeito ao âmbito político, foram ocorrendo mudanças em todos os seus segmentos e a escola como instituição que tem como compromisso, socializar o saber historicamente construído não poderia está alheia a todas estas mudanças.

O compromisso de todos na gestão democrática chamou a minha atenção pelo fato dos sistemas de ensino estar concretizando através da Constituição Federal de 1988 e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação nº. 9394/96. A luta da escola pública, mas especificadamente desde os anos 20, dos pioneiros da educação, profissionais que almejavam uma educação para todos e de qualidade.

Mas, democratizar o ensino não se constitui apenas em construir escolas, é preciso garantir no ambiente escolar que todos tenham a escola como espaço onde se possa aprender com entusiasmo. Para isso, a escola necessita consolidar sua autonomia, partilhando suas ações com a comunidade em que está inseri da, buscando soluções adequadas às necessidades do seu cotidiano escolar.

Baseado nestes pressupostos farei um estudo bibliográfico, objetivando analisar como se deu a democratização do ensino, partindo dos aspectos políticos e sociais que culminaram no sistema democrático.

Inicialmente veremos um breve histórico do processo de democratização no Brasil, mostrando de forma sucinta a luta de um povo pela redemocratização do poder no que diz respeito ao sistema de governo. Seguirei com a escola e sua função social refletindo um papel da escola dentro dessa sociedade e qual sua real atuação.

Em seguida, abordarei o caráter político administrativo na escola fazendo uma retrospectiva das teorias da administração, baseada em Taylor e Fayol com suas respectivas abordagens, culminando com gestão escolar e suas concepções, encerrando assim o primeiro capítulo.

No segundo capítulo, tratarei dos elementos que compõem a gestão escolar a partir de sua organização e como a escola se estrutura. Na autonomia da escola elemento que está interligado com a organização escolar, mostrarei algumas concepções de estudiosos acerca de conceitos sobre o tema. Seguirei com quatro tipos de autonomia que apesar de distintos interagem na dinâmica escolar.

Depois apresentarei o Projeto Político Pedagógico e suas contribuições, documento que serve como bússola para a construção da coletividade nas ações educativas, baseado sempre na história social da comunidade. Dentro do PPP encontrarei as definições sobre algumas instâncias colegiadas, como: Conselho Escolar, Conselho de Classe, Grêmio Estudantil e Associação de Pais. Farei também uma síntese sobre o Regimento Escolar que define natureza, finalidade e estrutura da escola, fundamentado em vários dispositivos legais. Assim como o Projeto Político Pedagógico, o Regimento Escolar é de interesse de toda comunidade que compõe a escola.

O professor e trabalho coletivo é outro elemento que reflete a participação de todos na organização e gestão do trabalho escolar que é desenvolver o potencial de participação, fortalecendo o trabalho coletivo.

Encerrarei o capítulo com o papel do gestor no processo educativo mostrando qual é a sua atuação e, respectivamente, as mudanças que o levam a tornar-se um gestor através de suas competências desenvolvidas na prática do cotidiano escolar.

Espero através deste estudo, adquirir a percepção do embasamento teórico¬-filosófico que compõe a gestão democrática.

1.1 – ASPECTOS HISTÓRICOS DA DEMOCRACIA NO BRASIL

Democracia palavra que define literalmente “Governo do povo e para o povo”, este sistema político opõe-se as formas de ditadura e totalitarismo, onde o poder reside em uma elite auto-eleita. Mas para chegarmos ao Regime Democrático, o Brasil apresenta em sua história uma caminhada sócio – política e econômica bastante difícil. Para compreender a importância da Gestão Democrática e participativa existente nos vários segmentos da sociedade civil e, mas especificamente na escola se faz necessário passearei um pouco pelo processo político que culminou nesse sistema de governo em nosso país, apresentarei aqui de maneira suscita os aspectos sócio-políticos vivenciados pelo nosso povo, para que nossa compreensão seja ampliada em como devemos valorizar nossas conquistas atuais, vejamos:

Após a derrocada do Estado Novo a nação defrontou-se com as dificuldades do aprendizado da democracia, e a nova constituição mostrou que havia vontade de dar conta desta tarefa. Mas a euforia libertária dos primeiros momentos foi cedendo espaço às injeções da polarização política derivada das transformações ocorridas no mundo em decorrência da Guerra Fria. A ação dessa determinante dos rumos do pais traduziu-se, num primeiro momento, em recaída autoritária, que atingiram comunistas e sindicatos. A seguir redundou no deslocamento da confrontação política para a definição das estratégias, mas adequada a fim de inserir o Brasil na nova ordem mundial com base na indiscutível adesão ao modelo capitalista de organização econômica e social.

A partir da segunda eleição de Getúlio Vargas, passando pela Era JK e pelo período subsequente e mesmo durante os anos de chumbo da ditadura militar, os personagens centrais da vida política brasileira, fossem eles partidos, setores organizados da população, lideranças políticas ou militares, fossem meios de comunicação de massa, fossem situacionais ou de oposição, traziam em seus discursos, obrigatoriamente, alguma crítica ao subdesenvolvimento e uma promessa de superá-lo. Essa opção resultou tanto em longos períodos de vertiginoso dinamismo econômico quanto em profundas mudanças estruturais da sociedade brasileira. De agrário e ruralizado, o Brasil passou a contar uma economia complexa e com uma sociedade predominantemente urbanizada.

A rapidez das transformações provocou brutais desequilíbrios de ordem regional, social e cultural, dos quais resultaram problemas que se converteram em ações políticas, as quais colaboraram e xeque as estruturas do poder. Isso se deu em 1964, 1968, 1978, 1986 e 1992, revelando que o povo, ou setores dele capazes de se fazer ouvir, buscava de dentro de si as respostas para as dificuldades com as quais se defrontava. A reação à emergência de demandas que irrompiam da multiforme experiência vivida pelo conjunto da sociedade brasileira revelou tanto a extensão do arcaísmo atávico dos donos do poder quanto sua extraordinária capacidade de adaptação e de sobrevivência. E isso se deu recorrendo à violência mais radical ou mediante o uso da persuasão, da negociação ou, no limite, do cooptação de antigos adversários políticos cuja adesão os reforça.

Ainda que numa conjuntura ditada pelo colapso do comunismo e pelo fim da velha ordem mundial da Guerra Fria, a história futura da nação brasileira continuará sendo definida com base nesse legado de reiterada capacidade de retomada dos anseios mais justos e mais nobres, realização que será tarefa das gerações vindouras. (Tarefa para o futuro. Coleção Brasil 500 anos, São Paulo. Nova Cultural, n. 12, p. 705, 1999).

Os aspectos sócio-político e cultural relatados espelham mais do que nunca a urgência de um povo em buscar sua democratização. E nessa luta pelos direitos civis e políticos a escola também busca reconstruir sua função social refletindo sobre o significado da educação e seu papel diante desta realidade como veremos a seguir.

1.2 – A ESCOLA E SUA FUNÇÃO SOCIAL

Ao longo de sua trajetória a sociedade passou por três momentos considerados marcos importantes. O primeiro voltado para a agricultura, onde a aprendizagem do jovem consistia em conhecer as estações do ano e formas de plantio e cultivo da terra. O homem era conhecido em sua riqueza pela quantidade de terra que possuía. O segundo momento aconteceu com a industrialização, a máquina a vapor, as leis de eletricidade. O capital invertido em lucros da mais valia a produção e o trabalho operário. O terceiro momento trouxe a tecnologia e exige competência cada vez maior para o mercado de trabalho, o desenvolvimento dos meios de comunicação e outros avanços tecnológicos como a Internet, requerem uma busca constante o conhecimento, essas transformações receberam denominações como – Era do Conhecimento, Sociedade do Conhecimento, Sociedade em Rede, Sociedade da Comunicação entre outras.

Segundo Penin”& Vieira (2002), o elemento comum entre estes diferentes modos de nomear o cenário atual refere-se ao papel central do conhecimento na organização social e econômica, o que tende a redefinir a centralidade da instituição escolar.

Diante do quadro apresentado, a escola precisou reavaliar sua função social bem como qual seu papel frente a questões como democracia, comunidade e cultura.

A escola de acordo com Penin & Vieira (2002), é a instituição que a humanidade criou para socializar o saber sistematizado. No entanto sua função social varia de acordo com o tempo e o espaço e apesar de cada povo ter sua maneira de educar onde são respeitados culturas, crenças e valores. Todos visam transmitir uma “educação que una o passado com o futuro. Comunica a herança cultural das gerações precedentes à luz das exigências do mundo de amanhã.” (idem).

O conhecimento transmitido pela escola expressa também este duplo movimento: resume um legado e antecipa possibilidades. (Penin & Vieira apud Bruner, 2001). Na Antiguidade a educação era privilégio de minorias, com a Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos. Um novo ideal começa a ser perseguido o de uma escola não apenas para os filhos da elite, mas uma escola para todos. Estes movimentos marcaram avanços no sentido de romper com uma organização social de privilégios e o fortalecimento na luta pela democracia. Infelizmente ainda hoje esse ideal não se tornou pleno segundo dados do Relatório Mundial de Educação da UNESCO em 2000, existiam em todo mundo 875 milhões de pessoas analfabetos com idade superior a 15 anos.

No Brasil esta mesma fonte estimava que em 1997 existissem 18 milhões de jovens e adultos analfabetos, atualmente estes números foram reduzidos tendo em vista as ações do governo é o auxílio de várias Ongs. Com isto podemos observar que a escola tem desenvolvido sua função social de modo excludente historicamente falando, vale lembrar que este fracasso não é atribuído apenas à escola, mas a fatores extras curriculares.

A educação no Brasil teve seu desenvolvimento tardio. A herança colonial e o descaso com a escolarização das massas, a educação atingia a poucos das minorias só alcançando desenvolvimento político social e econômico, com a chegada da industrialização por volta dos anos 20 e 30.

Este período compreende grandes progressos na área educacional. Vários educadores marcaram a história das idéias a respeito da educação em nosso país entre ele: Anísio Teixeira, Fernando Azevedo, Lourenço Filho, que divulgaram um documento histórico chamado O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (1932).

O Manifesto trata especificamente sobre a função social da escola, apresentarei uma passagem escrita no original. Poderei observar que apesar da data que o manifesto foi escrito sua essência é bastante atual com relação à função social da escola em nossos dias.

A escola, campo específico de educação, não é um elemento estranho à sociedade humana, um elemento separado, mas “Uma instituição social, um órgão feliz e vivo, no conjunto das instituições necessárias à vida, o lugar onde vivem a criança, a adolescência e a mocidade de conformidade com os interesses e as alegrias profundas de sua natureza […].”

Dessa concepção positiva da escola, como uma instituição social, limitada na sua ação educativa, pela pluralidade e diversidade das forças que concorrem ao movimento das sociedades, resulta a necessidade de reorganizá-la, como um mecanismo maleável e vivo aparelhado de um sistema de instituições susceptíveis de lhe alargar os limites e o raio de ação […] cada escola seja qual for o seu grau, dos jardins as universidades, deve, pois, reunir em torno de si as famílias dos alunos, estimulando as iniciativas dos pais em favor da educação; constituindo sociedades de ex-alunos que mantenham relação constante com as escolas; utilizando em seu proveito, os valiosos e múltiplos materiais e espirituais da coletividade e despertando o desenvolvimento o poder de iniciativa e o espírito de cooperação social entre os pais, professores, a imprensa todas as demais instituições diretamente interessadas na obra da educação (Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, ir GHIRALDELLI JR., 1990, p. 74-75 apud Penin & Vieira 2002, p.17).

Se este trecho do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova nos fosse apresentado sem sua respectiva referência bibliográfica pensarei que ele havia sido escrito em nossos dias, tal a fidelidade de anseios almejados ainda hoje podemos perceber que o sonho do exercício da escola em exercer sua função social de 1932 aos dias atuais não mudou em sua totalidade, mas já existem alguns avanços. Voltarei para as contribuições que na época este documento conseguiu. Em 1934, a Constituição incorpora a gravidade e obrigatoriedade do ensino baseado no Manifesto. Porém só em 1961, é que o país tem suas primeiras Leis Diretrizes e Bases da Educação Nacional LDB 4.024/61. Com o Regime Autoritário novas leis passam a definir a organização escolar desde a Universidade à educação elementar e média foi a Lei 5.540/64 e a Lei 5.692/71. Estas leis instituíam a reforma dos ensinos primários e secundários, bem como o ensino universitário, trazia a escolaridade obrigatória de quatro para oito anos e a profissionalização do ensino.

Mas só a lei não foi suficiente para efetivar a expansão da escola e muitas denúncias foram feitas pelas falta de recursos materiais e humanos adequados, provocando uma queda na qualidade do ensino. Em 1998, houve uma expansão nas taxas de escolarização da população com idade entre 7 a 14 anos de 95,3% apesar dos avanços o governo reconhece que: “O Brasil ainda exibe um ensino fundamental caracterizado pela distorção idade/série, frutos de taxas elevadas de repetência, que marcaram profundamente todo o sistema e uma baixa abrangência do ensino médio. Apesar de termos quase nove milhões de jovens de 15 a 17 anos de idade no sistema de educação básica, apenas cerca de 32% estão no ensino médio”. (BRASIL, MEC/INEP, 2002, p.5 apud Penin & Vieira p. 18).

Tendo em vista os problemas que perpassam a educação brasileira o poder público tem buscado superá-las e um dos marcos estabelecido para a educação de qualidade foi à implantação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 394/96, que exerce um papel marcante já que é a legislação que especifica os fins da educação brasileira e preza pela organização do sistema de ensino.

Como nos afirmam Penin & Vieira (2001):

Muitas de nossas leis representam frutos da luta de educadores em seus movimentos coletivos. Traduzem também – e Dor vezes de forma autoritária. Como ocorreu com a legislação do período da ditadura-a disposição dos governos em levar adiante um determinado projeto educacional. Devemos conhecê-las, na medida em que contêm as disposições gerais sobre a educação. Assim como podem indicar avanços para a superação dos problemas que afetam a realidade escolar. Mas não Podemos esquecer que as mudanças em educação resultam de muitos outros aspectos e não apenas da legislação […].

A LDB e a constituição de 1988 apontam que a educação é um dever do estado e da família promovê-la. E no artigo 205 da Constituição e o artigo 2° da LDB diz que à finalidade educação é o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para a cidadania e sua qualificação para o trabalho. Significa dizer então que a escola tem como atribuição o desenvolvimento pleno do indivíduo. Para que esta finalidade seja atingida a Lei 9394/96 ainda estabelece as seguintes atribuições aos estabelecimentos de ensino:

I. Elaborar e executar sua proposta pedagógica;
II. Administrar seu pessoal e seus recursos materiais e financeiros;
III. Assegurar o cumprimento dos dias letivos e hora-aula estabelecidas;
IV. Velar pelo cumprimento do plano de trabalho de cada docente;
V. Prover meios para a recuperação de alunos de menor rendimento;
VI. Articular-se com as famílias e a comunidade, criando processos de integração da sociedade com a escola;
VII. Informar os pais e responsáveis sobre a freqüência e o rendimento dos alunos, bem como sobre a execução de sua proposta pedagógica. (LDB, artigo 12).

A LDB estabelece ainda a flexibilidade no que diz respeito às formas de organização escolar de acordo com as necessidades de aprendizagem ou localização geográfica, clientela ou outros aspectos.

Até aqui fiz uma reflexão histórica da função social da escola apresentando seus aspectos no nível de avanços tanto social como legais, voltarei agora para o cerne de nossa reflexão que é a sociedade do conhecimento.

O Papa João Paulo II fez o seguinte pronunciamento na encíclica Centesimus Annus, de 1991: “Se antes a terra e depois o capital, eram os fatores decisivos da produção (…), hoje o fator decisivo é, cada vez mais o homem em si, ou seja, seu conhecimento”.

Essa nova maneira da sociedade se posicionar traz duas consequências para a escola brasileira. A primeira é o reforço de sua importância social, já que é na escola que o conhecimento é sistematizado. Apesar de vivermos num período onde o conhecimento está a um só tempo sendo divulgado e “acessível”, segundo Manuel Castells estudioso da Era da informação a globalização marginaliza povos e países que têm sido excluídos das redes de informação. Ainda segundo as Organizações das Nações Unidas (ONU), somente 5% da população está inserida no mundo digital isso significa dizer que grande parte da população deixa de adquirir de forma mais rápida o conhecimento oferecido em rede. Sendo assim, podemos dizer que este tipo de conhecimento oferecido pela Internet cria um abismo entre ricos e pobres e isto é exclusão social.

A segunda consequência é que a escola necessitou repensar sua organização, sua gestão, ou melhor, sua maneira de fazer escola para atingir com eficiência e eficácia sua função social que é ensinar bem e preparar os indivíduos para exercer a cidadania e o trabalho no contexto de uma sociedade complexa, enquanto se realizam como pessoas. Estas atribuições requerem o compromisso de todos que fazem à educação (profissionais governos e sindicatos e a sociedade como um todo). A UNESCO instituiu a Comissão Educacional sobre a Educação para o século XXI, produziu um relatório que constitui a educação a partir de quatro pilares, a saber;

• Aprender a conhecer: compreende aprender a aprender está relacionado com as atividades cognitivas,
• Aprender afazer: envolve habilidade de trabalhos sociais e de trabalho:
• Aprender a conviver: educar para a convivência;
• Aprender a ser: desenvolvimento sócio cultural. Aprender a elaborar pensamentos autônomos e críticos e formular seus próprios juízos.

Segundo Penin & Vieira (2002), a educação, assim concebida, indica uma função da escola voltada para a realização plena do ser humano e, é importante que se diga que o país vive um momento de escolarização de massa. Porém, para que essa realização plena seja, alcançada se faz necessário à ação concreta, qualificada pelo conhecimento é o que abordarei no próximo tópico.

1.3 O CARÁTER POLÍTICO-ADMINISTRATIVO NA ESCOLA

A Administração Escolar tem sua concepção fundamentada a partir do século XX nos modelos de Administração Empresarial, através de quatro escolas: Clássica, Psicossocial, Estruturalista e Contemporânea. Apresentarei as principais características de cada uma.

Escola Clássica

Representada por meio de três movimentos: A Administração Científica de Taylor, que foi a tentativa de aplicar os métodos da ciência aos problemas da administração e tem como principais métodos a observação e a mensuração. Essa experiência teve início com o trabalho do operário, porém, verificou-se que não era possível desenvolver um trabalho pedagógico que assegurasse eficácia e eficiência da produtividade se os chefes continuavam trabalhando dentro do mesmo empirismo anterior. Foi necessário desenvolver princípios capazes de balizar o comportamento dos chefes. Esses princípios foram bastante criticados uma vez que o operário ficava com uma visão fragmentada do processo de produção, além de perderem iniciativa e liberdade dentro do trabalho.

A Teoria Clássica de Fayol tem como conceito de administração “A ação de prevê, organizar, comandar, coordenar e controlar, defendendo os princípios gerais da administração como procedimentos universais a serem aplicados a qualquer tipo de organização e empresa”. (Pepe & Mercado, 2001).

A Administração Burocrática surge com Max Weber, que pressupõe o surgimento paralelo dos meios materiais nas mãos dos chefes. A eficiência é o processo norteador dessa escola por meio da filosofia de “produzir o máximo com o mínimo de recursos, energia e tempo”. (apud. cf HORA, 1994).Milton (apud CHIAVENATO, op. cit.), passou a diagnosticar e caracterizar as disfunções do modelo burocrático Weberiano, notando que ao invés da máxima eficiência, tais disfunções levavam a ineficiência da organização.

A Abordagem Clássica da Administração pode ser desdobrada em três orientações: taylorismo, fayolismo e weberiano – que parecem diferentes mais na verdade uma complementa a outra.

A Escola Psicossocial

Surge na década de 20 e é baseada no movimento das relações humanas de Mayo, Roethlisberger, no comportamento administrativo de Simon e Bernad. Esta abordagem ocorreu com o aparecimento da Teoria das Relações Humanas, seu surgimento só foi possível com o desenvolvimento das ciências e em particular, a Psicologia do trabalho. A Teoria das Relações Humanas surge da necessidade de se corrigir a desumanização do trabalho com a aplicação de métodos rigorosos da Teoria Clássica da Administração. A dinâmica de grupo e o profundo interesse sobre os grupos informais foi outro aspecto da Escola das Relações Humanas. A organização escolar passa a ser pesquisada em suas características e origens. Sendo assim, a Teoria Comportamental tem a função de regular o critério de eficiência e eficácia, onde os trabalhadores são vistos pela administração não individualmente, mas como grupo. Essa teoria como toda a corrente de oposição apresenta limitações sendo necessária uma completa reelaboração a partir da Teoria Comportamental.

A Escola Estruturalista

Surgiu por volta da década de 60, como um desdobramento das análises dos autores voltados para a Teoria Burocrática que tentaram conciliar as propostas pela Teoria Clássica.

Os autores estruturalistas procuraram inter-relacionar as organizações com seu ambiente externo. Daí um novo conceito de organização e um novo conceito de homem, o homem organizacional, que desempenha papéis concomitantes em diversas organizações diferentes. Esta teoria tem uma abordagem múltipla e globalizante, organização formal que se relaciona com o contexto sócio-político, por meio de diversos recursos metodológicos.

A Escola Contemporânea

Os questionamentos levantados no final da década de 80 e início da década de 90 em relação às teorias administrativas culminaram em novas perspectivas teóricas no âmbito da administração.

Para a Escola Contemporânea a efetividade mede a capacidade de encontrar a solução desejada, tendo como preocupação a promoção do desenvolvimento sócio econômico e a melhoria das condições de vida. Administrar a educação nessa perspectiva é produzir decisões relacionadas à educação e que leve em consideração a especificidade de cada realidade escolar.

No final da década de 80, a sociedade brasileira esboçou um novo quadro de organização social. Essas mudanças atingiram toda a comunidade escolar no processo de tomada de decisões, tornando-se assim, o principal elemento de democratização no espaço escolar. A Administração nesse período passa a ser compreendida como responsabilidade do coletivo.

De acordo com Hora (1994), no Brasil a administração da educação não se desvincula dos princípios administrativos empresarias, dada a sua característica de sociedade capitalista, em que os interesses do capital estão sempre presentes nas metas e nos objetivos das organizações que devem se adaptar ao modelo que lhe impõe esse tipo de sociedade.

A evolução do conhecimento em Administração Escolar no Brasil é analisada através do resgate de uma parte significativa da produção teórica da área, resultando em quatro categorias denominadas abordagens que estão em alguns momentos ligadas diretamente as teorias das escolas acima citadas.

Abordagem Clássico Científica

Foi construída a partir da identificação de elementos da escola Clássica de Administração do início do século XX, cujos principais representantes foram Taylor e Fayol. Esta abordagem aproxima os trabalhos teóricos de dois educadores acerca do tema, Teixeira (1997) e Ribeiro (1952). Os aspectos que se destacam nesta abordagem são a racionalidade e a cientificidade, aspectos estes que estão mais voltados para uma Teoria mais geral da Administração. Esta é uma idéia contida no livro de Teixeira (1997), e lhe é peculiar pelo fato de ser fruto de uma experiência prática de administrador de grandes sistemas educacionais. Uma das inferências feitas aos modelos teóricos diz respeito ao ideário com o modelo sócio-intervencionista por sugerir uma estreita relação com a prática administrativa exerci da em alguns sistemas educacionais. Já Ribeiro (1952), aproxima o modelo racional / burocrático considerando dois elementos fundamentais: Objetivos claros e consensuais e tecnologias claras.

Apesar de criticar alguns aspectos do pensamento de Fayol, Ribeiro (1952) considera o modelo racional / burocrático como fruto da racionalidade historicamente construída da teoria de Taylor (1911) e Fayol (1931). A análise de Ribeiro inferiu que o modelo racional/burocrático é uma construção histórica que apresenta marcas de seu contexto de produção destacando os aspectos econômicos, políticos e administrativos, constitui um avanço em relação ao modelo anterior.

Abordagem Funcional-Eficientista

É representada por Lourenço Filho (1963), no início esta abordagem recebeu o nome de normativista – racionalizadora, uma vez que apontava para elementos com postura de prescrição ou normativação de procedimentos, posteriormente foi alterada por ser constatar elementos do funcionalismo aliados a uma perspectiva de eficiência onde eram analisados os fenômenos de organização e administração escolar. A Teoria apresentada é considerada o período de transformação e transição do Brasil no início dos anos 60.

O trabalho de Lourenço (1963) apresenta característica dos enfoques jurídicos, tecnocráticos, comportamental e sociológico, dando origem ao modelo sócio intervencionista, o que aponta para características conjuntas do modelo de sistema social aproximando-se da abordagem sistêmico-generalista.

Abordagem Sistêmico-Generalista

Esta abordagem está fundamentada na teoria de Alonso (1976), baseada nos elementos de algumas escolas, como enfoque sistêmico cujas raízes estão nas teorias psicossocias, que consideram a escola como sistema social aberto em oposição às outras que a considerava como sistema fechado o elemento generalizador teve origem na concepção de Administração escolar com origem na Teoria Geral de Administração escolar é comparada a outros tipos de administração que difere da natureza educacional.

Esta abordagem considera que a reprodução de normas organizacionais não se dá integralmente, já que a subjetividade dos indivíduos responsáveis pela organização intervém no processo. Diferentemente da abordagem clássico cientifica, pois nesta a influência de fatores subjetivos em relação à organização não é reconhecida.

Ao negar uma concepção mecânica da função administrativa considera que os conceitos de papel/função, afastam-se do modelo racional/burocrático. As funções administrativas ligada ao papel administrativo – ressaltam características do comportamentalismo e do trabalho organizacional baseado numa dimensão de confiança.

A Abordagem Histórico-Crítica

Esta abordagem é uma proposta de Félix (1989) e Paro (1999), e tem como principal característica a elaboração da teoria crítica para a administração escolar. Os problemas educacionais são tratados como questões políticas, diferentemente das abordagens anteriores. A incorporação dos princípios de administração geral de empresas faz-se em função de sua eficácia, racionalidade e produtividade.

A referência teórica e Marxista, numa orientação crítica em relação à pretensa universalização da administração geral que mais se aproxima da concepção de ideologia que de ciência, em uma administração capitalista. O modelo político e predominante e enfatiza a questão do poder, exercício que se dar fora da escola. Por ser um modelo capitalista que reverte sua dimensão do poder acaba ocultando o modelo político ou transformando-o em um modelo racional/burocrático, tornando questões sociais em meras questões técnicas.

Victor Paro (1999) apresenta o conceito de administração geral, baseado em Braverman (apud. Ribeiro, 2001), que identifica como elemento central da administração a utilização racional de recursos para realização de fins determinados, a partir da tentativa de captar o conceito de administração e de uma abstração em que considera tal conceito isolado de seus condicionantes sociais, políticos e econômicos. Em função dele infere-se a relevância da racionalidade, em suas diversas formas e objetivos organizacionais em sua teoria.

Paro (1999), inferi de maneira bastante acentuada a teoria administrativa com o modelo racional burocrático, em função da clareza com que os objetivos são propostos e apresentados. Na visão de Lima (1998), a imagem do modelo racional/burocrático inferiu-se ao modelo capitalista criticado por Paro uma vez que além da clareza de objetivos, apresenta aspectos tecnológicos e organizacionais bastante consensuais.

A despeito de todas as críticas ao capitalismo, as propostas teóricas apresentada ao abordar questões políticas conflitos e contradições apontam para um modelo cujos objetivos são claros e cuja racionalidade é fundamental.

Após esta reflexão sobre as teorias da administração e suas abordagens passarei para o período pós a escola contemporânea.

1.4 GESTÃO ESCOLAR

O processo de construção da Democracia no Brasil teve início a partir da década de 80, com base legal na Constituição de 1988, tem colocado como desafio para a educação subverter a lógica de uma escola conservadora para uma nova concepção de homem, de mundo, de sociedade, baseado em princípios humanísticos e democráticos.

Segundo Hora (1994):

A administração da educação é entendida como o conjunto de decisões e interesses da vida escolar, no sentido dos processos centralizadores acaba pôr reforçar capitalismo […], entretanto, o novo panorama de mobilização da sociedade brasileira vem alcançando amplitude nas relações de poder em todas as áreas de ação política no país, […] os processos se tornam mais abertos e democráticos na sociedade global e estabelece um perfil de democratização em setores específicos em especial na educação. Essa tendência exige que a política educacional e a prática nas escolas assimilem o processo e criem possibilidades para que a manifestação democrática se consolide em cada brasileiro.

Com o objetivo de implantar novos esquemas de gestão nas escolas públicas, com a concessão de autonomia financeira, administrativa e pedagógica às instituições públicas, o governo brasileiro em 1993, elaborou com a participação de outros setores, o Plano Decenal de Educação para todos, em decorrência da Conferência de Educação para todos que aconteceu em Jontiem, Tailândia, no ano de 1990.

A democratização é encarada pelos educadores como o desenvolvimento dos processos pedagógicos que conceda a permanência do educando no sistema escolar, através de ampliação de oportunidades educacionais. É necessário que toda a comunidade escolar (professores, alunos, funcionário e pais), participe das decisões da escola eliminando o máximo possível às vias burocráticas.

Partindo dessas mudanças, substitui-se o enfoque de administração pela gestão, não significando apenas uma mudança de terminologia, mas uma alteração de atitude e orientação conceitual, para que sua prática seja promotora de transformações de relações do poder, de práticas e da organização escolar em si.

A organização de gestão escolar é situada em duas concepções extremas:

A Concepção Técnico-Científica ou Científica- Racional que tem como característica uma visão burocrática e tecnicista da escola. A Direção é centralizada, as decisões vêm de cima para baixo e sua organização escolar é tomada como realidade neutra, técnica e controladora a fim de obter eficiência e eficácia.

A Concepção Sócio-Crítica é uma organização concebida como sistema de agregar pessoas, as ações são integradoras com o contexto sócio político, a organização escolar é um processo de tomada de decisões que se dá coletivamente.

Estas concepções desdobram-se em diferentes formas de gestão democrática. Alguns estudos contribuem para ampliar o leque de estilos de gestão. Apresentarei de forma esquemática quatro concepções:

1. Concepção Técnica- Científica – Esta concepção valoriza a hierarquia de cargos e funções a racionalização do trabalho objetivando a eficiência dos serviços escolares. A versão mais conservadora dessa concepção é a administração clássica ou burocrática. A versão mais recente é o modelo de gestão de qualidade total com utilização de método/práticas voltados para a gestão de administração empresarial.
2. Concepção Autogestionária – A responsabilidade é coletiva a direção não é centralizada e tem como principal característica a participação direta e por igual de todos os membros da instituição. Em sua organização escolar estabelece uma contraposição dos elementos institutivos, valoriza os elementos instituintes que é a capacidade do grupo criar suas próprias normas e procedimentos.
3. Concepção Interpretativa – Consideram nos processos de organização e gestão os significados subjetivos, sendo contra a concepção científica – racional, tem um enfoque interpretativo, ou seja, vê as práticas organizacionais como: Construção social, com base nas experiências subjetivas e nas interações sociais.
4. Concepção democrático-participativa – Existe uma relação orgânica entre direção e membros da equipe buscando sempre objetivos comuns assumidos por todo, para isso as tomadas de decisões são sempre coletivas onde cada membro assume sua parte no trabalho em equipe admitindo coordenação e avaliação sistemática da operacionalização e suas deliberações.

As concepções de gestão escolar refletem posições acerca do papel de cada pessoa e da sociedade elas buscam numa dimensão pedagógica se os objetivos de cada instituição estão relacionados à conservação ou transformação social. Enquanto as concepções técnicas¬-científicas valorizam poder e autoridade, as outras três se opõem às formas de dominação e subordinação, considerando essencial o contexto social, político e a construção das relações humanas, valorizando o trabalho coletivo e participativo, dando ênfase a elementos como: planejamento, organização, direção e avaliação.

A gestão participativa é um exercício democrático e um direito de cidadania, por isso implica deveres e responsabilidades. Dessa forma pode-se afirmar que o diretor ou gestor sozinho não conseguirá colocar em prática a gestão democrática, já que para que ela aconteça é necessário o empenho e a participação de todos que fazem parte do contexto escolar.

Para que a gestão verdadeiramente democrática se efetive é necessário adotar alguns mecanismos como: autonomia consiste na ampliação no espaço de decisão, voltada para o fortalecimento da escola como organização social, comprometida com a sociedade, tendo como objetivo a melhoria da qualidade do ensino. E outros mecanismos como eleição de diretores, a ação do Projeto Político Pedagógico, o regimento e conselho escolar, a organização curricular, os recursos financeiros e o papel do gestor mediante as ações na escola.

Como nos diz Hora (1994) Tais mecanismos são capazes de gerar um processo de democratização das estruturas educacionais, por meio da participação de todos na definição de estratégias organização da escola, na redefinição de seus conteúdos e fins. Enfim recuperar o sentido educativo da administração escolar.

Estes mecanismos serão objetos de discussão do próximo capítulo.

2 ELEMENTOS QUE COMPÕE A GESTÃO ESCOLAR

2.1 – ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA

As concepções que permeiam a organização de gestão escolar refletem que toda a prática educativa tem um embasamento teórico-filosófico, ou seja, a ação educativa exercida por todos que fazem a escola é o ponto de toda gestão já que o principal objetivo da escola é o desenvolvimento do indivíduo.

Segundo Paro (1986, p. 18), tomando a escola como o local onde se busca de forma sistematizada e organizada, a apropriação do saber historicamente produzido. Entendemos que todas as ações administrativas estão voltadas para o fazer pedagógico da escola.

Libâneo (2003, p.293), nos diz que:

A organização e a gestão referem-se ao conjunto de normas e diretrizes, estrutura organizacional, ações e procedimentos que asseguram a racionalização do uso de recursos humanos, materiais, financeiros e intelectuais assim como a coordenação e o acompanhamento do trabalho das pessoas.

Dessa forma concordo com Libâneo (idem) quando divide essa organização por:

• Racionalização do uso de recursos compreende a escolha de meios compatíveis com fins de adequada utilização que assegurem a melhor organização possível desses fins;
• Coordenação e acompanhamento compreendem-se as ações e procedimentos destinados a reunir, articular e a integrar as atividades das pessoas que atuam na escola, para alcançar objetivos comuns.

Estas duas ações efetivadas na escola quando se desenvolve o hábito de planejar, organizar, dirigir e avaliar estes procedimentos é o que designa a Gestão, (atividade que põe em ação um sistema organizacional).

Portanto como nos aponta Libâneo (2003, p.294), A organização e gestão da escola correspondem à necessidade da instituição escolar dispor das condições e dos meios para a realização de seus objetivos específicos.

Elas visam:

a. Prover as condições, os meios e todos os recursos necessários ao ótimo funcionamento da escola e do trabalho em sala de aula;
b. Promover o envolvimento das pessoas no trabalho, por meio da participação e fazer a avaliação e o acompanhamento dessa participação;
c. Garantir a realização da aprendizagem para todos os alunos.

A escola está sob o olhar dos sistemas escolares por ser o espaço para a realização de políticas educacionais exigidas pelas sociedades contemporânea. Sendo assim, as leis e diretrizes curriculares estão voltadas para as práticas organizacionais como autonomia, descentralização, Projeto político pedagógico e avaliação, questões estas que serão abordadas mais a frente.

Para Libâneo (idem, p. 295), existem duas maneiras de ver a gestão educacional centrada na escola. Na Perspectiva Neoliberal – onde a escola e a comunidade assumem toda a responsabilidade de planejar, organizar e avaliar os serviços educacionais, liberando o Estado de qualquer participação ou responsabilidade . Na Perspectiva Sócio crítica – está sob o princípio de valorização do profissional, de seu interesse e interação (autonomia e participação), sem com isso liberar o Estado de suas responsabilidades.

Nas suas perspectiva o que podemos observar é que tanto profissionais como Estado devem assumir suas responsabilidades proporcionando uma interação no trabalho a escola tenha a consciência que sua atuação correspondente um “espelho educativo”, aos alunos, pais ou responsáveis e, portanto, a ação pedagógica não se restringe as salas de aulas mais a todos os segmentos que compõem a escola.

Como nos diz Libâneo (idem, p. 297):

A escola é a instância integrante do todo social […], as políticas, as diretrizes curriculares, as formas de organização do sistema de ensino, estão carregadas de significados sociais e políticas que influenciam as idéias e atitudes de professores e alunos, bem como as práticas pedagógicas, curriculares e organizacionais.

Sendo assim, passarei a refletir sobre algumas práticas organizacionais que permeiam o ambiente escolar. Como já citei no início desse capítulo, o objetivo central da escola é o ensino e aprendizagem dos alunos, fator que está a cargo do docente, portanto, a organização escolar e gestão mais adequadas são aquelas que atuam como meios para atingir esta finalidade de ensino.

2.2 A AUTONOMIA DA ESCOLA

Em sua organização escolar um dos aspectos fundamentais para a gestão é a autonomia. Este princípio está amparado pela Constituição de 1988, que estabelece como princípio básico: “o pluralismo de idéias e concepções pedagógicas” e a “gestão democrática do ensino público” (artigo 206). Estes princípios constituem de forma legal a autonomia escola Segundo Gadotti (1997, p.44) na história das idéias pedagógicas sempre foi associado ao tema de liberdade individual e social, da ruptura com esquemas centralizadores de transformação social.

Pode-se dizer então que a autonomia faz parte da própria natureza da educação, pois a mesma é encontrada em diversos clássicos educacionais. Gadotti (idem) apresenta algumas concepções intrínsecas nestes clássicos: Jonh Locke concebe a autonomia como “autogoverno” (Self-government), no sentido moral de “autodomínio individual”. Os educadores soviéticos Makarenko e Pistrak a entendiam como “auto-¬organização dos alunos”. Adolfh Ferriere e Jean Piaget entendiam que ela exercia um papel importante no processo de “socialização” individual da criança. Temos o exemplo também da escola de Summerhill criada pelo educador Alexander Neill, esta escola era controlada autonomamente pelos alunos. Georges Snyders diz que, a autonomia é “real”, “mas a conquista incessantemente […] é muito menos um dado a constatar do que uma conquista a realizar” (Gadotti 1997, p.44 apud Escola, classe e luta de classes, 1977, p.109).

Snyders insiste que, “essa autonomia relativa só pode tornar-se realidade se participar no conjunto e das lutas de classe exploradas” (id). Nesse sentido, a escola precisa preparar o indivíduo para a autonomia pessoal que compreenda sua capacitação para se inserir na comunidade e emancipação social.

O filósofo grego contemporâneo Cornelius Castoriadis, opõe autonomia à alienação, ele diz que “autonomia é o domínio do consciente sobre o inconsciente, em que o inconsciente é o discurso do outro. Neste caso a alienação se dá quando um discurso estranho que está em mim, me domina, fala por mim.” (Gadotti, 1997 p. 45 apud A Instituição Imaginária da sociedade, 1982, p. 123).

Nesta perspectiva podemos dizer que a educação exerce um papel de desalienação no sentido de conscientizar os indivíduos em sua atuação na e para a sociedade.

Barroso (2000), afirma que não há autonomia da escola sem o reconhecimento da autonomia dos indivíduos que a compõem, uma vez que ela é o resultado da ação concreta dos indivíduos que a constituem no uso de suas margens de autonomia relativa.

A compreensão de autonomia nos leva a analisar que a mesma está fortemente ligada à idéia de democracia e cidadania, e ser cidadão é a capacidade de participar, de tomar decisões conscientes no âmbito social.

Para Gadotti (1997), a participação e a democratização no sistema político de ensino é um meio prático da formação para a cidadania. Essa formação se adquire no processo de tomada de decisões, um dos instrumentos que faz parte desse processo é o conselho escolar, mais a frente abordarei de forma mais ampla sobre esse instrumento da gestão democrática.

Para que uma escola seja construída no sentido de formar para a cidadania é necessária à concepção de um sistema aberto de ensino que nós já abordamos no capítulo anterior, mas vale lembrar a diferença.

Existe duas visões sobre o sistema educacional uma sistêmica estréia acentua aspectos estáticos como: consenso, adaptação, ordem e hierarquia; outra dinâmica que valoriza a contradição, a mudança, o conflito e a autonomia.

No sistema fechado os segmentos que compreende uma escola não se sentem parte dela, nem responsável pela mesma. No sistema aberto a essência da educação, é a escola e a sala de aula.

Gadotti (1997) aponta que nesse confronto de concepção e prática existe um sistema único e descentralização que se apóia em quatro grandes princípios.

1. Gestão democrática – sistema único e descentralizado supõe objetivos educacionais raros e dermidos estabelecendo entre escola e governo. Visando à democratização e melhoria na qualidade do ensino, sem ter que passar pelas instâncias hierárquicas e verticais do poder.
2. A comunicação direta – a escola deve privilegiar sua comunicação entre instituição e comunidade, precisa também promover fortalecimento da cultura seja ela popular ou geral. A escola precisa ser espaço para inovação e experimentação político pedagógica.
3. Autonomia da escola – cada escola deve construir seu projeto político pedagógico de modo que venha a influenciar as políticas públicas educacionais.
4. Avaliação permanente do desempenho escolar – para que tenha um caráter político e emacipatório à avaliação é parte fundamental no projeto da escola. Não deve se constituir num ato formal realizado por pessoas que não estejam inseridas na realidade da mesma. Mas ser realizada por todos que compõem a comunidade escolar envolvendo as comunidades internas e externas e o poder público.

A questão essencial da escola é a qualidade e esta qualidade está diretamente ligada aos projetos desenvolvidos pela própria escola mesmo pequenos, estes projetos trazem mais resultados do que os projetos pré-fabricados por pessoas ou equipes que não conhecem a escola.

De acordo com Gadotti (1997), isso porque só as escolas conhecem de perto a comunidade e seus projetos podem dar respostas concretas a problemas concretos de cada uma delas; Assim sendo, podem respeitar as peculiaridades e culturas de cada região diminuindo gastos com a burocracia, tendo os resultados avaliados de perto pela própria comunidade.

Para Barroso (2000), algumas medidas são necessárias para reforçar esse processo de mudança, que deve ser feito de forma sustentada, quer por meio de ação direta de serviços especializados da administração central e regional, quer por âmbito de protocolos elaborados entre as escolas e instituições com competências neste domínio, instituições do ensino superior. Ele propõe uma estratégia para o processo de reforço da autonomia das escolas, que possuem as seguintes características:

• Indutiva, tendo em conta os tipos de autonomias de que a escola já dispõe;
• Diversificada, prevendo situações diferentes conforme as condições de cada escola;
• Progressiva, para se poder adaptar à própria evolução das condições de que a escola vai dispondo;
• Sustentada, para que as escolas possam dispor dos apoios necessários ao exercício dessa autonomia e à resolução dos problemas que ela naturalmente levanta;
• Compensada, para que a administração possa ter uma intervenção supletiva no caso das escolas que ainda não reúnem as condições necessárias ao pleno exercício da autonomia;
• Contratualizada, para ter em conta a diversidade de situações existentes e para que se saibam quais as responsabilidades da escola e dos outros níveis da administração na prestação do serviço público na educação;
• Avaliada para se aferirem dos seus resultados, pra poderem ser corrigidas as situações consideradas negativas e ajustados aos objetivos (p. 25).

Segundo o mesmo autor estas normas propostas concretizam cinco grandes princípios a que deve obedecer à gestão das escolas no quadro de um claro reforço da sua autonomia → legitimidade → participação → liderança → qualificação → flexibilidade.

Para Pepe & Mercado (2001)

A prática da autonomia demanda por parte dos gestores da escola e de sua comunidade, assim como dos responsáveis e agentes do sistema de ensino, um amadurecimento caracterizado pela confiança recíproca, pela abertura, pela transparência, pela ética e pela transcendência de vontades e interesses setorizados, em nome de uma educação de qualidade para os alunos, assim como uma autoridade intelectual (conceitual e técnica), política (capacidade de repartir poder), social (capacidade de produzir resultados e monitora-Ios).

Para Veiga (1998, p. 15) a autonomia é questão fundamental numa instituição educativa, envolvendo quatro dimensões básicas, relacionadas e articuladas entre si. Estas dimensões implicam direitos e deveres e, principalmente, um alto grau de compromisso e responsabilidade de todos os segmentos da comunidade escolar. São elas:

Autonomia Administrativa – consiste na possibilidade de elaborar e gerir seus planos, programas e projetos. Envolvem, inclusive, a possibilidade de adequar sua estrutura organizacional à realidade e ao momento histórico vivido.

Autonomia Jurídica – diz respeito à possibilidade da escola elaborar suas próprias normas e orientações escolares como matrícula, transferência de alunos, admissão de professores, etc. Mesmo estando vinculada a legislação dos órgãos centrais, a instituição escolar deve policiar-se no sentido de não se tornar numa instância burocratizada, descaracterizando seu papel de proporcionar aos educandos, mediante um ensino efetivo, os instrumentos que lhes permitam melhores condições de participação cultural, profissional e sócio político.

A Autonomia Financeira – refere-se à existência de recursos financeiros capazes de dar a instituição educativa condições de funcionamento efetivo. A educação pública é financiada. A autonomia pode ser total ou parcial. Total quando a escola administra todos os recursos a ela destinados pelo poder público e parcial quando a escola administra apenas parte dos recursos repassados, mantendo-se no órgão central do sistema educativo a gestão de pessoal e as despesas de capital.

Um dos elementos financiador de maior peso é o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério, FUNDEF criado em dezembro de 1996, através de Emenda Constitucional n°. 14. Esse fundo foi criado a partir da elaboração da Constituição de 1988 e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação 9.394/96 que solicitava definições sobre a quem competia à distribuição dos recursos bem como o controle que a comunidade escolar devia ter para com o mesmo, visando à diminuição das desigualdades sociais. Inicialmente o FUNDEF era destinado ao atendimento apenas dos alunos do Ensino Fundamental, não contemplava a Educação Infantil e a Educação de Jovens e Adultos. Atualmente já existe em longo prazo uma nova proposta de financiamento que cobrirá as despesas dessas duas modalidades de ensino é o FUNDEB, Fundo de desenvolvimento da Educação Básica.

Uma das maiores dificuldades enfrentadas pela escola principalmente é que os recursos destinados à mesma são liberados de acordo sempre com o número de matrículas do ano anterior.

As escolas também têm recebido outros tipos de assistência financeira como os programas PDDE (Programa Dinheiro Direto na Escola), PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), entre outros, que tem recebido críticas, mas que também possuem seu lado positivo, pois, através desse tipo de democratização e autonomia financeira as escolas vêm conseguindo desenvolver um trabalho com uma qualidade melhor, discutindo quais as necessidades que podem ser supridas com o repasse de verbas que lhes chegam.

A Autonomia Pedagógica consiste na liberdade de ensino e pesquisa. Está estreitamente ligada à identidade, à função social, à clientela, à organização curricular, à avaliação, bem como aos resultados e, portanto, à essência do projeto político pedagógico da escola.

As quatro dimensões aqui apresentadas interagem entre si, mas é na dimensão pedagógica que sobressai o fazer educativo já que cabe a esta dimensão a elaboração, desenvolvimento do projeto político pedagógico de acordo com as normas implantadas pelo respectivo sistema de ensino, suas políticas públicas.

2.3 O PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO E SUAS CONTRIBUICÕES

O Projeto Político Pedagógico ou PPP como também é chamado, é o fruto da interação entre os objetivos e prioridades estabelecidos pela coletividade através da reflexão das ações necessárias a construção de uma nova realidade. É antes de tudo, um trabalho que exige comprometimento de todos os envolvidos no processo educativo.

Veiga (2003, p.19), apresenta os pressupostos norteadores desse projeto, baseado na referida autora farei uma síntese dos mesmos.

Pressupostos Filosófico-Sociológicos

Considera a educação como compromisso do poder público para com a população, com vistas à formação do cidadão participativo para um determinado tipo de sociedade. Para que esta formação cidadã de fato aconteça se faz necessário compreendermos para que sociedade está rumando. Feito isto responderei a duas perguntas essenciais: Que tipo de sociedade queremos construir? Qual a concepção de educação estará posta para a mesma?

Pressupostos Epistemológicos

Levam em conta que o conhecimento é construído e transformado coletivamente. O processo de produção do conhecimento deve estar pautado na socialização e na democratização do saber.

O conhecimento deixa de ser visto numa perspectiva estática e passa a ser enfocado como processo.

Leite (1994, p. 13 apud. Veiga 2003, p. 21), aponta duas dimensões básicas do conhecimento: Conhecimento produto; Conhecimento processo.

Na qualidade de produto o conhecimento parece ser estático, acabado, evolutivo e acumulativo, pois se resume a um conjunto de informações neutra, objetivas e impessoais sobre o real elaborado e sistematizado no trabalho de investigação da realidade. Na qualidade de processo, o conhecimento é dinâmico, está envolto por um contexto de controvérsias e divergências, traz subjacente uma série de compromissos, interesses e alternativas que contestam sua condição de objetividade e neutralidade.

Dessa forma o PPP é construído pela comunidade escolar que define critérios para sua organização curricular e conteúdos. Porém não deixa de está atrelado à instância superiores de ensino.

Pressupostos Didático- Metodológicos

Está voltado para a sistematização do ensino-aprendizagem, visando favorecer o aluno por meio de métodos e técnicas de ensino que valorizem as relações solidárias e democráticas. Como sugestão metodológica tem a pesquisa de campo, oficinas pedagógicas, trabalhos em grupos e individuais, debates e discussões, oficinas pedagógicas entre outras. Este pressuposto deve pautar-se num trabalho interdisciplinar para além da compatibilização de métodos e técnicas de ensino, havendo necessidade de ampliação da pesquisa, como princípio educativo fundamentando assim o processo de ensino aprendizagem com princípios de pesquisa no cotidiano escolar.

Apresentarei agora um dos caminhos que articulam a construção do PPP em três atos distintos e interdependentes.

Ato Situacional – é a reflexão teoria prática sobre a realidade na qual desenvolvemos nossa ação. É o desvelamento da realidade sócio política, econômica e educacional. Implica levantar questões como?

• Como compreendemos a sociedade atual?
• Qual é a realidade de nossa escola em termos: legais, históricos, pedagógicos, financeiros, administrativos, físicos e materiais e de recursos humanos?
• Qual é a população-alvo da escola?
• Qual a relação entre a escola e o mundo do trabalho?
• Quais as principais questões apresentadas pela prática pedagógica?
• O que é prioritário para a escola?
• Quais as alternativas de superação das dificuldades detectadas?

Ato Conceitual – dizem respeito à compreensão adquirida no ato anterior sobre a concepção de sociedade e homem, educação, escola, currículo, ensino e aprendizagem. Diante da realidade situada e comentada. São realizadas as seguintes indagações:

• Que referencial teórico, ou seja, que concepções se fazem necessárias para a transformação da realidade?
• Que tipo de alunos queremos formar?
• Para qual sociedade?
• O que significa ser uma escola voltada para a educação básica?
• Que experiências queremos que o nosso aluno vivencie no dia a dia de nossa escola?
• Quais as decisões básicas referentes ao que, para que, e a como ensinar, articulados ao para quem?
• O que significa construir o PPP como prática social coletiva?

Veiga (2003) nos diz que:

A reflexão sobre o trabalho pedagógico descrevendo-o, problematizando-o, analisando os componentes ideológicos que o sustentam […] por sua vez, a definição dessa matriz teórica propiciará a revisão do trabalho pedagógico desenvolvido pela escola e consequentemente da sua própria organização.

Ato Operacional- é a orientação de nossa ação é o momento de nos posicionarmos quanto aos nossos objetivos, metas e tomadas de decisão quanto às atividades que iremos assumir com intuito de transformar a realidade escolar. Para isso, é preciso fazer algumas indagações:

• Quais as decisões necessárias para a operacionalização?
• Como redimensionar a organização do trabalho pedagógico?
• Qual o tipo de gestão?
• Qual o papel específico de cada membro da comunidade escolar?
• De que recurso à escola dispõe para realizar seu projeto?
• Quais os critérios gerais para a elaboração do calendário escolar, horários letivos e não-letivos?
• Quais as diretrizes para avaliação do desempenho do pessoal docente e não docente, do currículo, dos projetos não curriculares, do próprio PPP da escola?

A Avaliação

Nas palavras de Veiga (2003), a avaliação é a ação fundamental para a garantia do êxito do projeto na medida em que é condição sine qua non para as decisões significativas a serem tomadas, integrantes do processo de construção do projeto e compreendidas como responsabilidade do coletivo.

O projeto da escola pode ser pensado para 2 a 10 ou mais anos, dependendo da capacidade dos seus segmentos de sua comunidade de resgatar as experiências instituídas considerando as vivências do presente e pensar o futuro.

A necessidade de um PPP na escola antecede a qualquer decisão política ou exigência legal, já que enquanto educadores e membros da instituição escolar devemos ter claro a que horizontes pretendemos chegar com os nossos alunos, com a comunidade e com a sociedade, caso contrário, não poderemos exercer o nosso papel de educadores.

Sendo assim, a mola principal das mudanças e a postura e crença do educador em repensar a educação em sua própria caminhada como nos disse o ex-ministro da educação Carlos Chiarelli em 1992:

Os professores fingem que ensinam, os alunos fingem que aprendem e o governo fingem que controla. Na verdade deveríamos assumir o papel de educador para tentarmos envolver e empolgar a sociedade a lutar por uma educação mais real, digna de um país de 500 anos de “descobrimento”.

A grande função do PPP é oportunizar a escola a valorização do coletivo com vistas à construção de um sujeito crítico-participativo, direta ou indiretamente, para isso, se faz necessário que o mesmo crie uma integração não apenas com o segmento aluno, professor, mas que possa articular-se com a comunidade onde a escola está inserida para que possa ser realmente democratizada. Em sua estrutura organizacional o PPP deve ser composto do conselho escolar e do conselho de classe. Existem ainda outras ações colegiadas como: Associação de Pais e Mestre (APM) e Grêmio Estudantil, que atuam como auxiliares no processo educativo.

Farei uma reflexão sobre atuação de cada um destes órgãos que fazem parte do PPP. Como nos diz Gadotti (1997, p. 66), É necessário que a gestão democrática seja vivenciada no dia-a-dia das escolas […] para isso, há que se criarem as condições concretas para seu exercício.

A seguir tratarei destas ações colegiadas:

Conselho Escolar

É um colegiado formado por todos os segmentos que representam à comunidade escolar (pais, alunos, professores, funcionários e direção).

Para Pepe & Mercado (2005, p. 38):

A criação do conselho escolar, neste contexto toma-se fundamental, pois o processo de discussão nas comunidades escolares pode possibilitar a implantação da ação conjunto com a co-responsabilidade de todos no processo educativo, o que se constitui um mecanismo de ação coletiva, que canaliza os esforços da comunidade escolar em direção a uma escola renovada [ …].

O conselho escolar é, portanto, o acesso que a comunidade tem para atuar na gestão. Este tipo de gestão colegiada foi adotado na década de 80 nas administrações públicas como o objetivo de favorecer a democratização da gestão.

Para HORA (1994, p. 134), este avanço da participação coletiva é importante por que:

a) para a comunidade, participar da gestão de uma escola significa inteirar-se e opinar sobre assuntos para os quais muitas vezes se encontra despreparada; significa todo um aprendizado político e organizacional (participar de reuniões, das opiniões, anotarem, fiscalizar, cumprir decisões); significa mudar sua visão de direção da escola, passando a não esperar decisões prontas a serem seguidas; significa, enfim, pensar a escola não como um organismo governamental, portanto externo, alheio, e sim como um órgão público que deve ser não apenas fiscalizado e controlado, mas dirigido pelos seus usuários;
b) a direção vê-se colocada diante das tarefas eminentemente políticas, pois assume o papel de dirigente técnico e político. A abertura não acontece para um todo homogêneo e sim para uma população dividida, socialmente estratificada e ideologicamente diferenciada; significa lidar com inúmeras e expectativas e projetos políticos diferenciados;
c) para os alunos, a principal mudança refere-se à sua relação com os professores e com a direção: assumir sua parte de responsabilidade na direção da escola e do processo pedagógico, deixando de esperar soluções acabadas e de esperar apenas a punição corno saída; compreender que transitar na difícil fronteira entre “liberdade e segurança” exige um compromisso com o projeto educacional, com princípios e também com uma visão mais global, menos fragmentária da escola. […]

Conselho de Classe

É no conselho de classe que pesa a responsabilidade como instância colegiada de agir como burocratizado do fazer pedagógico ou ultrapassar as barreiras burocráticas e promover um processo de avaliação que seja capaz de analisar as ações pedagógicas de forma que as mesmas possam gerar conhecimento.

Como nos diz Dalben (1995, p. 16 apud. Veiga 2003 p. 117) o conselho de classe guarda em si a possibilidade de articular diversos segmentos da escola e tem como objeto de estudo o processo de ensino, que é o eixo central em torno do qual se desenvolve o processo do trabalho escolar.

Dessa forma podemos dizer que o conselho de classe é um elemento que articula os vários segmentos da escola, direcionando para um processo que vise à melhoria do ensino aprendizagem.

Paro (1995 p. 162) nos diz: o conselho não deixa de constituir um espaço de encontro de posições diversificadas relativas ao desempenho do aluno, que não fica assim restrito à avaliação de apenas uma pessoa.

Entendemos assim que o conselho tem a função de dar conta de importantes problemas didáticos – pedagógicas para que suas possibilidades educativas se ampliem, propiciando uma ação-reflexão nos professores incentivando-os a ver este conselho como efetiva prática de relacionar ensino com avaliação de aprendizagem de qualidade.

Grêmio Estudantil

O gestor democrático deve ser o grande incentivador da criação e/ou implementação dos grêmios estudantis.

Os educandos têm assegurado pela Lei Federal n°. 7.398 de 04/11/1985, o direito de se organizar livremente através de agremiações estudantis, devendo a Unidade Escolar, garantirem o espaço e dar condições para essa organização.

O Grêmio Estudantil tem como objetivo reunir o corpo discente da escola, para discutir e defender os interesses individuais e coletivos, incentivar a cultura literária, artística e desportiva, promover palestras e debates sobre questões de interesse do ensino.

No sentido de preservar o aspecto da organização em sua criação, alguns passos deverão ser seguidos:

1° PASSO: formação de uma comissão provisória pró-grêmio, com representantes de todas as turmas.
2° PASSO: realização de uma assembléia geral dos alunos para definir: fundação, nome, estatuto, funcionamento, data da eleição, quantidade e tipos de cargos.
3° PASSO: eleição da diretoria ou o conselho do grêmio estudantil.
4° PASSO: instalação do grêmio e posse da diretoria eleita.

Associação de pais

É outro mecanismo de fortalecimento do processo democrático, considerado como entidade civil com personalidade jurídica própria, sem caráter lucrativo, formado pelos pais dos alunos regularmente matriculados na escola, tendo como objetivo o estabelecimento de vínculo entre escola e família como contribuição necessária para o processo educativo. A entidade deverá ser regida por estatuto ou regulamento próprio.

O Regimento Escolar

O que é um Regimento Escolar?

É um documento que define a natureza, finalidade e estrutura da escola. bem como o regime escolar didático e as normas de convivência. É a lei maior da escola, as quais se sujeitam todos os que a fazem. Ele funciona como uma constituição, é participativo e democrático, não pode ser entendida como imposição. E um pacto firmado num clima de ampla participação.

Que características deve ter um Regimento Escolar?

Um regimento para ter eficácia no dia a dia da escola, deve ser objetivo e abrangente, indo direto ao ponto, sem rodeios, envolvendo os principais aspectos da vida escolar, desde a natureza, finalidade, estrutura e funcionamento até procedimentos referentes ao regime escolar e didático, e, ainda, as normas de convivência social bem como as disposições gerais e transitórias; exequível e realista preocupando-se apenas com o factível e possível de ser cumprido voltado para a vivência concreta da escola; Dinâmico, não se constituindo num documento estático, congelado no tempo após sua aprovação, mas ao contrário, aberto a mudanças, sempre atualizável, sobretudo em duas ocasiões na adaptação às mudanças da legislação de ensino e quando, por conveniência de cunho pedagógico ou administrativo, é a própria escola quem propõe a mudança, tais como alterações nos níveis e modalidades de ensino, no currículo, no horário; exclusivo de uma dada escola – deve ser feito visando à identidade de cada instituição na forma que reflita suas próprias características; coerente com os dispositivos legais – o regimento deve estar em harmonia com o quadro geral das leis do país, a Constituição Federal e Estadual, a lei Orgânica do Município (rede municipal), as legislações do sistema de ensino, o Estatuto da Criança e do Adolescente, o Código de Defesa do Consumidor, entre outros, não abrigando dispositivos que se choque com a legislação. Elaborado com a participação de todos os que fazem à escola – deve ser debatido e construído coletivamente pela comunidade escolar e formalmente aprovada pelo colegiado maior da escola, sendo amplamente divulgado entre todos.

A quem interessa o Regimento Escolar?

A toda a comunidade escolar: Pais/ou responsáveis legais, alunos, professores, dirigentes, funcionários e entidades mantenedoras, órgãos responsáveis pela coordenação de sistemas escolares (federal, estadual e municipal), Conselho de Educação, e as organizações sociais envolvidas com o trabalho escolar.

O Regimento escolar trata das relações entre os membros da comunidade escolar face às finalidades últimas das tarefas educativas.

Como fazer o Regimento da Escola?

Regimento não é produto que se compra feito ou que se copie. Deve ser resultante da construção coletiva de toda a comunidade escolar, que decidi quais as regras estabelecidas no documento.

Recomendações para elaboração de um Regimento Escolar

Antes de tudo observar a legislação do ensino. A legislação informa os princípios, as diretrizes e os procedimentos que deverão ser considerados. Citarei alguns dos principais dispositivos legais, destacando que a escola deve manter-se atualizada com as sucessivas alterações na legislação do ensino que ocorrem periodicamente.

Legislação Nacional.

Constituição Federal: Artigo 6° e 7°, Cap. III – Da Educação, da Cultura e do Desporto.

Art. 205 a 214, Art 227

Lei n°. 9.394/97 – Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional;

Lei n° 8.069/90 – Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências.

Questões que devem ser tratadas em cada item do Regimento

1. A natureza, os objetivos e as finalidades da instituição escolar.
2. A organização, a estrutura e o funcionamento da instituição educacional.
3. O Regimento escolar, didático, o registro, a avaliação institucional e as normas de convivência social.

2.4 – O PROFESSOR E O TRABALHO COLETIVO

Atualmente o sistema escolar e as políticas educacionais têm se centrado na escola como unidade básica e espaço de realização dos objetivos e metas do sistema educativo, são o que apontam os estudos. Uma das estratégias para o alcance da eficácia do sistema educativo é à descentralização do ensino, oferecendo as escolas maior poder de decisão e conseqüentemente autonomia.

Segundo Nóvoa, citado por Libâneo (2001, p.19), nos anos de 1960-70as pesquisas em educação se destacaram pela constatação da relação entre funcionamento dos sistemas escolares e as desigualdades sociais. Após esta constatação foram feitos vários estudos que apontam os mecanismos pelos quais as escolas produziam desigualdades nas aprendizagens escolares. Posteriormente, já na década de 80 a escola volta a ter sua importância social reconhecida diante da sociedade. Dessa forma, as escolas, vistas como organizações educativas, ganham dimensão própria, onde são tomadas decisões educativas, curriculares e pedagógicas.

A participação de todo o estilo de direção que se tem o grau de responsabilidade dos profissionais, a liderança organizacional compartilhada, o currículo, a estabilidade profissional, o nível de preparo profissional e outras características, são fatores que determinam à eficácia e aproveitamento escolar dos alunos, alcançando assim o sucesso de todos.

A partir da participação na organização e gestão do trabalho escolar, os professores podem estar aptos a tomar decisões coletivamente; construir o projeto político pedagógico da escola; compartilhar com os outros as preocupações; desenvolver o espírito de solidariedade; tonar-se parte da escola assumindo a responsabilidade pela mesma e investir no seu preparo profissional. É indispensável que este mesmo professor tenha uma formação inicial, na sua história pessoal como aluno, mas é imprescindível que eles aprendam no exercício de sua profissão, compartilhando seus problemas, sendo solidário aos problemas dos outros e interagindo com os colegas, pois segundo Libâneo (2001): é no exercício do trabalho que de fato o professor produz sua profissionalidade. A essa segunda parte se dá o nome de formação continuada, tão valorizada nos dias atuais.

Partindo da concepção que é da na escola que o professor aprende realmente sua profissão de professor é importante compreender que é nesse mesmo ambiente que ele desenvolve os saberes e as competências do ensinar, num processo individual e coletivo.

Segundo Libâneo (2001, p. 68):

[…] saberes são conhecimentos teóricos e práticos requeridos para o exercício profissional. Competências são as qualidades, habilidades e atitudes relacionadas com esses conhecimentos teóricos e práticos e que permitem a um profissional exercer adequadamente sua profissão.

É a partir da internalização desses saberes e competências profissionais que o professor alcança os conhecimentos científicos e uma valorização de elementos criativos dentro de uma perspectiva crítico – reflexiva. Com isto, a arte de ensinar não estará reduzida a uma atividade meramente técnica, mas passa a ser considerada como prática intelectual e autônoma, baseada na compreensão da prática e na transformação dessa mesma prática.

O professor sendo parte do todo escolar deve participar ativamente da organização do trabalho escolar, formando com os demais a equipe de trabalho, adquirindo novos saberes e competências assim como um modo de agir coletivo. Partindo dessa perspectiva ele, é um ativo participante de uma comunidade profissional de aprendizagem que atua no seu funcionamento, na sua animação e no seu desenvolvimento.

Diante de tantos problemas enfrentados pela educação e, em especial, o ensino público, o educador sente-se frustrado, protesta e busca saídas. Traçar uma trajetória solitária, em busca de alternativas novas é sempre difícil e na grande maioria das vezes trazem poucos resultados.

Compartilhar com os colegas de trabalho, os sonhos, as esperanças, as dúvidas e anseios surgidos em busca de mudanças parece ser a única forma de construir algo novo. Mas, o que é mudança? Mudança significa alteração de uma situação passagem de um estado a outro. Atualmente os educadores estão enfrentando profundas nos campos políticos, econômicos, cultural, educacional, geográficos. (Dessa forma, o ensino vem sendo afetado por uma série de fatores, que segundo Libâneo 2001, p.26), são: mudanças nos currículos, na organização das escolas (forma de gestão, ciclos de escolarização, concepção de avaliação entre outros), introdução de novos recursos didáticos (televisão, vídeo, computador, internet), desvalorização da profissão docente.

Esses fatores citados por Libâneo levam a mudança na organização escolar e na identidade profissional do professor – conjunto de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores – uma das formas mais eficazes de aprender a enfrentar as mudanças é a busca do desenvolvimento de uma atitude crítico – reflexiva, ou seja, o desenvolvimento da capacidade reflexiva com base na própria prática de modo a associar o próprio fazer e o processo de pensar.

O ambiente escolar é o ponto de encontro dos vários profissionais envolvidos na ação educativa. Dessa forma, o trabalho coletivo é capaz de articular os diferentes segmentos da escola e é fundamental para sustentar a ação da escola em torno de um projeto. O projeto aqui mencionado é a grande rota, traçada coletivamente que dá direção ao trabalho de todos que atuam no espaço escolar (docentes, funcionários, pais), e é construído a partir da contribuição de cada ser integrante pela reflexão conjunta.

É através dos debates que se podem alcançar novas idéias e informações. dúvidas e incoerências que obrigam a refletir, ajudando a organizar o pensamento, reafirmar ou modificar posições. Esse processo torna as relações entre o trabalho de cada um mais claro para todos, onde ajudam a escolher práticas pedagógicas compatíveis com o que se pretende desenvolver na escola, ou especificadamente na sala de aula.

Para desenvolver e fortalecer o trabalho coletivo se faz necessário instalar algumas condições que são de responsabilidade de todos e inclusive do sistema de ensino.

Segundo Weffort (1993). É preciso contar com a iniciativa e a disposição dos participantes, mas isso não é suficiente. A escola precisa organizar espaços e horários favoráveis ao encontro regular dos professores e planejar muito bem esses encontros.

A composição dos grupos e a periodicidade das reuniões devem ser realizadas sem deixar prejuízos ao atendimento aos seus alunos para que o trabalho coletivo seja garantido é de fundamental importância à participação do sistema de ensino na distribuição de recursos estruturais e funcionais.

Trabalhar coletivamente, não significa todos estarem juntos o tempo todo. De acordo com os objetivos da instituição é possível dividir responsabilidades e executar atividades com subgrupos ou individualmente, garantindo sempre a troca constante de informações e a continuidade do trabalho na direção dos objetivos fixados.

Para que o trabalho coletivo tenha êxito é indispensável à presença de um coordenador na equipe, quase sempre é ele que consegue ver mais longe do que os outros não se desligando das intenções fundamentais do trabalho. Partindo da reflexão como principal instrumento de mudança, é ele que incentiva o grupo a observar, pensar, analisar, investigar, apontando a direção do trabalho em grupo, pois sabe aonde quer chegar e o que deve conquistar para que o grupo supere suas dificuldades e atinjam seus objetivos.

É importante que a sociedade se constitua num centro de atualização e reflexão sobre a ação educativa de seus profissionais oferecendo-lhes formação continuada.

[…] A Capacitação só será efetiva se os professores, ao longo do trabalho, poderem ampliar sua competência pedagógica e sua consciência sócia e política.esse não é um objetivo simples de atingir, daí a necessidade de elaborar um programa de formação permanente dentro da escola, onde trabalho individual e trabalho coletivo estejam articulados num conjunto harmônico, com clareza dos pontos de partida e de chegada, tendo como eixo norteador a construção do projeto da própria escola. (Coleção Raízes e Asas, CENPC).

Investir na capacitação não significa solucionar os problemas de imediato. É necessário que os limites e possibilidades dessas propostas sejam definidos por etapas e que garantam continuidade de propósitos. É preciso também considerar as preocupações do grupo como ponto de partida, indo além das aparências, com o propósito de avançar, não apenas constatando problemas, mas investigando, suas raízes, origem.

Quando o trabalho coletivo é implantado com o sentido definido um alcance planejado configura-se, como instância privilegiada do desenvolvimento social e profissional para cada um dos componentes da equipe escolar e, consequentemente, como gerador de novas idéias, novos projetos.

“O trabalho coletivo é uma grande aprendizagem. As vezes você chega com uma proposta achando que ela é o “máximo”. Aí o grupo questiona e você fica uma “fera”, por que achava a proposta o “máximo”, mais vai considerando as críticas, e pensando, argumentando… É um grande exercício de democracia. Não sei, mas trabalhar sem ser em grupo”. (Professor de 5ª a 8ª da Escola Municipal Carlos Rizzini, em São Paulo).

Ao exercer o trabalho coletivo, o professor cresce. E é a partir das discussões em grupo que desenvolve seu potencial de participação, cooperação, respeito mútuo e crítica.

Ao ouvir, pensar, discutir, decidir, exercício fundamental do trabalho coletivo o professor fica ainda mais seguro para desenvolver estas habilidades em seus alunos, tornando-os cada vez mais críticos reflexivos e capazes de atuarem como verdadeiros cidadãos.



2.5 O PAPEL DO GESTOR NA DINÂMICA ESCOLAR

Nas primeiras décadas do século XX houve um movimento para que os diretores aplicassem as Teorias Administrativas em suas atividades cotidianas. A partir da década de 80 esses modelos passaram a ser demasiadamente criticados e a Administração Escolar passou a ser responsabilidade do coletivo. Para essa concepção foi proposto o nome de: Gestão. O conceito de gestão se assenta sobre o aspecto de coletividade, participação, habilidade e competência, como condições fundamentais para a democratização do ensino, a melhoria da qualidade da Educação e a transformação da sociedade vigente.

A gestão educacional possui um enfoque democrático que objetiva promover a organização, a mobilização e a articulação da comunidade escolar. Por isso torna-se necessário rever a discussão sobre o papel do gestor escolar.

Há bem pouco tempo dirigir uma escola consistia apenas em zelar pelo seu bom funcionamento, centralizando em si todas as decisões e administrando com prudência e pulso forte os eventuais imprevistos.

Analisando essa estrutura escolar nota-se que há dois tipos de diretores: o autoritário e o burocrático. O diretor autoritário conforme Likert (apud CHIAVENATO, 1993), apresenta um perfil coercitivo e benevolente, em ambos à organização escolar é vista como um feudo e seus profissionais como vassalos. Já o diretor burocrático procura a racionalidade e a legalidade como meio de suas ações, entendendo a lei como limitação, e não como possibilidade de decisão em conjunto.

O modelo diretivo da escola é Hegemônico e indicado por órgãos centrais. O papel do diretor é o de gerente, guardião, feitor, executor de tarefas determinadas por esses órgãos, responsáveis últimas pela escola. Luck (2000, p.17) aponta que era considerado bom diretor aquele que cumpria essas obrigações plenamente de modo a garantir que a escola não fugisse ao estabelecido em âmbito central ou em hierarquia superior.

Hoje um novo paradigma se desenvolveu na Educação e na Gestão Escolar, exigi-se um novo modelo de educação, escola e perfil de dirigente com formação e conhecimentos específicos para o cargo, para que se possa desenvolver na escola um processo de ensino-aprendizagem que integra o aluno a sociedade em que vivem tornando-se necessárias à superação do enfoque administrativo e à construção da gestão democrática. Esse movimento concentra-se em quatro vertentes básicas da gestão escolar: participação da comunidade escolar, criação de um colegiado, repasse de recursos financeiros e aumento da autonomia escolar.

Na complexidade do contexto atual é difícil para um diretor assumir tudo sozinho. Ele deve ter discernimento para cerca-se de uma equipe competente e integrada com a identidade da escola, pautada num planejamento estratégico aberto a inovações, no crescimento pessoal e profissional, na formação do cidadão e na melhoria da qualidade do ensino público.

Entende-se, portanto que a força do trabalho em uma gestão participativa está no trabalho de todos os membros que interagem no processo, logo deve haver consenso, empatia, sinergia e afetividade nas relações inter-pessoais presentes na escola.

Segundo Weiss (1994, p.34), Os membros de equipes eficientes reconhecem as dificuldades e apóiam uns aos outros. Todos compartilham qualquer reconhecimento que a equipe recebe de fontes externas. Todos têm um senso de auto-realização.

A idéia que perpassa na citação acima é de participação, trabalho coletivo, responsabilidade compartilhada e respeito à diversidade.

O novo modelo de gestão associa-se à democratização do processo escolar, em ação coletiva e participativa que visa à melhoria da qualidade do ensino e o respeito as diferentes culturas e indivíduos. Porque democracia não é negar as diferenças, mas aprender a dialogar com elas, canalizando-as para um projeto maior de humanização das pessoas envolvidas.

A prática do gestor nessa perspectiva deve proporcionar a criação de um ambiente de respeito e efetividade, o favorecimento do crescimento pessoal e profissional de todos, a humanização do relacionamento, o exercício da cidadania e o envolvimento nas discussões fundamentais na escola.

A administração colegiada é formada por um conselho escolar que tem seus objetivos e metas construídas a partir da escola concreta com todos os seus problemas, anseios e possibilidades.

As competências de um Gestor

Com a gestão democrática, a forma de seleção dos gestores dar-se-á por eleições diretas, que permite o debate no contexto escolar, ou seja, permite que os vários seguimentos que compõem o universo escolar se manifestem, pleiteiem-se, disputem e cheguem a uma convivência em função dos rumos da escola.

O gestor deve respeitar os preceitos democráticos estabelecidos na constituição de 1988, na LDB 9394/96, na Carta de Princípios da Educação de Alagoas e Estatuto do Magistério Público de Alagoas.

Como podemos ver, o cargo de diretor de escola é definido em termos legais desde 1988, tornando-se explicito no nosso Estado a partir da Carta de Princípios da Educação de Alagoas.

A despeito da gestão democrática e da eleição de gestores é bom lembrarmos do que nos aponta Luck (2000), ao defender que cabe a nos lembrar que não é a eleição em si que é um ato democrático, mas sim o governo que ela apresenta.

Com a eleição direta de diretores escolares surge um avanço na formação de um trabalho coletivo e participativo e na construção da autonomia da escola, respondendo as expectativas da comunidade escolar e social.

O cargo de diretor é promovido através de concurso público para professores da rede de ensino, com provas e títulos, por nomeação com os seguintes requisitos: licenciatura plena, habilitação especifica em administração escolar, pelo menos experiência de dois anos na docência, eleito pela eleição direta pelos vários segmentos do universo escolar e por nomeação no Diário Oficial do Estado, conforme descrito na Resolução n°. 51/2002 do CEEI AI.

Despertar o potencial de cada pessoa da instituição, transformando a escola em oficina de trabalho e pesquisa, onde todos cooperam, aprende e ensina o tempo todo, é a essência da gestão democrática e da liderança assumida pelo diretor.

O trabalho do gestor numa perspectiva democrática deve ser focado em três eixos, mostrado assim por Luck:

O Eixo Pedagógico – norteado pela proposta política pedagógica da escola centralizado no professor aluno e na melhoria à qualidade de ensino. O Eixo Administrativo-norteado pela gestão democrática, baseada na estrutura não-verticanizada. O Eixo relacional – norteado pelo processo participativo, descentralizado e pelo estabelecimento de parcerias com a comunidade e outras instituições.

A articulação desses eixos possibilita a escola construir sua autonomia, esta por sua vez entendida como possibilidade da escola vir a tomar suas decisões traçando seus rumos, buscando caminhos e criando condições para atingir seus objetivos.

Além dos eixos já mencionados o gestor deve compreender o eixo político de sua atuação voltada na ação participativa.

O gestor segundo HORA (1994), é aquele que:

Está na gestão da escola para o alcance de sua finalidade, tendo como função principal realizar uma liderança política, cultural, relacional e pedagógica no sentido de viabilizar o cumprimento da legislação e a construção da autonomia participativa.

Luck (1997), Hora (1994) e Libâneo (2004), defendem que a direção escolar tem sua dimensão de atuação baseada em três enfoques: O aspecto administrativo e humano (refere-se a questões de infra-estrutura, burocrática e pessoal); O aspecto sócio político e cultural (trata das relações inter-pessoais da comunidade escolar) e o aspecto pedagógico (discute as questões relacionadas ao processo ensino aprendizagem como currículo, pratica pedagógica, avaliação e outros).

Uma escola de qualidade é gerida com competência, agilidade, motivação e criatividade de forma coletiva e participativa.

É importante que o diretor aja como líder de relações humanas, enfatizando um ambiente positivo cooperativo e capaz de resolver os conflitos que surgem, promovendo o consenso em prol da função e do objetivo da escola. Além disso, ele deve criar um clima de aconchego, amizade, amor pelos estudos, incentivo às mudanças, ou seja, ser diretor é uma tarefa para educadores compromissados com o ser humano. A função do diretor é de gestor que discute as possibilidades da lei, do regimento e do PPP, visando melhorar a qualidade do ensino público, respondendo aos anseios e necessidades da comunidade escolar.

A Prática do Gestor no Cotidiano da Escola

As mudanças ocorridas no ensino público no Brasil nas últimas décadas e a institucionalização da democracia, associados a um repensar da gestão educacional presentes em nossas escolas tem sido elementos norteadores das transformações almejadas pela sociedade contemporânea.

Luck (2005) descreve três tendências relacionadas à gestão presente nas escolas atualmente: A relação eficiência /eficácia e administração escolar; o papel da liderança do gestor, diretamente associada à construção de escolas eficazes; re¬conceituação do papel do gestor como construtor da autonomia escolar.

Luck (2005), ainda apresenta algumas propostas que podem contribuir para a construção de um gestor:

Ser um educador técnico político pedagógico que entende o social e o burocrático. que busca parcerias, delega funções e dedica-se ao aspecto sócio educacional humano administrativo que circunscreve o cotidiano escolar; Ser comprometido com a escola e compartilhar lideranças; Descobrir a potencialidade de seus professores e as carências e necessidades de sua formação profissional;

Orientar, acompanhar e motivar junto com a coordenação o trabalho pedagógico:

Desenvolver competências e habilidades que valorizem e viabilizem o trabalho coletivo, as relações pessoais e os encaminhamento de soluções. Para os problemas e necessidades da instituição.

Portanto entendemos que na gestão compartilhada o diretor/gestor é o grande articulador de todos os segmentos que compõem a comunidade escolar e precisa entender que a escola pública recebe a população mais carente, por isso é na escola que o indivíduo precisa encontra seu desenvolvimento social para que venha a se constituir cidadão.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O sistema Democrático trouxe a sociedade um conjunto de procedimentos que ressalta uma convivência racional e que a própria Constituição Brasileira diz que “Todo Poder Emana do Povo e em seu nome é exercido”. Porém, para que esse sistema seja desenvolvido se faz necessário que o povo tenha uma nova concepção de sociedade realmente democrática, consciente de seu papel não como ser individualista, mas como ser humano responsável e parte do sistema de mudanças.

O processo democrático requer uma educação compromissada com o desenvolvimento das pessoas pertencentes a esta sociedade, desta forma democracia e educação andam juntas, pois se o processo democrático necessita de cidadãos que saibam articular discussão para que seja construída uma boa sociedade, a escola exerce o papel de desenvolver a consciência histórico crítica nesses cidadãos. A escola, no entanto, não está voltada apenas para os aspectos políticos e democráticos, mas sim como espaço de socialização onde a política é vista no âmbito da comunidade e na prática cotidiana em sala de aula. A escola constrói a democracia através de três características básicas.

O acesso á educação, que apesar de não ser tão fácil atingir as pessoas, pois muitos ficam para traz por conta do analfabetismo, abandono e fracasso escolar e outros. Existe o direito à educação, pois uma escola democrática luta em favor da igualdade social independente de origem, raça ou condição financeira.

Os conteúdos do ensino e da educação possibilitam o desenvolvimento do indivíduo nos conhecimentos a respeito da cientificidade, a história da luta pela democracia a busca pela igualdade e solidariedade.

As práticas organizacionais pedagógicas desenvolvem nos indivíduos além do conhecimento científico a capacidade de construir suas opiniões sendo respeitada sua liberdade de expressão.

A Segunda condição não está apenas no combate ao autoritarismo e castigos, mas numa prática educativa aberta ao conhecimento, à cultura democrática que é desenvolvida com a participação de todas as práticas pedagógicas onde é estimulado a honestidade intelectual, o hábito de dizer a verdade deve estar presentes no sistema educacional nas relações interpessoais é preciso que as pessoas tenham liberdade, clima aberto, combate ao preconceito, prática de ajuda nas salas de aula. Na relação comunidade escola é necessário que exista uma preocupação com os problemas sociais que ocorrem a sua volta, buscando na medida do possível desenvolver tarefas socializadoras.

A escola que queremos requer a participação de todos que fazem parte da comunidade que estão inseridos é um apoio recíproco onde todos são beneficiados, exercendo a verdadeira democracia. No entanto para que exista a participação de todos faz-se necessário trabalharmos na escola a cidadania, que tem suas dificuldades para ser desenvolvida pelo fato de term os vivenciado por tanto tempo um modelo de ensino onde só era permitido copiar e repetir o que se era determinado, isso sem falar no espaço físico onde qualquer tentativa de trazer algo novo chocava-se com vários fatores contrários a ação. Felizmente a visão das pessoas que fazem educação no mundo vem mudando e apesar das dificuldades, hoje, já podemos contar com um grupo de pessoas engajadas na educação verdadeiramente cidadã, onde o maior objetivo é desenvolver nos alunos a capacidade de realizar juízos reflexivos, ou seja, de lutar pelos seus direitos e deveres de forma consciente, pessoas que tenham a capacidade de trabalhar e utilizar as novas tecnologias, exercendo uma cidadania responsável que gerará no indivíduo uma auto-satisfação.

Na ação da cidadania faz-se necessário também o desenvolvimento da consciência política independente, à algum tempo atrás os líderes governamentais primavam para que as classes populares tivessem um pensar político de acordo com o que fosse melhor para eles, não existia autonomia de opinião que gera liberdade e isso faz parte da cidadania.

Podemos dizer, portanto, que para a formação da cidadania em nosso país, as mudanças devem ser sociais e pedagógicas e estarem atreladas. Apesar de alguns autores acreditarem estar longe da cidadania, em nosso Estado especificamente, já podemos contemplar uma luz no fim do túnel quando vivenciamos nas escolas públicas a gestão democrática, a carta de princípios da educação contendo ações que se efetivadas produzirão a tão almejada cidadania. Para isso, um currículo para uma escola cidadã reporta-nos a esta busca na escola pública especialmente que enfrenta dificuldades como inadaptação dos recursos humanos em fazê-Ia acontecer em termos do currículo a escola sempre esteve muito mais a mercê das forças contrárias ao desenvolvimento cidadão.

Hoje, já podemos contar com a educação para a cidadania proposta educacional que está inserida num processo de mudança das camadas populares, organizando-se como espaço democrático, onde através do dialogo vamos a busca da justiça social. O currículo não é composto apenas dos conteúdos a serem ensinados na escola, existem duas tendências na pedagogia crítica que se alternam em opinião entre transmitir conhecimentos históricos popularizando o conhecimento científico e a outra consiste na escola desenvolver o conhecimento popular, ou seja, das camadas mais pobres, porém quando pensamos na questão de organização vemos que não existe método sem conteúdo e vice-versa.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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O Adultério Virtual

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A presente pesquisa inicia-se com uma abordagem simples sobre o Direito de Família, destacando-se a importância do princípio da monogamia diante da nova modalidade de relacionamento proporcionado pela rede mundial de computadores. Ademais, discorre sucintamente sobre o casamento e seus deveres, e as causas de dissolução da sociedade conjugal. Dentre essas, aponta a relevância histórica do adultério que se consuma pela conjunção carnal que, quando frustrada, constitui-se a figura do “quase-adultério”, nascida no Direito Romano. Tem como finalidade expor os aspectos sociais e jurídicos relativos aos relacionamentos amorosos extraconjugais iniciados pela tela de um computador conectado à Internet e suas possíveis consequências, considerando-se a ampla subjetividade que rodeia o tema. Portanto, nesta pesquisa, o foco é demonstrar a possibilidade de romper a sociedade conjugal com fulcro na prática do adultério virtual pelo outro consorte e de pleitear uma compensação por danos morais.

No que tange a dificuldade de constituir prova do adultério virtual, o presente estudo traz entendimento do Supremo Tribunal Federal acerca da validade da utilização de dados de um computador em face da garantia constitucional à inviolabilidade da intimidade e da vida privada das pessoas.

1 INTRODUÇÃO

O Direito de Família é a busca da ordenação das relações de afeto e das conseqüências patrimoniais daí advindas. No mundo ocidental, um dos pilares que o sustenta é o princípio da monogamia. Quase todas as discussões jurídicas sobre conjugalidade giram em torno da monogamia, que funciona também como um ponto-chave das conexões morais. Falar de monogamia, portanto, é falar de todos os valores que verdadeiramente interessam: afeto, honestidade, desejo, amor, promessa, confiança, respeito, direitos e culpa. Destruir o princípio da monogamia significa, para os valores jurídicos e éticos ocidentais, o rompimento e afronta aos princípios morais estruturadores de uma família. Portanto, a monogamia é mais que um valor moral. É um princípio norteador dos ordenamentos jurídicos. Infringir tal princípio, estabelecendo relação extraconjugal, significa, no ordenamento jurídico brasileiro, ter sido responsável e o culpado pelo fracasso da relação.

É indubitável que a Internet constitui um dos principais avanços tecnológicos até hoje alcançados. Por meio dela, o mundo se tornou menor, facilitando a comunicação e a aproximação entre os povos de todo o planeta. Além de proporcionar o contato por palavras escritas, é possível também o contato por voz e visual, independente da distância. Assim, qualquer pessoa que tenha um computador conectado à rede mundial, poderá conversar e ver vários internautas concomitantemente em qualquer parte do globo.

No entanto, tudo que se coloca à disponibilidade do ser humano produz efeitos positivos e negativos. O presente estudo tem como foco um dos efeitos negativos do fascinante mundo virtual alcançado por meio da Internet, qual seja, a facilidade que pessoas casadas encontram para se relacionarem com outros indivíduos, descumprindo o dever conjugal da fidelidade recíproca presente no artigo 1.566, I, do Código Civil Brasileiro de 2002.

Ocorre que o tema “adultério ou infidelidade virtual”, além de polêmico, possui imensa subjetividade, dificultando assim as discussões relacionadas.

Portanto, procura-se, neste artigo, apresentar o adultério virtual que, para muitos, é um assunto novo, mas que, na realidade, necessita, há muito, de atenção por parte dos legisladores e doutrinadores brasileiros, com vistas à proteção do instituto mais importante do Direito brasileiro, a Família.

2 DO CASAMENTO

Alguns seres humanos possuem a necessidade de constituir família, o que ocorre, naturalmente, com outro da mesma espécie. Assim, desde tempos imemoriais, surgiu na sociedade o instituto do casamento. Com efeito, não é fácil a sua definição em face dos elementos presentes no atual momento histórico, tornando complexa a atitude em assumir uma posição sobre a noção de casamento.

Já em 1988, inovando e acompanhando as mudanças sociais, a Constituição Federal limitou-se ao asserto, em seu artigo 226, de que “a família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado”, acrescentando, no seu §3º, que, “para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar devendo a lei facilitar a sua conversão em casamento”. Desde então, não é mais só pelo casamento que se constitui a entidade familiar, pois, segundo da Silva (2005), a realidade apresenta situações jurídicas que, até certo momento, permanecem à margem do ordenamento jurídico formal. Porém, a pressão dos fatos acaba gerando certo reconhecimento da sociedade, que começa a aceitar situações antes repudiadas até o momento em que o legislador as disciplina, a fim de contê-las sob o controle social.

Para Madaleno (1999), é verdadeiramente clássica a controvérsia a cerca da natureza jurídica do casamento, se contrato ou instituição, embora uma terceira corrente defenda sua natureza híbrida, com feição inicial de contrato inicial do Direito de Família, com liberdade volitiva na escolha do cônjuge e do regime de bens, vertendo para uma natureza institucional com a celebração das bodas, aderindo a um caráter institucional pré-ordenado pela legislação civil brasileira.

Em busca de um conceito, Mendes (1990, p.39, apud SILVA, 2005) entende que o casamento é o meio jurídico de dar relevância à conjugação especial do homem e mulher, necessária à reprodução e que constitui um modelo normal de organização de vida na sociedade.

Não muito diferente é a definição oferecida por Coelho e Oliveira (2001, p.184, apud SILVA, 2005), para os quais o casamento se reconduz a um acordo entre um homem e uma mulher feito segundo as determinações da lei e dirigido ao estabelecimento de uma plena comunhão de vida entre eles.

O legislador brasileiro, por suas razões, definiu apenas os efeitos do casamento, conceituando-o indiretamente pelos elementos que fornece no artigo 1.511 do Código Civil de 2002, onde dispõe que “o casamento estabelece a comunhão plena de vida, com base na igualdade de direitos e deveres dos cônjuges”. Percebe-se, no entanto, que a noção do conceito de casamento se encontra implícita no texto do artigo supracitado.

“A partir do texto legal, conclui-se que o casamento é o contrato de Direito de Família que tem como propósito unir legalmente o homem e a mulher, para que eles possam regular suas relações sexuais, cuidar da prole comum e se prestarem mútua assistência” (RODRIGUES, 2003, p. 2).

O descumprimento, por um dos consortes, do imperativo legal denominado fidelidade recíproca, através do adultério, pode caracterizar a impossibilidade de manutenção da comunhão de vida, constituindo causa de dissolução do casamento, nos termos do artigo 1.573 do Código vigente.

Com o casamento válido, os nubentes adquirem o “estado conjugal”, o que, segundo Cahali (1994, p.62) somente se estabelece por meio do casamento, apesar de a Magna Carta colocar sob proteção do Estado a união estável do homem e da mulher. Assim, adquirindo o estado conjugal, os nubentes constituem uma sociedade entre si, daí resultando direitos e deveres de conteúdo espiritual e econômico, que se entrosam e se completam. Os deveres estão dispostos nos incisos do artigo 1.566 do Código Civil. São eles: a fidelidade recíproca; a vida em comum, no domicílio conjugal; mútua assistência; sustento, guarda e educação dos filhos; e respeito e consideração mútuos.

Para Cahali (1994, p. 63), a fidelidade conjugal é exigida em lei e em nome de interesses superiores, colocando-se como o mais importante dos deveres, pois expressa naturalmente a monogamia. Participando da essência do matrimônio, o dever de fidelidade não pode ser suprimido mediante pacto antenupcial ou convenção posterior, tendente à liberação de qualquer dos consortes. Ineficaz, portanto, a estipulação ou a renúncia que se tiver feito ao dever do outro, afrontando disposição absoluta de lei e ofendendo aos bons costumes.

Têm-se como sinônimos de fidelidade os termos lealdade, honradez, honestidade, integridade, pontualidade, constância, firmeza, perseverança, entre outros. “É possível, assim, conceituar o dever de fidelidade como a lealdade entre os parceiros, especialmente no que tange as relações cujo principal propósito seja o prazer físico e a satisfação sexual” (Garcia, 2004). O desrespeito a tal dever configura-se, a princípio, pela prática de relação sexual com pessoa estranha ao casamento. Entretanto “o descumprimento à fidelidade se dá pela prática de ato sexual com terceira pessoa e também de outros atos que, embora não cheguem à conjunção carnal, demonstram o propósito de satisfação do instinto sexual fora da sociedade conjugal” (DA SILVA, 2005, p. 1365, apud GARCIA, 2004).

Constitui outra decorrência do casamento a vida em comum no domicílio conjugal, incluindo entre os seus fins a satisfação dos sexos e a assistência mútua. Como bem afirma Freitas (2007), a vida em comum possui um sentido muito mais amplo que o simples dever de coabitação. Envolve a plena comunhão de vida, abrangendo aspectos materiais e espirituais, compreendendo uma união de esforços, trabalhos, desejos e realizações. Portanto, não há como confundir o dever dos cônjuges à vida comum no domicílio conjugal com a coabitação. Esta, quando muito, constitui parte daquele dever.

Demonstrando uma visão mais moderna, Lôbo (2004, p. 136, apud FREITAS, 2007), entende que, com a emancipação da mulher e a sua inserção no mercado de trabalho, inclusive em cidades distintas de seus maridos, o dever de coabitação encontra-se ultrapassado. O princípio constitucional da liberdade familiar afeiçoa-se à escolha dos cônjuges em viverem em domicílios separados por conveniência pessoal.

O dever dos cônjuges de se prestarem mútua assistência se manifesta de maneira bastante ampla, compreendendo, além dos cuidados pessoais nas enfermidades, o socorro nas desventuras, o apoio na adversidade e o auxílio constante em todas as vicissitudes da vida. Todavia, para Rodrigues (2003, p. 127), analisando estritamente como obrigação de assistir o consorte enfermo, é possível concretizar esse dever dos esposos, e se um deles negligencia no tratamento do outro, que se encontra enfermo, manifesta-se injúria grave e há pressuposto da separação judicial.

A mútua assistência, portanto, envolve aspectos morais e materiais. É corolário do princípio da solidariedade familiar. A assistência moral, segundo Lôbo (2004) diz respeito às atenções e cuidados dedicados ao outro cônjuge, o que socialmente se espera daqueles que estão unidos por laços de afetividade e amizade em seu grau mais elevado. Está vinculado à natureza humana de apoio recíproco e de solidariedade, nos momentos bons e nos momentos difíceis. É o conforto moral, o ombro amigo e o desvelo na doença, na tristeza e nas crises psicológicas e espirituais. Também é o carinho, o apoio, o estímulo aos sucessos na vida emocional e profissional.

Pode-se afirmar, assim, que esses elementos são os mais fortes no cotidiano de um relacionamento conjugal, cuja falta certamente leva à separação. A assistência material, que alguns denominam dever de socorro, refere-se ao provimento dos meios necessários ao sustento da família, de acordo com os rendimentos e as possibilidades econômicas de cada cônjuge. A família, como qualquer grupo social, é um complexo de necessidades, envolvendo alimentação, vestuário, lazer, habitação, educação, e saúde, entre outros, cabendo aos cônjuges definir suas prioridades.

O Código impõe a ambos os cônjuges deveres morais e obrigações jurídicas para com os filhos. Incumbe aos pais, portanto, sustentar e educar os filhos de acordo com suas possibilidades, provendo-lhes a subsistência material, fornecendo-lhes alimentação, vestuário, abrigo, medicamentos, enfim, tudo aquilo que se faça necessário à sobrevivência dos mesmos. A negligência a esse dever sujeita o inadimplente à suspensão ou perda do poder familiar, sendo o mal remediado mediante ação de alimentos, em que o faltoso será condenado ao pagamento de uma pensão alimentícia, na qual se incluirá o necessário ao sustento e à educação dos filhos.

A guarda dos filhos menores é prerrogativa dos pais, sendo dela privados somente por meio de sentença judicial, tendo em vista o interesse dos menores. “Nesse aspecto, a disputa entre os pais se revelava mais aguda no regime do Código Civil de 1916, pelo qual o pai era o titular do pátrio poder” (RODRIGUES, 2003, p. 128). Com a mudança do Código Civil, o que antes se chamava “pátrio poder” passou a ser denominado “poder familiar”, o qual é exercido por ambos os pais em igualdade de condições. Assim, compete a ambos os genitores a guarda dos filhos menores, mantendo-os em sua companhia e exercendo vigilância sobre os menores.

Cumpre destacar que, recentemente, entrou em vigor no Brasil a Lei nº 11.698/2008, modificando os artigos 1.583 e 1.584 do Código Civil e estabelecendo a faculdade aos cônjuges em optarem pela guarda compartilhada ou pela unilateral. Preferindo a primeira, dividirão as responsabilidades em relação aos filhos, tomando em conjunto todas as deliberações sobre a rotina da criança, como, por exemplo, escola, viagens e atividades físicas. Pela segunda, a guarda será atribuída ao genitor que revele melhores condições para exercê-la e, objetivamente, propiciar aos filhos afeto, saúde, segurança e educação. Não havendo acordo entre os pais quanto à guarda dos filhos, será aplicada, sempre que possível, a guarda compartilhada.

A inovação trazida pela lei civil de 2002, referente ao respeito e consideração mútuos, na realidade poderia ter sido incluída no dever de mútua assistência, pois tratar com respeito e consideração o seu consorte é prestar-lhe assistência.

No entanto, com a inclusão desse dever recíproco, o legislador impõe aos cônjuges tratar-se com respeito e consideração. Exemplo de desrespeito à própria mulher é quando “o marido lhe dirige palavrões, mantém ligações suspeitas, embora não adulterinas, e não trata com consideração o seu marido a esposa que flerta com outros homens, cuja expansividade em festas e reuniões chama a atenção de outros” (RODRIGUES, 2003, p. 129).

2.1 DAS CAUSAS DE DISSOLUÇÃO DA SOCIEDADE CONJUGAL

A lei estabeleceu distinção entre a dissolução da sociedade conjugal e a do casamento válido. A primeira se rompe pela morte de um dos cônjuges, pela nulidade ou anulação do casamento, pela separação judicial e pelo divórcio. Já o vínculo conjugal somente se dissolve pela morte de um dos consortes ou pelo divórcio. Portanto, com a separação judicial, por exemplo, ainda persiste o vínculo matrimonial entre as partes, eximindo-as dos deveres conjugais, porém impondo-lhes a restrição em realizar novas núpcias até que ocorra o divórcio ou, evidentemente, a morte de um deles, conforme preconiza o artigo 1.571 da Lei Civil.

Conforme se verifica do exame do artigo 1.572 da lei em comento, foi conferido a qualquer dos cônjuges a prerrogativa de propor a ação de separação judicial imputando ao outro a prática de ato que importe grave violação dos deveres do casamento e torne insuportável a vida em comum. A ação supracitada também poderá ser proposta se provada a ruptura da vida em comum há mais de um ano e a impossibilidade de sua reconstituição. Ademais, a mesma ação poderá ainda ter fundamento em doença mental grave manifestada por um dos cônjuges após o casamento, que torne impossível a continuação da vida em comum, desde que, após uma duração de dois anos, a enfermidade tenha sido reconhecida de cura improvável.

Por conseguinte, dispõe o artigo 1.573 os motivos que podem caracterizar a impossibilidade da comunhão de vida entre os consortes, quais sejam: adultério; tentativa de morte; sevícia ou injúria grave; abandono voluntário do lar conjugal durante um ano contínuo; condenação por crime infamante; conduta desonrosa. Contudo, essa relação é exemplificativa, haja vista que o parágrafo único permite ao juiz considerar outras hipóteses em que a vida em comum se torna insuportável, analisando cada caso em concreto.

Por ser o objeto principal do presente estudo, o adultério será analisado por último, dentre as causas para a dissolução do casamento.

A tentativa, conforme artigo 14, II, do Código Penal Brasileiro, ocorre quando o agente inicia a execução do delito, que só não se consuma por circunstâncias alheias à sua vontade.

Não há demonstração mais óbvia de desamor pelo cônjuge do que a tentativa de matá-lo, caracterizando o pressuposto para a separação independentemente de condenação do réu, de acordo com o entendimento de Rodrigues (2003, p.166).

Sevícia se configura por qualquer castigo físico, seja para punir com violência o outro cônjuge ou forçá-lo a um comportamento através da força material.

Monteiro (2001, p.170, apud RODRIGUES, 2003, p. 166) afirma que a sevícia não compreende somente as vias de fato, podendo consistir: no seqüestro da mulher impedindo-a de comunicar-se com o exterior; na transmissão de moléstia venérea ao outro cônjuge; no abuso de relações sexuais; na sonegação de alimentos; na recusa de tratamento quando o outro se encontra acometido de doença.

A sevícia, portanto, atua no campo físico, o que a difere da injúria. Cumpre destacar ainda que, naquela, a mera circunstância objetiva de sua existência autoriza a decretação da separação, enquanto na injúria se faz necessário o dolo, a vontade, ainda que remota, de ofender, depreciar, ou humilhar o consorte.

Beviláqua (1950, p.125, apud Rodrigues, 2003, p.167), define injúria grave como “toda ofensa à honra, à respeitabilidade, à dignidade do cônjuge, quer consista em atos, quer em palavras”. É a agressão moral intencional que fere a sensibilidade da vítima.

Com um conceito mais amplo, Gonçalves (1937, p. 135, apud Rodrigues, 2003, p. 167) define a injúria não só como as palavras ultrajantes, ofensivas da reputação e da dignidade do cônjuge, mas também como qualquer violação dos deveres conjugais. Vale destacar, porém, que não podem ser consideradas injúrias palavrões ditas num momento de rápida exaltação, sem a intenção de injuriar, ou usualmente proferidos por pessoas de precária alfabetização.

Para que o abandono do lar constitua pressuposto para a dissolução da vida conjugal, devem estar presentes dois requisitos: o elemento volitivo e o lapso temporal mínimo de um ano. A Lei Civil, em seu artigo 1.569, permite a ambos os cônjuges a ausência nas seguintes hipóteses: encargos públicos; exercício de profissão; interesses particulares relevantes. Ademais, a ausência, quando não incluída nessas situações, tem que esbarrar na oposição do outro cônjuge, pois se este anui não se configura a injúria causada pelo abandono.

A vida em comum no domicílio conjugal decorre da união de corpo e de espírito. Assim, o “animus” que caracteriza o abandono, segundo Gonçalves (2007, p. 220), pode revelar-se desde o início da separação de fato, o que fez com que a Lei do Divórcio suprimisse o prazo mínimo de dois anos imposto pelo Codex de 1916, limitando-se a exigir que a infração aos deveres conjugais fosse grave. Constitui, portanto, um retrocesso a inovação trazida pelo Código exigindo o lapso temporal de um ano contínuo para configurar o abandono.

Segundo Gonçalves (2007, p. 232), deve-se entender como tal o ilícito penal que demonstra vício de personalidade de seu autor, causando repercussão negativa no meio social pelos propósitos desprezíveis de quem o praticou, capaz de provocar a repulsa do consorte e de tornar a convivência insuportável.

Em geral, os crimes infamantes são de extrema gravidade, como o estupro, a extorsão mediante seqüestro, o latrocínio e o tráfico de entorpecentes. Entretanto, a infâmia pode ser encontrada em crimes de menor gravidade, mas que demonstram o mau caráter e a crueldade do agente e causam repugnância no outro cônjuge, como, por exemplo, o ato obsceno e os maus-tratos a filhos menores ou a pais idosos.

Com o casamento desencadeiam-se diversas obrigações estreitamente pessoais, infungíveis e recíprocas, cujo cumprimento é essencial à subsistência da própria sociedade conjugal. No entanto, tais preceitos extravasam os limites do âmbito familiar, devendo ser observados também nas relações dos cônjuges com terceiros. Isso para evitar que um dos cônjuges se exponha ao desprestígio, ao descrédito, à desconsideração, e à degradação moral ou social, refletindo negativamente sobre a pessoa do outro consorte e da família.

Configura-se a conduta desonrosa no ato ou comportamento imoral, ilícito ou anti-social de um dos cônjuges que, infringindo os deveres implícitos do matrimônio, provoca no outro cônjuge uma situação de constrangimento, humilhação, desprestígio moral ou social, desconsideração no ambiente da família, do grupo ou da sociedade. (CAHALI, 1994, p. 423)

Conforme a sensibilidade do cônjuge atingido via reflexa, a conduta desonrosa do outro cônjuge pode tornar intolerável a vida em comum, pois contraria a honra, o decoro e a dignidade do matrimônio.

Não há, assim, um critério preestabelecido para a definição do que se compreende como conduta desonrosa. Gonçalves (2007, p. 230) a considera como qualquer ato de um dos cônjuges que causa menosprezo no ambiente familiar ou no meio social em que vive o casal, como, por exemplo, o vício do jogo, o uso de tóxicos, a conduta homossexual, a condenação por crime doloso, os delitos sexuais, o vício da embriaguez, cabendo ao juiz, analisando cada caso concreto, decidir sobre a configuração ou não da conduta desonrosa.

3 DO ADULTÉRIO

Interessante destacar, inicialmente, a relevância histórica da figura do adultério desde os primórdios, principalmente no que tange à imagem da esposa. Garcia (2004) afirma que, na antiga Babilônia, retiravam das esposas um de seus olhos, para que só pudessem ver o seu amo e senhor; os Hebreus tinham o direito de matar suas esposas, caso essas não sangrassem na primeira relação. Entretanto, nem sempre a prática do adultério foi algo tão repudiado. Os casais de Esparta cometiam o adultério de forma legalizada para combater o ciúme exagerado. Durante a Idade Média, mesmo com a intolerância da Igreja Católica a qualquer traço de conduta desviante, as francesas da Savóia, uma vez por ano, reuniam-se, e juntas, iam às Tabernas para se encontrar com outros homens. Todas, frise-se, com o consentimento dos maridos.

Diaz-Santos (1973, p. 180 apud Garcia, 2004) aduz que a Lei Mosaica já tratava o adultério como um delito muito grave, castigando com a morte dos culpados, enquanto no Egito, a mulher adúltera sofria a mutilação de seu nariz, a morte era reservada para o seu amante. Na Índia, o adultério implicava em dupla ofensa aos deuses e à indesejada mistura de raças, devendo a mulher ser devorada por cachorros em praça pública.

Nos dias atuais, o adultério é a violação do dever de fidelidade, representando a mais grave das infrações dos deveres conjugais dentro de uma sociedade cuja cultura se baseia na monogamia. Essa infração pode caracterizar grave injúria e uma séria ameaça à vida conjugal. Conforme Cahali (1994, p. 345), na sua concepção mais ampla, o adultério tem como pressuposto necessário a existência de um laço matrimonial vinculado a uma das duas pessoas que praticam conjunção carnal por livre e espontânea vontade, ou seja, com a consciência de violar a fé jurada.

O adultério constitui grave infração ao dever recíproco de fidelidade, desde o ato voluntário do cônjuge até a consumação do ato sexual. É essencial a presença do elemento volitivo e objetivo da relação sexual, qual seja, a conjunção carnal, o que não se realiza em situações como a correspondência epistolar, a cópula onanística e a inseminação artificial, mas que podem caracterizar a infidelidade moral, da qual resulta a injúria grave e não o adultério. Assim, não é adúltera uma mulher casada que foi forçada a manter relações sexuais mediante violência física ou grave ameaça, ou ainda mediante o emprego de substâncias que lhe retiraram a capacidade de discernimento. (DINIZ, 2005, p. 1269)

A fidelidade supõe exclusividade na relação sexual, uma vez que com o casamento, cada cônjuge renuncia à sua liberdade sexual, lançando mão do direito de se relacionar sexualmente com qualquer outra pessoa diversa do seu consorte. Assim, as simples carícias com um terceiro, além de lesar os sentimentos e a consideração social do outro cônjuge, induzem à presunção de que destas intimidades possa ou já tenha resultado o adultério.

No Direito Romano nasceu a figura da tentativa frustrada de adultério, que pode ser considerada como uma injúria. Diz Cahali (1994, p.360) que o “quase-adultério” não alcança o extremo da conjunção carnal, limitando-se o infrator aos atos que denunciam aquele propósito, ou caminham na sua direção, presumindo-se, portanto, ter havido grave violação do dever de fidelidade, ainda que não ultrapassada a fase preparatória dos atos tendentes à sua prática.

Assim, na figura do “quase-adultério” inclui-se o comportamento conjugal tendente à consumação do ato sexual com estranho, exaurindo-se nos atos preparatórios, como também se inclui a sensualidade, porém despida de qualquer contato carnal, representada pela infidelidade moral ou espiritual. Possível, pois, a violação grave de deveres matrimoniais através desse vínculo alienado de espiritualidade, quando o procedimento subtrai ao outro cônjuge a afeição que lhe deve ser dedicada.

É inegável que até os dias atuais, a vida civilizada teve como pressuposto básico o equilíbrio psicológico e social fornecido aos indivíduos pela instituição Família, fonte de respeito e solidariedade necessários ao convívio social. Geralmente, o abalo a tal instituição causa imensos malefícios à sociedade, como, por exemplo, o alcoolismo, o uso de drogas, distúrbios depressivos, suicídio, criando uma sucessão de acontecimentos interligados. Uma família bem estruturada psicologicamente, na qual existe uma relação harmoniosa entre os seus membros, contribui consideravelmente para o progresso da civilização.

O que se percebe é que as relações humanas estão passando por uma grande mudança desde o começo da utilização da internet. O e-mail, as salas de bate-papo, o Messenger, a webcam vão facilitando as comunicações e criando uma nova forma de se relacionar: paquera, namoro, amizade e sexo virtuais.

3 DO ADULTÉRIO VIRTUAL

Hodiernamente, vivencia-se uma crescente evolução tecnológica, especialmente no que tange a áreas relacionadas aos meios de comunicação, em especial a Internet, com uma maior e mais eficaz transmissão de informações entre pessoas nos mais longínquos locais do globo, formando uma nova forma de relação social. No Brasil, os primeiros passos desse novo comportamento datam de 1995, com a novela “Explode Coração” da Rede Globo, fascinando o país com a novidade do relacionamento por meio do computador. Na estória, a cigana Dara encontrava seu grande amor pela internet, e a maioria dos brasileiros ainda não conhecia a grande rede. Interessante perceber que quando surge uma nova tecnologia, novos aparelhos, as pessoas ficam encantadas.

Até bem pouco tempo, a fuga inconsciente para o mundo imaginário ficava apenas no terreno da fantasia, no mundo do sonho, único espaço onde se pode ser verdadeiramente livre, onde se pode ser infiel sem que ninguém descubra, onde a infidelidade fantasiosa jamais é confessada a alguém. Agora existe a Internet e o espaço virtual permite “estar junto” com outra pessoa, permite revelar sonhos e desejos, realizar fantasias, sem riscos aparentes. (GUIMARÃES, 2004)

Devido à facilidade de comunicação entre as pessoas via Internet, foi trazido para os estudos do Direito um instituto moderno: o adultério ou infidelidade virtual. Para Lago (2008), nesta forma de relacionamento fictício, em sua grande maioria, as pessoas participantes não se conhecem pessoalmente, ou/e talvez jamais se conheçam. Essa dificuldade de encontro das partes no universo virtual prima na confidencialidade da identidade de cada um, sendo permitido que a pessoa utilize um nome falso ou apelido na rede. Esse nome falso garante a possibilidade de manter uma relação com outra pessoa sem que nem mesmo saiba o nome de seu companheiro que está do outro lado da tela. As formas mais usuais para tanto são os “e-mails”, “chats de bate-papo”, “torpedos” e o “Orkut”.

A administradora de empresas carioca Janaína Porto checava os próprios e-mails no computador da família quando uma luzinha piscou avisando a chegada de uma nova mensagem. “Ele tinha esquecido o Messenger aberto. De repente, leio: ‘Oi lindo, ainda não foi para o escritório?’ Eu gelei”, conta. Atormentada pelo recado, buscou mais pistas no Orkut do marido e decidiu contratar um detetive virtual. Em uma semana, teve em suas mãos um relatório com todos os e-mails e mensagens de MSN, Orkut e ICQ trocados pelo marido. “Fiquei chocada. Além dela, ele falava com outras mulheres. Chamavam-se por apelidos, tinham conversas com sentido dúbio, passavam até três horas seguidas teclando. Pelo que deu pra perceber, ele nunca foi pra cama com nenhuma, mas havia uma troca de confidências, uma cumplicidade e uma intensidade que havia anos nem eu provava mais”, lamenta. O casamento de dez anos sofreu forte impacto.

O marido não comenta o assunto, mas Janaína não tem dúvidas: “Sim, considero que ele me traía”. (D. PINHEIRO, 2006)

O sexo virtual tornou-se um dos assuntos mais lucrativos do comércio eletrônico e uma das diversões prediletas dos usuários. No Brasil existem mais de cem serviços de bate-papo para entabular conversas eróticas. Essa grande oferta e o fácil acesso fazem com que os internautas se sintam tentados a não limitar suas consultas a esse tipo de material durante os momentos de lazer, se desligando da realidade e trocando mensagens picantes com terceiro desconhecido.

Portanto, trata-se de um meio que aproxima as pessoas sem que estas se mostrem verdadeiramente, visto que os internautas podem mentir em relação a tudo, inclusive se é homem ou mulher, jovem ou idoso, alto ou baixo, magro ou gordo, solteiro ou casado. Tudo depende do poder de convencimento através das palavras, da sua persuasão, consoante, é claro, com a vulnerabilidade ou carência do interlocutor. Começa com a troca de mensagens eletrônicas, o envolvimento vai crescendo, estabelece-se um vínculo íntimo. Tem todos os ingredientes de um caso extraconjugal, mas talvez o contato físico nem aconteça.

Nesse contexto, afirma Freitas (2007) que as relações virtuais possibilitam às pessoas contatos mais íntimos, porém não físicos, mas que causam ofensas às relações “tradicionais”. Com isso, deve-se aproximar da realidade a definição de fidelidade, como sugere Barbosa (2005, p. 82 apud Freitas, 2007): “dever de fidelidade é o dever de não praticar ou consentir que pratiquem consigo atos sexuais reais ou virtuais, com pessoa diversa do cônjuge”. No mesmo sentido, Pinheiro (2006) entende que a traição não é apenas o contato físico, mas também, e de forma tão ou mais insuportável para o traído, a abundância de detalhes que apontam para a intimidade emocional: o sentimento de cumplicidade, a excitação de esperar pelo chamado do outro, as confidências sobre segredos e fantasias, o prazer de ir para a cama pensando que amanhã tem mais.

São inúmeras as causas que motivam os relacionamentos virtuais. Sexo e internet parecem ter sido feitos um para o outro. O potencial explosivo dessa combinação viciante vem sendo estudado com muito interesse por profissionais da saúde. Nos Estados Unidos, na Universidade da Flórida, pesquisas realizadas no campo da Psicologia revelaram que a maioria dos internautas entrevistados considera o bate-papo virtual uma configuração interativa distinta da presencial, uma diversão, um jogo de sedução, sem possibilidades de que os relacionamentos passem do ambiente virtual para o real. A minoria dos internautas entrevistados, por sua vez, considera as interações virtuais um prolongamento da vida real e uma relação afetivo-sexual tendente ao encontro real, ou seja, uma configuração interativa real.

Em tempos recentes foi elaborado um estudo na Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, com as pessoas que afirmam ter tido pelo menos uma vez, algum caso pela rede. Das pessoas que foram entrevistadas, cerca de 83% afirmam que não consideram como adultério a prática de sexo virtual com uma pessoa distinta do cônjuge. Contudo, 30% das pessoas deste mesmo grupo tiveram romances virtuais que acabaram se transmudando em romances normais. Esses dados demonstram que quase um terço dessas formas de relacionamento acabou por se transferir para o mundo real. (LAGO, 2008, p. 3)

Entretanto, outra pesquisa, também realizada nos Estados Unidos, entre mulheres norte-americanas, acima de 21 anos, chegou ao seguinte resultado:

Dentro do universo de 200 mulheres entrevistas, 58% consideraram que a prática do sexo pela Internet se configura em traição. Outras 21% tiveram opinião diferente e disseram que não é traição. Os 21% restantes não se posicionaram contra nem a favor. As mulheres que não consideraram o sexo virtual uma traição afirmaram que esta prática é benéfica para os relacionamentos reais. Muitas delas disseram fazer sexo virtual na presença dos parceiros, alegando que desta forma os dois aprendem mais sobre as fantasias um do outro. Por outro lado, uma rígida formação religiosa e fortes conceitos de monogamia foram constatados entre as mulheres que avaliaram o sexo virtual como traição. A prática do sexo virtual já atinge boa parcela das mulheres americanas, causando também o aumento do número de divórcios. Um site especializado disponibilizou na rede que a prática do sexo virtual tem crescido entre 10% e 40% a cada ano. (TATUI, 2007)

Recentemente, uma pesquisa divulgada na Itália mostra como os relacionamentos virtuais podem provocar estragos na vida real. “Realizado com 352 mulheres de internautas, o estudo revelou que mais da metade se sentem incomodadas quando o parceiro está diante da tela do computador” (PADUAN, 2000).

Um caso demonstrou como a rede pode criar constrangimentos que seriam inimagináveis até pouco tempo atrás. O episódio envolveu um casal de chineses que se conheceram pela internet. Ele se dizia desimpedido. Ela escreveu que necessitava urgentemente de um namorado. Depois de um tempo se correspondendo, os dois marcaram um encontro ao vivo. Foi um fiasco. Os dois pombinhos virtuais descobriram que eram marido e mulher na vida real. A briga foi tão violenta que a polícia teve de intervir. (PADUAN, 2000)

Prosseguindo na esfera da Psicologia, cumpre acrescentar:

Para a psicóloga Ana Pierrotti, que acumula 20 anos de carreira, a traição começa na mente das pessoas, ou seja, o encontro amoroso significa uma conseqüência de uma intenção. “Claro que isso vai depender dos valores de cada um, assim como a cultura. Há pessoas que não consideram um contato íntimo virtual uma trapaça e nem ao menos se sentem culpadas por isso”, reitera. De acordo com a psicóloga, a internet é apenas mais um canal para facilitar encontros amorosos e pode ser destrutiva para casais que vivem uma turbulência no relacionamento e buscam refúgio online. Mas há quem não considere um contato virtual mais íntimo uma traição. Esse é o caso de Pedro Cirelli, gerente de tecnologia de uma multinacional. “Gosto de ter o meu momento, a minha vida particular. Por isso, eu não acredito na palavra traição. Todos temos sonhos e desejos que às vezes ficam escondidos e, sozinhos, na frente do computador, somos o que somos e isso não é errado”. Para o jornalista Rafael Mioto, definir a traição é algo complicado. “

Existe um limite entre apenas conversar e trocar emoções mais fortes. Mas, considerar isso como infidelidade, vai depender do casal”. O piloto de Motocross Cauê Aguiar diz: “o simples fato de buscar uma relação na internet com uma parceira que não é a sua, é ser infiel. Muitos alegam que por ser virtual não deve ser considerado, mas, para mim, seja pelo computador, por cartas, ou pessoalmente, manter um relacionamento com outra pessoa é traição”. (FELTRIN, 2009)

Observa-se, assim, a presença de um relevante caráter subjetivo, extremamente variável em cada indivíduo, relativo às salas de bate-papo oferecidas pela Internet. Porém, não obstante a subjetividade em entender um romance sem sexo, uma pessoa que tenha passado pela infidelidade emocional, não tem dificuldade em identificá-la. “Ela tem um potencial tão devastador para afetar uma união quanto se um dos cônjuges tivesse sido pego na cama com outra pessoa”. (COSTA, 2006 apud D. PINHEIRO, 2006)

Ademais, o progresso tecnológico pode levar a um individualismo cada vez mais exacerbado, já que as relações pelo computador não têm implicações com a vida real. Neste tipo de relação, a tela e o teclado são o corpo do parceiro. Quem é contra este tipo de comportamento, já encontra aliados. É que a própria indústria tecnológica começa a produzir formas de vigilância para auxiliar aqueles que desconfiam estar sendo virtualmente traídos, por meio de mecanismos que controlam o tipo de site visitado e podem até gravar conversas. Programas específicos são instalados nas estações de qualquer computador por meio de um e-mail, passando a enviar informações de tudo o que se faz na máquina. Assim, o acesso ilimitado a contatos com parceiros virtuais é contrabalanceado pela possibilidade de que a parte que se sente enganada parta para a espionagem eletrônica.

O clima de suspeita e desconfiança também transforma qualquer casamento num inferno. “Ler mensagem, vigiar conversa, nada disso funciona. Não se consegue entrar na cabeça do outro. É lá que mora o desejo. E isso ninguém nunca vai conseguir localizar”, explica o psicanalista e colunista Alberto Goldin, autor do livro História de Amor e Sexo. (D. PINHEIRO, 2006)

Um dos grandes vilões do casamento ou da união estável é, sem dúvida, a rotina. Para Guimarães (2004), os problemas do dia-a-dia vão deteriorando a intimidade e a cumplicidade dos casais até o ponto em que desata o laço erótico que os uniu, ou seja, estão próximos fisicamente, mas, ao mesmo tempo, amargam uma solidão insuportável. A relação se torna tão frustrante que o envolvimento com terceiro, facilmente alcançado por meio do espaço virtual, decorre deste estado de carência afetiva. Portanto, o crescimento desse tipo de vínculo talvez tenha como uma de suas causas a busca pelo prazer de exercitar o poder de sedução e conquista, aspectos que comumente desaparecem com o casamento.

Tanto no Orkut como no MSN é possível manter a conversa em total privacidade. “Eu passava muito tempo em conversas com um amigo. E óbvio que havia um clima sério. Eu me sentia viva, sedutora, desejada. Nunca nos tocamos. Mas, quando você fica empolgada com a situação, quando sente que está fazendo algo de errado, acho que isso é o indicador de que você está traindo”, diz a administradora de empresas carioca Patrícia Perrett, 32 anos, que manteve esse vínculo diário paralelamente a um sólido relacionamento. (D. PINHEIRO, 2006)

Assim, pela Internet, a imagem idealizada do outro não enfrenta o desgaste da convivência e a pessoa pode fugir do cotidiano, bastando clicar um botão para interromper a comunicação. No entanto, este relacionamento pode manter-se virtual ou tender-se a uma aproximação física.

O caso mais representativo é o de uma professora de 45 anos, extremamente discreta e de educação refinada, casada há 25 anos com um profissional liberal de 50 anos, com dois filhos adolescentes. Comunicava-se pela Internet com pessoas de diversos países e apaixonou-se por um homem também casado e residente no exterior. Meses depois de iniciado o relacionamento virtual encontraram-se e perfectibilizou-se o adultério. Apesar do uso de senha, o marido ingressou no correio eletrônico e descobriu o relacionamento. O casal separou-se e hoje ela vive no exterior com uma terceira pessoa que também conheceu através da Internet. (GUIMARÃES, 2004)

Além disso, segundo Sirino (2002), há anos a mídia já veiculava a criação de “drives” genitais que reproduzem sistêmica e anatomicamente os órgãos genitais masculino e feminino, visando ao aprimoramento do “sexo virtual”. O referido aparelho possibilita ligar pessoas a qualquer distância e com visualização recíproca e sonoridade real, fazendo com que as relações sejam autênticas e quase carnais.

O acesso rápido, o conforto e privacidade característicos da rede produzem o ambiente ideal para os internautas liberarem suas fantasias. No entanto, há muita gente exagerando na dose, perdendo a conexão com a realidade, adquirindo um vício que leva a pessoa a procurar ajuda especializada. A vida dessas pessoas começa a ser seriamente afetada pelo hábito de acessar páginas pornográficas ou de perder horas dentro das salas de bate-papo, nas quais se satisfazem com categorias de sexo virtual.

Os internautas, por causa do hábito, abandonam a mulher, deixam de conviver com os filhos e colocam em risco o emprego. Conforme Paduan (2000), um levantamento realizado pela Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana apontou que 16% dos usuários pesquisados passam quatorze horas por semana acessando pornografia, ou seja, o sujeito passa a ter prazer somente diante da tela de um computador. Liberados, ainda que momentaneamente, dos freios que delimitam o eterno embate entre pulsões sexuais e civilização, os usuários aproveitam.

Um funcionário público casado e pai de dois filhos manteve durante muito tempo uma vida dupla que incluía visitas a saunas e banheiros públicos. Descobriu as salas de sexo virtual e desde então permanecia praticamente o dia inteiro conectado. “Eu deixava de almoçar para ficar no micro, e minha conta telefônica chegou a me custar o salário de um mês. (PADUAN, 2000)

Cumpre esclarecer, embora para alguns possa parecer um pouco óbvio, que o acesso a um site pornográfico ou de fotos de pessoas nuas, ou a mera compra de uma revista com semelhante conteúdo, não configuram quebra de dever do casamento, pois não há qualquer contato real ou virtual com terceira pessoa.

Posto isso, o tema não traz à tona um simples fetiche ou coisa do gênero, mas sim algo efetivamente real e com sérias repercussões jurídicas, mormente no campo do Direito de Família.

3.1 DAS CONSEQÜÊNCIAS JURÍDICAS

O instituto denominado Família pode ser considerado o principal alicerce da organização social. Portanto, merece toda a proteção do Estado, e para isto, a maioria dos sistemas jurídicos modernos optou pela monogamia como forma de sua constituição. Desta opção, segundo Guimarães (2004), decorrem deveres de interesse público, moral e eticamente determinados pelo princípio da solidariedade, da proteção à dignidade da pessoa humana, da proteção à família, como o dever da fidelidade recíproca, respeito e consideração mútuos para o casamento e a união estável. Estes juízos de valores emanados do social autorizam a imposição de norma limitadora à liberdade individual, estabelecendo como fidelidade o dever de lealdade entre os consortes, sob os aspectos físico e moral, no sentido de abster-se de manter relações sexuais com terceira pessoa, e mesmo de praticar condutas que indiquem esse propósito, ainda que não consume o adultério.

O adultério virtual seria, portanto, uma infidelidade moral. Nesta relação, cria-se um laço erótico-afetivo mantido a distância através da tela de um computador que pode ser muito mais forte que o relacionamento real que a pessoa vive, desgastado pela convivência diária. Dependendo do grau de cumplicidade e de intimidade alcançado, os internautas podem chegar ao contato físico, com relações sexuais reais, quando então acontece o adultério material.

O sistema jurídico vigente autoriza o pedido unilateral de separação ao cônjuge que foi vítima do adultério material ou moral, como é o adultério virtual, porque acontece o descumprimento de um dever legal, o que é considerado injúria grave. Para Ferraz (2005), no entanto, conceito demasiadamente elástico é o da injúria grave, pois o legislador transferiu para o julgador a função de caracterizá-lo e defini-lo. Trata-se de uma das causas mais invocadas para o pedido de dissolução conjugal. O espectro é tão vasto que os tribunais têm caracterizado injúria grave a expulsão do leito conjugal, a recusa das relações sexuais e a proibição de cultivar amizades com familiares e parentes, o que pode criar uma situação de carência afetiva, incompreensão e o desejo de fugir da rotina, levando um dos cônjuges a encontrar no computador, via Internet, o meio seguro de “trair sem consumar”.

Injúria, na definição de Rodrigues (2003, p.167), é agressão moral, que visa e consegue ferir a sensibilidade da vítima. O elemento intencional compõe a injúria, porém às vezes a vontade de ofender não se manifesta, e ainda assim há ofensa. Exemplo corriqueiro é o marido que por preguiça não trabalha, e assim não provê a mantença da família, a rigor não quer ofender a esposa, pois sua intenção é somente a de não trabalhar. No entanto, há entendimentos no sentido de haver injúria a seu cônjuge em seu comportamento omissivo, o que induz à conclusão de que constitui injúria grave não apenas as ofensas à reputação e à dignidade do cônjuge, como também toda violação dos deveres conjugais.

Insere-se na constatação da injúria grave, portanto, segundo Cahali (1994, p. 384) os atos que violam o dever de fidelidade recíproca matrimonial, sem acontecer a relação sexual. É o adultério virtual, adultério tentado, buscado, ensaiado, preparado. São as intimidades sexuais com terceiro de sexo oposto, é a infidelidade moral ou espiritual. Apesar dessas nomenclaturas, explica Maciel (2008), comportamentos dessa natureza não tipificam propriamente “adultério”, que é definido como um ato que se configura com a prática voluntária de relação sexual extraconjugal. Logo, tais relacionamentos virtuais não são espécies de adultério e, deste modo, desautorizam a separação judicial fundada no inciso I do artigo 1.573 da Lei Civil. Tecnicamente, o “adultério virtual” ou o “quase-adultério” importam grave violação ao dever matrimonial de “respeito e consideração mútuos” e podem motivar o pedido de separação judicial culposa por “conduta desonrosa” contra o cônjuge que neles incorrer.

O adultério virtual, portanto, pode motivar o pedido de separação culposa com fulcro no “caput” do artigo 1.572 do Código Civil se resultar a impossibilidade de comunhão de vida entre os cônjuges, mas por força do inciso III ou mesmo do parágrafo único do artigo 1.573, e não do inciso I.

A imputação do adultério virtual, com a previsão do artigo 1.704, desobriga o cônjuge inocente de pensionar aquele que for declarado culpado na sentença de separação. No entanto, mesmo reconhecido culpado, o cônjuge adúltero terá direito aos alimentos indispensáveis à sobrevivência se provar a necessidade dessa prestação, desde que prove não possuir parentes em condições de prestá-los, nem aptidão para o trabalho, conforme parágrafo único do artigo supracitado.

No cotidiano forense, casos de adultério virtual já não são tão raros. Prova disso é o julgado do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, ementado nos seguintes termos:

Alimentos – Provisórios – Mulher casada – Pendência de separação judicial ajuizada pelo marido – Imputação de conduta desonrosa à esposa, manifestada em infidelidade virtual – Interferência na motivação da tutela emergencial – Mulher, ademais, habilitada para o trabalho – Provisórios negados – Inteligência do artigo 19 da Lei Federal nº 6.515/77 – Recurso não provido. (AI nº.206.044-4)

Além disso, o cônjuge responsável pela separação pode ficar com a guarda do filho menor, em se tratando de solução que melhor atenda ao interesse da criança, pois sua má conduta perante os valores matrimoniais não o impede de fornecer ao filho todos os cuidados essenciais ao seu bom desenvolvimento. Deve-se, portanto prevalecer o interesse do menor.

Assim, percebe-se, atualmente, a irrelevância da culpa em relação à prestação de alimentos e à guarda dos filhos menores, restando aos juízes interpretar e analisar cada caso concreto de modo a resguardar os direitos mais importantes para a pessoa humana.

3.2 DAS PROVAS

Quando se fala em Direito no Brasil é impossível não mencionar a Carta Magna de 1988, a suprema guardiã dos direitos invioláveis de todos os brasileiros. Dentre eles, estão protegidos em seu artigo 5º. a intimidade e a vida privada das pessoas, inclusive o sigilo das correspondências, das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas.

Um computador, por exemplo, é inviolável, ninguém podendo ter acesso aos dados nele contidos sem o consentimento de seu legítimo proprietário. Porém, tal inviolabilidade não surte efeitos a partir do momento em que a mesma máquina é utilizada por duas pessoas casadas vivendo na mesma residência, além de seus filhos e outros parentes que componham a família.

Nesse diapasão, segundo A. Pinheiro (2006), em maio do ano de 2006 decidiram os ministros do Supremo Tribunal Federal que os dados armazenados na memória do computador não têm direito ao sigilo que a Constituição Federal reserva à correspondência. O voto vencedor foi o do relator, ministro Sepúlveda Pertence, que sustentou que a CF/88 protege a troca de dados, e não os dados em si. Segundo ele, os dados contidos no computador não estão protegidos pela lei. A inviolabilidade refere-se à interferência de um terceiro na troca destas informações. Se os dados fossem invioláveis também, o ministro acredita que qualquer investigação administrativa seria impossível.

Direito Civil – Ação de Indenização – Dano Moral – Descumprimento dos deveres conjugais – Infidelidade – Sexo Virtual (Internet) – Comentários Difamatórios – Ofensa à honra subjetiva do cônjuge traído – Dever de indenizar – Exegese dos arts. 186 e 1.566 do Código Civil de 2002 – Pedido julgado procedente. (Processo nº. 2005.01.1.118170-3)

Sendo assim, o correio eletrônico, uma inovação tecnológica que facilita a comunicação entre as pessoas, é indubitavelmente a principal prova a ser produzida em eventuais processos de separação litigiosa e pedidos de indenização por danos morais. Tal produção probatória seria ilícita tendo em vista que o sigilo constitucionalmente garantido à correspondência, aos “e-mails” se estende. Contudo, quando o internauta guarda suas correspondências eletrônicas em arquivos no computador de uso familiar ou até mesmo consente que outros membros da família, como o seu cônjuge, por exemplo, tenham conhecimento de sua senha pessoal que permite acesso a conteúdos restritos, é óbvio que não há que se falar em sigilo conferido às correspondências.

Cumprirá ao cônjuge autor do relacionamento virtual provar que os arquivos não estavam no computador da família; que o seu cônjuge não possuía senha de acesso ao seu correio eletrônico, ou, ainda, que a obtenção se deu por meio de invasão aos seus arquivos sigilosos, para configurar a quebra de sigilo.

Ademais, tendo em vista a facilidade de produção e adulteração de documentos digitais por meio do computador sem deixar vestígios, cumpre indagar sobre a veracidade e autenticidade das provas obtidas. Neste caso, a solução somente seria viável através da técnica da certificação eletrônica, a fim de atribuir-lhe a validade jurídica esperada, pois a autoria do documento impresso não é segura.

Assim, se torna mais frequente nos processos de separação judicial a apresentação de cópias de e-mails e mensagens do Messenger e Orkut para configurar o adultério virtual, uma situação em que não há prova do sexo, e sim do envolvimento amoroso com terceira pessoa por meio da conexão à rede mundial de computadores.

Por derradeiro, importante destacar que, para efeito de separação judicial, face ao princípio da dignidade da pessoa humana, e evitando aos cônjuges constrangimentos sérios e desnecessários, melhor seria assumir o paradigma do desamor, bastando a vontade deliberada de um não querer mais viver junto.

3.3 DO DANO MORAL

Qualquer que seja o tema a ser estudado é imprescindível a abordagem sistemática de todos os ramos do Direito, tornando o texto mais completo a fim de reduzir as dúvidas acerca do assunto. Com esse propósito, se torna adequada e necessária a apreciação, no presente trabalho, dos reflexos no campo da Responsabilidade Civil.

Novamente recorre-se à Constituição da República de 1988 que assegura, entre os direitos e deveres individuais e coletivos, o direito à indenização pelo dano material ou moral sofrido por qualquer pessoa em decorrência da violação de sua intimidade, sua vida privada, sua honra e sua imagem.

O adultério virtual pode, indiretamente e dependendo do caso concreto, causar o dano material, entretanto o que tem sido pleiteado nos tribunais é o seu efeito imediato, o dano moral. Para entender a essência do dano moral, é preciso considerar cada tempo social, isto é, em cada época tem-se uma sociedade com sentimentos e conceitos diversos.

O ser humano tem, segundo Silva (2004, p.100), uma esfera de valores próprios que são postos em sua conduta não apenas em relação ao Estado, mas, também, na convivência com os seus semelhantes. Por isso, respeitam-se não somente aqueles direitos que refletem no seu patrimônio material, mas aqueles direitos relativos aos seus valores pessoais, que repercutem nos seus sentimentos. Esse cenário não pode ser mais ignorado em uma sociedade que se tornou invasora porque reduziu distâncias, tornando-se pequena, e, por isso, poderosa na promiscuidade que propicia. Para Cahali (1998, p. 20), “dano moral é tudo aquilo que molesta gravemente a alma humana, ferindo-lhe gravemente os valores fundamentais inerentes à sua personalidade ou reconhecidos pela sociedade em que está integrado”.

É evidente que a vida em comum impõe restrições que devem ser seguidas para o bom andamento da vida do casal e do relacionamento. Alguém que se torna vítima de seu próprio cônjuge por ele ter se relacionado virtualmente com terceira pessoa, tem afetada a sua honra subjetiva, cujo abalo não pode ser documentado nos autos de um processo, bastando a demonstração da ocorrência do ato ilícito que originou a ofensa extrapatrimonial. Assim a força probante do ato ilícito gera presunção juris tantum de ocorrência de danos morais.

A honra subjetiva, portanto, por estar no psiquismo de cada indivíduo, diz respeito à auto-estima, ao sentimento ou consciência da própria dignidade, representando uma fonte de elevada satisfação espiritual, que quando ofendida, causa dor e humilhação.

Sendo assim, não restam dúvidas sobre a possibilidade de a vítima de adultério virtual vir a pleitear no Judiciário a amenização em forma pecuniária de toda dor, humilhação, decepção e frustração causadas pelo desvio de conduta praticado por seu cônjuge através da tela de um computador conectado, pela Internet, a outra pessoa com quem mantém um relacionamento extraconjugal.

Cumpre destacar que os valores das indenizações devem respeitar o princípio da razoabilidade, de forma que amenize o sofrimento da vítima, sem, contudo, permitir o enriquecimento indevido e, ao mesmo tempo, seja capaz de causar um efeito de sanção ao cônjuge faltoso.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Primeiramente, deve-se atentar para o fato de que a Internet, quando bem manuseada e para fins lícitos, é um instrumento que beneficia todos os seus usuários, constituindo uma das mais incríveis realizações tecnológicas. Tal observação tem como escopo enfatizar o verdadeiro objetivo do presente artigo, o qual não é manchar o conceito da rede mundial de computadores, e nem conseguiria fazê-lo, mas advertir sobre o seu uso indevido que propicia imensos malefícios ao instituto Família, essencial à viabilidade de uma sociedade. Portanto, a internet é, indubitavelmente, um caminho poderoso de aproximação entre as pessoas, porém, pode ter conseqüências desastrosas quando não é bem utilizada.

Necessário expor, pela intensa vulnerabilidade do ser humano no campo sentimental e emocional, que os relacionamentos virtuais devem ser considerados como um veículo ou condutor para o início da destruição da estrutura familiar, posto que logo se transformam em envolvimentos reais, condenando ao fracasso a relação conjugal. Porém, tal conclusão não é absoluta, pois a carga de subjetividade presente em tal situação não possibilita uma visão única, intensamente variável em cada caso concreto.

O fato é que a mentalidade humana não consegue bloquear as armadilhas advindas da tecnologia que se renova dia após dia. Com isso, surgem os vícios e os excessos que fogem ao controle da maioria das pessoas. É o caso do sexo virtual, que, cada dia mais fácil e atrativo, conduz os internautas a um mundo paralelo em que, para a satisfação do prazer, basta apenas um clique. Este ato de clicar se torna cada vez mais frequente, afastando o indivíduo da realidade da família, ou seja, ele deixa de ter o contato necessário com o cônjuge e com os filhos, causando um desconforto confrontante com o que verdadeiramente se espera de um pai ou mãe, e de um marido ou esposa.

A relação, então, se torna precária e alcança o seu limite de tolerância quando o cônjuge flagra o outro se comunicando carinhosamente através de palavras ou gestos com outra pessoa pela internet. Dependendo do caso, considerando-se o caráter subjetivo analisado neste estudo, a separação do casal será inevitável.

Todavia, a caracterização ou não do adultério virtual há que ser analisada com muita atenção, visto que nessa ligação não há contato físico entre os internautas, embora haja emoção e prazer. São contatos sem identidade precisa, dependentes de uma máquina para a sua comunicação. Não há convivência, há uma paquera sem atração pelo corpo real, fácil de ser esquecida, pois faltam elementos complementadores que, em boa parte dos casos, farão com que a paixão termine quando houver um encontro real. Não há obrigações exigíveis por parte dos amantes virtuais, tornando o relacionamento especial, mas não tão compromissado quanto o real.

Considerando-se o conteúdo deste artigo científico, cumpre destacar a variedade de opiniões acerca da possibilidade de consumação do adultério virtual. Pelas pesquisas apresentadas, buscadas na área da Psicologia e realizadas aqui no Brasil, nos Estados Unidos, e na Itália, há uma grande divergência de conceitos que são próprios de cada indivíduo inserido em sua respectiva formação social e cultural. Por outro lado, tem-se variedades de acepções técnicas fornecidas pelos diversos autores que se manifestaram sobre o tema.

Essa diversidade de concepções fornece ao cônjuge virtualmente traído elementos argumentativos para tornar possível o pedido de separação judicial. Assim, em caso de adultério virtual, o desfazimento da sociedade conjugal poderá ser requerida com fundamento na injúria grave, por violação dos deveres de fidelidade recíproca matrimonial ou de respeito e consideração mútuos, ou até mesmo na alegação de conduta desonrosa. Quanto às provas, conforme texto extraído de decisão do Supremo Tribunal Federal, o cônjuge poderá utilizar-se dos arquivos contidos no computador de uso comum da família, cujos dados não estão protegidos pela lei, a qual se refere à interferência de um terceiro na troca destas informações armazenadas na memória daquela máquina.

Cumpre destacar ainda, nestas últimas palavras, a possibilidade de uma pessoa, considerando o relacionamento virtual de seu consorte com terceira pessoa uma forma de adultério, vir a pleitear judicialmente uma compensação pelos danos morais sofridos, pois não há como negar que ela teve a sua honra subjetiva ofendida, bastando demonstrar a ocorrência do ato ilícito, gerando a presunção relativa de ocorrência dos danos morais.

Por derradeiro, a conclusão mais prudente que se poderia aduzir no presente estudo é que o pedido de separação com base em adultério virtual é uma decisão pessoal, na qual descabe a intervenção do Estado exigindo a identificação de um responsável, ou seja, basta o rompimento do elo amoroso, pois a maioria dos relacionamentos virtuais se apresenta como uma fuga da relação pouco gratificante que as pessoas vivem. Há que se considerar que o insucesso de um relacionamento não acontece de uma hora para outra. É um processo longo para o qual muitas vezes contribuem os dois parceiros com suas dificuldades pessoais. A verdadeira causa da culpa, quase sempre, se constrói com a participação de ambos os cônjuges.

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Análise das Propostas e Práticas da Leitura e Escrita da Educação de Jovens

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Descrição das principais atividades desenvolvidas durante o período do estágio:

• Se o estágio foi desenvolvido no laboratório, relacionar as análises que acompanhou ou executou, os métodos analíticos, o sistema de gerenciamento do laboratório, qual o quadro de colaboradores;

Manual de Boas Práticas em Laboratórios

Microbiológico e Físico Químico em Usina de Beneficiamento de Leite

Introdução:

O funcionamento de um laboratório exige uma série de atividades das quais se faz necessário o uso de alguns equipamentos e reagentes. O uso repetido dos reagentes pode acarretar vários danos à saúde do laboratorista quando manuseados de uma maneira imprópria.

Além do risco de contaminação química, os laboratoristas estão expostos a agentes etiológicos patogênicos, podendo sofrer infecções sérias.

O requisito fundamental para a prevenção de acidentes é a montagem de um laboratório segundo as normas e padrões adequados para seu funcionamento.

Sendo assim, este manual tem como objetivo alertar os funcionários de laboratórios sobre os perigos específicos de cada reagente, quais os cuidados a serem tomados durante o seu manuseio, o procedimento adequado caso entre em contato com o laboratorista, e também orientar sobre o uso correto de equipamentos, dessa forma garantindo a segurança.

Produtos Químicos e Danos Causados

Produtos Químicos de Riscos

Ácidos concentrados: altamente corrosivos, produzem vapores asfixiantes, calor e possíveis explosões ou derramamentos quando misturados com água, especialmente o ácido sulfúrico, a intensidade da ação corrosiva de um ácido sobre a pele, mucosas, olhos, tecidos do trato respiratório e digestivo depende da natureza do ácido, de sua concentração e do tempo de contato.

Ácido Clorídrico: os vapores são irritantes das vias respiratórias.

Ácido Sulfúrico: vapores provocam irritações das mucosas, corrosão dos dentes, dificuldades de respirar, bronquite, edema na laringe e pulmões e perda dos sentidos, na pele, as soluções diluídas causam dermatites irritativas e soluções concentradas causam alterações e destruição dos tecidos.

Álcalis Concentrados: são altamente corrosivos e podem produzir vapores asfixiantes.

Hidróxido de Sódio: a inalação provoca danos no trato respiratório podendo chegar à pneumonia grave, provoca corrosão em todos os tecidos, em contato com os olhos pode causar opacidade na córnea, edema pronunciado e ulcerações que podem levar a cegueira.

Hidróxido de Amônio: a inalação provoca irritação das vias respiratórias, a exposição intensa provoca pneumonia e morte, em contato com a pele provoca irritação e queimaduras, nos olhos, provoca opacidade da córnea e do cristalino.

Cuidados Gerais com os Produtos Químicos de Riscos

• Sempre adicionar ácido à água lentamente e cuidadosamente e se possível usar um contêiner adicional;
• Usar luvas e óculos de proteção, quando trabalhar com as substâncias corrosivas;
• Quando trabalhar com substâncias venenosas manter antídoto à mão e usar luvas;
• Pequenos derramamentos devem ser removidos com água abundante, e grandes derramamentos necessitam de diluição com solução alcalina;
• Líquidos inflamáveis nunca usá-los nas proximidades de uma chama nua, nunca estocá-los em refrigerador normal, pois a formação de vapor pode causar ignição pelo refrigerador;
• Quando utilizar éter nunca deixar uma chama nua no mesmo laboratório, pois o vapor emanado pode causar a ignição do fluido no contêiner.

Substâncias Carcinogênicas

• Fucsina (ácida e básica).

Precauções no Manuseio de Cancerígenos

• Registro preciso deve ser feitos das quantidades de qualquer carcinogênico conhecido utilizado, bem como da pessoa que o utilizou;
• Carcinogênicos conhecidos devem ser estocados em contê ineres fechados e claramente identificados e descrevendo os conteúdos e informando que são cancerígenos;
• Conduzir o trabalho com produtos que produzem vapores em uma capela, mas ter a certeza de que tipo de filtro absorverá o produto químico que você deseja utilizar;
• As áreas de trabalho devem ser bem definidas, bem ventiladas, com pias e torneiras e a bancada coberta, se possível, com um material descartável apropriado;
• Devem ser utilizados luvas e aventais apropriados;
• Os materiais contaminados devem ser descartados de modo que não causem perigo a outras pessoas;
• Muito cuidado deve ser tomado ao utilizar substâncias voláteis e pós para não inalar vapores ou poeira, se possível utilizar pós em suspensão ou na forma de pasta, evite formar aerossóis, por exemplo, gotejando soluções ou assoprando pipetas;
• Utilizar máscaras de proteção descartava;
• Assegurar se do que fazer no caso do produto químico espirrar ou entrar em contato com a pele, antes de começar a trabalhar com ele;
• Cuidado para não ingerir essas substâncias;
• Não lamber etiquetas, rótulos, ou qualquer coisa mais do laboratório.
• Não pipetar com a boca;
• Se a pele estiver contaminada, utilizar sabão e água fria para limpar;
• O descarte e a limpeza de respingo deve ser feitos com cuidado.

Classificação e Características de Produtos Químicos

Consultar a Tabela 1: Características e riscos das substâncias químicas freqüentes em laboratórios microbiológicos e químicos.

Classificação de Agentes Biológicos por Grupo de Risco

Os microrganismos são classificados em 4 grupos em ordem crescente de periculosidade.

Grupo de risco 1: Riscos individual e comunitário baixo, são os microrganismos que têm pouca probabilidade de provocar doenças humanas ou doenças de importância veterinária.

Grupo de risco 2: Riscos individual moderado e comunitário limitado, microrganismos que podem provocar doenças humanas ou enfermidades em animais, mas que possuem poucas possibilidades de causar um risco grave para o pessoal do laboratório, a comunidade e ao meio ambiente. A exposição em laboratório pode provocar uma infecção grave, porém já de dispõe de medidas eficazes de tratamento e prevenção e o risco de propagação é limitado.

Neste grupo estão incluídos todos os patogênicos comuns que podem ser encontrados no meio ambiente, bem como no homem e em animais.

Grupo de risco 3: Riscos individual elevado e comunitário baixo, microrganismos que provocam doenças graves em humanos, mas que, em princípio não se propagam de uma pessoa infectada à outra.

Grupo de risco 4: Riscos individual e comunitário elevados, microrganismos que provocam enfermidades graves em humanos e podem propagar se facilmente de um indivíduo a outro, direta ou indiretamente.

Para este trabalho é requerido laboratórios especiais e isolados.

Relação de Equipamentos utilizados nos Laboratórios (microbiológico e físico químico)

1- Autoclave
2- Centrífugas
3- Luz Negra
4- Estufas
5- Destilador de água
6- Infravermelho Eletrônico
7- Balança Eletrônica
8- Geladeira
9- Crioscópio Eletrônico
10- Outros Equipamentos

Autoclaves

São utilizadas durante a operação de esterilização de material contaminado, para fins de descarte, ou no preparo de material não contaminado para ensaios químicos e/ou microbiológicos.

Devem receber inspeção periódica e manutenção preventiva.

As instruções de operação e manuseio devem ser colocadas em local próximo. Antes de se iniciar a autoclave:

Deve ser fechada a tampa, forte e uniformemente, retirando se todo o ar, pois a mistura de ar e vapor não permitirá que todo o calor do vapor entre em contato com o material a ser esterilizado, bem como poderá falsear a leitura do termômetro e manômetro.

As leituras do manômetro e do termômetro devem ser continuamente observadas.

Todos os vapores devem ser retirados antes de abrir a tampa da câmara da autoclave.

Principais perigos:

• Queima pelo contato físico com a autoclave ou seu material.
• Queima pelo vapor.
• Explosão de recipientes, durante a abertura ou descarte do material.

Precauções no uso:

• Manter as instruções de uso e observações importantes anexas ao aparelho ou no recinto em que ele se encontra.
• Antes de utilizar uma autoclave com a qual não tenha familiaridade, pedir orientação e exigir treinamento.
• Afrouxar as tampas de rosca quando entrar com o material na autoclave.
• Não sobrecarregar a autoclave.
• Evitar o contato com a parede da autoclave durante o uso.
• Antes de abrir a autoclave certificar se de que a pressão retornou à atmosfera.
• Ter certeza do funcionamento da válvula de alívio.
• Abrir e retirar o material esterilizado com cuidado.
• Evitar vapores residuais.
• Manter a autoclave em local limpo e pronto para o uso.
• Relatar eventuais problemas com respeito ao funcionamento.
• Não auto clavar desinfetantes fenólicos.
• Não deixar que compostos de mercúrio entrem em contato com autoclaves feitas de alumínio.
• Não auto clavar tubos de centrifuga de nitrato de celulose, pois pode explodir.
• Esterilizar ou desinfetar todas as culturas utilizadas e os materiais contaminados devem ser descartados em contêiner contendo desinfetantes ou para uma esterilização imediata.
• Relatar acidentes, particularmente com lesões.
• Se houver algum motivo para suspeitar que uma infecção originou-se do trabalho com microrganismos, informar seu médico e o laboratório imediatamente.
• Respingos de cultura devem ser IMEDIATAMENTE limpos com desinfetantes apropriados.

Centrifugas

Principais perigos:

• Contato com o eixo.
• Falha do rotor causada por sobrecarga ou corrosão.
• Grandes vibrações causadas por balanceamento incorreto.
• Uso de tubos de plástico ou vidros danificados

Precauções no uso:

• As instruções de uso do fabricante devem ser cuidadosamente seguidas.
• Examinar os tubos de cada centrifugação para detectar possíveis trincas.
• Fechar a centrífuga antes de colocá-la em marcha e somente abrir quando estiver parada.
• Certificar-se do correto equilíbrio do material para que não haja possibilidade de espirrar líquido ou quebrar ampolas durante a operação.
• Antes do uso, certificar-se de que os recipientes estejam bem assentados e equilibrados no suporte e que girem livremente. Aumentar a velocidade lentamente e parar a máquina se alguma anormalidade ocorrer.

Luz Negra

Principais perigos:

• O comprimento de onda da luz negra (300-320nm) pode causar câncer de pele e irritação nos olhos.

Precauções no uso:

• Caso haja pessoal trabalhando na presença de luz negra, orientar para que não olhem diretamente para ela.
• Desligar a luz negra antes de manusear culturas na câmara.
• Se for necessário trabalhar na presença de luz negra de comprimentos de onda na faixa de 300-320nm, usarmos luvas e cobrir a pele.
• Certificar-se de que as unidades de luz negra estejam posicionadas de modo a não iluminar diretamente nenhum trabalhador.



Estufas

Precauções no uso:

• A temperatura deve ser observada constante mente.
• Nunca manusear o material a ser esterilizado, ou já estéril, sem luvas próprias para alta temperatura.
• Em casso de emergência desligar a chave geral.
• Só abrir a estufa quando fria, pois o contato de ar frio com a vidraria muito aquecida pode provocar quebras e os estilhaços de vidro poderão atingir o operador.

Destilador de Água

Precauções no uso:

• Antes de desligar o aparelho, deve se certificar de que o nível de água esteja superior ao boiler, caso contrário corre se o risco de queimar as resistências.
• Não esgotar o boiler enquanto as resistências estiverem incandescentes.
• O fluxo de água que alimenta o destilador não deve ser interrompido.
• Em caso de emergência, a chave geral deve ser desligada e máscaras e luvas devem ser utilizadas adequadamente na operação.

Infravermelho Eletrônico

Balança Eletrônica

Geladeira

Crioscópio Eletrônico

Precauções no uso:

• Devem ser operados com as mãos secas e devem estar sempre ligados ao fio terra.
• Nunca utilizar equipamentos elétricos próximos a solventes e inflamáveis.

Boas Práticas Laboratoriais

O trabalho, seguro no laboratório requer auto disciplina, procedimentos de limpeza da bancada de trabalho com um pano úmido embebido com álcool 70 %, antes e após o trabalho são recomendáveis, deve se também manter um frasco de álcool 70 % ao alcance, porém longe dos bicos de bünsen, para casos de acidentes com líquidos contaminados.

São relacionadas abaixo algumas precauções que devem ser tomadas.

Regras Gerais de Segurança:

• Antes de iniciar o trabalho com qualquer reagente ou meio de cultura, verificar os perigos do seu manuseio, lendo o rótulo e consultando a Tabela 1 deste manual.
• Não correr nos laboratórios ou nas dependências da fábrica.
• Evite iniciar um experimento em uma bancada lotada.
• Evite deixar um bico de Bünsen aceso.
• Não cheirar culturas ou produtos químicos.
• Não estocar comida ou bebida em refrigeradores do laboratório.
• Não usar jóias que podem ficar presas nos equipamentos ou maquinário.
• Não comer, beber, fumar ou colocar cosméticos no laboratório.
• Cuidado ao abrir e fechar portas do laboratório.
• Lavar sempre as mãos antes de deixar o laboratório ou no local mais próximo da saída.
• Não pipetar com a boca. Sempre utilizar pipetador automático.
• Sempre carregar vidrarias grandes com suporte adequado, nunca pelo “pescoço”.
• Sempre vestir aventais de laboratório quando aí estiver trabalhando, mas não nas salas de técnicos ou refeitórios.
• Sempre, após derramamento de uma cultura, pulverizar a atmosfera com uma névoa de água se.
• Um aerossol adequado. Colocar hipoclorito sobre o resíduo e após 10 min limpar, utilizando toalhas de papel ou lenços descartáveis, colocando-os posteriormente em um saco autoclavável para esterilização.
• Não trabalhar com vidraria quebrada ou trincada.
• Não encher o recipiente de fervura até a borda. Deixar espaço suficiente para não ocorrerem respingos e derrame durante a fervura e, quando necessário, usar recipiente com alças.
• Não deixar produtos inflamáveis próximos às chamas.
• Não dobrar as mangueiras do bico de Bünsem e/ou maçarico. Apagá-los quando não forem usados.
• Não entrar em salas com lâmpadas que emitam radiações ultravioletas ou infravermelhas com as fontes ligadas.
• Não dirigir a abertura dos tubos de ensaio ou frascos que contenham reagentes ou que esteja em fervura contra si ou outrem.
• Prestar atenção especial às operações em que ocorra aquecimento ou reação violenta.
• Transportar cuidadosamente os materiais quentes, ferventes, corrosivos, inflamáveis e contaminantes.
• Usar material de segurança individual necessário.
• Não pegar um frasco de reagente ou outro qualquer pela tampa: ela pode estar desrosqueada e o conteúdo cair causando um acidente.

Equipamentos e acessórios de proteção individual:

Os funcionários devem ser devidamente treinados quanto à necessidade e o uso correto desses equipamentos e acessórios, que devem ser aprovados pelo ministério do trabalho e atender a norma regulamentadora número 6.

A qualidade e a individualidade são dois requisitos fundamentais no uso de determinados equipamentos de proteção em laboratório, quanto à qualidade devem se examinar os equipamentos utilizados e avaliar as reclamações de alguns usuários acidentados que estavam supostamente protegidos, o uso individual de equipamentos e a sua higienização evitam a possível transmissão de doenças, os principais EPIs são os aventais de tecido, amianto ou de pvc, cobertor de segurança, luvas de amianto, cirúrgica e de pvc, máscara contra gases, pó e vapores tóxicos, óculos de segurança e protetores faciais.

• Luvas
• Óculos de proteção
• Jalecos e aventais
• Mantas contra fogo
• Máscaras de proteção respiratória
• Pitadores mecânicos e automáticos

Organização

A organização e a ordem no laboratório reduzem e auxiliam no controle de um incêndio, todo o laboratório deve contribuir na ordem geral, os seguintes aspectos devem ser observados:

• Corredores de circulação, passagens e saídas de emergência devem ser mantidos sem obstrução.
• Todas as superfícies dos pisos devem ser mantidas em boas condições, derramamentos e material resultante de quebras devem ser imediatamente limpos e as precauções devem ser tomadas para aquele tipo de derramamento.
• A caixa de primeiros socorros, os extintores de incêndio e a caixa de força deve ser de fácil acesso.
• Relatar os equipamentos defeituosos ou com problemas.
• Não fumar no laboratório, além de ser problemas à saúde e poder causar incêndios também aumenta os riscos de infecções.
• Etiquetar todos os produtos químicos que estiver utilizando não deixar recipientes sem etiquetas para outras pessoas descartarem.
• Nunca subir em caixas ou cadeiras para guardar produtos químicos em locais altos

Armazenagem de produtos químicos e meios de cultura:

Local de armazenagem e critérios gerais:

Na armazenagem de produtos químicos devem-se levar em conta que os produtos podem ser voláteis, tóxicos, corrosivos, inflamáveis e peroxidáveis. Em função disso, o local deve ser amplo, bem ventilado, com prateleiras largas e seguro, preferencialmente com exaustão, com duas saídas e instalação elétrica à prova de explosões.

Critérios a serem adotados na armazenagem:

• Todos os produtos devem ser identificados.
• Verificar periodicamente o prazo de validade dos produtos, fazendo o seu descarte com prazo vencido.
• Não armazenar vidrarias junto com reagentes.
• Estocar os produtos agrupados em famílias e com distâncias de 0,5 a 1,0m.
• Produtos corrosivos, como ácidos e bases, e inflamáveis e explosivos, devem ficar em armários e prateleiras próximos ao chão, preferencialmente com exaustão.
• Produtos inflamáveis e explosivos devem ficar distantes alguns metros dos produtos oxidantes.
• Líquidos voláteis que requerem armazenagem a baixas temperaturas devem ser armazenados em refrigeradores à prova de explosão.
• Acesso restrito à pessoa credenciada.
• Manter, no local de armazenagem, extintor de incêndio.

Produtos químicos incompatíveis para armazenagem:

A armazenagem dos produtos deve ser feita considerando se a sua incompatibilidade, podem causar sérios se não respeitada, a incompatibilidade dos produtos para a armazenagem.

Procedimentos com produtos químicos

• Derramamentos acidentais
• Quando ocorre derramamento de produtos deve se proceder da seguinte maneira:
• Isolar a área e comunicar a todos que se encontram no laboratório.
• Comunicar o responsável pela segurança.
• Proteger se com máscaras de respiração, luvas, óculos e outros equipamentos que se julgar necessário.
• Apagar as chamas.
• Desligar aparelhos, aquecedores elétricos, estufas, muflas, etc.
• Promover a ventilação e ou exaustão do ambiente.
• Em casos de derramamento de ácidos ou álcalis adicionar um adsorvente tipo diatomácea.
• Em casos de derramamento de solventes orgânicos adicionarem carvão ativo.
• Remover à massa resultante com uma pá, colocando a em sacos plásticos ou em recipientes metálicos convenientes caso o produto reaja com plástico.
• Providenciar a limpeza do local e deixar ventilar até não se Ter mais vapores residuais no ar.
• Aconselha se o uso de equipamento de medição adequado, tipo explosímetro ou outro disponível, nos casos de produtos orgânicos ou tóxicos.

Descarte de resíduos

Os resíduos provenientes das analises em laboratório podem ser líquidos, sólidos, gases e vapores das reações; deve se proibir o descarte diretamente no esgoto, proceder como descrito abaixo:

 Descarte de gases ou vapores: Os gases, vapores e névoas devem ser gerados dentro de capelas ou coifas de captação e devem ser conduzidos até a atmosfera externa do laboratório, podendo ser nela lançados até o limite permitido pela legislação.

• Descarte de líquidos orgânicos: Halogenados (clorofórmio, diclorometano Karl Fisher etc.), devem ser acondicionados em bombas de polietileno de alta densidade e destinados a área de descarte. Não halogenados (alcoóis, cetonas, tensos ativos fenóis, etc.), devem ser acondicionado em bombas de polietileno de alta densidade e destinado a área de descarte.
• Líquidos orgânicos de origem biológica, como: alimentos contaminados, meios de culturas etc.; estes, efetuar a esterilização para o descarte no esgoto, ou fazer a incineração.
• Descarte de líquidos inorgânicos: Deverão ser acondicionados em bombonas de polietileno de alta densidade, fazer a correção do pH, quando necessário que deve ficar entre: 5 a 9, e destinar a área de descarte.
• Descarte do resíduo sólido, orgânico não recicláveis perigosos: (meio de cultura e alimentos contaminados) deverão ser acondicionados em barricas de plásticos e destinadas ao descarte de resíduos para incineração.
• Descarte do resíduo sólido, orgânicos não recicláveis e não perigosos: (papel, toalha de papel, algodão, etc.) deverão ser acondicionados em sacos plásticos e destinados à coleta municipal.
• Descarte dos sólidos inorgânicos, sólidos não recicláveis perigosos, sais contaminados: sempre que possível proceder à descontaminação e enviar para a coleta de lixo municipal, os sólidos inorgânicos não recicláveis não perigosos, sais sílica, alumina, assim que classificados deverão ser acondicionados em sacos plásticos e destinados à coleta municipal de lixo.
• Descarte de embalagens contaminado com resíduos de produtos químicos:

1- Condição de reutilização: As embalagens de vidro usadas podem ser reutilizadas desde que seja feita a descontaminação da embalagem.
2- Condição de descontaminação: A descontaminação e a avaliação visual das embalagens de vidro deverá seguir o procedimento descrito a seguir:

• Se o produto for miscível em água, a exemplo dos ácidos, lavarem as recipientes três vezes sob agitação, a água de lavagem deve ser armazenada em recipiente próprio para descarte e tratado como resíduo.
• Caso não seja miscível em água fria ou no caso de solventes, adotar a orientação acima, porém utilizando etanol, após a lavagem o etanol deverá ser armazenado como resíduo, em recipiente próprio para o descarte.

Nota: as embalagens de material reciclável deverão ser destinadas à coleta seletiva do município ou poderão ser retornadas ao fornecedor do produto para reutilização.

Incêndios: causas e controle

Um incêndio é um processo no qual se desenrola uma reação de combustão, para iniciar e se propagar, precisa de três componentes, a saber, o inflamável ou combustível, o comburente e o calor, chama ou faísca, o comburente é o elemento que alimenta a chama e é o oxigênio presente no ar atmosférico; os combustíveis podem ser materiais sólidos, tais como tecidos, plásticos, madeira, óleos lubrificantes, etc., ou produtos químicos inflamáveis, tais como gases inflamáveis, derivados de petróleo, solventes industriais e reagentes químicos de uso nos laboratórios.

Temos a seguir como são classificados internacionalmente os incêndios, dependendo do material combustível.

Classe A: com materiais combustíveis, tais como: madeira, tecidos, aglomerados, plásticos, etc.
Classe B: com líquidos inflamáveis, tais como: alcoóis, cetonas, derivados de petróleo, etc.
Classe C: com equipamentos elétricos energizados.
Classe D: com materiais pirofóricos.

Fontes causadoras de incêndios

Fontes causadoras de incêndios com as quais devemos tomar os devidos cuidados:

• Equipamentos elétricos mal conservados, mal operados ou conectados em rede elétrica errada.
• Sobrecarga da rede elétrica por conectar vários aparelhos na mesma tomada ou aparelho de alto consumo de energia, onde a fiação não suporta a amperagem.
• Vazamentos de gases inflamáveis em bico de bünsen, tubulações de gás ou válvulas de cilindros de gases inflamáveis.
• Estocagem de líquidos inflamáveis e voláteis em refrigeradores de uso doméstico, cujos sistemas de partida produzem faíscas elétricas.

Líquidos inflamáveis

O manuseio de líquidos inflamáveis constitui se num dos maiores riscos de acidentes ocasionando queimaduras e incêndios.

Os solventes possuem algumas propriedades que devem ser consideradas para o seu manuseio com segurança, primeiramente temos o ponto de fulgor, definido como a menor temperatura na qual, com a passagem de uma pequena chama a certa distância do líquido, ele irá produzir uma pequena explosão, portanto quanto menor o ponto de fulgor mais perigoso é o líquido.

Cuidados para evitar incêndios no laboratório:

• O manuseio de líquidos inflamáveis deve ser na ausência de chamas de bicos de bünsen e de equipamentos elétricos com sistemas de aquecimento, bem como sistemas de liga desliga que produzem faíscas elétricas, quando acionados.
• Aquecimento de líquidos inflamáveis deve ser feito em capela com exaustão, tendo próximo a um extintor de incêndios.
• Antes de ascender o bico de bünsen, certifique se que não há vazamento de gás, verifique a condição da mangueira e retire recipientes com líquidos inflamáveis do local.
• Revisar periodicamente o estado das fiações de aparelhos elétricos de alto consumo de energia, tais como fornos, estufas, chapas aquecedoras e banhos termostáticos.
• Voláteis inflamáveis em refrigeração do tipo doméstico, havendo necessidade devem se adquirir refrigerador especial, à prova de explosão.
• As salas de extrações ou de recuperação de solventes voláteis devem ser dotadas de sistema de exaustão, nunca se deve usar fogo e os equipamentos elétricos, bem como as tomadas elétricas e lâmpadas devem ser à prova de explosão.
• Não armazenar solventes inflamáveis em armários debaixo da capela.
• Inspecionar e limpar periodicamente o sistema de ventilação e filtros de admissão de ar dos instrumentos eletrônicos do laboratório.

Ao terminar a jornada de trabalho:

• Desligue os instrumentos, aquecedores elétricos, feche pontos de água, registros e cilíndricos de gases.
• Coloque avisos nos instrumentos que deverão permanecer ligados.
• Não deixar frascos de reagentes abertos ou recipientes com líquidos inflamáveis próximos a aquecedores elétricos.

Acidentes

• No caso de acidentes comunique o chefe ou superior imediato.
• Se for necessário chame um médico ou ambulância.

Casos de emergência

Devem se ter à mão os seguintes endereços e telefones para casos de emergência:

• Hospital ou pronto socorro mais próximo.
• Serviços de emergência
• Prestadores de serviços de rede elétrica, hidráulica e de gás.

Análise Físico-Químicas

Análises Microbiológicas



Produtos Lácteos Geral

Produtos Acabados e em Processo.

1 – Manteiga de Primeira Qualidade

Gordura
Umidade
Microbiológica

2 – Doce de Leite Pastoso

Gordura
Umidade
Microbiológica
Preparação de Caldo Verde Brilhante, Caldo EC broth.
Pontos pretos

3 – Iogurte Batido e Bebida Láctea Fermentada

Microbiológica
pH
Acidez
Gordura
EST

4 – Queijos: Mussarela, Prato, Minas (Padrão e Frescal), Provolone, Parmesão e Ricota.

Gordura
Umidade
Microbiológica
Gordura de Água de Filagem
Umidade de Massa Prensada
Determinação cloreto de sódio no queijo

5 – Requeijão Cremoso e Culinário

Gordura, Umidade
Microbiológica

6 – Controle da Salga

pH
Densidade
Microbiologia: fungos e leveduras, coliformes totais e fecais.

Objetivo: objetivo deste manual, é avaliar o padrão de identidade e qualidade do produto final e ou em processamento, seja microbiológico ou químico e física, fabricados nesta unidade fabril.

1 – Manteiga

Produto Acabado

Análise de gordura: (ou creme industrial)

Utiliza-se butirômetro específico para manteiga de escala 0 a 100 %, adiciona-se 10 ml de ácido sulfúrico, 5,0 g da amostra e 10 ml de água destilada 1ml de álcool amílico, agita-se devagar, sem centrifugar e faz-se a leitura, subtrai-se 0,5 de erro do valor obtido.

Limite mínimo……………….. 82,0 % de matéria gorda sem sal

Limite mínimo…………………80,0 % de matéria gorda para matéria salgada

Análise de Umidade:

Coloca-se 2,0 g de manteiga a 1550 C no sistema de secagem por infravermelho. Faz se leitura em porcentagem após aproximadamente 5 minutos.

Valor máximo……………16,0 % de umidade

Análise Microbiológica:

Técnica: 1 Adiciona-se 25,0 g de manteiga completando-se até 225 ml com água esterilizada, bate-se em liquidificador e coloca-se em erlenmeyer esterilizado. Retira-se uma amostra de 1 ml com pipeta e transfere-se para petrifilm. Faz-se para Fungo e Levedura, Coliforme Fecal e Coliforme Total. (fator de diluição 10).

Técnica: 2 Usar placa de petri.

Resultado:

Coliforme Total/g…………m =10 M=100

Coliforme Fecal/g…………m < 3 M=10

OBS: Para todos os produtos, o resultado para Fungos e Leveduras determina-se em 5 dias, para Contagem global, coliforme total determina-se em 48 Horas em Placas de Petrifilm.

Processo: Creme de leite: Teor de gordura, Acidez.

2 – Doce e Leite e Derivados (beijinho, brigadeiro, cajuzinho, doce com coco)

Produto acabado

Análise de gordura:

Utiliza-se butirômetro de leite, adiciona-se 10 ml de ácido sulfúrico com densidade, 1770, 11 ml de doce diluído e 1ml de álcool amílico, como fazer: pesa se 20 g de doce de leite e diluí com 80 ml de água destilada, usa se balão volumétrico de 100 ml. Centrifugar e fazer leitura multiplicando-se o valor obtido por 5.

A matéria gorda deve ser acima de 6,0 % de gordura.

Análise de Umidade:

Coloca-se 1 g de doce de leite à 1450 C no sistema de secagem por infravermelho. Faz-se leitura em porcentagem em aproximadamente 15 minutos.

A umidade deve variar de 28 a 30 %. Padrão: 30 %.

Análise Microbiológica:

Se pega de 20 g de doce de leite dilui-se em aproximadamente 180 ml de água esterilizada. (sol. 11.00 %). Fator de diluição (9).

Para análise de coliformes, coloca-se em Banho – Maria para melhor diluição, distribui-se após diluição, 1ml para cada tubo de ensaio com Caldo Verde Brilhante, usa se 3 tubos para cada amostra de doce de leite.

Para análise de contagem global e Fungo e Levedura utiliza se 1ml da diluição para cada placa de petrifilm correspondente. (fator de diluição 5 ou 10 ).

Resultado: Se o Caldo Verde Brilhante for positivo, repica-se com alça de platina e transfere-se para o caldo EC broth, para confirmação da presença de Coliforme Fecal.

Padrão do doce de leite e derivados: conforme portaria 354 de 4.09.97

Contagem Global: máx.: não tem padrão.

Fungo e Levedura: máx.: 100

Coliforme Total: não tem padrão.

Coliforme Fecal: não tem padrão.

Staphylococcus áureos: (coagulação positiva) máx.: 100

Para o produto acabado: beijinho e ingredientes: fazer diluição fator: 10-1, 10 -2, para contagem geral.

Preparação de caldo verde brilhante:

Dissolve-se 40g de Caldo para cada 1litro de água destilada. Coloca-se 10 ml da solução em cada tubo de ensaio com tubo de Duram, utiliza-se 9 tubos para cada amostra. Tampa-se com tampa de alumínio ou algodão, esteriliza-se em autoclave por 15 min. à 120 0C. Atingindo-se a temperatura, marca-se 15 minutos e desliga-se a autoclave. Espera-se esfriar para sua utilização.

Preparação de caldo EC broth:

Coloca-se 37g de caldo EC e dissolve-se em 1000ml de água destilada. Coloca-se 10 ml em tubo de ensaio com tubo de Duram. Esteriliza-se em autoclave por 15 min. a 1200 C.

Utiliza-se 1 tubo para cada tubo positivo de caldo verde brilhante.

Resultado: A presença de bolha de ar representa que a amostra contém Coliforme Fecal. Anexa tabela de leitura de coliformes.

Análise dos pontos pretos: Análise dos pontos é feito através do microscópio, este teste é qualitativo que se determina a quantidade de pontos por área, esta classificação é feita em três escalas: 1 – poucos pontos, 2 – regular, 3 – muitos pontos.

Escala de ampliação do microscópio: 40 vezes.

Processo: Leite: acidez, gordura, hidrólise.

3 – Iogurte e Bebida Láctea Fermentada

Análise Microbiológica:

Retira-se diretamente da embalagem 1 ml de iogurte ou bebida láctea e coloca-se em Petrifilm.

Faz-se para fungos e Leveduras, Coliforme Fecal e Total.

Padrão de gordura:

Iogurte Integral: mínimo: 3.0 g / 100 g

Iogurte Desnatado: máx. 0.5 g / 100 g

Padrão de Proteínas:

Iogurte: mínimo 2.9 g / 100 g

Bebida Láctea: teor mínimo: 1.2 g / 100 g

Acidez do iogurte:

(g de ácido láctico / 100 gramas): 0.6 a 2.0

Técnica 2: fazer com placa petri – mesmo do leite pasteurizado.

Processo: leite: acidez, gordura.

4 – Queijos

Análise de gordura:

Utiliza-se butirômetro específico para queijo, adiciona-se 10 ml de ácido sulfúrico, 3,0 g de queijo e 1 ml de álcool amílico. Coloca-se na centrifuga por 15 minutos e faz-se a leitura.

Há variação da % da gordura para cada tipo de queijo.

Análise de Umidade:

Rala-se uma amostra retirada do meio do queijo e coloca-se 2,0 g a 1640 C por aproximadamente 10 minutos no Sistema de Secagem por infravermelho. Faz-se a leitura em %.

Há variação da % umidade para cada tipo de queijo.

Análise microbiológica:

Técnica 1:

Pesa-se 25,0 g de queijo completando-se para 225 ml com água esterilizada e bate-se em liquidificador. Coloca-se a amostra em um erlenmeyer esterilizado. Pipeta-se 1 ml da amostra e coloca-se em Petrifilm. Faz-se a análise para Coliforme Fecal, Coliforme Total e Fungo e Levedura. (fator da diluição 10).

Técnica 2: usar placa de petri

Requisitos:

a) Queijos de baixa umidade (U < 36%)

Coliforme Total/g m = 200 M = 1000
Coliforme Fecal/g m = 100 M = 500

b) Queijos de média umidade (36% < U < 46%)

Coliforme Total/g m = 1000 M = 5000
Coliforme Fecal/g m = 100 M = 500

c) Queijo de alta umidade excetuando os queijos: Quartirolo, Cremoso, Criolo e Minas Frescal (46% < U < 55%).

Coliforme Total/g m = 5000 M = 10000
Coliforme Fecal/g m = 1000 M = 5000

d) Queijos Quartirolo, Cremoso, Criolo e Minas Frescal (46% < U < 55%).

Coliforme Total/g m = 1000 M = 100000
Coliforme Total/g m = 1000 M = 5000

e) Queijos de muito alta umidade com bactérias lácticas em forma viável e abundante (U > 55%)

Coliforme Total/g m = 100 M = 1000
Coliforme Fecal/g m = 10 M = 100
Fungos e Leveduras/g m = 500 M = 5000

f) Queijos de muito alta umidade sem bactérias lácticas em forma viável e abundante (U > 55%)

Coliforme total/g m = 100 M = 1000
Coliforme fecal/g m = 50 M = 500
Fungos e Leveduras/g m = 500 M = 5000

g) Queijos Ralados

Coliforme total/g m = 200 M = 1000
Coliforme fecal/g m = 100 M = 1000
Fungos e Leveduras m = 500 M = 5000

h) Queijos Fundidos ou Reelaborados e Queijos Processados por UHT ou UAT

Coliforme Total/g m = 10 M = 100
Coliforme Fecal/g m < 3 M = 10

Obs.: m – M, entre o tamanho da amostra, que dado por n. Todos podem apresentar valores de m e os valores M é determinado por c.

Processo: Leite: acidez, Gordura.

Gordura de água de Filagem:

Para as massas que passam pelo processo de filagem, são separadas uma amostra de água de filagem, verificando-se assim o % da gordura perdida no processo.

Utiliza-se butirômetro de leite com 10 ml de ácido sulfúrico, 11 ml de água de filagem e 1 ml de álcool amílico. Centrifuga-se e faz-se a leitura direta.

Umidade da Massa Prensada:

Para as massas de Requeijão Cremoso e Culinário e Queijo. Rala-se a massa, coloca-se 2,0 g no equipamento de Secagem por infravermelho 1640 C por aproximadamente 10 minutos. Faz-se a leitura em %.

Teor de sal no queijo:

Princípio

Este método, titula se o excesso de AgNO3 com KsCn, em presença de NH4 Fe ( SO 4) 2 12 H2O, como indicador.

Material

Balança analítica, erlenmeyer de 250 ml, balão volumétrico de 250 ml, bureta graduada de 10 ml, papel de filtro.

Reagentes

Solução de nitrato de prata 0,1 N, ácido nítrico, permanganato de potássio 0,1 N, sulfato de ferro e amônio III (solução saturada).

Procedimento

• Pesar 3 g da amostra em um erlenmeyer, juntar um excesso de 25 ml de nitrato de prata 0,1 N, para haver reação com os cloretos presentes na amostra;
• Adicionar 10 ml de ácido nítrico e 50 ml de água fervendo;
• Ferver e agregar 15 ml de solução de permanganato de potássio a 5% em frações de 3 ml cada vez, a solução final deve ser amarela transparente;
• Esfriar e filtrar para um balão volumétrico de 250 ml, lavar com cuidado o papel de filtro deionizado, completar o volume do balão até a marca aferição.
• Titular o excesso de nitrato de prata em uma alíquota de 100 ml do filtrado claro, com solução de tiocianato de potássio, usando 2ml de sulfato de ferro e amônio III.

Prova em branco:

Ao mesmo tempo em que efetuar a determinação dos cloretos, realizar a prova em branco com o mesmo procedimento para a amostra, salvo que no lugar desta adiciona se para destruir o excesso de permanganato de potássio.

Cálculo

% sal = 5,85 x (Vb – Va) x Fe x 0,1 x 2,5 / pa
Vb – ml de KsCn gasto em branco
Va – ml de KsCn gasto na amostra
pa – peso da amostra expresso em gramas

5 –Requeijão Cremoso, Culinário.

Análise de gordura:

Pesa-se 20,0 g da amostra e completa-se para 100g de água destilada, utilizando um balão volumétrico, dilui-se e coloca-se em um butirômetro de leite, 10 ml de ácido sulfúrico, 11 ml da amostra diluído e 1 ml de álcool amílico. Centrifuga-se e faz-se a leitura, multiplicando-se o valor obtido por 5.

A gordura deve estar entre……………. 22,0 a 26,0 %.

Análise de Umidade:

Coloca-se 5,0 g da amostra no equipamento de Secagem por infravermelho a 1640C por aproximadamente 10 minutos. Faz-se a leitura em %.

Cremoso, a umidade deve estar entre……………61,0 à 65,0% ,

Culinário: máx. 60 %.

pH

Leitura direta através do Potenciômetro, escala de 0 a 14.

pH do produto acabado de 5,8 a 6,0.

Análise Microbiológica:

Técnica 1:

Pesa-se 25,0 g da amostra e completando-se com 225 ml de água esterilizada, coloca-se em banho-maria para diluir utilizando-se erlenmeyer esterilizado. Utilizando-se Bico de Bunsen, para flambar, pipeta-se 1 ml e coloca-se em petrifilm, faz-se para Coliforme Total, Coliforme Fecal e Fungo e Levedura. (fator de diluição 10).

Técnica 2: usar placa de petri.

Processo: Leite: acidez, Gordura, Massa Prensada: umidade, Massa fundida: pH.

6 – Controle da Salga.

Analise da densidade:

Leitura direta com bauné: escala de trabalho para a salga 190 a 210 Bé.

Analise microbiológica: fungos e leveduras, coliformes totais e fecais.

Coliformes totais e fecais o procedimento de analises é o mesmo do leite pasteurizado, a quantidade de bactérias presentes na salga está relacionada com o tipo de queijo, para os fungos e leveduras o procedimento é o mesmo.

7 – Solução Preparada

Solução de Dornic – hidróxido de sódio N / 9.

• Preparo, pese 4,7 g de hidróxido de sódio, e transfira para um balão volumétrico com tampa de borracha, de 1.000 ml, complete o volume com água recentemente fervida, isenta de co2 e resfriada;
• Padronização pese 4,5382 g de biftalato de potássio, seco em estufa a 120 C, por uma hora, transfira para um balão de 200 ml e complete o volume com água, transfira através de bureta 20 ml desta solução padrão para um frasco erlenmeyer de 250 ml, adicione 2 gotas de solução alcoólica de fenolftaleína a 1 %, e gota a gota, com auxílio de uma bureta, a solução de dornic a ser titulada, até o aparecimento de coloração rósea persistente, deverão ser gastos 20 ml da solução de dornic para neutralizar os 20 ml de solução padrão.

Fenolftaleína

Intervalo de viragem, pH 8,20 a 9,80, respectivamente incolor e vermelho arroxeado, pese cerca de 1 g do fenolftaleína em álcool a 95 %, suficiente para 100 ml, filtre se necessário, conserve a solução em frasco escuro de rolha esmerilhada com conta gotas.

• Se o estágio foi desenvolvido na produção; relacionar equipamentos, fluxo e descrição do processo.

Higiene Pessoal

Instrução:

Referente à Higiene Pessoal e Requisitos Sanitários

• Objetivo: Esta norma de trabalho define a padronização dos requisitos sobre a higiene pessoal e requisitos sanitários.
• Baseado nas portarias: Portaria c.v.s – 6 /99 de a 10.03.99, publicada no Doesp – de 12.03.99.

Portaria número: 368 de 04.09.97 do ministério da agricultura e do abastecimento.

• Responsabilidades: De todos.
• Procedimento: Higiene Pessoal e Requisitos Sanitários.

1 – Ensinamento de higiene: a direção do estabelecimento deverá tomar medidas para que todas as pessoas que manipule alimentos recebam instrução adequada e continua em matéria de manipulação higiênica dos alimentos e higiene pessoal, a fim de que saibam adotar as precauções necessárias para evitar a contaminação dos alimentos, tal instrução deverá contemplar as partes pertinentes do regulamento técnico;
2 – Condições de saúde: as pessoas que se saiba ou se suspeite que padeçam de alguma enfermidade ou mal que provavelmente possa transmitir se por intermédio dos alimentos, ou seja, portadores, não poderão trabalhar em nenhuma área de manipulação ou operação de alimentos se existirem a possibilidade de contaminação dos mesmos; qualquer pessoa afetada deve comunicar imediatamente a direção do estabelecimento que esta enferma; as pessoas que mantém contato com os alimentos durante o trabalho devem submeter se aos exames médicos por intermédio dos órgãos competentes da saúde antes do seu ingresso e depois periodicamente; também deverá ser efetuado exame médico nos trabalhadores em outras ocasiões, quando existam razões clínicas ou epidemiológicas.
3 – Doenças contagiosas: a direção tomará as medidas necessárias para que não se permita a nenhuma pessoa que se saiba, ou se suspeite que padeça ou é agente de uma doença susceptível de transmitir se aos alimentos, ou seja, portadora de feridas infectadas, infecções cutâneas, chagas ou diarréia, trabalhar, sob nenhum pretexto, em qualquer área de manipulação de alimentos ou onde haja possibilidade de que esta pessoa possa contaminar direto ou indiretamente os alimentos com microorganismos patog6enicos até que o médico lhe de alta; qualquer pessoa que se encontre nestas condições deve imediatamente à direção do estabelecimento seu estado físico.
4 – Ferimentos: nenhuma pessoa portadora de ferimentos poderá continuar manipulando alimentos ou superfícies em contato com alimentos, até que se determine sua reincorporarão por determinação profissional.
5 – Lavagem das mãos: toda pessoa que trabalhe em área de manipulação, deverá lavar as mãos de maneira freqüente e cuidadosa e em água fria ou fria e quente potável; as mãos deverão ser lavadas sempre que:

a. Chegar ao trabalho;
b. Utilizar os sanitários;
c. Após manipulação de material contaminado;
d. Tossir, espirrar ou assuar o nariz;
e. Usar esfregões, panos ou materiais de limpeza;
f. Fumar;
g. Recolher o lixo e outros resíduos;
h. Tocar em sacarias, caixas, garrafas e sapatos;
i. Tocar em alimentos não higienizados ou crus;
j. Pegar em dinheiro;
k. Houver interrupção do serviço;
l. Iniciar um novo de serviço;
m. Tocar em utensílios higienizados;
n. Colocar luvas.

E sempre que seja necessário, deverá lavar se e desinfetar se as mãos imediatamente depois de houver manipulado qualquer material contaminante que possa transmitir enfermidades; deverão ser colocados avisos que indiquem a obrigação de lavar se as mãos e deverá ser realizado controle adequado para garantir o cumprimento destas exigências.

6 – Higiene pessoal: toda pessoa que esteja de serviço em uma área de manipulação de alimentos deverá manter se em apurada higiene pessoal, todas as etapas dos trabalhos.

Estética e Asseio:

• Banho diário;
• Cabelos protegidos;
• Barba feita diariamente e bigode aparado;
• Unhas curtas, limpas, sem esmalte ou base;
• Uso de desodorante inodoro ou suave sem utilização de perfumes
• Maquiagem leve;
• Não utilização de adornos (colares, amuletos, pulseiras, fitas, brincos, relógio e anéis (inclusive alianças)).

Uniformização:

• Uniformes completos, de cor clara, bem clara, bem conservados e limpos e com troca diária e utilização somente nas dependências internas do estabelecimento;
• Os sapatos devem ser fechados, em boas condições de higiene e conservação, devem ser utilizadas meias;
• Uso de avental plástico deve ser restrito às atividades onde há grande quantidade de água, não devendo ser utilizado próximo ao calor;
• Não utilizar panos ou sacos plásticos para proteção do uniforme;
• Não carregar no uniforme, canetas, lápis, batons, escovinhas, cigarros, isqueiros, relógios e outros adornos;
• Nenhuma peça do uniforme deve ser lavada dentro da cozinha.

7 – Conduta pessoal: nas áreas onde sejam manipulados alimentos deverá ser proibido todo ato que possa originar uma contaminação dos alimentos como:

• Falar, cantar, assobiar, tossir, espirrar, cuspir, fumar;
• Mascar goma, palito, fósforo ou similares, chupar balas, comer;
• Experimentar alimentos com as mãos;
• Tocar o corpo;
• Assuar o nariz, colocar o dedo no nariz ou ouvido, mexer no cabelo ou pentear-se;
• Enxugar o suor com as mãos, panos ou qualquer peça de vestimenta;
• Manipular dinheiro;
• Fumar;
• Tocar maçanetas com as mãos sujas;
• Fazer uso de utensílios e equipamentos sujos;
• Trabalhar diretamente com alimento quando apresentar problemas de saúde, por exemplo, ferimentos e ou infecção na pele, ou se estiver resfriado ou com gastrenterites;
• Circular sem uniforme nas áreas de serviço.

8 – Luvas: se para manipular certos alimentos, forem usadas luvas, estas deverão ser mantidas em perfeitas condições de limpeza e higiene, o uso das luvas não dispensa o operário de lavar as mãos cuidadosamente.

9 – Visitantes: consideram se como visitantes todas as pessoas não pertencentes às áreas ou setores onde se manipulem alimentos, serão tomadas precauções para impedir que os visitantes contaminem os alimentos nas áreas onde são manipuladas, as precauções podem incluir o uso de roupas protetoras, os visitantes devem cumprir as disposições aqui citadas da presente instrução.

10 – Supervisão: as responsabilidades do cumprimento por parte de todo pessoal, com respeito aos requisitos aqui apresentados é de responsabilidade dos supervisores dos setores.

Manual Operação de Limpeza Geral

P.P.H.O.

Notas Gerais:

1- Retirar os materiais de limpeza, no almoxarifado, antes de iniciar a limpeza dos equipamentos;
2- Pesar ou medir, os produtos;
3- Levar os vasilhames identificados por produto;
4- Não misturar os produtos químicos;
5- Levar os produtos químicos para o setor a ser limpo, somente o necessário;
6- Quando sobrar produtos, deixar arrumado no setor, para uso posterior;
7- Verificar se os equipamentos estão livres, para fazer a limpeza;
8- Após a limpeza fazer uma verificação visual, da limpeza;
9- Após a limpeza drenar todo equipamento ou tubulação;
10- Os acessórios como: fibraço e vassouras devem ser bem arrumadas, no local determinado e não devem entrar em contato com o piso.

Setor de Recebimento: Plataforma de Recebimento

Balão de Estocagem
Balão 01 – cap. 10.000 litros. Leite pasteurizado resfriado (bomba 1)
Balão 02 – cap. 10.000 litros. Leite pasteurizado resfriado (bomba 1)
Balão 03 – cap. 10.000 litros. Leite pasteurizado resfriado (bomba 1)
Balão 04 – cap. 10.000 litros. Leite pasteurizado resfriado (bomba 3)
Balão 05 – cap. 15.000 litros. Leite pasteurizado resfriado (bomba 2)
Balão 06 – cap. 10.000 litros. Leites cru resfriado———- (bomba 4)
Balão 07 – cap. 10.000 litros. Leites cru resfriado———- (bomba 4)
Balão 08 – cap. 30.000 litros. Leite cru resfriado———– ( bomba 5)
Balão 09 – cap. 20.000 litros. Leite cru resfriado———– ( bomba 5)
Balão 10 – cap. 20.000 litros. Leite cru resfriado————- ( bomba 5)

Limpeza manual (passo a passo) – Balões 5, 6, e 7.

1- Passo: após retirar o leite, fazer enxagúe com água fria,

2- Passo: depois fazer uma solução com detergente solução 1,00%, na temperatura de 400 C, passa a solução nas partes internas dos tanques com auxilio de vassoura de pelo, e depois fazer enxagúe com água fria.

3- Passo: em seguida fazer a sanitização com solução de cloro ou ácido peracético e depois fazer o enxagúe com fria, e deixa a entrada do balão aberta por 5 minutos, e em seguida está pronto para o recebimento do leite cru resfriado.

• Após, a limpeza fazer enxagúe com água fria.

Nota: fazer sanitização das botas, antes de entrar-nos balões, em solução de cloro ou ácido peracético a mesma dos balões. Os utensílios (como: vassouras, fibraços, buchas, escovas) não deixar entrar em contato diretamente no piso, deixa em um vasilhame destinado para este fim.

Após a limpeza dos balões, informar o controle de qualidade, para fazer o teste de suabe.

Suabe de um Balão a cada 7 dias, por vez, e avalia a eficiência da limpeza e registrar as informações.

Bomba centrifuga dos balões: fazer limpeza manual a cada 15 dias.

As peças desmontáveis e as partes como, pás dos agitadores, visores, registros de entrada e saída, porta de inspeção e outros devem ser limpos, com escovas usando detergente neutro.

Equipamentos:

1-Trocador de calor, resfriadores de leite, quantidade: 1 unidades (resfriador 15.000 litros/ hora).
2-Filtros de linha, quantidade 2 unidades.
3-Bombas –5 e 6.
4-Tanque de recepção: coleta de leite tipo c e b, tubulações da plataforma e tubulação ida e retorno na fabricação do doce de leite e derivados.

Procedimento de limpeza do sistema:

Sistema de limpeza: circulação forçada, (volume do sistema: 1.000 litros) com bomba centrifuga.

Antes de iniciar: Retirar os filtros de linha, (seja as telas que compõe o filtro) e fazer limpeza manual, com detergente neutro, a solução 1%, este deve ser colocada na linha, após a limpeza do sistema.

• Primeira fase: Fazer enxagúe com água limpa, a temperatura de 300 C por um período de 10 a 15 minutos.
• Segunda fase: Fazer limpeza com solução alcalina, a temperatura de 800 a 850 C por um período de 15 a 20 minutos, usar soda em escama de pureza 99,00 % em solução 2 %.
• Terceira fase: Fazer enxagúe com água limpa, por 10 minutos.
• Quarta fase: Fazer limpeza com solução ácida, a temperatura de 600 a 650 C por um período de 15 a 20 minutos, usar ácido nítrico a com de 360 Be, em solução 1 %.
• Quinta fase: Fazer enxagúe com água limpa, por 15 minutos.
• Sexta fase: Fazer a sanitização com ácido peracético, em solução de 0.05 a 0,15%, a temperatura (ambiente) de 250 C por um período de 15 minutos. (está solução pode ficar em repouso no sistema, até o uso do mesmo) ou usar sol. Cloro 0,1%

Obs.: Antes de o sistema entrar em operação, drenar a água.

Procedimento de limpeza do sistema:

Sistema de limpeza: circulação forçada, balão 8, 9, e 10 (volume do sistema: 500 litros) com bomba centrifuga.

• Primeira fase: Fazer enxagúe com água limpa, a temperatura de 300 C por um período de 10 a 15 minutos.
• Segunda fase: Fazer limpeza com solução alcalina, a temperatura de 800 a 850 C por um período de 15 a 20 minutos, usar soda em escama de pureza 99,00 % em solução 2 %.
• Terceira fase: Fazer enxagúe com água limpa, por 10 minutos.
• Quarta fase: Fazer limpeza com solução ácida, a temperatura de 600 a 650 C por um período de 15 a 20 minutos, usar ácido nítrico a com de 360 Be, em solução 1 %.
• Quinta fase: Fazer enxagúe com água limpa, por 15 minutos.
• Sexta fase: Fazer a sanitização com ácido peracético, em solução de 0.05 a 0,15%, a temperatura (ambiente) de 250 C por um período de 15 minutos, (está solução pode ficar em repouso no sistema, até o uso do mesmo) ou usar sol. Cloro 0,1%

Obs.:

• Antes de o sistema entrar em operação, drenar a água;
• Todos os produtos químicos usado têm sua ficha técnica;
• Limpeza manual a cada 3 meses, fazendo o desmontagem das tubulações.

Setor de Pasteurização Balões:

Relação dos equipamentos:

Balão de Estocagem cap. 10.000 litros 1, 2, 3, e 4

Balão de Estocagem: Leite Pasteurizado.

Sistema de limpeza: circulação forçada, (volume de circulação: 1.000 litros) com bomba centrifuga.

Antes de iniciar: Retirar as partes desmontáveis e fazer limpeza manual, com detergente neutro, à solução 1%, este deve ser colocada na linha, após a limpeza do sistema.

Operação:

1. Após a retirada do leite, fazer o enxagúe com água fria, até a remoção do leite,

2. Fazer a limpeza química com solução de soda a 1 %, por 10 min., a temperatura de 80 a 850 C,

3. Fazer enxagúe com água fria por 15 min.,

4. Fazer a limpeza química com solução de ácido nítrico a 1.00 %, por 15 min., a temperatura de 60 a 65ºC,

5. Fazer enxagúe com água fria por 15 min.,

6. Fazer a sanitização com Ácido Peracético, sol. 0,05 a 0,15% por 10 min., a temperatura ambiente,

7. Não há necessidade de enxagúe

8. Fazer a sanitização com solução de cloro, sol. 0.1 %, por 10 min., a temperatura ambiente,

9. Fazer o enxagúe por 10 min.

Fazer: limpeza manual da cada 7 dias.

Equipamentos: Pasteurizador, Padronizadora.

Quando é que realizado: a cada termino de operação.

Sistema de limpeza com circulação forçada, com bomba – volume de circulação: 1.300 litros.

• Primeira fase: Fazer enxagúe com água limpa, a temperatura de 300 C por um período de 10 a 15 minutos.

• Segunda fase: Fazer limpeza com solução alcalina, a temperatura de 80 a 850 C por um período de 15 a 20 minutos, usar soda em escama ou liquida de pureza 99,00 % em solução 2 %.

• Terceira fase: Fazer enxagúe com água limpa, por 10 minutos.

• Quarta fase: Fazer limpeza com solução ácida, a temperatura de 600 a 650 C por um período de 15 a 20 minutos, usar ácido nítrico a com de 360 Be, em solução 1 %.

• Quinta fase: Fazer enxagúe com água limpa, por 15 minutos.

• Sexta fase: Fazer a sanitização com ácido peracético, em solução de 0,05 a 0,15%, a temperatura (ambiente) de 250 C por um período de 15 minutos. (está solução pode ficar em repouso no sistema, até o uso do mesmo) ou usar sol. Cloro a 0,1% e fazer enxagúe

• Sétima fase: Antes de o sistema entrar em operação, fazer esterilização a temperatura de 900 C por 15 minutos.

• Oitava fase: Drenar o sistema.

Obs.: Limpeza manual a cada 3 meses, fazendo o desmontagem da tubulações

Setor de Beneficiamento: (setor de envase – maquina)

Equipamentos envolvidos no processo:

• Maquina 1: cap. 4.000 litros / hora, com 2 bicos,
• Maquina 2: cap. 6.000 litros / hora, com 3 bicos,
• Ambos da marca BRASHOLANDA S.A

Sistema de limpeza: circulação forçada, (volume de circulação: 350 litros) com bomba centrifuga, alta rotação.

Antes de iniciar: Retirar as partes desmontáveis e fazer limpeza manual, com detergente neutro, à solução 1%, este deve ser colocada na linha, após a limpeza do sistema.

Fazer trocas das borrachas cada 60 dias, no máximo, das tubulações de circulação e a alimentação do leite até o tanque de equilíbrio, e as borrachas internas da maquina.

1- Após a retirada do leite, fazer o enxagúe com água fria, até a remoção do leite,

2- Fazer a limpeza química com solução de soda, a 1,50 % por 30 min., a temperatura de 80 a 85ºC,

3- Fazer enxagúe com água fria por 15 min.,

4- Fazer a limpeza química com solução de ácido nítrico 1,0%, por 30min., a temperatura de 60 a 65ºC,

5- Fazer enxagúe com água fria por 15 min.,

6- Fazer a sanitização com Ácido Peracético, sol. 0,05 a 0,15% por 15 min., a temperatura ambiente,

7- Na sanitização, selar o filme de leite e abrir a injeção com o Acido Peracético, deixar o nível se elevar até cobrir toda a injeção, feito fechar a injeção e deixar em repouso até o uso do equipamento,

8- Fazer enxagúe com água quente a temperatura 850 a 900 C, por 15 min. (antes de entrar em uso).

9- Drenar o sistema, maquina por maquina, antes de entrar em operação.

Nas maquinas de envase: limpeza manual, fazer as desmontagens da peças movem e fazer limpeza das mesmas, a cada 7 dias.

Nota: o tanque de equilíbrio, cada bico de envase possui um tanque equilíbrio, fazer limpeza manual a cada 3 dias.

Os bicos (local onde coloca-se o adaptador para fazer limpeza) onde sai o produto, fazer limpeza todos os dias, com detergente neutro.

Setor fabricação de Doce de Leite

Limpeza dos Equipamentos:

Equipamentos envolvidos no processo

1. Tanque de hidrolise.
2. Tanque concentrador 600 litros
3. Tanque concentrador 600 litros.
4. Dosador (funil e a dosadora com rosca sem fim).
5. Máquina de envase (EVA)

Retirar as partes desmontáveis e fazer limpeza manual, com detergente neutro, à solução 1%, este deve ser colocada na linha, após a limpeza do sistema.

Limpeza: Forçada com agitação mecânica

• Logo após a retirada do produto acabado, faz-se a limpeza com a solução de soda 1.0 % a temperatura de 95 0 C por um período de 30 minutos, utilizando o agitador como ação mecânica, dosagem 600 litros – 6.0 kg de soda, (fazer enxagúe com água fria a cada mudança de operação) e em seguida fazer limpeza manual com solução 1.00% de detergente neutro, utilizando a bucha de fibraço, após fazer limpeza ácida com solução ácida na concentração 1.00 %, a temperatura de 750 C por um período de 15 minutos, dosagem 300 litros – 2 kg de ácido nítrico, após fazer a sanitização com solução de Acido Peracético, por um período de 10 minutos e no final fazer o enxagúe e medir o pH final do enxagúe;
• Nota os concentradores 1 e 2 , com a bomba positiva retirando a solução e fazendo a limpeza no encanamento até o funil;
• Operação se refere aos equipamentos: tanque concentrador, estes podem ser lavados em conjuntos ou separados;
• Antes de entrar em operação, drenar os tanques;
• Antes de entrar em operação, após a drenagem, verificar visualmente o grau de limpeza dos sistemas;
• Limpeza manual:

1. Dosador e rosca sem fim: faz se o enxagúe com água fria até a remoção da sujidade, e após é lavado com solução de detergente neutro a concentração de 1,00%, a remoção é manual usando fibraço, em seguida faz se o enxagúe com água fria, e é sanitizado com solução de Acido Peracético.

Nota: ponto crítico de controle é a saída dos concentradores, que retém material e deve ser retirado e limpo manualmente.

Quantidade de Material de Limpeza / Parada.

Setor de Bebida

Equipamentos:

Misturadores: Capacidade: 1.000 litros

Capacidade: 4.000 litros

• Fazer o enxagúe com água fria, para a remoção da sujidade e em seguida a limpeza manual com solução de detergente neutro na concentração de 1.0 %, na limpeza se utiliza a bucha manual de fibraço, e em seguida o enxagúe com água fria, até a remoção do sol. Detergente neutro, em seguida a sanitização com solução de acido peracético não há necessidade de enxagúe.

Tubulação:

• Fazer o enxagúe por 10 minutos com água fria, e depois a limpeza química com solução alcalina de concentração 1.00 %, por um período de 10 minutos a temperatura de 80 a 85ºC, faz se o enxagúe com água fria.
• Fazer a limpeza com solução ácida, na concentração 1,00 %, por um período de 10 minutos a temperatura de 60 a 65ºC, faz se o enxagúe com água fria.
• Enxagúe final, com solução de acido peracético 0,05 a 0,15% por um período de 10 minutos.
• Nota: Usando o maturador para aquecer as soluções.
• Máquina de envase: O mesmo procedimento junto ao setor de envase.

Setor Requeijão

Maquina de Fusão a mesma do doce de leite

Capacidade: 150 kg / batelada

• Após o término da fabricação do produto em questão, fazer o enxagúe com água fria, e deixar em movimento por 5 minutos, fazer o descarte;
• Fazer a limpeza com solução com soda à 1,00%, a temperatura de 80 a 85ºC; por um período de 10 minutos; fazer o descarte;
• Fazer o enxagúe com água fria;
• Antes de entrar em operação fazer esterilização com água quente a 900 C por 10 minutos.

Limpeza do Funil (interno e externo)

Capacidade: 150 kg / batelada

• Fazer enxagúe com água fria;
• Limpeza como detergente neutro a solução 1,00 %;
• Fazer enxagúe com água fria;
• Antes de entrar em operação fazer esterilização com água quente a 900 C por 10 minutos.

Limpeza tanque de processo (cozimento)

Capacidade: 2.000 litros

Antes:

• Fazer enxagúe com água fria;
• Limpeza como detergente neutro a solução 1,00 %;
• Fazer enxagúe com água fria;
• Antes de entrar em operação fazer esterilização com água quente a 850 a 900 C por 10 minutos.

Depois:

• Após o término da fabricação do produto em questão, fazer o enxagúe com água fria, e deixar em movimento por 5 minutos, fazer o descarte;
• Fazer a limpeza com solução com soda à 1,00%, a temperatura de 80 a 85ºC; por um período de 10 minutos; fazer o descarte;
• Fazer o enxagúe com água fria; antes de entrar em operação fazer esterilização com água quente a 900 C por 10 minutos.

Limpeza dos panos de prensagem da massa

• Fazer enxagúe com água fria;
• Limpeza como detergente neutro a solução 1,00 %;
• Fazer enxagúe com água fria.

Fabricação de Manteiga

Equipamentos:

Batedeira de manteiga cap. 100 kg

• Após o término da fabricação do produto em questão, fazer o enxagúe com água quente, e deixar em movimento por 5 minutos, fazer o descarte;
• Fazer a limpeza com solução com solução alcalina na concentração de 1,00%, a temperatura de 80 a 85ºCC; por um período de 10 minutos; fazer o descarte;
• Fazer o enxagúe com água fria;
• Antes de entrar em operação fazer esterilização com água quente a 900 C por 10 minutos.

Maturador cap. 1.000 litros

• Fazer o enxagúe com água quente, para a remoção da sujidade e em seguida a limpeza com solução de soda na concentração de 1.0 %, na temperatura de 80 a 85ºC, e em seguida o enxagúe com água fria, em seguida a sanitização com solução de ácido peracético a 0,05 a 0,15%,ou a esterilização com vapor.

Envasadora:

• Fazer enxagúe com água quente a 40ºC;
• Limpeza com detergente neutro solução a 1,0%;
• Fazer enxagúe com água fria;
• E em seguida sanitização com solução de ácido peracético 0,05 a 0,15% e não há necessidade de enxagúe.

Fabricação de Queijos

Limpeza manual

Equipamentos:

Limpeza Tanque de Processo – Quantidade: 3

Capacidade: 2.000 litros (quantidade: 1)
Capacidade: 5.000 litros (quantidade: 1)
Capacidade: 1.000 litros (quantidade: 1)

Antes:

• Fazer enxagúe com água fria;
• Limpeza como detergente neutro a solução 1,00 %;
• Fazer enxagúe com água fria;
• Antes de entrar em operação fazer esterilização com água quente a 850 a 900 C por 10 minutos.

Depois:

• Após o término da fabricação do produto em questão, fazer o enxagúe com água fria, e deixar em movimento por 5 minutos, fazer a limpeza com detergente neutro a sol. 1,0%
• Fazer a limpeza com solução com soda à 1,00%, a temperatura de 80 a 85ºC; por um período de 10 minutos; fazer o descarte;
• Fazer o enxagúe com água fria; antes de entrar em operação fazer esterilização com água quente a 900 C por 10 minutos.

Equipamentos:

Mesa de Processo
Conjunto de filadeira e moldadeira 500 kg
Tanque Água Gelada
Tanque de Sal

• Limpeza manual
• Fazer enxagúe com água fria;
• Limpeza com detergente neutro a solução 1,00 %;
• Fazer enxagúe com água fria;
• Em seguida a sanitização com solução de ácido peracético 0,05 a 0,15%

Formas: Ao final de cada produção as formas são lavadas em um tanque ou tina contendo água e solução detergente levemente alcalino na concentração de 1 a 5 % a uma temperatura entre 40 a 50ºC com auxilio de escovas esfregando vigorosamente. Em seguida enxagua-se abundantemente com água corrente e mergulha-se em uma solução de ácido peracético a uma concentração de 0,05 a 0,15% em temperatura ambiente para a sanitização.

Síntese da técnica:

1. Enxaguar as formas e mesas, abundantemente com água corrente.
2. Lavagem manual com solução detergente levemente alcalino na concentração de 1 a 5% com auxilio de escovas e esponjas, esfregando vigorosamente.
3. Enxaguar com água corrente abundantemente.
4. Uma vez por semana é usado ácido na concentração de 0,8 a 3,0% na temperatura de 60 a 65ºC.
5. Enxaguar abundantemente com água corrente.
6. Sanitizar com ácido peracético na concentração de 0,05 a 0,15 %.

Transporta o Leite a Granel

Capacidade: 8.000 / 9.000 / 13.000 / 13.000 litros
Quantidade: 4 tanque
Sistema de limpeza: Circulação forcada, (volume de circulação 1.000 litros com bomba centrifuga).
Retirar as partes desmontáveis e fazer limpeza manual, com detergente neutro, à solução 1%, este deve ser colocada na linha, após a limpeza do sistema.

Operação:

1- Após a retirada do leite, fazer o enxagúe com água fria, até a remoção do leite,
2- Fazer a limpeza química com solução de soda a 1 %, por 10 min., a temperatura de 80 a 85ºC,
3- Fazer enxagúe com água fria por 15 min.,
4- Fazer a limpeza química com solução de ácido nítrico a 1.00 %, por 15 min., a temperatura de 60 a 65ºC,
5- Fazer enxagúe com água fria por 15 min.,
6- Fazer a sanitização com ácido peracético sol. 0,05 a 0,15% por 10 min., a temperatura ambiente,
7- Não há necessidade de enxagúe,
8- Ou fazer a sanitização com solução de cloro, sol. 0.1 %, por 10 min., a temperatura ambiente,
9- Fazer o enxagúe por 10 min.

Obs.: Fazer Limpeza Manual a cada 7 dias.

Limpeza Geral:
Paredes
Portas
Janelas

• Fazer enxagúe com água fria;
• Limpeza como detergente neutro a solução 1,00 %;
• Fazer enxagúe com água fria;

Pisos

• Fazer enxagúe com água fria;
• Limpeza com a solução alcalina 1,00 %;
• Fazer enxagúe com água fria;

Obs.: todas as águas dos equipamentos e maquinas, são encaminhadas ao laboratório de controle para analisar o pH, este deve ser igual ao pH da água industrial, caso seja diferente AÇÃO é aumentar o tempo de enxagúe, levar a amostra novamente ao laboratório.

• Quantidade de cloro comercial em (ML) necessário para preparar 10 litros de água com concentrações de 5 a 50 ppm de cloro livre.

texto

Limpeza da Caixa D’Água

Esta deve ser lavada a cada seis meses e precisa ser mantida tampada, para que nenhum bicho ou sujeira entre nela. Esses cuidados são imprescindíveis, já que a responsabilidade é garantir a qualidade da água distribuída para todos os pontos da Empresa. Daí em diante, a responsabilidade é de todos, por isso, é importante a colaboração de todos para evitar a incidência de doenças e contaminação.

Síntese do processo de limpeza

1° passo: Esvaziar a caixa,

Obs.: usando a bomba de sucção para esvaziamento total.

2° passo: Escove bem as paredes e o fundo com uma escova de nylon. Não pode ser escova de aço.
3º passo: Lave bem a caixa com um jato forte de água tratada.
4º passo: Coloque em um balde limpo água com cloro (1 a 3%) de cloro livre
5º passo: Com uma escova de nylon ou pano, espalhe a solução de água com cloro no fundo e nas paredes da caixa.
6º passo: Espere mais ou menos uma meia hora para que a solução de água com cloro faça a perfeita desinfecção da caixa d’água
7º passo: Agora, encha de novo a caixa e repita toda a operação daqui a seis meses.

Obs.: As analises Microbiológicas e Físico Químico ficam armazenadas no laboratório de todos os pontos da Fábrica. E uma vez por Mês é enviada para análises em Laboratório Credenciadas pelo Ministério.

Análise Microbiológica.

• Contagem de Coliformes Totais
• Contagem de Coliformes Termotolerantes
• Contagem Total de Heterotróficas

Análise Física Química:

• Cloro Residual Livre
• Amônia (como NH3)
• Dureza Total
• PH
• Matéria Orgânica

Manual de boas práticas de fabricação

Este é baseado nas portarias do ministério da agricultura (portaria 368 de 04 de setembro de 1.997) e Avisa (portaria 326 de 30 de julho de 1.997).

Objetivo

O objetivo deste manual é regulamentar as condições gerais higiênicos – sanitárias de ambiente, instalações, equipamentos, pessoal e de procedimentos, a serem observadas conjuntamente com as condições a cada produto e a cada processo definidas nos Procedimentos Operacionais Padrão de Qualidade, Instruções e Especificações Técnicas.

Abrangência

Os princípios gerais de Boas Práticas emitidos neste manual devem ser previstas nas fases de desenvolvimento, projeto, industrialização, armazenamento e distribuição, devendo ser consideradas, obrigatoriamente quanto à adequação das edificações, tipos de materiais utilizados, as condições ambientais, instalações e equipamentos, técnicas adotadas, as ações executadas pelo pessoal, matérias primas, ingredientes, aditivos e embalagens, assim como todas as atividades que possam de alguma forma trazer riscos de contaminação.

Responsabilidades

É de responsabilidade de todos os funcionários dentro de suas respectivas atribuições a observação das Boas Práticas de Fabricação aqui definidas.

Desenvolvimento da Qualidade (composto: gerente industrial, encarregado geral, encarregado: laboratório e fabricação por setor), efetuará periodicamente a Verificação das Boas Práticas de Fabricação no Sistema de Qualidade.

Terminologia

• Área de fabricação/processamento: local(is) onde são beneficiadas e industrializadas as matérias – primas e elaborados, manipulados e envasados os produtos;
• Área de armazenagem: onde são mantidos os produtos, matérias – primas e embalagens, com variadas finalidades sob condições adequadas de temperatura, umidade e tempo;
• Área de seqüestro: onde são mantidos produtos e matérias-primas inutilizados, impróprios para o consumo, materiais descartável e detritos em geral;
• Análise de Riscos e Pontos Críticos de Controle (A.R.P.C. C): Sistema de identificação, avaliação e controle de perigos de contaminação dos produtos alimentícios, abrangendo desde a (s) matéria (s) prima (s), processamento, armazenamento, distribuição e consumo, também conhecido por HACCP (do inglês = Hazard Analysis Critical Control Point), outras siglas A. R. C. P. C. e A. P. P. C. C.;
• Boas Práticas de Fabricação (BPF): normas de procedimentos para atingir um determinado padrão de identidade e qualidade de um produto e/ou serviço abrangendo instalações, equipamentos, pessoal, processamento, procedimentos gerais, combate a pragas, higienização etc. As BPF têm por objetivo regulamentar as práticas higiênicas das indústrias alimentícias de acordo com as recomendações do “Códex Alimentárius – FAO/WHO”, também conhecidas como GMP’s 9 do inglês = Good Manufacturing Practices );
• Cadeia de Frio: Fluxo de temperaturas de refrigeração durante todas as etapas de processamento, armazenamento, movimentação, manipulação, transporte, etc.;
• Contaminação: presença de material de natureza física, química ou biológica nos produtos elaborados, levando ao comprometimento da sua qualidade organolépticas, físico – química ou microbiológica, e submetendo o consumidor a riscos de saúde;
• Contaminação cruzada: gerada pelo contato indevido de insumos, superfícies, equipamentos, ambiente, pessoas ou produtos contaminados;
• FAO: Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação;
• FIFO: (do inglês First in First Out); ver PEPS;
• Limpeza e Higienização: remoção mecânica de resíduos e sujidade, sem, contudo, haver destruição de microrganismos;
• Desinfecção e Descontaminação: eliminação ou redução de microrganismos saprófitos ou patogênicos através de processos físicos e/ou químicos adequados, que não ofereçam riscos aos produtos e aos consumidores;
• Higiene Pessoal: medidas e procedimentos higiênicos que visam à proteção contra contaminantes tanto de indivíduo, como advindas deste ás matérias – primas, produto, ambiente e processos;
• Manipuladores de Alimentos: pessoal que trabalha diretamente com os alimentos, em todas as fases de produção, industrialização, embalagem, conservação e distribuição dos mesmos;
• Microrganismos patogênicos: organismos vivos, microscópios, capazes de provocar doenças no homem;
• Microrganismos saprófitos: organismos vivos, microscópios, que não provocam doenças no homem, mas podem levar à alteração dos alimentos tornando-os impróprios para o consumo;
• OMS: Organização Mundial de Saúde;
• Pasteurização: processamento térmico eficiente para eliminar todos os germes patogênicos que se encontrem na forma vegetativa, seguido de resfriamento a temperatura inferior a +50 C;
• PEPS = Primeiro que Entra Primeiro que Sai: situação a ser observada em todos os procedimentos de armazenamento e de movimentação, objetivando sempre que a matéria – prima ou produto mais antigo tenha prioridade de fluxo sobre os mais novos. Também conhecido pela sigla em inglês FIFO;
• Portaria 146 de 07/03/96 do MAARA: Estabelece os “Regulamentos de Identidade dos Produtos Lácteos”, referendando os aspectos higiênicos no “Codex Alimentarius”;
• Portaria 1428 de 26/11/93 do Ministério de Estado de Saúde: Estabelece as orientações de inspeção sanitária, de forma a avaliar a eficácia e efetividade dos processos, meios de instalações, assim como dos controles utilizados na produção, armazenamento, transporte, distribuição, comercialização e consumo de alimentos através dos procedimentos operacionais;
• Pragas: insetos, roedores e animais capazes de contaminar direta ou indiretamente os alimentos;
• (POPQ) Procedimento Operacional Padrão de Qualidade: Procedimentos inseridos no Sistema de Qualidade, os quais definem os procedimentos que certificam os padrões de qualidade específicos das operações;
• (PCSMO) Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional: estabelece os parâmetros mínimos e diretrizes a serem executados quanto a saúde dos trabalhadores e EPIs ( Equipamentos de Proteção individual ) indicados a cada setor de trabalho;
• Temperatura Ambiente, de Resfriamento, de Refrigeração de Congelamento: Gradientes Térmicos mensurados através de termômetros, da ordem de respectivamente, -100 C a 1100 C graus Celsius;
• Toxinfecções Alimentares: intoxicações e infecções humanas, provocadas pela ingestão de alimentos contaminados com formas vegetativas ou esparoladas de microrganismos patogênicos, ou com produtos tóxicos por eles elaborados.

Pessoal

Saúde

• Todos os trabalhadores devem ser avaliados de acordo com o “Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional” (PCMSO) em todas as situações, periodicidade e especificidade indicadas;
• Os trabalhadores que estejam com curativo devem preferencialmente ser direcionados para atividades que não envolvam a manipulação de matérias – primas, produtos e embalagens. Emergencialmente poderá ser utilizada proteção da área machucada com dedeiras ou luvas específicas, desde que a utilização e tarefa sejam autorizadas pela área médica e pelo responsável do setor.

Uniforme

• Todos os trabalhadores e visitantes devem utilizar o uniforme indicado para o setor, complementando pelos EPI’s recomendados no PCMSO;
• A utilização correta de touca protetora contra a queda de cabelos é obrigatória a todos os trabalhadores e visitantes que adentrem a área industrial;
• É obrigatória a utilização de máscara para a boca e nariz nas áreas e/ou situações em que existir proximidades dos funcionários com o (s) produto (s) semi-elaborados e/ou elaborados expostos;
• Em todas as atividades que existir possibilidade de contato de vestimentas com substâncias, deve ser utilizado avental branco de material impermeável e lavável, sendo o mesmo mantido e utilizado em perfeitas condições de higiene e guardado em local específico e que preserve as condições de higiene;
• Em todas as tarefas em que se utilizem luvas como proteção contra risco de contaminação do produto, os trabalhadores devem higienizá-las constantemente e guardá-las de forma apropriada, devendo mesmo com sua utilização, higienizar constantemente as mãos;
• Os uniformes devem estar sempre limpos e em bom estado de conservação;
• Os uniformes devem ser trocados sempre que sujem devido a alguma tarefa e/ou principalmente quando o trabalhador for deslocado de uma atividade para outra no mesmo setor ou em setor diferente e, que possa trazer risco de contaminação cruzada, Neste último caso, além de troca de uniforme o trabalhador deve efetuar uma correta higiene pessoal.

Hábitos

• A higiene pessoal é fundamental todos que trabalham com alimentos. Todos os trabalhadores devem ser treinados e conscientizados sobre sua importância e dos riscos de contaminação durante a manipulação dos alimentos;
• Todos os funcionários e visitantes das áreas em perfeito estado de limpeza devem observar os seguintes procedimentos:

1. Utilizar uniforme e o calçado em perfeito estado de limpeza e adequado à(s) área(s) de destino;
2. Usar proteção contra a queda de cabelo;
3. Estarem devidamente barbeados;
4. Estarem com bigodes e costeletas aparados. Utilizar protetor especifico nas áreas em que o produto estiver exposto;
5. Estarem com as unhas aparadas, limpas, e sem esmalte;
6. Não estar utilizando loções ou substâncias que exalem perfumes;
7. Nas áreas de processamento não manusear e nem carregar expostos objetos e adornos como relógio, canetas, brincos, pulseiras, anéis, isqueiros, dinheiro, maço de cigarros, etc.;
8. Fumar somente em locais permitidos;
9. Não transportar alimentos e / ou quaisquer tipo de substância estranhas para as áreas de processamento;
10. Não sentar no chão quando uniformizado;

• Lavar as mãos antes de:

1. Iniciar as atividades do dia;
2. Utilizar equipamentos e utensílios;
3. Manipular qualquer tipo de matéria – prima, produto e embalagens.

• Lavar as mãos após:

1. Utilizar materiais de limpeza, desinfetantes ou outros produtos químicos;
2. Manipular matérias primas, produtos e embalagens;
3. Usar o banheiro;
4. Fazer as refeições;
5. Espirrar, tossir, assuar o nariz, cocar-se, pentear os cabelos, pegar em dinheiro, fumar;
6. Manipular materiais de descarte ou lixo.

• Não mascar chicletes ou balas;
• Evitar atitudes anti-higiênicas como tossir ou espirrar sobre produtos equipamentos ou instalações; levar a mão à boca, ao nariz e às orelhas; coçar-se; cuspir no ambiente;
• Não utilizar lentes de contato em áreas ou tarefas em que exista o risco de queda destas sobre matérias – primas, produtos, etc.

Treinamento

• Todos os funcionários cujas atividades tenham influência na qualidade dos produtos devem passar por treinamento nos conceitos de higiene e de manipulação de alimentos de modo a que estejam conceituados nas “Boas Práticas” de Fabricação;
• Todo funcionário que for efetuar uma nova atividade deve ser conscientizado previamente sobra as “Boas Práticas” recomendadas na atividade;
• Os funcionários que efetuam higienização das instalações e equipamentos devem ser devidamente conscientizados e treinados nos conceitos de higienização e desinfecção, bem como nos riscos de contaminação química durante as operações;
• Os funcionários que participam do combate às pragas devem estar devidamente conscientizados sobre os riscos de contaminação ambiental, pessoal e das instalações, equipamentos, matérias – primas e produtos nos procedimentos de aplicação de inseticidas e raticidas.

Projeto

Edificações

• Na fase de projeto devem se contemplar medidas preventivas contra riscos de contaminação por fontes externas às áreas da indústria, como ambiente, pragas etc.;
• A posição relativa dos prédios, das áreas e dos processos dentro da indústria, deve possuir separação física entre os ambientes que possam trazer riscos de contaminação cruzada;
• Nas áreas de manipulação e processamento devem ser utilizados materiais e/ou revestimentos apropriados aos pisos, paredes, forro e portas de forma a que sejam impermeáveis, laváveis, não absorventes e resistentes às condições de operação;
• Nos projetos de câmara frigorificá devem ser previstas a existência de plataformas climatizadas e dotadas de portas com almofadas para o encosto dos veículos, bem como a existência de antecâmaras de modo a se garantir a preservação das temperaturas na cadeia de frio.

Equipamentos

• Projeto lay out dos equipamentos devem proteger os produtos contra contaminantes esternos e internos;
• Deve-se Ter atenção especial quanto a não existência de pontos mortos, rebarbas, fissuras, porosidade e locais que favoreçam a incrustação de matérias – primas e produtos;
• Os equipamentos devem ser construídos com material inerte, atóxico, inodoro, resistente à corrosão e a erosão;
• Os equipamentos devem favorecer as operações de higienização e desinfecção.

Projeto

• As edificações e instalações devem facilitar as operações de manutenção e limpeza de modo a evitar contaminações físicas, químicas e biológicas inclusive devidas a fatores ambientais.

Área de acesso

• O piso de acesso às áreas de processamento deve ser mantido limpo em perfeitas condições de conservação.

Portas

• As portas devem ser mantidas limpas, fechadas, com abertura máxima de 1 cm do piso e em perfeito estado de conservação;
• As portas das câmaras frias devem ser mantidas em perfeito estado de conservação e limpeza, inclusive as borrachas de vedação;
• Devem estar instaladas cortinas de ar ou plástica em todas as portas que possuam comunicação com o ambiente externo, assim evitando trocas térmicas com o ambiente e a entrada de pragas.



Piso

• Tipo de piso deve ser antiderrapante e adequado à área de processamento, mantido limpo e não apresentando trincas, buracos ou imperfeições.

Ralos

• Todos os ralos devem ser sifonados, de modo a se evitar a passagem de insetos e roedores;
• Os ralos devem possuir grade com dimensão suficiente para a perfeita drenagem da área, sem, no entanto permitir a passagem de pragas;
• As grades dos ralos devem possuir preferencialmente sistema de fechamento para evitar a passagem de insetos;
• Deve existir uma perfeita vedação e nivelamento entre a grade do ralo e o piso;
• Os ralos devem ser mantidos limpos, sem acúmulo de detritos e utilizados apenas no escoamento de água dos processos de limpeza.

Canaletas

• As canaletas devem possuir grade com dimensões que evite a passagem de roedores;
• As canaletas devem ser mantidas limpas, sem acúmulo de sujidade ou detritos;
• Deve existir uma perfeita vedação entre a canaleta e o piso.

Paredes

• As paredes devem ser mantidas limpas e higienizadas, revestidas com azulejos ou outro material resistente de cor clara e impermeável, não apresentando trincas, buracos ou imperfeições;
• Os ângulos formados entre as paredes, paredes e teto e, paredes e piso, devem de preferência ser arredondados para facilitar a limpeza.

Tetos e forros

• As áreas de processamento devem possuir preferencialmente forro de material resistente de cor clara e impermeável e de fácil limpeza;
• A altura do teto/forro deve ser compatível com os equipamentos e a ventilação da área;
• Não devem existir goteiras e nem vazamento, bolor, descascamentos, pó e sujidade. A presença de “ponto de luz” quando se observa o teto, é indicativa de pontos de infiltração e goteiras. O forro deve ser mantido em perfeitas condições de limpeza;
• Não deve ser notada a presença de condensação de qualquer natureza

Janelas

• Todas as Janelas que não sejam fixas devem possuir tela com envolvimento e fechamento completo de toda a área aberta;
• As telas devem ser facilmente removíveis para a limpeza, possuir abertura máxima de 2 mm e isentas de rasgos e imperfeições;
• Os parapeitos internos e externos devem possuir inclinações que evite acúmulo de água. Devem ser mantidos limpos e livres de objetos;
• Todas as janelas devem ser mantidas em perfeitas condições de limpeza, com toda a área envidraçada devidamente vedada, não apresentando imperfeições ou vidros trincados e/ou quebrados.

Ventilação

• Ar ambiente das áreas de processamento, armazenamento e vestiários devem ser renovados dentro dos requisitos de qualidade identificados para cada área, através dos meios mais adequados – natural, filtragem, pressurização, climatização, exaustão, etc. – de modo a garantir as condições satisfatórias aos funcionários e processos;
• A direção do fluxo do ar não pode ser de uma área sujeita a contaminação para uma área limpa.

Iluminação

• As luminárias devem possuir proteção contra explosão e/ou quedas acidentais, não sendo instaladas sobre linhas de processamento, transporte ou produtos armazenados;
• A iluminação deve minimizar as sombras e seguir os padrões indicados para cada área ou tarefa, de acordo com os padrões mínimos:

1. Áreas de inspeção = 1.000 Lux;
2. Áreas de processamento = 250 Lux;
3. Demais áreas = 150 Lux.

• A proteção das luminárias deve ser periodicamente limpa. As lâmpadas queimadas devem ser substituídas de modo a se manterem os padrões de iluminação. Estas operações devem ser efetuadas tomando-se as devidas precauções para se evitar a queda de fragmentos e pó sobre produtos, matérias primas e equipamentos;
• As luminárias com sistema elétrico contra inseto, não devem ser posicionadas sobre matérias – primas, produtos e embalagens em qualquer fase do processo. Devem ser limpas periodicamente.

Linhas áreas

• As tubulações devem seguir os padrões de cor estabelecidos pela NR – 26 da lei n0 6514, exceto para as linhas de aço inox;
• Não devem existir tubulações de esgoto e produtos químicos sobre equipamentos, matérias primas, produtos e embalagens, sob risco de contaminação em caso de vazamento;
• Cada área deve estabelecer a periodicidade de limpeza das tubulações aéreas
• As calhas contendo fiação elétrica devem ser limpas periodicamente;
• Os cabos e fios elétricos devem ser devidamente conduzidos e distribuídos de modo a não acarretar riscos durante os trabalhos de processamento e higienização na área.

Vestiários/Banheiros/Área de descanso

• Os vestiários e banheiros e áreas de descanso deverão ser mantidos em perfeitas condições higiênicas;
• Os sanitários deverão estar devidamente providos de papel higiênico;
• As lixeiras devem possuir sacos plásticos em seu interior. O lixo deve ser regularmente coletado;
• As pias devem possuir preferencialmente acionamento pelos pés, além de saboneteiras dotadas de sabão líquido inodoro e toalheiro dotado de toalhas de papel descartável;
• É proibida a guarda e/ou consumo de alimentos no interior dos vestiários.

Condições Gerais

• Todos os setores devem possuir lavatório para higienização das mãos, dotados de acionamento pelos pés, saboneteira contendo sabonete líquido inodoro, toalheiro com toalha descartável e recipiente fechado de lixo;
• Os filtros dos bebedouros alimentados pela rede de água potável devem ser periodicamente limpos ou substituídos;
• Deve ser evitada a circulação de pessoal e materiais estranhos a cada setor;
• É proibida a entrada/permanência de quaisquer animais domésticos no interior da unidade. São proibidas atitudes atrativas como jogar migalhas de pão para pássaros, restos de comida para cães e gatos, etc.

Abastecimento de água e tratamentos de efluentes

• Toda a água de uso industrial deve ser tratada conforme as necessidades tecnológicas e a legislação específica sendo controlada periodicamente através de análise físico – química e microbiológica. Os relatórios deverão estar disponíveis para consulta nos processos de auditoria;
• Periodicamente todos os poços, reservatórios, filtros e torres do sistema de água potável devem ser limpos conforme cronograma pré estabelecidos e, sempre que o controle laboratorial identificar os resultados analíticos, devem estar de acordo com os parâmetros especificados;
• Deve ser realizado controle analítico de eficiência dos sistemas de tratamento de efluentes para certificação da conformidade com os padrões estabelecidos pela legislação específica. (sistema de tratamento possui manual de operação).

Equipamentos e Utensílios

Requisitos de higiene

• Os utensílios, equipamentos e quaisquer objetos que entrem em contato com o alimento, devem ser de material inerte, atóxico, inodoro, resistente à corrosão e a erosão e não podem soltar fragmentos de qualquer espécie;
• Todos os equipamentos e utensílios utilizados devem ser higienizados e desinfetados interna e externamente, conforme os procedimentos específicos e de acordo com a periodicidade definida;
• Após a higienização/sanitização as linhas e equipamentos devem ser liberados somente após a certificação de ausência de resíduos das soluções sanitizantes;
• Todos os equipamentos devem ser inspecionados após higienizados e antes do início da operação;
• Todos os equipamentos que apresentam aberturas deverão tê-las cobertas por tampas apropriadas ou filme plástico limpo depois de efetuada a higienização.

Requisitos de manutenção

• Os procedimentos de lubrificação dos equipamentos devem se realizados de forma as que não existam riscos de contaminação direta e indireta das matérias primas e produtos por graxas e lubrificantes;
• Devem ser utilizados lubrificantes do tipo atóxico/inodoro em todos os locais e situações passíveis de migrarem para matérias – primas/produtos/embalagens, considerando-se possibilidades não rotineiras como desgaste de peças, rupturas, fadiga de materiais etc.;
• Todas as operações de manutenção de instalações e equipamentos deverão ser de prévio conhecimento do responsável pelo setor em que será realizada a tarefa, de forma a serem tomadas todas as precauções necessárias para que sejam evitados riscos de contaminação direta e indireta dos utensílios, equipamentos, matérias – primas, produtos, embalagens e linhas de processamento;
• Todos os equipamentos devem ser higienizados e inspecionados após manutenção e antes do início da operação;
• Todos os aparelhos de medição como termômetros, manômetros, medidores de vazão etc., devem ser periodicamente aferidos e/ou calibrados de acordo com instruções específicas, sendo as ocorrências devidamente documentadas e disponíveis nas auditorias;
• Todos os filtros devem ser periodicamente limpos e inspecionados.

Práticas de processamento

• Processamento das matérias primas e produtos devem ser efetuados e controlados conforme as condições específicas determinadas nos procedimentos Operacionais;
• Todas as operações devem ser realizadas de modo a se evitar qualquer possibilidade de contaminação das matérias primas, produtos, processos, embalagens, linhas tanques, utensílios, equipamentos, ambiente, pessoal etc., por agentes físicos, químicos e biológicos;
• As bombonas, latões, caixas e contêiner plásticos ou de metal, que armazenem qualquer matéria prima, produto ou insumo, devem ser específicos ao fim a que se destinam, devidamente identificados, limpos e higienizados e mantidos fechados com tampa ou filme plástico limpo e nunca colocados diretamente sobre o piso;
• Os containeres plásticos utilizados para armazenamento devem estar devidamente higienizados, observando-se com atenção o fundo destes, as matérias primas ou produtos devem ser completamente envoltos em filme plástico, as caixas devem sempre estar empilhadas sobre estrado plástico ou outra caixa vazia;
• As condições específicas de refrigeração de cada matéria prima e de cada produto devem ser observadas durante todas as fases de processamento, armazenamento, movimentação e transporte, conforme especificado nos Procedimentos Operacionais de modo a que se preservem as condições ideais de cadeia de frio. Atenção especial deve ser tomada quando deparadas de máquina e/ou demais ocorrências que possibilitem temperaturas inadequadas;
• Controle de temperatura das câmaras frigorificas deve ser efetuado dentro das rotinas estabelecidas, ficando os registros disponíveis para consultas de Auditoria;
• Todos os equipamentos, acessórios, ferramentas e objetos devem ser guardados em local específico após utilização;
• Todos os insumos e produtos armazenados em processos, aguardando aprovação e rejeitados, devem ser devidamente identificados;
• Deve ser evitada a circulação de pessoas e materiais estranhos às áreas de processamento;
• As embalagens de insumos não totalmente utilizados devem ser mantidas fechadas e identificadas sobre o conteúdo, data e lote;
• As matérias primas, ingredientes e embalagens devem ser utilizados dando-se prioridade de uso aos mais antigos (PEPS/FIFO), e dentro do prazo de validade;
• As lixeiras devem ser mantidas fechadas. O lixo deve ser retirado dos setores regularmente de modo a se evitar acúmulo.

Armazenamento

Condições gerais

• Os procedimentos de armazenamento devem ser efetuados conforme especificado nos “Procedimento Operacional Padrão de Qualidade”;
• Os procedimentos de armazenamento devem ser adequados aos tipos, categorias e classes de produtos, respeitando-se os problemas de incompatibilidade e de riscos de contaminação entre produtos distintos (ex.: ingredientes e aditivos não podem ser armazenados junto a produtos químicos);
• As formas de armazenagem utilizada devem garantir as condições higiênicas, ambientais, e de integridade requeridas;
• Os procedimentos de armazenamento devem favorecer a rotação (FIFO/PEPS), a higienização dos locais, as condições específicas ambientais, de umidade e de temperatura;
• Um rigoroso controle de datas (FIFO/PEPS) deve ser efetuado de forma que os produtos com data mais antiga tenham prioridade de saída sobre aqueles com data mais nova;
• Manter o piso demarcado de modo a agilizar a estocagem e circulação;
• Produtos não conformes ou de retorno, devem ser estocados em local específico e devidamente identificados;
• Observar a altura máxima de empilhamento indicado;
• Armazenamento deve ser efetuado sobre estrados e nunca diretamente sobre o piso;
• Os estrados devem ser mantidos em bom estado de conservação e higiene;
• As operações devem proteger produtos e embalagens de danos mecânicos por impacto, pressão etc.;
• Deve ser mantido um rigoroso programa de manutenção e conservação aliado ao programa de Combate as Pragas.

Tanques e silos de armazenamento

• Os tanques e silos de armazenamento devem ser mantidos em perfeito estado de conservação, sendo efetuada inspeção periódica quanto a eventuais pontos de corrosão, infiltrações e demais que possam de alguma forma comprometer a qualidade das matérias primas e/ou produtos armazenados;
• Os tanques e silos de armazenamento devem ser mantidos limpos interna e externamente, conforme periodicidade e cronograma pré-estabelecido.

Câmaras frias

• As câmaras frias devem possuir “cortina de ar” nas portas e ou anti-portas, para evitar perdas de temperatura para o ambiente externo;
• Não deve existir respingo da água de degelo dos evaporadores sobre matérias primas e produtos;
• Manter a câmara em perfeito estado de higiene e manutenção;
• Manter a porta da câmara fechada para evitar a elevação da temperatura e condensação;
• As portas das câmaras devem ser mantidas em perfeito estado de conservação, vedação e de higiene;
• Deve-se observar um espaçamento adequado entre os pallet’s e destes em relação as paredes de modo a facilitar a circulação de ar frio entre os produtos;
• As operações de movimento devem ser efetuadas de maneira que exista o mínimo de troca térmica dos produtos com o ambiente e dentro do menor tempo possível;
• Os termômetros devem ser instalados de tal forma que seu posicionamento indique as condições reais de temperatura ambiental;
• Os termômetros devem ser periodicamente aferidos, estando os registros disponíveis para consulta nas auditorias;
• Deve ser efetuado um registro do controle de temperatura das câmaras em intervalos nos “POPQ”, ficando disponíveis nas auditorias.

Armazenamento de embalagens

• As embalagens devem ser armazenadas em condições que evitem problemas de contaminação cruzada como poeira e umidade;
• Devem ser evitados quaisquer tipos de “choques mecânicos” que possam comprometer futuramente a integridade dos produtos embalados;
• Deve-se ter atenção especial sobre riscos de contaminação das embalagens por produtos de higienização, lubrificantes e produtos utilizados em combate a pragas.

Armazenamento de produtos a temperatura ambiente

• Devem-se observar todas as condições indicadas nas “Condições Gerais” e demais especificidades referentes a cada produto, determinadas nas “POPQ”.

Armazenamento de produtos químicos

• O armazenamento de produtos químicos deve ser efetuado em local específico de acordo com as normas de segurança e nunca junto a matérias primas, ingredientes, aditivos, produtos e embalagens.

Transporte

• As condições ambientais e de higiene durante o transporte devem garantir os requisitos de qualidade específicos aos produtos transportados conforme as determinações constantes nos respectivos “POPQ”;
• Os veículos devem ser mantidos em perfeito estado de higiene, conservação e manutenção;
• Local de acondicionamento da carga deve estar livre de sugidades, odores, materiais e produtos estranhos;
• As condições de transporte devem garantir a manutenção da “cadeia de frio” específica de cada produto.

Controle de qualidade

• Os procedimentos de amostragem e controle de qualidade devem ser efetuados de acordo com a periodicidade e metodologia definidas, específicas a cada produto e a cada processo visando à certificação dos requisitos de qualidade;
• Os procedimentos de amostragem devem ser efetuados de modo a evitar riscos de contaminação aos produtos à aos processos;
• Deve ser efetuado higienização local sempre que o procedimento de amostragem ocasionar respingos de matérias primas ou produtos nos pontos de amostragem;
• Os procedimentos de descarte de produtos químicos, culturas microbianas, amostras contaminadas, etc., devem ser efetuados de acordo com as normas específicas a de modo a se evitarem quaisquer tipos de contaminação.



Higienização

• Os procedimentos de higienização e de desinfecção devem ser realizados de acordo com os “POPQ” específicos, buscando-se a máxima eficiência e tomando-se todas as medidas preventivas necessárias para se evitarem riscos de contaminação aos produtos, ambiente, pessoas e processo;
• A eficiência dos procedimentos de higienização deve ser verificada constantemente através de metodologias específicas;
• Os produtos químicos utilizados para higienização e limpeza devem ser armazenados em local específico. Estes produtos nunca devem ser armazenados diretamente sobre o piso;
• As bombonas e/ou recipientes devem ser devidamente identificadas, sendo manuseados e transportados apenas por pessoal devidamente treinado e qualificado;
• A utilização destes produtos somente deverá ser efetuada após aprovação técnica, com conhecimento prévio pelo responsável pelas áreas e/ou setores em que haverá armazenamento, manuseio e/ou utilização;
• As instalações para armazenamento de lixo e material descartável devem Ter separação física com as áreas de processo, serem mantidas fechadas, à prova de vazamentos, não se constituindo em atrativo e/ou em foco para pragas.

Combate às pragas

• A utilização de praguicidas deverá ter aprovação preliminar pela área técnica, sendo comunicado com antecedência o responsável pela seção em que será efetuada aplicação do(s) produto(s). A aplicação de praguicidas deverá ser acompanhada por pessoal devidamente capacitado e treinado nas BPFs, de modo que sejam tomadas todas as precauções necessárias quanto a riscos de contaminação direta e indireta de instalações, equipamentos, utensílios, pessoal, matérias primas, produtos e embalagens;
• Os praguicidas devem ser armazenados em local específicos, exclusivos e mantidos devidamente trancados. Somente pessoal devidamente qualificado está autorizado a manusear e manipular estes produtos;
• Os praguicidas devem estar devidamente rotulados, contendo informações sobre o elemento ativo, toxidade, forma de aplicação e primeiros socorros;
• Os praguicidas somente deverão ser levados às áreas de processamento e de armazenamento, quando devidamente autorizados e na forma diluída, sendo sua manipulação restrita ao pessoal autorizado;
• Os frascos e embalagens dos praguicidas devem ser descartados de acordo com as instruções específicas, sendo vedada sua reutilização;
• Programa de Prevenção e Combate a Pragas devem ser observados em todos os seus aspectos, possuindo informações atualizadas sobre o mapeamento de infestações, dos tratamentos efetuados, produtos utilizados e cronogramas seguidos.

Processo: Requeijão Cremoso – Marca Néctar

• Coagulação coloca se o leite pasteurizado e desnatado em um tanque de processo de aço inoxidável, para que se de a coagulação (temperatura de coagulação do leite acontece 32° C) é auxiliado com a solução de 3 gramas de ácido cítrico por litro de leite.
• Aquecimento e lavagem da coalhada iniciam se o aquecimento da coalhada por vapor indireto, até que a massa atinja a temperatura de 45° C, agita se a coalhada lentamente para separar o soro, deixar a massa secar e processa a lavagem tantas vezes forem necessárias utilizando água morna. Após a lavagem da massa estará sem acidez, indo para a prensagem, coloca se a massa em formas de aço inoxidável prensando até o dessoramento da massa, após a prensagem da massa deixa a mesma em repouso em câmara fria a temperatura de + 3° C, até a sua utilização.
• Fusão da massa coloca-se a massa previamente pesada para fusão em uma fundidora de Requeijão de sistema fechado, com os ingredientes tais como: emulsificante, sal comum e por final o creme de leite. Funcionamento: liga as facas rotativas da fundidora e deixa funcionar por um período de 5 minutos para completa trituração da massa, após 5 minutos, abre se o vapor até a temperatura atingir 60° C, verifica a mistura e a consistência do produto e deixa a temperatura atingir 90° C, até completar a fusão total da mistura.
• Envase e armazenamento, depois de verificado o ponto do requeijão, verte se o mesmo ainda quente no funil aço inoxidável, provido de registro também em aço inoxidável, onde o mesmo é envazado nas embalagens plásticos, estes são limpos, sendo em seguida é selados e estocados a temperatura de + 3 ° C, em caixas de papelão com 24 unidades onde já estão prontos para serem comercializados com o mercador consumidor.
• O transporte do produto para o mercado: em veículos com carroceiras fechadas e isotérmicas com refrigeração, com temperatura inferior a + 10° C.

Controle de qualidade:

Matéria prima: leite cru resfriado tipo C: acidez, gordura, extrato seco total, extrato sem gordura, crioscopia, densidade, teste de alizarol, conservantes, freqüência do inicio do processo.

Produto acabado: análises microbiológicas realizadas, coliformes totais e fecais; (stafilococus coag.) Poso / g, realizado em laboratório externo, de acordo com o cronograma do SIF – local) freqüência das analises citadas acima: é coletada uma amostra por batelada, sempre no final processo. Analises físico – química: gordura, umidade, pH; freqüência das analises citadas acima: sempre no final do processo. O laboratório de controle conservará uma amostra em geladeira até a sua validade (cada lote produzido) de contra prova.

Processo: Queijo Parmesão – Marca Néctar

Matéria prima: O leite é recebido na plataforma (em tanques de recepção) e em seguida submetido às provas de rotina, utilizando o leite que apresenta dentro dos padrões. Logo após o seu recebimento é destinada (este é bombeado e antes o leite para por sistema de filtração com tela de aço inox) a padronização (é padronizado a 2,0 a 2,5% de gordura), pasteurização efetuada em pasteurizador a placas aquecido entre 72ºC a 75°C por 15 a 20 segundos e resfriado para 32° C, é bombeado através de tubulações de aço inox, até os tanques de fabricação.

Na adição dos ingredientes, mantém-se o leite em agitação constate, adicionam-se os ingredientes na seguinte ordem: fermento Termofílico (liofilizado), c1oreto de cálcio, lípase e coalho líquido. Esta agitação se procede por um tempo de 5 minutos e deixa se em repouso 34°C para se processar a coagulação, está deve durar um tempo de 40 a 60 minutos.

Corte e mexedura: após a verificação da coagulação atingiu o ponto ideal se inicia o corte da coalhada com auxilio das liras, este corte se processa até que os grãos apresentem uma uniformidade, tamanho de grão 0,5 cm, tempo de operação de 3 minutos, e repousar por mais 5 minutos.

Mexedura 1°: agitar lentamente por cerca de 25 minutos, até obter ligeira firmeza nos grão, que se tomam mais arredondados.

Dessoragem 1º: Retirar cerca de 40% do soro.

Mexedura 2°: deve ser bem rápida e é feito um aquecimento lento da massa (1 °C por cada 3 minutos) até a massa atingir a temperatura de 43°C, usando vapor indireto.

– Intervalo do primeiro para o segundo aquecimento: 15 Minutos

2 ° aquecimento: 50°C o ponto ocorre quando os grãos ficarem firmes, que se mostram mais brilhantes, e pela sua textura, a qual se verifica comprimindo uma porção da massa nas mãos, aproximadamente 80 minutos após o corte da coalhada.

Dessoragem 2º: O soro é retirado totalmente; Prensagem da massa; a massa é prensada no tanque por 15 minutos até a completa eliminação do soro.

Enformagem: a massa é colocada em formas com dessoradores.

1° Prensagem: prensam-se os queijos por 30 minutos com pressão de 15 kg; Virar os queijos.

2º Prensagem: prensam-se os queijos por mais 60 minutos com pressão de 15 kg.

3º Prensagem: prensam-se os queijos por mais 2 horas com pressão de 20 kg

12 horas com pressão 18 vezes o peso da massa; retiram-se os dessoradores.

Os queijos são conduzidos para a câmara de salga ainda dentro das formas.

No dia seguinte, os queijos vão para a salga:

Salga: os queijos são retirados das formas e colocados em tanques de salmoura com a concentração de 18° a 20° Be, com temperatura de 10 a 12°C permanecendo por um período de, 24 horas sendo este tempo variável em função ao peso do queijo.

Embalagem: após a salga, deixar escorrer e secar, em prateleiras de fibra dentro da própria câmara de salga por um período de pelo menos de 24 horas.

Maturação: deixar maturar em Câmaras com 85% de umidade a 12°C, por 20 dias.

Depois são levados para uma câmara com 16°C, onde permanecerão até o final da cura (6 meses). Durante o período de cura, os queijos devem receber banhos de óleo de linhaça ou óleo vegetal, para amaciar a crosta, diminuindo a evaporação.

Fracionamento: se pega a peça inteira já maturada de 5 kg faz-se o fracionamento para 250 g em uma forma especifica de aço inox com facas próprias usadas somente para este fim; as fatias fracionadas são embaladas a vácuo em embalagens termo-encolhi veis.

Estocagem: em câmara fria a temperatura de +2 a +5 ° C, até a sua comercialização.

Transporte do produto acabado: em veículos com carrocerias fechadas e isotérmicas, temperatura inferior a + 1 O ° C.

Origem da matéria prima: de produtores da região, ou de terceiros com registro no SIF.

Controle de qualidade:

Matéria prima: leite cru resfriado: análises efetuadas: acidez, densidade, crioscopia, conservantes, inibidores, alizarol, fosfatase, redutase, gordura, extrato seco total, extrato sem gordura, redutase, freqüência do início do processo (uma amostra por tanque de processo) feito em laboratório próprio.

Processo: Queijo Prato Lanche – Marca Néctar

Matéria prima: O leite é recebido na plataforma (em tanques de recepção) e em seguida submetido às provas de rotina, utilizando o leite que apresenta dentro dos padrões. Logo após o seu recebimento é destinado (este é bombeado e antes o leite para por sistema de filtração com tela de aço inox) ao resfriamento e estocado a temperatura média de +5°C (é padronizado a 3,4 % de gordura), pasteurização é efetuada em pasteurizador a placas aquecido entre 72ºC a 75°C por 15 a 20 segundos e resfriado para 32° C, é bombeado através de tubulações de aço inox, até os tanques de fabricação.

Na adição dos ingredientes, mantém-se o leite em agitação constate, adicionam-se os ingredientes na seguinte ordem: fermento mesofílico (liofilizado), cloreto de cálcio, corante urucum e coalho líquido. Esta agitação se procede por um tempo de 5 minutos e deixa se em repouso para se processar a coagulação, está deve durar um tempo de 40 a 60 minutos.

Corte e mexedura: após a verificação da coagulação atingiu o ponto ideal se inicia o corte da coalhada com auxilio das liras, este corte se processa até que os grãos apresentem uma uniformidade, tamanho de grão 0,5 cm, tempo de operação de 3 minutos, e repousar por mais 5 minutos.

Mexedura 1°: agitar lentamente por cerca de 25 minutos, até obter ligeira firmeza nos grão, que se tornam mais arredondados.

Dessoragem 1°: Retirar cerca de 40% do soro.

Mexedura 2º: deve ser bem rápida e é feito um aquecimento lento da massa com água quente a 80°C até a massa atingir a temperatura de 43°C. O ponto ocorre quando os grãos ficarem firmes, aproximadamente 80 minutos após o corte da coalhada.

Dessoragem 2º: O soro é retirado totalmente; Prensagem da massa; a massa é prensada no tanque por 15 minutos até a completa eliminação do soro.

Enformagem: a massa é colocada em formas com dessoradores.

1° Prensagem: prensam-se os queijos por 30 minutos com pressão de 15 kg; Virar os queijos.
2° Prensagem: prensam-se os queijos por mais 40 minutos com pressão de 15 kg; retiram-se os dessoradores.
3º Prensagem: prensam-se os queijos por mais 40 a 60 minutos com pressão de 20 kg, os queijos são conduzidos para a câmara de salga ainda dentro das formas.

No dia seguinte, os queijos vão para a salga:

Salga: os queijos são retirados das formas e colocados em tanques de salmoura com a concentração de ISO a 20° Be, com temperatura de 10 a 12°C permanecendo por um período de queijos de 500 gramas 90 minutos. Sendo este tempo variável em função ao peso do queijo.

Embalagem: após a salga, deixar escorrer e secar em prateleiras de aço inox dentro da própria câmara da salga por um período de 24 horas, procede-se a embalagem em sacos plástica termo-encolhiveis, (embalagens próprias) são embalados a vácuo.

Maturação: deixar maturar em Câmaras frias por mais 25 dias à temperatura de 10°C a 12°C ate alcançar suas características

Estocagem: em câmara fria a temperatura de +2 a +5 ° C, até a sua comercialização.

Transporte do produto acabado: em veículos com carrocerias fechadas e isotérmicas, temperatura inferior a + 10 ° C.

Origem da matéria prima: de produtores da região, ou de terceiros com registro no SIF.

Controle de qualidade:

Matéria prima: leite cru refrigerado: análises efetuada: acidez, densidade, crioscopia, conservantes, inibidores, alizarol, fosfatase, redutase, gordura, extrato seco total, extrato sem gordura, redutase, freqüência do início do processo (uma amostra por tanque de processo) feito em laboratório próprio.

Produto acabado: analises microbiológicas realizadas, coliformes totais e fecais; (Stafilococus coag.) Positiva/gr, salmonela sp, Listeria monocytogenes, será realizado em laboratório externo, de acordo com o cronograma do SIF – local) e as demais em laboratório próprio freqüência das analises citadas: é coletada uma amostra por batelada, (cap. tanque de processo: 1000 litros) sempre no final do processo.

Processo: Doce de Leite – Marca Néctar

• O leite é clarificado, pasteurizado e resfriado em pasteurizador a placas, todo o sistema é automático (capacidade – 10.000 litros / hora) o qual é colocado em um balão isotérmico de capacidade de 10.000 litros, construído totalmente em aço inoxidável onde se procede a hidrólise enzimática da lactose (nesta fase adiciona-se a enzima lactase beta galactosidase) por um período de 10 horas com agitação constante.
• Obtido o grau de hidrólise, aqui temos o leite hidrolisado, são adicionados os ingredientes assim respectivamente: açúcar, glicose de milho, amido de milho e o bicarbonato de sódio; nesta fase então se procede à mistura dos ingredientes no denominado tanque de mistura.
• Feito a mistura, o leite fica recebendo vapor constante, através das camisas de aquecimento, mantendo a uma pressão constante de 3.0 kg/cm2, sob agitação também constante até obter o teor de sólidos desejado.
• O produto obtido da concentração do leite com os devidos ingredientes é resfriado para a temperatura de 75° C no próprio concentrador e é enviado através de uma bomba positiva de deslocamento para um tanque tipo dosador, este possui camisa de vapor que mantém constante a temperatura de 75° C, onde é envasado em potes plásticos e o fechamento é feito por uma seladora e data de fabricação, validade e lote estão indicados na tampa do pote plástico, e as mesmas serão acondicionadas em caixas de papelão com 12 unidades de 290g.
• Feito o envase o produto é destinado para o setor de produto acabado, e permanece neste até a sua comercialização.
• Validade do produto é de 180 (cento e oitenta) dias.
• Armazenamento: depósito de produto acabado, o local é limpo e isolado dos demais setores, iluminação natural e artificial através de lâmpadas e ventilação natural.
• Transporte: veículos com carroceiras fechadas.

Controle de qualidade:

Matéria prima: leite cru refrigerado: acidez, gordura, extrato seco total, extrato sem gordura, crioscopia, densidade, teste de alizarol, conservantes, freqüência: antes da pasteurização. Leite pasteurizado: acidez, crioscopia, gordura, freqüência: após pasteurização e hidrólise enzimática da lactose.

Produto acabado e em processo: análises microbiológicas realizadas: staphylococcus aureus, salmonela em 25 gramas, em laboratório de terceiros; coliformes totais e fecais, contagem total, bolores e leveduras, freqüência das análises citadas acima: é coletada uma amostra por batelada, durante o processo. Análises físico – química: gordura, umidade, acidez; freqüência das análises citadas acima: durante e/ou final do processo. O laboratório de controle conservará uma amostra em temperatura ambiente, até a sua validade (cada lote produzido) de contra prova.

Processo: Bebida Láctea Fermentada Sabor Morango – Marca Néctar

• O leite reconstituído e/ou leite cru refrigerado é de boa qualidade, estocados em balão isotérmicos, a seguir é ainda padronizado a 3,0 % de matéria gorda pasteurizado em pasteurizador a placas a 72° a 75° C por 15 segundos, é resfriado a 4ºC.
• A seguir é bombeado para um maturador, após se inicia a esterilização do leite onde se eleva a temperatura de 90° C por um período de 3,0 minutos, em um maturador de capacidade de 4.000 litros, nesta fase, adiciona-se o açúcar, gelatina e soro (seja reconstituído ou derivado da fabricação de queijos), antes de ser adicionado, o mesmo é pasteurizado e resfriado ficando estocado até a sua utilização.
• Subsequente faz o resfriamento para 40° a 45° C para permitir que se adicione o fermento lático liofilizado, que permanecerá em incubação na temperatura acima citada e constante que ocorrerá por um período mínimo de 3 horas, até atingir o pH de 4,60 e resfriar imediatamente para 20 C, e aqui adicionar os ingredientes tais como: aroma idêntico ao natural reforçado de morango e o corante natural carmim de choconilha e sorbato de potássio.
• No término da operação (adição dos ingredientes), retorna-se ao resfriamento do produto para 12° C.
• Envase e armazenamento: após a mistura a bebida é envasada diretamente nos sacos plásticos de conteúdo 1 l e 200 ml do produto, a validade do produto é feito com datador diretamente na embalagem, com data de fabricação e validade, (Fabricação: DD MM AA / Validade: DD MM AA) e lote, depois são enviados a câmara fria de estocagem a temperatura de + 3° C, onde já está pronto para o consumo. O transporte do produto para o mercado: em veículos com carroceiras fechadas e isotérmicas com refrigeração, com temperatura inferior a + 10° C.
• Todas as tubulações do soro são independentes no sistema de pasteurização, a máquina de envase é automática de marca Brasholanda do Brasil, cap. 2.000 litros / hora.

Controle de qualidade:

Matéria prima: leite cru refrigerado: acidez, gordura, extrato seco total, extrato sem gordura, crioscopia, densidade, teste de alizarol, conservantes, freqüência no processo.

Processo: Manteiga de Primeira Qualidade (Sem Sal) – Marca Néctar

O creme de leite é de boa qualidade, provém da padronização do leite pasteurizado, o qual é bombeado (bomba positiva) diretamente ao tanque de processo, denominado de maturador com capacidade de 4.000 litros, que é constituído totalmente em aço inox.

Neste equipamento o creme é padronizado, a gordura final fica entre 38 a 40% de matéria gorda, onde também é pasteurizado, que consiste em aquecer o creme de leite à temperatura de 85°C por um período de 30 minutos.

Logo após faz-se o resfriamento para a temperatura de 21 °e, é quando se adiciona o fermento lácteo mesofílico, na proporção de 3,00%, para que o creme seja maturado por um período de 18 horas.

Depois da maturação o creme é bombeado para a batedeira, antes é resfriado para a temperatura de 8° C. Estando o creme dentro da batedeira se inicia a batelada, onde cada operação terá um tempo de duração de 20 a 25 minutos, após este período se esgota o leitelho.

Em seguida, efetua-se de duas a três lavagens com água gelada, com temperatura de 5° a 6° C, para retirar o excesso do leitelho ainda existente, logo em seguida faz-se a espremedura ou malaxagem, que consiste em colocar a batedeira em movimento mais lento para eliminar o excesso de água.

Depois de pronta a manteiga de primeira qualidade (sem sal) a mesma é colocada no funil dosador, para dosar nas embalagens de 200 gramas (o funil dosador é em aço inoxidável, máquina de envase semi-automática):

Brasholanda, provido de registro também em aço inoxidável com o se lamento semi-automático e acondicionamento em caixas de 24 unidades, que são estocadas em câmaras frias a temperatura de 2° a 5° C até sua comercialização.

O transporte do produto para o mercado de comercialização são em veículos com carroceiras fechadas e isotérmicas com refrigeração, com temperatura inferior à + 10° C.

Controle de qualidade:

Matéria prima: creme de leite: acidez, gordura, extrato sem gordura, conservantes, freqüência do início do processo.

Produto acabado: análises microbiológicas realizadas, coliformes totais e fecais; (salmonela sp /25g, stafilococus coag. pos./ g, realizado em laboratório externo) freqüência das análises citadas acima: é coletada uma amostra por batelada, sempre no final processo. Análises físico – química: gordura, umidade, acidez na gordura; freqüência das análises citadas acima: sempre no final do processo. O laboratório de controle conservará uma amostra em geladeira até a sua validade (cada lote produzido) de contra prova.

Processo: Ricota Fresca – Marca Néctar

Matéria prima: O soro é colocado em um tanque totalmente de inox que permita o aquecimento com vapor direto ou indireto.

A acidez do soro (11° a 14°D) pode ser reduzida para cerca de 8°D, com bicarbonato de sódio.

Adicionar entre 10% e 15% de leite desnatado ao soro e misturar bem.

Aquecer até 80°C e iniciar a acidificação que pode ser com:

– Ácido Cítrico e / ou Ácido Lático.

Interromper o aquecimento (em cerca de 90°C )quando os primeiros flocos aflorarem à superfície do soro

Aguardar o tempo necessário para que a massa floculada se firme, então, à sua coleta com uma conha especial. Coletar a ricota em formas forradas com dessorador e virar uma vez e leva-Ia à câmara fria para completar a dessoragem

Tão logo o produto esteja firme poderá ser embalado e mantido a 5°C até sua comercialização.

Enformagem: a massa é colocada em formas com dessoradores.

Embalagem: após, deixar escorrer e secar procede-se a embalagem em sacos plásticos termo-encolhiveis, (embalagens próprias) são embalados a vácuo.

Estocagem: em câmara fria a temperatura de +2 a +5 o C, até a sua comercialização.

Transporte do produto acabado: em veículos com carrocerias fechadas e isotérmicas, temperatura inferior a + 10 o C.

Origem da matéria prima: Soro proveniente da produção de Queijo Mussarela (Rotulo registrado no Ministério da Agricultura SIF / DIPOA sobe N° 0025 / 572) de produção própria

Controle de qualidade:

Matéria prima: Soro de leite: análises efetuadas: acidez, freqüência do início do processo (uma amostra por tanque de processo) feito em laboratório próprio.

Produto acabado: analises microbiológicas realizadas, coliformes totais e fecais; (Stafilococus coag. Positiva, fungos e leveduras, salmonela sp, Listeria monocytogenes, será realizado em laboratório externo, de acordo com o cronograma do SIF – local) e as demais em laboratório próprio freqüência das analises citadas: é coletada uma amostra por batelada, (cap. tanque de processo: 1000 litros) sempre no final do processo.

Processo: Queijo Mussarela – Marca Néctar

Matéria prima: O leite refrigerado é recebido na plataforma (em tanques de recepção) antes é submetido às provas de rotina, utilizando o leite que apresenta dentro dos padrões. Logo após o seu recebimento é destinado (este é bombeado e antes o leite passa por sistema de filtração com tela de aço inox) ao resfriamento e estocado a temperatura média de +4° C, pasteurização, efetuado em pasteurizado r a placas aquecidas entre n° a 75° por 15 segundos e resfriado para 32° C, e é padronizado a 3,5 % de gordura, é bombeado através de tubulações de aço inox, até os tanques de fabricação (denominado de queijomat).

Na adição dos ingredientes, mantém – se o leite em agitação constante adiciona se os ingredientes na seguinte ordem: fermento mesofílico, cloreto de cálcio, coalho liquido. Esta agitação se procede por um tempo de 5 minutos e deixa se em repouso para se processar a coagulação, está deve durar um tempo de 40 a 60 minutos.

Corte e mexedura: após a verificação da coagulação atingiu o ponto ideal se inicia o corte da coalhada com auxilio das liras, este corte se processa até que os grãos apresentem uma uniformidade, tempo de operação de 15 minutos.

Dessoragem: parar a mexedura e deixa a massa em repouso e retira se 1/3 do soro.

Mexedura e cozimento: se inicia conjuntamente, lento o aquecimento de 1° C por 3 minutos até 45 ° C, e continua a mexe dura até a obtenção do ponto, cerca de 45 minutos após o corte.

Fermentação: verificando experimentalmente o ponto, remover a massa para uma tanque (dreno prensa), colocar as placas para a pré prensagem sem eliminar o soro do tanque, está operação dura até a massa atingir o pH de 5,0 a 5,3; um peso duas vezes superior ao peso da massa, na prensa pneumática significa 5 lb/pof².

Quando pH atingir o valor citado acima, eliminar totalmente o soro.

A filagem é realizada em uma filadeira usando água quente (temperatura de 75° a 80° C), e a seguir é moldada em máquina apropriada de denominação – moldadeira e a seguir é colocada em formas plásticas cilíndricas.

Após a moldagem as formas são coladas em um tanque contendo água gelada e permanece neste por um período de 60 minutos, e são levados para câmara fria de salga.

Salga: os queijos são retirados das formas e colocados em tanques de salmoura com a concentração de 18° a 20° Be, permanecendo por um período de 24 horas para todos os kg de produto, na temperatura de 12° a 14° C.

Secagem e embalagem: O queijo; é retirado da salga, é colocado sobre mesas de aço inox para facilitar o escoamento da salmoura, e a secagem ocorre em outra câmara fria (câmara fria de secagem) a mesma temperatura da salga, secos os queijos: são ensacados em sacos plásticos e fechados á vácuo, onde são armazenados em câmaras frias com temperatura controlada entre 8° a 10° C, até a sua comercialização.

Transporte do produto acabado: em veículos com carrocerias fechadas e isotérmicas, com temperatura inferior a 10° C.

Origem da matéria prima: produtores da região.

Estes queijos pertencem os de umidade alta entre 46 % < a < 55 %, regulamento técnico de identidade e Qualidade de queijos, portaria 146 publicada em 11.03.96, e a portaria 365 de 04 de setembro de 1.997.

Controle de qualidade:

Matéria prima: leite cru refrigerado: análises efetuada – acidez, gordura, extrato seco total, extrato sem gordura, peroxidase, fosfatase, redutase, crioscopia, densidade, teste de alizarol, conservantes, freqüência das analises no inicio do processo, (batelada: uma amostra por tanque de processo cap. 5.000 litros) feito em laboratório próprio.

Produto acabado: análises microbiológicas realizadas, coliformes totais e fecais; (stafilococus coag. Pos. / g, salmonela sp, listeria monocytogenes, será realizado em laboratório externo, e as demais em laboratório próprio) freqüência das analises citadas acima: é coletada uma amostra por batelada, sempre no inicio processo.

Analises físico – química: gordura, umidade, pH; freqüência das analises citadas acima: sempre no final do processo, feito em laboratório próprio.

Processo: Queijo Minas Padrão – Marca Néctar

Matéria prima: O leite é recebido na plataforma (em tanques de recepção) e em seguida submetido às provas de rotina, utilizando o leite que apresenta dentro dos padrões. Logo após o seu recebimento é destinada (este é bombeado e antes o leite para por sistema de filtração com tela de aço inox) a padronização (é padronizado a 3,4 % de gordura), pasteurização efetuada em pasteurizador a placas aquecido entre 72ºC a 75°C por 15 a 20 segundos e resfriado para 32° C, é bombeado através de tubulações de aço inox, até os tanques de fabricação.

Na adição dos ingredientes, mantém-se o leite em agitação constate, adicionam-se os ingredientes na seguinte ordem: fermento mesofílico (liofilizado), c1oreto de cálcio, e coalho liquido. Esta agitação se procede por um tempo de 5 minutos e deixa se em repouso para se processar a coagulação, está deve durar um tempo de 40 a 60 minutos.

Corte e mexedura: após a verificação da coagulação atingiu o ponto ideal se inicia o corte da coalhada com auxilio das liras, este corte se processa até que os grãos apresentem uma uniformidade, tamanho de grão 1,5 cm, tempo de operação de 3 minutos, e repousar por mais 5 minutos.

Mexedura 1°: agitar lentamente por cerca de 25 minutos, até obter ligeira firmeza nos grão, que se tornam mais arredondados.

Dessoragem 1°: Retirar cerca de 40% do soro.

Mexedura 2º: deve ser bem rápida e é feito um aquecimento lento da massa com água quente a 80°C até a massa atingir a temperatura de 41°C. O ponto ocorre quando os grãos ficarem firmes, aproximadamente 80 minutos após o corte da coalhada.

Dessoragem 2º: O soro é retirado totalmente; Prensagem da massa; a massa é prensada no tanque por 15 minutos até a completa eliminação do soro.

Enformagem: a massa é colocada em formas com dessoradores.

1° Prensagem: prensa-se os queijos por 30 minutos com pressão de 15 kg; Virar os queijos.
2° Prensagem: prensa-se os queijos por mais 40 minutos com pressão de 15 kg; retira-se os dessoradores.
3º Prensagem: prensam-se os queijos por mais 40 a 60 minutos com pressão de 20 kg, os queijos são conduzidos para a câmara de salga ainda dentro das formas.

No dia seguinte, os queijos vão para a salga:

Salga: os queijos são retirados das formas e colocados em tanques de salmoura com a concentração de 10º a 20° Be, com temperatura de 10 a 12°C permanecendo por um período de queijos de 0,7 kg e 1,2 kg 6,0 horas. Sendo este tempo variável em função ao peso do queijo.

Embalagem: após a salga, deixar escorrer e secar procede-se a embalagem em sacos plástica termo-encolhiveis, (embalagens próprias) são embalados a vácuo.

Maturação: deixar maturar em Câmaras frias por mais 20 dias à temperatura de 10 a 12°C. Estocagem: em câmara fria a temperatura de +2 a +5 ° C, até a sua comercialização.

Transporte do produto acabado: em veículos com carrocerias fechadas e isotérmicas, temperatura inferior a + 1 O ° C.

Origem da matéria prima: de produtores da região, ou de terceiros com registro no SIF.

Controle de qualidade:

Matéria prima: leite cru resfriado: análises efetuadas: acidez, densidade, crioscopia, conservantes, inibidores, alizarol, fosfatase, redutase, gordura, extrato seco total, extrato sem gordura, redutase, freqüência do início do processo (uma amostra por tanque de processo) feito em laboratório próprio.

Produto acabado: analises microbiológicas realizadas, coliformes totais e fecais; (Stafilococus coag. Positiva, fungos e leveduras, salmonela sp, Listeria monocytogenes, será realizado em laboratório externo, de acordo com o cronograma do SIF – local) e as demais em laboratório próprio freqüência das analises citadas: é coletada uma amostra por batelada, (cap. tanque de processo: 1000 litros) sempre no final do processo.

• Se o estágio foi desenvolvido na implantação de sistema de gestão de qualidade, descrever os pré-requisitos implantados, qual a estratégia usada, os chek list e qual a pontuação atingida,
• Se o estágio foi realizado no desenvolvimento de novos produtos, descrever o planejamento e relacionar todas as etapas cumpridas;

Críticas sobre o desenvolvimento do estágio:

Situação e Condições da Edificações

Apesar de ser uma empresa em pouco antiga, a localização é adequada, livre de focos de insalubridade, insetos e roedores, ausência de lixo, objetos em desuso e animais.

Os pisos, forros, tetos, janelas, paredes e portas, adequadas, em perfeitas condições de limpeza. Paredes com divisórias adequadas, acabamento liso, lavável, de cor clara, impermeável e em bom estado de conservação. Portas e janelas com proteção contra insetos e roedores, todas aberturas teladas, molas nas portas e rolos com sifão e proteção. Iluminação e ventilação garantindo o conforto térmico, livres de fungos, boloros, fumaças, gases e condensação de vapores.

As instalações sanitárias também é bem organizada, separadas por sexo, são sanitários pequenos mais bem adequados para o números de funcionários. Armário individual, chuveiros com água fria e quente, pisos, ventilações e iluminação e o principal, afastado da área de produção e refeição. Boas condições de limpeza, higienização das mãos-sabão e tolhas claras.

Os laboratórios na área de manipulação são rigorosamente fiscalizados, com sabão, água corrente, toalhas e um sanitizante (álcool).

Tratamento da caixa d’água em perfeitas condições de higiene, a água não é ligada a rede pública é pelo poço artesiano. Destinos de resíduos adequados, lixos limpos e higienizados constantemente e tampados devidamente.

Equipamentos e utensílios de superfície de fácil limpeza e desinfecção e em bom estado de conservação e funcionamento, em matérias não contaminante. Bancadas, mesas em números suficiente e em perfeito estado. Equipamentos para proteção e conservação sob refrigeração adequados, em perfeitas condições de limpeza. O armazenamento de utensílios também é um lugar adequado.

Na área de produção, manipulação e vendas também se aplica uma boa organização, roupas adequadas, de cor clara, aventais longos e botas fechadas e tocas que contenham todo o cabelo, e tudo também rigorosamente lisos. Realização de exames periódicos, estado de saúde controlada.

Matérias-primas e produtos expostos a venda com boa procedência, fornecedores autorizados, embalagens, rótulos regulamentados, registrados no Ministério da Saúde (SFI). As matérias-primas com cor, sabor, odor sem aspectos de alterações. Condições de tempo e temperatura adequada para que garantam a venda sem alterações do produto. Embaladas com embalagens integras e identiifcações visível, prazo de validade respeitado.

Produção, manipulação e venda com controle de qualidade, cada setor seu PPHO, BPF, “área sujo” e “área limpa” isoladas manipulação mínima e higiênica, proteção contra contaminação, armazenamento adequado, cada um em sua temperatura ideal, análise laboratorial com frequência, transporte limpo e protegido sempre, pessoal treinado e qualificado para cada atividade e é muito importante um responsável em cada setor para exigência do controle de qualidade para o mesmo.

Enfim é uma empresa de pequeno porte, mais que está nos padrões de qualidade, funcionários responsáveis, sendo a maioria com mais de 15 anos de trabalhando no laboratório, pessoas que já sabem, os resultados que as análises tem que dar, pH, crioscopia, gordura, unidade, tempo de vida de prateleira, etc. Mas é uma pena a empresa não ter crescido, como se trata de uma cooperativa existem muitos presidentes e cada um tem uma visão, o que se torna mais difícil o relacionamento e a visão de amplitude.

Violência Contra a Mulher

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INTRODUÇÃO

A violência – concebida como um fenômeno socialmente construído – é representada de forma diferente entre as sociedades e entre os grupos de uma mesma sociedade. No contexto das mudanças culturais provocadas pela sociedade pós-industrial, a família reconfigurou seus papéis com uma distribuição desigual de autoridade e poder e uma maior fragilidade de diálogo. A emancipação feminina e o ingresso da mulher no mundo do trabalho diminuíram a participação dos pais na educação dos filhos, criando um vácuo formativo não preenchido pelas creches, nem pelas escolas. Em decorrência disso, estabeleceu-se uma indefinição de papéis sociais e de limites da (in) disciplina e do abuso físico dos filhos. Os comportamentos socialmente aprendidos nos espaços domésticos são freqüentemente reproduzidos pelos adolescentes nos espaços extra-familiares, configurando-se, muitas vezes, em atitudes de permissividade e violência.

Entre as várias formas de expressão da violência estão a física, a sexual, a psicológica e a negligência. A primeira consiste no uso intencional, não acidental da força, através de agressões, tapas, murros, maus tratos e espancamentos. A violência sexual é vista como um abuso do poderio exercido sobre determinada vítima sem seu consentimento como carícias indesejadas, incesto, exploração sexual, exibicionismo, pornografias infantis e estupro. A violência psicológica é caracterizada por desrespeito, verbalização inadequada, humilhação, ofensas, intimidações, traição, ameaças de morte e de abandono emocional e material, resultando em sofrimento mental.

A violência leva a conseqüências orgânicas, psicológicas, comportamentais (autoritarismo, delinqüência, entre outros) e desequilíbrio familiar. As orgânicas estão relacionadas com seqüelas a nível corporal como lesões abdominais, oculares, fraturas, queimaduras e lesões permanentes ou temporárias, podendo levar à morte. As psicológicas caracterizam-se por raiva, medo, ansiedade e revolta frente ao agressor, resultando em desconfiança, diminuição do aprendizado, sentimentos de exclusão e receio nos relacionamentos interpessoais.

COMO SE MANIFESTOU A VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA.

Violência é um comportamento que causa dano a outra pessoa, ser vivo ou objeto. Nega-se autonomia, integridade física ou psicológica e mesmo a vida de outro. É o uso excessivo de força, além do necessário ou esperado. O termo deriva do latim violência (que por sua vez o amplo, é qualquer comportamento ou conjunto de deriva de vis, força, vigor); aplicação de força, vigor, contra qualquer coisa ou ente. Assim, a violência diferencia-se de força, palavras que costuma estar próximas na língua e pensamento cotidiano. Enquanto que força designa, em sua acepção filosófica, a energia ou “firmeza” de algo, a violência caracteriza-se pela ação corrupta, impaciente e baseada na ira, que não convence ou busca convencer o outro, simplesmente o agride. Existe violência explícita quando há ruptura de normas ou moral sociais estabelecidas a esse respeito: não é um conceito absoluto, variando entre sociedades.

Por exemplo, rituais de iniciação podem ser encaradas como violentos pela sociedade ocidental, mas não pelas sociedades que o praticam.

Em todas as culturas, brincadeiras violentas surgem espontaneamente, especialmente entre meninos, logo depois que as crianças começam a andar, com comportamento agressivo ocorrendo em cerca de metade deles aos dois anos de idade (Holden, Science, 2000). Essa predisposição inata é facilmente explicável pela necessidade da seleção dessa característica durante a evolução da nossa espécie. Somos todos descendentes de indivíduos que souberam caçar efetivamente, que venceram a competição sexual, que sobreviveram a guerras tribais e a todos os aspectos da violência. A violência cessa com a segurança de si mesmo, e esta segurança vem quando se tem plena consciência do que se possui. O homem seguro de si mesmo não briga jamais, pois não necessita pôr-se à prova ante nada nem ninguém. Como para uma briga se necessitam no mínimo dois contundentes, é evidente que, se um deles não quer brigar, não haverá briga.

Esta é uma das características que fazem um indivíduo útil para a comunidade à qual pertence. Os primeiros usam da violência para assenhorear da pessoa, da esposa, dos filhos e do gado de outros homens; os segundos, para defendê-los; os terceiros, por bagatelas, como uma palavra, um sorriso, uma opinião diferente e qualquer outro sinal de menosprezo, seja direto em suas pessoas ou, por reflexo, em seus parentes, amigos, nação, profissão ou nome.”

CAUSAS

Á foram realizados diversos estudos sobre a relação entre violência na mídia e comportamento agressivo, mas até agora não há nenhuma evidência conclusiva dessa relação. A televisão e o cinema são apontados como irradiadores destes comportamentos, na medida que poderiam influenciar um indivíduo ou grupo. (Fishhoff, 1999; Freedman, 1984; Freedman, 1996; Freedman, 2002; Renfrew, 1997). A violência cessa com a segurança de si mesmo, e esta segurança vem quando se tem plena consciência do que se possui. O homem seguro de si mesmo não briga jamais, pois não necessita pôr-se à prova ante nada nem ninguém. Como para uma briga se necessitam no mínimo dois contundentes, é evidente que, se um deles não quer brigar, não haverá briga. Esta é uma das características que fazem um indivíduo útil para a comunidade à qual pertence.

VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA

A violência psicológica consiste em um comportamento (não-físico) específico por parte do agressor, seja este agressor um indivíduo ou um grupo específico num dado momento ou situação. Muitas vezes, o tratamento desumano tais como rejeição, depreciação, indiferença, discriminação, desrespeito, punições (exageradas), podem ser consideradas graves tipo de violência. Esta modalidade, muitas vezes não deixa (inicialmente) marcas visíveis no indivíduo, mas podem levar à graves estados psicológicos e emocionais. Muitos destes estados podem se tornar irrecuperáveis em um indivíduo, de qualquer idade. O ambiente familiar e a escola tem sido os locais mais reportados.

Assédio moral é a exposição dos trabalhadores e trabalhadoras a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada de trabalho e no exercício de suas funções. São mais comuns em relações hierárquicas autoritárias e assimétricas, em que predominam condutas negativas, relações desumanas e antiéticas de longa duração, de um ou mais chefes dirigida a um ou mais subordinado(s), desestabilizando a relação da vítima com o ambiente de trabalho e a organização.

Em geral, provocam ações humilhantes ao profissional ou o cumprimento de tarefas absurdas e impossíveis de realizar, para gerar a ridicularizarão pública no ambiente de trabalho e a humilhação do profissional. Pelo assédio moral, busca-se denegrir a imagem do profissional com humilhações e, muitas vezes, mentiras. Aquele que faz o assédio moral pode ter desejo de abuso de poder para se sentir mais forte do que realmente é, ou de humilhar a vítima com exigências absurdas. Alguns inclusive são sádicos e provocam outras violências além da moral.

VIOLÊNCIA FÍSICA

Algumas formas de violência, especialmente a violência física, a agressão propriamente dita, causando danos materiais ou fisiológicos, caracterizam-se pela intensidade comparativamente alta, assim como pela instantaneidade – porém tendo pouca perenidade. Existem inúmeras variações da violência física (ou ainda, sub-variedades), como o estupro, o assassinato e/ou o antigo (e desusado) duelo.

VIOLÊNCIA CONTRA MULHER

Em todas as sociedades existe a violência contra a mulher. Dados Mundiais da OMS (Organização Mundial da Saúde), e nacionais (Brasil), indicam números impressionantes sobre este tipo de violência. A violência contra a mulher engloba várias formas de violência, inclusive psicológica, não só o estupro. O abuso sexual de meninas no lar ou fora dele, a violência por parte do marido, assédio e intimidações sexuais no local de trabalho ou instituições educacionais, a prostituição forçada, entre outros. No Brasil os assassinatos de mulheres, cometidos por seus companheiros ou mesmo parentes próximos tem também atingindo números impressionantes. A violência contra a mulher é em geral, praticada pelo marido, namorado ou ex-companheiro.

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

A violência doméstica é um problema que atinge milhares de crianças, adolescentes, e mulheres. Esta página começava com essas palavras, até que recebi e-mail de um leitor ressaltando a falha e injustiça de excluir, do rol dos prejudicados, os homens. Portanto, podemos começar de novo dizendo que: A violência doméstica é um problema universal que atinge milhares de pessoas, em grande número de vezes de forma silenciosa e dissimuladamente.

Trata-se de um problema que acomete ambos os sexos e não costuma obedecer nenhum nível social, econômico, religioso ou cultural específico, como poderiam pensar alguns.

Sua importância é relevante sob dois aspectos; primeiro, devido ao sofrimento indescritível que imputa às suas vítimas, muitas vezes silenciosas e, em segundo, porque, comprovadamente, a violência doméstica, incluindo aí a Negligência Precoce e o Abuso Sexual, podem impedir um bom desenvolvimento físico e mental da vítima. A violência gerada e presenciada a nível doméstico torna necessário que se faça algo de cunho preventivo visando a um decréscimo nos acontecimentos e a uma melhor interação intrafamiliar.

A violência intrafamiliar difere do conceito de violência doméstica por incluir “os outros membros do grupo, sem função parental, que convivem no espaço doméstico” (BRASIL, 2002, p. 15). Entre os fatores de risco da violência intrafamiliar, há componentes associados à família, à relação do casal, à criança, ao idoso e à deficiência. A família, como grupo de pessoas com vínculos afetivos, de consangüinidade ou de convivência (BRASIL, 2002), tem a função primordial de socialização de seus membros. Essa função é exercida num contexto dinâmico de organização e de relação e poder.

Nesse contexto emergem: distribuição desigual de autoridade e poder entre os membros da família; relação centrada em papéis e funções rigidamente definidas; indiferenciação dos papéis com apagamento de limites entre os membros; ambiente estressor, com dificuldade de diálogo e descontrole de agressividade; estrutura de funcionamento fechada, com pobre interação social; situações de crises ou perdas (morte, separação, migração, entre outras); baixo nível de desenvolvimento da autonomia dos indivíduos; história de violência familiar na família de origem das pessoas envolvidas; abuso de drogas; antecedentes criminais ou uso de armas; comprometimento psicológico/psiquiátrico dos indivíduos; dependência econômica/emocional e baixa auto-estima entre os membros (BRASIL, 2002). Todos esses fatores predispõem à violência.

Esta teoria psicológica tem sido alvo de muitas críticas atualmente. Algumas delas dão conta de que ela se restringe a descrever fatos, apenas nomeando os mecanismos sociais visíveis; foi criada no contexto de uma sociedade norte-americana que, no final da guerra, precisava recuperar sua economia, valendo-se para isso de recursos teóricos que lhe permitissem interferir na realidade social e então intensificar a produção econômica, assim investiu em pesquisas sobre processos comunicativos de convencimento, modificações nas ações pessoais, etc., tentando moldar os procedimentos individuais à conjuntura social; alimenta uma visão restrita da vida social, reduzida apenas à interação entre indivíduos, deixando de lado uma totalidade mais complexa e dinâmica das criações humanas, que simultaneamente edifica o real social e cria o indivíduo, conceito que se torna ponto de partida para a elaboração de uma Psicologia Social nova.

Esta linha de pensamento adota uma postura mais crítica no que tange à vida social, e defende uma colaboração mais ativa da ciência para modificar a sociedade. Assim, ela busca transcender os limites de sua antecessora.

A violência contra as mulheres é uma manifestação de relações de poder historicamente desiguais entre homens e mulheres que conduziram à dominação e à discriminação contra as mulheres pelos homens e impedem o pleno avanço das mulheres. Ela acontece porque em nossa sociedade muita gente ainda acha que o melhor jeito de resolver um conflito é a violência e que os homens são mais fortes e superiores às mulheres. É assim que, muitas vezes, os maridos, namorados, pais, irmãos, chefes e outros homens acham que têm o direito de impor suas vontades às mulheres. Embora muitas vezes o álcool, drogas ilegais e ciúmes sejam apontados como fatores que desencadeiam a violência contra a mulher, na raiz de tudo está a maneira como a sociedade dá mais valor ao papel masculino, o que por sua vez se reflete na forma de educar os meninos e as meninas.

As mulheres que sofrem violência podem procurar qualquer delegacia, mas é preferível que elas vão às Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM), também chamadas de Delegacias da Mulher (DDM). Há também os serviços que funcionam em hospitais e universidades e que oferecem atendimento médico, assistência psicossocial e orientação jurídica. A mulher que sofreu violência pode ainda procurar ajuda nas Defensorias Públicas e Juizados Especiais, nos Conselhos Estaduais dos Direitos das Mulheres e em organizações de mulheres.

A violência contra a mulher, além de ser uma questão política, cultural, policial e jurídica, é também, e principalmente, um caso de saúde pública. Muitas mulheres adoecem a partir de situações de violência em casa. Muitas das mulheres que recorrem aos serviços de saúde, com reclamações de enxaquecas, gastrites, dores difusas e outros problemas, vivem situações de violência dentro de suas próprias casas. A ligação entre a violência contra a mulher e a sua saúde tem se tornado cada vez mais evidente, embora a maioria das mulheres não relate que viveu ou vive em situação de violência doméstica. Por isso é extremamente importante que os/as profissionais de saúde sejam treinadas/os para identificar, atender e tratar as pacientes que se apresentam com sintomas que podem estar relacionados a abuso e agressão.

A mulher não deve ser vista apenas como uma “vítima” da violência que foi provocada contra ela, mas como elemento integrante de uma relação com o agressor que ocorre em um contexto bastante complexo, que às vezes se transforma em uma espécie de jogo em que a “vítima” passa a ser “cúmplice”. A mulher às vezes faz uma denúncia formal contra o agressor em uma delegacia especializada para, logo depois, retirar a queixa. Outras vezes, ela foge para uma casa-abrigo levando consigo as crianças por temer por suas vidas e, algum tempo depois, volta ao lar, para o convívio com o agressor. São situações que envolvem sentimentos, forças inconscientes, fantasias, traumas, desejos de construção e destruição, de vida e de morte.

A violência sexual expõe as mulheres e meninas ao risco de contrair DSTs (doenças sexualmente transmissíveis) e de engravidar. A violência e as ameaças à violência limitam a capacidade de negociar o sexo seguro. Além disso, estudos mostraram que a violência sexual na infância pode contribuir para aumentar as chances de um comportamento sexual de risco na adolescência e vida adulta. Outra questão importante é que a revelação do status sorológico (estar com o HIV) para o parceiro ou outras pessoas também pode aumentar o risco de sofrer violência.

Após a violência sexual a mulher (ou menina) pode contrair DSTs, como HIV/AIDS, ou engravidar. Para prevenir essas ocorrências, o Ministério da Saúde emitiu uma Norma Técnica (disponível no site do fêmea, em pdf) para orientar os serviços de saúde sobre como atender as vítimas de violência sexual. Mas, se mesmo assim ocorrer a gravidez, a mulher pode recorrer a um serviço de aborto previsto em lei em hospital público. É um direito incluído no Código Penal (artigo 128) e regulamentado pelo Ministério da Saúde.

A discriminação contra a mulher começa na infância e vai até a velhice. Em alguns casos, começa até mesmo antes do nascimento, na seleção do sexo do embrião. No caso da violência doméstica contra os idosos, a imensa maioria das vítimas são mulheres. Segundo Maria Antonia Gigliotti, aos 77 anos, presidente do Conselho Municipal do Idoso da cidade de São Paulo, isso “tem a ver com a lógica do sistema patriarcal, que considera que a mulher vale menos do que o homem, não importa a idade que ela tenha. Também conta o fator financeiro: as mulheres idosas são normalmente bem mais pobres do que os homens idosos”.

O conceito de violência doméstica e contra a mulher abrange pequenos atos que não são óbvios, pequenas ações que passam despercebidas se não estivermos atentos. Todavia é um assunto que merece maior divulgação uma vez que as vítimas não são apoiadas. Uma vítima de agressão sofre a vergonha de ser agredida e a vergonha de ter que pedir ajuda da mesma forma alguém que tente ajudar um agredido não sabe como o fazer devido à falta de informação. O que encontro sobre este assunto é que o ser humano tende a afastar-se da vítima. Em algumas sociedades a culpa desta barbaridade da violência doméstica está dividida na cabeça das pessoas entre a vítima e o agressor.

Noutras um pouco mais evoluídas, mas nem por isso suficientemente evoluída e sensata, consideram a vítima, vítima inevitável para sempre, uma espécie de “pessoa sem sorte” que não sairá nunca de um círculo vicioso, e o estigma acontece rapidamente. Outras ainda, considera a prioridade do bem estar duma mulher vítima e/ou filhos, completamente igual á do criminoso, e a consciência que a vítima toma pela prioridade do seu bem estar e dos filhos uma desigualdade de gênero. Muita confusão há neste assunto, muita conveniência, muito interesse individualista.

CONCLUSÃO

O que mais mim chamou atenção a violência doméstica é um assunto de TODOS, porque empobrece literalmente a sociedade e compromete o seu futuro. Cada vítima precisa do apoio de todos. A causa precisa de uma luta muito unida e forte para a irradiação. Deixando de parte a violência e focando-nos apenas na agressividade é incrível o poder que a persuasão tem. A mera consciência de que tal instinto existe permite que haja um maior controle sobre as nossas ações.

A agressividade negativa tem a característica de deixar uma marca, um trauma que não pode ser esquecido e que com o passar do tempo à pessoa nunca esquecerá alguém que tenha lhe causado danos, sejam estes físicos ou psicológicos.

A sociedade atual não está fechando os olhos à violência e é essa a questão. Infelizmente vemos ambos os prismas. Á base legal vários progressos foram feitos, as leis abrangem novas modalidades de agressão e os meios de combate a essas agressões são mais eficazes e rápidos. No entanto não se incentiva a participação de casos de violência e há pouca informação de como ajudar uma mulher que é agredida. Muitos dos casos de agressão não são participados, porque a vitima é completamente subjugada pelo agressor, de uma forma tão complexa que ela acredita realmente ser impotente face ao poder superior do outro.

Além das dificuldades em convencer alguém a apresentar queixa à polícia as próprias forças da lei muitas vezes são impotentes porque sem provas não podem formar um caso e se o agressor descobre que foi feita queixa à polícia as conseqüências são devastadoras para o agredido. Apesar da sociedade esta abrindo os olhos para a violência que a rodeia não consegue proteger-se dela, ainda. As mulheres estão sendo privadas de executar o seu direito básico à felicidade sem medo de serem agredidas. Até hoje em pleno século XXI continuamos sem certezas absolutas acerca da posição da sociedade face às crescentes necessidades das pessoas. As forças policiais ajudam, mas existem os limites, os amigos ou conhecidos de uma vitima também tentam auxiliar, mas a maior dificuldade é a de ser ouvido sem ter provas concretas.

BIBLIOGRÁFIA

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GUERRA, V.N.A.. Violência de pais contra filhos: a tragédia revisitada. São Paulo (SP): Cortez, 1998.

Plano de Estágio Supervisionado

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO
2 JUSTIFICATIVA
3 OBJETIVOS
3.1 OBJETIVO GERAL
3.2 OBJETIVO ESPECÍFICO
4 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
5 AMBIENTE DE ESTÁGIO
6 METODOLOGIA
7 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

1 INTRODUÇÃO

A administração é uma ciência que faz parte da sociedade para desenvolver suas mudanças e realizações para um futuro próximo.

Com isso, poderíamos dizer que a administração seria e é uma ferramenta fundamental para qualquer organização seja ela particular pública e militar, com isso poderíamos e comprovamos que para o crescimento de qualquer organização é necessário ter o conhecimento dos princípios da administração.

Com o crescimento da economia brasileira, a organização procura qualificações na área administrativa que tenha os dois conhecimentos a teoria e a prática, para não perderem tempo em desenvolver no profissional a curiosidade de aprender um ou outro. As empresas de grandes porte tentam almejar seu crescimento em tempo recordes com profissionais dedicados a vencer.

Analisando o mercado mundial, as organizações necessitam de atitudes lógicas para um crescimento em curto prazo, reduzindo custos, expandindo seu crescimento no âmbito, atual e para isso necessita de administradores polivalentes que não fiquem acomodados e mostres a grande vantagem de se administra as grandes organizações, saber decifrar os precipícios e por em pratica as necessidade da empresa não e para qualquer um, saber planejar, organizar, dirigir, controlar é anos de conhecimentos que por momentos difíceis na economia se não tiver punhos forte tudo que foi criado poder via ao chão.

Por isso, com tantos desenvolvimentos tecnológicos, pode-se agradece a desenvoltura de percussores da administração como Taylor, Chiavenato e outros mais que por sim, afirma que, o que passa-se hoje se faz em uma boa ou má administração, ela que é a chave para os bons negócios, de qualquer parte do mundo e que faz parte também do nosso cotidiano.

O que para alguns, não significa nada para muitos e o algo primordial, ela se preocupa com os ensinamentos profissionais e oportunidade para o mercado que se este tão necessitado por membros que amem essa ciência, mesmo que ele já seja um profissional, seja ele médico engenheiro, advogado e etc são sempre necessários ter como peso curricular a administração, para seu próprio crescimento onde quer que ele atue.

2 JUSTIFICATIVA

A importância deste estágio supervisionado, no setor de produção é poder conhecer com mais entendimento o valor da administração nesse setor que, para muitos não se tem importância mas que um bom administrador precisar conhecer com bastante cautela, afinal todo seu investimento está em produtos, sejam eles quais forem.

E poder vivenciar esse estudo na prática, para o acadêmico será um aprendizado, prazeroso desde que aperfeiçoe seus conhecimentos a fundo, com teorias e práticas. E estar envolvido com o estágio supervisionado na organização lhe tratará futuramente bons resultados para seu currículo profissional.

Como se faz necessário o estágio curricular, até porquê rege uma lei federal do próprio MEC, que tem seu fundamento na Lei nº 11.788, de 25 de setembro de 2008. Onde exige do acadêmico essa grade em sua formação, para não sair às despreparado para o mercado de trabalho, tendo como arma somente a teoria vivenciada durante seu tempo de estudo, conhecer a prática aliada a teoria, acredita-se que profissionais serão disputados com enorme sede de crescimento pelas organizações empresariais que hoje não se abstém em acreditar nos novos filhos da administração e lhe entregando um poder ao qual seus conhecimentos terão que ser bem além que bons anos de estudos.

3 OBJETIVOS

3.1 Objetivo Geral

Conhecer o principal fundamento da administração em a gestão pública em organizar e controlar estoque do almoxarifado.

3.2 Objetivo Específico

Compreender o poder de compra para abastecimento do estoque.
Verificar como se conduz o remanejamento desses produtos para as unidades de saúde.
Analisar os armazenamento quanto ás normas de segurança do produto
Investigar como se procede ao manuseio desses produtos quanto seu grau de periculosidade.

4 FUNDAMENTAÇÃO TÓRICA

A gestão de estoque na administração pública ficou muito tempo colocado em segundo plano em termos de preocupações dos gestores, hoje essa realidade esta muito diferente, sendo ligado diretamente ao planejamento e controle de qualquer setor sendo público ou privado.

De acordo com (Marco Aurélio, p.24) a administração de estoques deverá conciliar da melhor maneira os objetivos dos três departamentos (Departamento financeiro, compras e produção), sem prejudicar a operacionalidade da empresa.

Para isso, há um planejamento de compra, visando à necessidade do reabastecimento. O almoxarifado precisa estar apto à receber o novos materiais, ou, transportado diretamente do fornecedor para as unidades de saúde, onde já existe locais e profissionais habilitados, a receberem esses produtos dos quais vão em menores quantidades de manuseio imediato.

Atualmente a Secretaria juntamente com as comissão de compra , devem por total direito analisar se há conforto para o material e para os servidores do almoxarifado.

Os fornecedores que abastecem o almoxarifado são escolhidos em processo licitatório e tomados de preço.

“A seleção de fornecedores é considerada igualmente ponto-chave do processo de compras, a potencialidade do fornecedor deve ser verificada, assim como suas instalações e seus produtos, e isso é importante”.(Dias, Marco Aurélio P. p. 260).

A Secretaria Municipal de Saúde – Semusa também trabalha com um planejamento sazonal, de festas como carnaval, arraiais, fora de época e outros que acontecem anualmente.

Segundo (Nigel Slack, Alan Harissison, et al p.331), dirigi-se uma empresa que utiliza previsões baseada no passado pode ser comparado a dirigir um carro olhando apenas para o espelho retrovisor.

Cada atividade do almoxarifado apresenta um fluxograma típico, o que não quer dizer estático através dos anos. O layout sofre, pois, alterações periódicas que influem no cotidiano do almoxarifado. Esse instrumento identifica os riscos que compõe cada área do setor, auxiliando quando necessário o uso de EPI’S na separação dos materiais, para que não haja contaminação, radiação, cortes, perfuração enfim evitando acidentes de trabalho.

“ O layout, deve levar em conta as modificações que devem ser feitas para atenuar o efeito do ruídos das temperaturas anormais, presença de agentes agressivos, enfim, todos os fatores que podem afetar o rendimento de trabalho humano.” (Dias, Marco Aurélio P. p. 138).

O processo de compra, armazenagem, separação e distribuição da seguinte forma:

 Requisição de pedido de compra
 Processo de armazenagem
 Requisição de pedido de distribuição
 Separação e entrega.

A requisição de compra é feita pelo diretor do setor almoxarifado, ao setor compra do abastecimento da secretaria. Tais reaquisições contêm a descrição, e a quantidade dos produtos solicitados, em baixo nível de estoque. É também competência do almoxarifado acompanhar o processo licitatório da compra desses materiais.

O recebimento de material dos fornecedores pelo almoxarifado segue alguns critérios:

Empenho
Nota fiscal
Produto

O empenho é onde se especifica o produto licitado, com quantidade, marca do produto, lote, validade, fabricante, descrição do produto, com valores e dados da nota fiscal com prazo de pagamento de acordo.

Os dados da nota fiscal devem estar de acordo com o empenho, precisa conter o timbre da empresa, assim como os dados da empresa fornecedora e frete.

O produto ao ser entregue ao destinatário, deve ser conferido ao responsável entres as parte interessadas, o mesmo é conferida item a item sendo que nenhum volume deverá conter violação. No caso de violação tanto de material quanto de documentação o material é devolvido perante relatório escrito no corpo externo da nota fiscal e conhecimento de entrega, identificando o recusa do produto. Após o recebimento do produto fica liberado para armazenagem.

O processo de armazenagem acontece de uma forma operacional obedecendo a normas e critérios da própria instituição. A estocagem desses materiais deve acontecer de modo a possibilitar um acesso rápido e preciso facilitando a movimentação e identificação dos materiais. Os mesmo devem ser conservados em embalagens originais, abertos somente quando houver necessidade de fornecimento parcelado.

De acordo (Marco Aurélio, p.136) explica que as características físicas e químicas do material desempenham também papel muito importante na escolha dos métodos para manuseio e estocagem.

A requisição de pedido de distribuição ou pedido de material e feita pelo diretor da unidade de saúde, deve conter um mapa especificando o material existente, estimativa e complemento de saldo, justificando assim o pedido. O setor trabalha com a estocagem de materiais de limpeza e conservação, emergência hospitalar e material de expediente, abastecimento de água mineral e gás.

A separação e entrega desses materiais são feitas exclusivamente por servidores do setor almoxarife e entregue nas unidades por servidores responsáveis, mediante conferência e assinatura de recebimento.

Mas para que essas regras sejam seguidas, é necessário se avaliar o ambiente físico, ao qual não pode ser esquecido, de forma que lhes dêem conforto para o armanezamento dos materiais. Deverá ser diagnosticado por pessoas que possam avaliar o local e repassar um laudo de segurança em todos os aspectos, que nesse caso será os bombeiros, engenheiro de construção da própria Secretaria avaliando-se à estrutura física, elétrica, hidráulica, condições de climatização para o produto, extintores de incêndio, saídas de emergência, iluminação adequada, cobertura adequada evitando o excesso de calor, cobertura para trânsito de pessoas e de materiais, sinalizações conforme normas da ABNT em segurança do trabalho, já que poderá haver movimentação de empilhadeiras, canalizações de águas de esgoto e fluviais, abastecimento de águas para uso próprio, pisos com total aderência, rampas de acesso aos deficientes.

De acordo com (GARCIA, Petrônio e RENATO Paulo p. 243), o importante é que essa documentação deverá servir de base para a decisão de reformas mais amplas ou de mudança de local de produção e armazenagem. Tendo em vista que o local se encontrará armazenado produtos e maquinas de alto poder de radiação, que deverão ter um acesso ventilado seguro com manuseios e maquinas adequada para transporte. Faz-se necessário uma boa localização de embarque e desembarque com sinalizações nesse ambiente aonde não venha atrapalhar o trânsito e possa trazer incomodo, para isso é necessário ter um planejamento de recebimento com horas e dias da semana marcado para não causar transtorno à população , após analisar tudo isso fica de total liberdade para agir sua função de almoxarifado.

Priorizar a importância do almoxarifado como todo o ambiente de trabalho deve-se ser acompanhado anualmente por profissionais que mantenha a estrutura em boa conservação e sempre ter em mãos laudos de autorização de funcionamento, para que não ocorra o inesperado acidentes de trabalho.

Após todo esse tramite, da estrutura física deverá ser observado a estocagem desses materiais, que dependendo do número de volumes também devem ser estudados ao local de estocagem, sabe-se que os produtos de embalagens frágeis na maioria das vezes não suportam pesos excessivos, de tal maneira que o responsável pela armazenagem deverá ter total conhecimento no posicionamento dos produtos em paletes e gaiolas. Esse estudo que de imediato ao desembarque do produto tende a obedecer a normas do fabricante que muitas das vezes já contém na própria embalagem o que trará para à organização um prejuízo menor em avarias e maior controle de sua estrutura física.

5 AMBIENTE DE ESTÁGIO

Prefeitura Municipal de Porto velho – Rondônia foi criada em 02 de Outubro de 1914, por imigrantes vindo de estados do norte e nordeste, e de outros países; para a construção da Ferrovia Estrada de Ferro Madeira Mamoré, que, hoje é a um patrimônio histórico, às margens direita do rio Madeira afluente do rio Amazonas. Tendo como sua capital Porto Velho, onde os historiadores afirmam que se este nome se deu em homenagem ao um senhor por nome Pimentel onde todos o chamavam de Velho Pimentel, o mesmo morava no lugar onde atracavam-se os navios conhecido como porto do Velho daí o nome Porto Velho .

Com o crescimento da capital, e como qualquer outro município com um quantitativo de habitantes imigrantes e filhos da terra, a Prefeitura de Municipal de Porto Velho, situada na Av. Dom Pedro segundo s/nº desmembrou-se em secretárias para que pudessem responder pelos seus processos administrativos, sendo umas das principais na visão da sociedade a Secretaria Municipal da Saúde – Semusa que é um ponto fundamental do município, que atende uma grande demanda de pacientes, contudo a necessidade de um almoxarifado com subdivisões para atender a maternidade municipal, o SAMU , as unidades de saúde, as policlínicas e o baixo madeira.

Semusa – Secretaria Municipal de Saúde do Município de Porto Velho – RO, esta sediada na Avenida Calama, 4008, bairro Embratel, fundada junto com a Prefeitura Municipal de Porto Velho dia 02 de Outubro de 1914, tendo como prefeito atual senhor Roberto Sobrinho, e secretário municipal da Secretaria Municipal de Saúde – Semusa o senhor Willames Pimentel

O almoxarifado desta secretaria tem um estoque elevado, com materiais penso farmácia, material permanente e de higiene para abastecer toda suas policlínicas e unidades de apoio, tendo em vista que o hospital da capital limitou seus paciente, com isso se fez necessário expansão de compras de materiais, com profissionais dedicados, para não atrasar o atendimento à sociedade.

A Secretaria Municipal de Saúde – Semusa, tem um amplo estoque físico para atender a demanda das unidades de saúde, e os profissionais que trabalham neste setor são periodicamente capacitados já que os mesmos manipulam diariamente diversos tipos de materiais desde o inflamável até os descartáveis, dando assim um suporte eficiente a área da saúde do município com equipamentos de altíssima qualidade, não deixando a desejar para o estado.


6 METODOLOGIA

A metodologia usada será de observação e participação para o desenvolvimento do estágio supervisionado, seguindo etapas do processo de conhecimento do local escolhido, almoxarifado da Secretaria Municipal de Saúde – Semusa. Com o desenvolvimento do estágio, pretende-se atingir os objetivos já mencionados nesse plano.

A referência bibliográfica proporciona respaldo para que se possa estar sendo desenvolvido e apresentado um trabalho conforme normas da ABNT, possibilitando assim uma execução do processo em completo.

Todo esse processo e expansão de conhecimento trarão para o acadêmico um contato direto as organizações e aos métodos tomados principalmente ao referido estoque, aos quais algumas organizações não acompanham de perto seu poder de compra, dando atenção nas sazonalidades, mesmo ocorrendo na área da saúde onde esse plano de estágio será desenvolvido analisado em acompanhamento com um orientador.

Participar desse desafio, e poder até mesmo, criar novas oportunidades nesse setor administrativo em relação a compra e finalizando em estoque, isso trará total confiança, no mercado de compra e armanezamento.

O acadêmico que não se sujeitar a encarar esse contato físico de aprender e a liderar situações que em alguns momentos, fazem parte do seu dia-a-dia. Ficará bem confuso em por sua teoria em prática sem ter visto a verdadeira realidade das organizações até mesmo uma gestão pública, tendo em vista que esse setor é muito burocrático, nada se faz sem antes uma um planejamento de compras analisando o fornecedor com suas prerrogativas entender que muitos não participam de alguns pregões. A gestão publica é muito criteriosa neste assunto em licitação, sempre procurando todo um histórico da empresa para ser fiel em seu comprimento com o serviço público, afinal neste setor da saúde estará sempre mantendo o estoque com materiais que ajudaram muito a sociedade.

O administrador que não acompanha o crescimento das organizações e saber desenvolver um plano de trabalho onde abrange toda a organização e principalmente o estoque levará a falência e todo um império que muitas das vezes levou tempo para construir.

7 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

• NETO, Alvim Antônio de Oliveira. Introdução de Engenharia: Editora São Paulo: Visual Books, 2006.
• DIAS, Marco Aurélio P. Administração de materiais: uma abordagem logística: Editora São Paulo: Atlas, 1993.
• SLACK, Nigel CHAMBERS, Stuart… et al; Administração da Produção: Editora São Paulo: Atlas, 1999.
• ALT, Paulo Renato Campos. Administração de Materiais e Recursos Patrimoniais, Editora São Paulo: Saraiva , 2002
• CORRÊA, Henrique L.;CORRÊA, Carlos A. Administração de Produção e Operações: manufatura e serviços: uma abordagem estratégica Editora São Paulo: Atlas, 2007

Sobrevivência Policial

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O crescente aumento da violência urbana dos últimos tempos vem gradativamente ceifando vidas dentre os Operadores de Segurança Pública do Estado de Mato Grosso. A capacitação técnica possibilita o enfrentamento de ocorrências de alto risco, onde delinqüentes, demonstrando destemor e com armas de fogo de calibre restrito às forças armadas aterrorizam cidades, desafiam o aparato policial e praticam crimes, com audácia, utilizando armas sofisticadas e táticas de guerrilha urbana. O Estado de Mato Grosso devido à sua extensão territorial e muitas localidades estarem logisticamente fora do alcance tático dos grupos especializados que se concentram na capital, aquartelados e alheios às ameaças. Permanecendo estas localidades sem capacidade de pronta resposta ao enfrentamento de ocorrências desta magnitude, por falta de efetivo, armamento adequado e mecanismos estratégicos de informação e contra informação.

Este trabalho tem como objetivo trazer à luz, a todos os envolvidos no exercício e processo de operacionalização da segurança pública, possibilitando a adoção de metodologias adequadas à qualificação desses profissionais, dentro de uma óptica de preservação da vida dos agentes encarregados pela aplicação da lei, dotando-os de mecanismos tecnológicos que possibilitem o enfrentamento de ocorrências de alto risco. Bem como qualificação continuada, através de bolsa qualificação, como instrumento de incentivo, estimulando a busca pelo conhecimento com folga remunerando. Disponibilizar armamento compatível com os riscos a serem enfrentados e conhecimento técnico da dinâmica destas ocorrências, bem como realizar uma abordagem segura é promover melhoria na prestação do serviço público, munindo-os de informações que possibilite ação preventiva e evite o confronto.

Aos que elaboram as leis de ensino e as matrizes curriculares de cursos de formação e capacitação com base em pesquisas realizadas em outros países, com características sociais, econômicas, culturais, leis e sistema de justiça totalmente alheias a nossa realidade, resgatem nossa autonomia de criar instrumentos funcionais e exeqüíveis, que possam mudar este cenário onde os nossos sistemas de segurança pública se apresentam simplesmente como reprodutores e consumidores de tecnologias importadas.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO
1.0 CAPITULO 1 – A EVOLUÇÃO E CLASSIFICAÇÃO DAS ARMAS DE FOGO
1.1 – CRONOLOGIA DOS PRIMEIROS ARTEFATOS
1.1.1 – Século I d.C, Droga do Fogo – China
1.1.2 – O Canhão de Mão – Europa (1241 à 1290)
1.1.3 – O Canhão de Mão – Árabes (1258)
1.1.4 – O Canhão de Mão – Chineses (1260 à 1368)
1.1.5 – Ignição por Mecha (Match-lock) (1450)
1.1.6 – Ignição por Roda (Wheel-lock) (1517)
1.1.7 – Ignição por Pedra (Flint-lock) (1517 à 1612)
1.1.8 – Sistema Retrocarga (1650 à 1776)
1.1.9 – Ignição por Percussão (1807 à 1825)
1.1.10 – De Samuel Colt à Oliver F. Winchestre (1845 à 1867)
1.1.11 – Revólver de Retrocarga (1869 à 1940)
1.2 – CLASSIFICAÇÃO, CONCEITO E DEFINIÇÃO DAS ARMAS DE FOGO
1.2.1 – Quanto ao Princípio Motor
1.2.2 – Quanto à Ação de Disparo
1.2.3 – Quanto ao Princípio Carregamento
1.2.4 – Quanto ao Princípio de Mobilidade e Emprego
1.2.5 – Quanto ao Calibre do Cano, Classificação, Conceito e Definição
1.3 – ARSENAL DE GUERRA NA PROVÍNCIA DE MATO GROSSO
1.3.1 – Fabricantes de Armas no Brasil
1.4 – PROCEDIMENTO TÉCNICO OBRIGATÓRIO
1.4.1 – PPSOM – Procedimentos Primários de Segurança na Operação de Manejo
1.4.1.1 – Manejo do Revólver
1.4.1.2 – Outras Verificações
1.4.1.3 – Pistola Semi-automática
1.4.2 – PSAR – Procedimentos de Segurança em Ação Real
1.4.2.1 – Forma Técnica de Portar uma Arma de Fogo
1.5 – FUNDAMENTOS TÉCNICOS DO TIRO POLICIA
1.5.1 – Técnicas de Empunhadura Simples e de Acompanhamento
1.5.1.1 – Técnica de Empunhadura Simples
1.5.1.2 – Técnica de Empunhadura Dupla ou de Acompanhamento
1.5.2 – Técnica de Acionamento da Tecla do Gatilho
1.5.3 – Treinamento de Controle do Cano e do Gatilho
1.5.4 – Técnica de Saque do Sistema Israelense, o Saque S10
1.6 – VISADA DO TIRO POLICIAL E O TIRO ESPORTIVO
1.7 – POSIÇÕES BÁSICAS DE TIRO VISADO POLICIAL
1.8 – DO PROCESSO DE ENSINO EMPÍRICO AO CONSTRUTIVISMO
2.0 – CAPÍTULO 2 – METODOLOGIA
3.0 – CAPÍTULO 3 – ANÁLISE DE DADOS
3.1 – RESULTADOS OBTIDOS NA PESQUISA QUANTITATIVA
3.2 – RESULTADOS OBTIDOS NA PESQUISA QUALITATIVA
CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
APÊNDICE – QUESTIONÁRIO



INTRODUÇÃO

O tema deste trabalho surgiu da necessidade em provocar mudanças no cenário da Segurança Pública do Estado de Mato Grosso, que devido às dimensões territoriais e a crescente onda de violência que vem ceifando a vidas dos operadores de segurança pública, principalmente onde os apoios dos grupos especializados chegam tardiamente, devido à incapacidade logística de prover de mecanismos de pronta resposta às investidas de grupos armados que se especializaram na prática de crimes com características de guerrilha urbana, aterrorizando e tomando como reféns a população dessas localidades e muitas vezes subjugando a reduzida e ineficiente presença da Segurança Pública convencional.

Neste primeiro capítulo, buscamos fundamentar a genealogia dos artefatos que deram origem as armas de fogo, desde o descobrimento da pólvora pelos chineses as criações de engenhos que possibilitaram ao ser humano sua sobrevivência e preservação de sua espécie.

Dentro deste contexto também, buscamos abordar a evolução das técnicas de tiro e a adoção de procedimentos que mais se adéquam a atividade policial, abandonando o tiro ao alvo ensinado pelas forças armadas, ingressando no mundo do tiro policial, o que possibilita mais agilidade no manuseio do armamento, diminuindo o tempo-resposta do operador de segurança frente à uma ameaça letal e maior compreensão da legislação vigente, que regula o uso da arma de fogo, legitimando a ação do operador no uso de seu equipamento de trabalho dentro dos limites legais.

Os programas aplicados a formação e qualificação apresentam-se com deficiências e muitas vezes não atingem todo contingente envolvido no processo da operacionalização da segurança pública, sendo comum a prática dos próprios formandos financiarem com recursos próprios, munições para que possam concluir o curso sem restrição ao porte e emprego, sabendo que é responsabilidade do Estado em proporcionar treinamento contínuo, meticuloso e profissional. Esta prática pode ocorrer até nos registros das Atas de Conclusão de Curso, não correspondendo ao praticado, devido a inexistência de uma Comissão de Vistoria que faça prevalecer o que está previsto nas leis de ensino e grade curricular.

CAPÍTULO I: FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

1.0 – A EVOLUÇÃO E CLASSIFICAÇÃO DAS ARMAS DE FOGO

Os primeiros artefatos que deram origem as armas de fogo eram tão maciças e pesadas que possamos considerá-las como pequenos canhões aos quais foram lhes atribuídos nomes fantásticos e para nós absurdamente estranhos como se pode imaginar: “bocas de fogo”, “basilísco”, “passa-voadores”, “beija-flor”, de empurrão, sendo construída a partir da usinagem de ligas metálicas em forma de longos tubos, com uma de suas extremidades lacrada, denominada culatra e dotada um pequeno orifício de comunicação denominado fogão, que possibilitava a deflagração da carga de projeção através do contato com uma tocha de fogo, este artefato apoiados nas imensas muralhas dos castelos medievais disparando cargas compostas por pedras, pedaços de metralha e até dardos causando destruição saturando o alvo atingido, rasgando e partindo através da transferência da força do choque mecânico, causada pela desaceleração e impondo o terror repelindo os ataques de inimigos.

Proporcionando aos detentores dessa inovação tecnológica maior poder defensivo e ofensivo à época, superando as armas de projeção mecânica de cargas, a catapulta. Esses pequenos canhões forjados grosseiramente em ferro ou bronze e fixado em um suporte de madeira, podendo ser transportada e operada por um único atirador, empregavam como carga de projeção um baixo explosivo que modificou a história da humanidade, a pólvora negra, um composto químico de carvão de madeira, salitre e enxofre que ao ser deflagrado e projetando sua carga mortífera, cheirava a raio e que comoveu e transformou o mundo dos combates. Este artefato que mudou a história, por mais simples ou sofisticada que seja, é uma máquina térmica que tem como princípio motor a força expansiva dos gases provenientes da queima de uma mistura ou composto químico (carga de projeção), considerado baixo explosivo, que ao ser deflagrado transfere a energia para um corpo sólido, redondo e móvel, também denominado carga ou projétil balístico.

Que por sua vez é um componente da máquina que Ao ser impulsionado à extremidade aberta do cano (boca do cano), é direcionada contra o alvo e projetada no espaço percorrendo determinada distância a grande velocidade. Ao atingir o alvo pretendido, a desaceleração causada pelo impacto transfere toda energia que possui, saturando, dilacerando, rasgando e destruindo.

Este invento que deu origem as armas de fogo, é uma máquina dotada de motor explosivo capaz de projetar uma carga mortífera, sendo essencial à defesa e sobrevivência do ser humano.

1.1 – CRONOLOGIA DOS PRIMEIROS ARTEFATOS

1.1.1 – Século I d. C, Droga do Fogo (China)

Século I d.C é atribuído aos chineses como a huo hyao, “droga do fogo” e pergaminhos contendo informações de alquimia chinesa, relatava que a mistura de enxofre e salitre era capaz de produzir raios e trovões, e alertava aos iniciantes da arte da alquimia a adotar precaução ao manipular tais ingredientes, o que estimulou que esta mistura passasse por séculos como tabu e evitando a sua manipulação. A criação da pólvora negra passou a utilizada na confecção de artefatos pirotécnicos, composto de bambu e madeira com fins recreativos e em suas milenares cerimônias tradicionais e de cunho religioso. O emprego bélico pelos chineses historicamente só se deu no início do Século XIII, restringindo-se à prática de artefatos incendiários, lançada por arqueiros.

Apesar de existir registros históricos a identidade de seu verdadeiro inventor é ignorada, provavelmente tratasse de uma pessoa extremamente curiosa, com tendências à investigação experimental, membro da legião dos curandeiros, mágico, bruxo ou um alquimista nato. Na busca incessante para compreender e dominar o fogo teria notado em suas experiências que ao misturar diferentes substâncias, se incendiavam com mais rapidez e com mais facilidade que os agentes combustíveis tradicionais. E ao dedicar ao domínio desta tecnologia, substituindo as substâncias e modificando os valores das doses deviam ter observado que a combustão se produzia cada vez mais em escala crescente até que, num determinado momento se depara diante de um acontecimento histórico, surpreendidos por uma explosão e envolvidos em uma nuvem de gás inflamável. Não se tratava dos demônios das lendas milenares, tinha nascido o explosivo, a pólvora negra.

O primeiro sendo composto por substâncias simples e facilmente encontrado na natureza: salitre, carvão de madeira e enxofre. Esta substância capaz de entrar em combustão por atrito ou em contato com o fogo, produzia a partir daí explosão, fumaça e cheiro que se remetia à ira dos deuses ou demônios.

A colônia grega fundada no Século VII a.C, Bizâncio, mais tarde Constantinopla, atualmente Istambul. Apesar de não haver registro de data específica, os bizantinos também fizeram uso da tecnologia descoberta pelos chineses, empregando um tubo comprido para borrifar seus inimigos com a queima da pólvora. O acesso a esta tecnologia que revolucionou o período medieval sendo transmitidas para os Mongóis, destes para comerciantes nômades Árabes na Palestina e Península Ibérica. O acesso a essa tecnologia somente foi possível devido à relação comercial de especiarias entre a Ásia e a Europa sendo disseminada no ocidente pelos monges e alquimistas.

1.1.2 – O Canhão de Mão – Europa (1.241 à 1.290)

Na Europa os registros datam do ano 1.241 à 1.290, o emprego do canhão de mão. Sendo atribuído ao monge Franciscano Roger Bacon, o primeiro relato sobre a pólvora atribuído a ele, datado de 1242 onde o mesmo advertia sobre o poder da mistura e de quem dominasse o seu segredo. A existência de duas escolas de artes renascentistas, na Alemanha e outra na Itália impulsionaram os estudos dessa mistura, inicialmente abordando a arte da pirotecnia. É atribuído ao avanço e domínio da tecnologia desta mistura química a criação da primeira arma de fogo concebido a partir do domínio desde a antiguidade e idade média da tecnologia de processamento e fundição de ligas metálicas como: ferro, bronze e zinco e outros metais.

[…] de 1.247, onde aparecem canhões arremessando pedras na defesa da cidade de Sevilha, em 1.257 no cerco da cidade de Niebla e 1.359, na defesa de Melilha, todas as cidades européias. Pode-se observar que desde o início o homem buscou meios de aprimorar as armas de fogo no sentido de diminuírem o tamanho e aumentarem o seu poder de destruição, aprimorando o manuseio, permitindo a um só homem a utilizar a arma (SETÚBAL, 2.003. p. 16,17).

Isto possibilitou às inovações tecnológicas que deu origem a primeira arma de fogo. O artefato dotado de cano metálico em bronze e fixado em um suporte de madeira teve uma de suas extremidades fechadas o que possibilitou direcionar a força expansiva resultante da queima da pólvora expulsando com grande energia tudo que se depositasse sobre a carga explosiva, isto é, romperia a menor resistência e deslocaria o corpo móvel projetando-o no espaço com enorme velocidade contra alvo ou inimigo resultando sua destruição por choque mecânico, causada pela transferência de energia e desaceleração.

Tinham inventado a Artilharia, uma máquina de componentes simples e que poucos exemplares ainda são conservados em museus pelo mundo afora, apesar do escasso registro forma muito empregadas nas bombardas (artefato rudimentar que lembra o morteiro) e ao pensarmos na portabilidade e transporte desta peça de artilharia, presume-se que eram construídas em tamanho pequeno possibilitando rapidez no emprego, aproximando-se dos padrões de armas portáteis.

1.1.3 – O Canhão de Mão – Arabes (1.258)

Há registros históricos que em 1.258, os árabes empregaram o canhão de mão.

1.1.4 – O Canhão de Mão – Chineses (1.260 à 1.368)

Há registros históricos que em 1.260 a 1368, os Chineses empregaram o canhão de mão contra os Mongóis e conforme afirma Setubal (2.003, p. 17), existe relatos históricos do emprego do canhão de mão “[…] o primeiro documento autêntico, uma crônica da cidade de Dante, na Bélgica, datada de 1.313, cita o emprego de canhões de mão na Alemanha”.

1.1.5 – Ignição por Mecha (matchlock) (1.450)

Há registros históricos que em 1.450, Ignição por Mecha (matchlock ou pavio) e a serpentina, estão diretamente ligados ao aperfeiçoamento dos sistemas de ignição da máquina térmica movida explosão da queima de composto químico.

Conforme Flores; Gomes, (2.006, p. 17) [grifo nosso], “Conhecido com a expressão ‘reze para não chover’, os sistemas de ignição por mecha ou pavio constituem a primeira técnica de controle do disparo desenvolvida pelo homem”. A adaptação da mecha às armas de fogo, provavelmente já empregadas a outras funções da época, representou um avanço tecnológico significativo aos padrões da época, de compleição simples e primitiva, mas que apresentou uma eficiência extraordinária e que revolucionou o mundo do combate.

A mecha consistia em um simples pavio ou corda frouxamente trançada em fibra de cânhamo, e outros melhores, confeccionado em estrutura tubular, fervido em acetato de chumbo ou salitre e posteriormente posto para secar. Este assessório possibilitava a permanência de um ponto em brasa sempre aceso e que apresentava uma queima lenta de aproximadamente oito a dez polegadas por hora. Bastava um pouco de estímulo através de sobro, que esta se avivava totalmente. Devido ao seu reduzido peso, podendo ser transportada enrolada no braço do atirador. O fogão passou por modificações e sendo deslocado à lateral direita do cano da arma de fogo, de forma que, em vez de vertical, carrega-se horizontalmente ajudada por uma guia que continha certa quantia de pólvora negra em comunicação com a que está no interior da câmara de disparo.

Finalmente, o pavio é preso em na mordaça da serpentina, permitindo ao atirador efetuar a aproximação da brasa do “fogão” ocasionando a deflagração da carga iniciadora que entra em contato com a carga de propulsão no interior do cano, ocasionando um disparo sem perder a visado. Inicialmente a serpentina, tratava-se de um simples dispositivo formado por um grampo de ferro em forma de “S” com as duas extremidades de comprimento diferente. Na ponta do braço mais curto fixava-se, por meio de uma saliência, a parte acesa da mecha. A serpentina era colocada verticalmente na parte direita da arma, precisamente antes da câmara; a parte mais comprida para baixo e a curta para cima; a diferença de peso entre ambas as partes mantinha-a na vertical. O atirador puxava à alavanca para si e para cima, de forma que, consequentemente, a parte superior movia-se à frente e para baixo; dessa forma, a ponta da mecha terminava na câmara do fogão, incendiando a pólvora e provocando o disparo.

Libertando a alavanca inferior, voltava tudo outra vez à posição vertical. Para realizar estes movimentos bastavam dois dedos da mão direita, possibilitando a elevação do armamento e realizar a visado no alvo pretendido. Não se tem informações da existência de exemplares de armas de fogo dotadas destes sistemas, verdadeiramente elementar, conservando-se somente algumas gravuras. Existe ainda um sistema de serpentina um pouco mais complexo, no qual esta é alojada em entalhe dentro do suporte de madeira fixando o canhão, mas o princípio de funcionamento é o mesmo. O sistema de serpentina evolui possibilitando maior segurança e comodidade, surgindo com este avanço um mecanismo que possibilitava o disparo do arcabuz com um simples acionamento de um botão. O sistema anterior apesar de ter representado avanço, apresentou-se com um grau de risco muito elevado, sendo incomodo e provocando disparos acidentais.

E a necessidade de aperfeiçoamento fez com que da serpentina apenas se conservasse a parte superior onde se localiza a mordaça que prende o pavio. Juntamente com o desenvolvimento do mecanismo de acionamento por botão, também se desenvolveu um mecanismo de serpentina acionado por uma manilha, colocando a serpentina diante de uma caiçola, afastando a mecha dos olhos do atirador, fixada a extremidade anterior da lâmina e com o movimento da frente para trás, sem mola de disparo; sob o pé colocava-se uma manivela grande, unida a serpentina por meio de uma alavanca com balancim de mola: ao puxar a manivela para cima, baixava-se a serpentina e aproximava-se a mecha; soltando a alavanca, a mola voltava para sua posição anterior. Quando a mola não estava em tensão, o movimento era lento embora gradual e confortável.

A caiçola separava-se do cano e colocava-se na lâmina, lateralmente a arma e desenvolveu um mecanismo que possibilitava a proteção contra disparos acidentais denominado de tapa caiçola, evitava que ao virar o armamento a pólvora depositada no fogão não caia, servindo também à proteção contra respingos de chuva.

1.1.6 – Ignição por Roda (Wheel-lock) (1.517)

Os registros históricos datados de 1.517 descrevem que Joham Kiefuss desenhou em Nuremberg, na Alemanha o sistema (Wheellock) de ignição por roda, ou, fecho de roda. Um sistema que tinha como princípio gerar faíscas com o atrito entre a pedra de pirita ou sílex com uma roda dentada confeccionada em aço e metais nobres, como o ouro, ligada a uma chave de armar de uma mola que impulsionava a roda (típico dos relógios à corda) que ao ser liberada ao se pressionar o gatilho, ocorrendo o disparo.

A deflagração da carga da arma de fogo era ocasionada pelo choque mecânico da pedra de pirita ou sílex, preso a um braço denominado cabeça do cão, com o fecho de roda produzindo faíscas idênticas aos de um isqueiro. A complexidade do mecanismo era de difícil manutenção e principalmente, perdas frequente da chave tornavam a arma inutilizada. Isso incidia em altos custos à produção que era totalmente artesanal, favorecendo o desuso de tal tecnologia.

[…] fechos de roda eram preciosidades, feitas com tal requinte que pareciam obras de arte. Na verdade os armeiros da época dedicavam-se à fabricação artesanal de fechos personalizados, que eram muitas vezes lavrados em ouro, o que demandavam altos preços. Talvez por isso os fechos de roda fossem extremamente frágeis, e sua manutenção caríssima. O uso progressivo e extensivo das armas de fogo demandava um sistema mais simples, robusto e eficiente, para o disparo das armas (SETUBAL, 2003, p. 18).

1.1.7 – Ignição por Pedra (Flint-lock) (1.570 à 1.612)

Há registros históricos que em 1.570 à 1.612, Ignição por Pedra (flintlock), pederneira, fecho de pedra ou chave de pedra. O terceiro sistema ignição foi desenvolvido devido à complexidade do fecho de roda, considerado um aperfeiçoamento, mas mantendo a características do braço e da cabeça do cão e o emprego do sílex e pirita, adotando um mecanismo simplificado, sendo considerado mais seguro e funcional, com a rusticidade necessária ao emprego da arma de fogo em condições mais severas.

Alguns historiadores relatam que o surgimento deste mecanismo se deu da adaptação dos sistemas amplamente utilizados pelas comunidades européias, para o acendimento do fogo nas utilidades domésticas e no preparo de alimentos.

Houve diversos sistemas de fecho de pedra, destacando-se o Snaphaunce, da Holanda, o Chenapan, da França e da Itália, e o Miquelete, da Espanha. Essa última foi tão popular que seu nome, às vezes é utilizado para denominar os fechos de pedra (também conhecidos como fecho Miquelete). Alguns autores datam de 1.640, o aparecimento de armas de mão, dotadas de fechos de pedra (SETUBAL, 2003, p. 18) [grifo nosso].

1.1.8 – Sistema Retrocarga (1.650 à 1.776)

A criatividade e dedicação dos armeiros europeus revolucionaram o mundo das armas, surgindo a partir do mecanismo básico centena de variações com suas particularidades incluindo o desenvolvimento de um modelo de mosquete e pistola pederneiras, dotadas de sistema retrocarga.

É atribuído à Marin Le Bourgeois e outros armeiros o desenvolvimento desse sistema por volta de 1.650. Dotado de uma alavanca rosqueavel, afixada na culatra do cano possibilitando a sua abertura e o carregamento da arma de fogo, com o propelente e projétil.

O sistema Flint-Lock permaneceu por mais de 200 anos, sendo adotados por praticamente todas as forças militares e espalhou-se pelo mundo afora. Em 1.723 o sistema de carregamento retrocarga era amplamente utilizado nos mosquetes, proporcionando rapidez e agilidade aos combates. O exército francês e o austríaco adotaram esta inovação tecnológica, apostando estrategicamente no ganho de agilidade e aumento do poder de fogo, ao carregar e disparar em menor tempo.

Em 1.776 o inglês Patrick Ferguson projetou mais uma inovação ao sistema flint-lock, idealizando o projeto fuzil de retrocarga, dotado de cano raiado, sendo adotado pelo exército inglês.

[…] dotado de cano raiado, a arma apresentava um grande orifício vertical, provido de rosca em sua culatra, no qual se alojava um fecho cilíndrico também rosqueado, que permitia a introdução de um projétil esférico diretamente na câmara, juntamente com a carga de propelente. A abertura e o fechamento se da culatra se davam pela movimentação do guarda-mato da arma (SETUBAL, 2.003, p. 19).

1.1.9 – Ignição por Percussão (1.807 à 1.825)

Nos idos de 1.807, a Ignição por percussão, só foi possível pela perspicácia do escocês e Reverendo Protestante Alexander John Forsyth (1768 – 1843) natural de Belhelvie, região de Aberdeenshire – Escócia. Seu invento revolucionou o mundo das armas de fogo e teve como base as experiências químicas desenvolvidas por Edward Charles Howard (1.774 – 1816) (Inglaterra) e Bayen (França) e químicos alemães, responsáveis pela criação de um composto químico baseado em fulminato de mercúrio, extraído por processo de decomposição de metais em ácido, esta composição deflagrava ao entrar em atrito com outras superfícies e ao choque mecânico. No princípio tentaram substituir a pólvora por essa na composição, não sendo possível devido ser excessivamente explosivo e corrosivo.

Forsyth um aficionado por química e adepto de caçadas com armas de fogo, desenvolveu e patenteou em 11 de abril de 1807 um mecanismo de percussão que substituía peças das armas dotadas de sistemas de ignição anteriores, dando adeus às mechas, serpentinas, fecho de rodas, caçoletas e pederneiras. Surgindo no lugar do fogão, projetou um mecanismo composta de uma peça idêntica a uma garrafa de metal contendo fulminato de mercúrio suficiente para cinco disparos, sendo fixada por um parafuso que lhe proporcionava mobilidade, ao girar sobre seu eixo uma porção determinada de fulminato suficiente para um disparo, ficava disponível sob um receptáculo denominado percussor, protegido da umidade, excesso de fagulhas, retardo de disparo, excesso de resíduos e entupimento do duto de comunicação com a câmara de disparo, excessos de clarões e fumaça e todos os demais problemas que eram peculiares nos sistemas anteriores.

A cabeça protuberante deste percussor ao ser percutido pelo cão deflagrava o fulminato que se comunicava através de um duto com o interior da câmara provocando o disparo praticamente simultâneo ao acionamento do gatilho.

Convém esclarecer que a criação da cápsula de espoletamento não é atribuída à Forsyth, mas o seu invento estimulou posteriormente sua criação. Alguns autores afirmam a criação da espoleta por volta de 1.820 e atribuem ao imigrante inglês Joshua Shaw, sendo este o mais indicado, seguido de perto por Joseph Manton, Peter Hawker, James Purdey entre tantos outros armeiros aficionados. Algum desses armeiros teve a brilhante idéia de acondicionar no fundo de um pequeno receptáculo em metálico, uma porção composta de fulminato de mercúrio, clorato de potássio e enxofre, conseguindo que a detonação desta mistura por esmagamento, a partir daí desenvolveu-se uma bigorna perfurada, denominada de ouvido que veio a aperfeiçoar este sistema de ignição.

Sobre o ouvido era depositado um recipiente tipo copo metálico com cerca de três a quatro milímetros de diâmetro, denominado cápsula de espoletamento, ou simplesmente espoleta, em cujo fundo era depositada o composto ultra-sensível de fulminato de mercúrio, que ao receber o choque mecânico do martelo do cão, deflagrava a carga iniciadora queimando a mistura de fulminato de mercúrio que entrava em contato com a carga de projeção, ocorrendo o disparo. Este invento foi à base que faltava ao desenvolvimento das futuras armas carregadas com cartucho completo. As armas de fogo continuaram tendo seu carregamento antecarga, mas para deflagrar a carga de projeção, bastava o atirador afixar manualmente a cápsula de espoletamento ou espoleta metálica no ouvido da máquina térmica.

Nos Estados Unidos da América, um alemão radicado na Filadélfia, chamado de Henrich Deringer, por volta de 1.825, produzia a primeira pistola de percussão, que pode ser considerada o quarto mecanismo de ignição das armas de fogo. O composto químico era colocado em um copo metálico, que por sua vez era colocado sobre a chaminé. Um cão metálico era armado e quando disparado pelo gatilho chocava-se sobre a espoleta, a mistura se inflamava e a chama era transmitida ao interior do cano, onde se encontrava a carga de projeção e o projétil. Este sistema de ignição veio simplificar o uso de armas de fogo, muito embora, de início fosse um sistema caro e muito perigoso. Mas a revolução trazida pelo sistema de percussão foi tão grande que, após 1.818, quando foram liberados os direitos de sua patente, inúmeros armeiros e fabricantes de armas de fogo passaram a utilizá-lo de varias maneiras (SETUBAL, 2.003, p. 18 e 19.)

Ao longo dos anos os aficionados armeiros desenvolveram inovações que vieram a dotar o cão de rebarbas que possibilitavam envolver toda a cápsula de espoletamento, reduzindo os riscos às faíscas e resíduos metálicos que se fragmentavam ao serem exposto à explosão do fulminato.

1.1.10 – De Samuel Colt à Oliver F. Winchester (1.845 à 1.867)

Essa histórica criação era dotada de um carregador cilíndrico, composta de seis orifícios, tendo sua culatra fechada onde era afixado em cada câmara um ouvido rosqueado. O carregamento podia ser realizado retirando o tambor da arma ou simplesmente colocando o cão em posição de segurança, denominada “Cock posicion”, permitindo assim ao operador girar livremente o tambor, utilizando o frasquinho específico dotado de dosador, verter em cada câmara a pólvora negra. Após este passo coloca-se em cada câmara um projétil de chumbo, ogival ou esférico, gira-se manualmente o tambor até coincidir o alinhamento da câmara com o pistão do pilão, ao manobrar o braço do pistão, o projétil e pressionado ao interior da câmara, restando ao final da realização da operação em todos os orifícios, simplesmente afixar as capsulas de espoletamento em cada ouvido do revólver. Após este processo de carregamento, posiciona-se o cão em sua posição de descanso, tendo o cuidado de não deixar o percutor ferir a espoleta.

Na metade do século XIX, surgia no mercado os primeiros cartuchos envoltos em papel combustível para revólver de avancarga, que ao ser percutido a carga iniciadora de fulminato de mercúrio, sua chama perfurava o papelote do propelente, ocasionando o disparo. Este por ser fortemente combustível, queimava-se totalmente sem deixar resíduos na câmara de combustão.

O emprego deste cartucho possibilitou a redução de um minuto para vinte segundos a operação de carregamento, sendo fabricados principalmente pela empresa européia “Eley Limited (manufactory rim-fire ammunicion) – London” localizada em Londres, Inglaterra, foi criada em 1.828 por William e Charles Eley. Estes papelotes foram os precursores dos cartuchos modernos das armas de fogo de retrocarga, sendo empregado no novo modelo de revólver o Colt Navy 1851.

A fábrica da Colt (Colt Patent Fire-Arms Manufacturing Company – Hartford – CONN – USA) utilizou por décadas o sistema de ação simples, dotando principalmente neste primeiro modelo, o gatilho escamoteável, surgindo somente ao engatilhar o artefato, resumindo-se numa simples e pequena lingueta.

O revólver de ação simples da Colt se revelou a primeira arma de porte realmente segura e de uma eficiência inigualável à sua época. No oeste americano este invento possibilitou a colonização e extração de ouro, tornando possível a vida em um ambiente inóspito e selvagem. No oeste dizia se: “Deus criou o homem a sua imagem e semelhança e distintos entre si, porém o coronel Colt os fez iguais”, o revólver Colt representou a lei, contra renegados, foras-da-lei e no enfrentamento de índios hostis para se consolidar a ocupação do vasto território americano.

A fabricação das armas de fogo desenvolveu-se ao longo dos tempos para vários fins, tanto as de porte (curta) e as portáteis (longas). Entretanto, aproximavam-se os tempos dos cartuchos completos, acrescentando mais inovações tecnológicas há história das armas de fogo. O emprego dos cartuchos de papelão ou papelotes contendo pólvora representou a necessidade de aperfeiçoamento dessa tecnologia e estimulou o surgimento de diversos projetos de arma de fogo com carregamento pela culatra (retrocarga).

Um sistema muito pouco difundido, mas que tinha seu mérito era o denominado “Tape-primer”. Um revólver a tambor inventado por um dentista de Washington, Edward Maynard, em 1.845, utilizava um sistema muito similar ao de percussão tradicional, mas, ao invés de utilizar uma espoleta de metal que teria que ser colocada uma a uma em cada ouvido, usava uma fita de papel com fulminato depositado em forma de grandes gotas. Um rolinho de papel contendo as gotas de fulminato previamente distribuídas ficava alojado numa cavidade dentro da armação do revólver.

Na medida em que se disparava a arma, a fita era empurrada para fora automaticamente pelo mecanismo e posicionava uma nova espoleta sobre o ouvido, deflagrando a carga de propelente. É possível que alguns se lembrem daqueles simulacros de revólveres de espoleta de fita de papel, nas brincadeiras de infância, nos idos da década de 80; pelo menos os mais vividos certamente se recordarão deles.

Outra inovação interessante foi o projeto de Walter Hunt, do projétil autopropulsado sendo desenvolvido por Smith & Wesson, mas pouco utilizada pelos freqüentes problemas de falha foi o cartucho utilizados nas pistolas Volcanic, fabricada nos Estados Unidos a partir de 1.855, cartucho esse denominado “Rocket-ball” ou algo como “bala foguete”.

A invenção de Walter Hunt era na verdade um projétil autopropulsado, com uma espoleta “primer” na parte posterior. Ao ser detonado por um percussor, a espoleta incendiava a pólvora contida dentro do projétil, e a peça toda saía pelo cano. Na verdade não havia um cartucho, mas sim, um projétil autopropulsado. Esse sistema possuía vários problemas de falhas no disparo e a sua potencia, devido a pouca quantidade de pólvora no projétil, era muito fraca comparada a outras armas da época. Entretanto, independente do fato do cartucho ter falhas, foi por causa desta arma e do seu engenhoso sistema de repetição por ação de alavanca e carregador tubular que, mais tarde, viríamos a conhecer uma das mais importantes armas da história dos Estados Unidos da América: os famosos rifles Winchester.

Walter Hunt também projetou um rifle de repetição por meio de uma alavanca inferior (underlever), denominado por ele “O rifle de Repetição Volition”, apresentou o projeto a George Arrowsmith, de Nova Iorque, que delegou ao seu auxiliar Lewis Jennings à produção do primeiro protótipo. Lewis Jennings também foi responsável em modificar e promover melhoramentos no projeto de Hunt, o que foi logo patenteado pelo empregador. A produção do rifle em escala comercial somente foi possível após os direitos de patente ser adquirida por Courtland C. Palmer e sob a assistência Robbins & Lawrence, da cidade de Windsor, no Estado americano de Vermont. O empresário Courtland C. Palmer acabou por contratar Horace Smith para supervisionar a Robbins & Lawrence e que acabou provocando a mudança para a empresa Allen, Brown & Luther, da cidade de Worcester, no Estado americano de Massachussetts, fabricantes de canos de rifles e espingardas.

O trabalho de Horace Smith desenvolveu-se ao lado de Daniel Baird Wesson, dois aficionados nos projetos de Hunt e Jennings que possibilitaram que o projeto decolasse, resultando na criação de uma arma de repetição dotada de cartuchos flobert de percussão anelar “rim-fire”, com capacidade de dez tiros, no calibre .41 e outra menor no calibre .31 com capacidade de sete tiros.

Palmer, Smith e Wesson conseguiram levar o projeto nos limites da disponibilidade do capital, venderam seus direitos a um grupo de quarenta investidores de Nova Iorque e New Haven. Dessa transação comercial resultou na constituição da Volcanic Repeating Arms Co., e entre os investidores encontrava-se um astuto homem de negócios e fabricante de camisas, o preeminente “Oliver F. Winchester”. Desenvolveram vários modelos de pistolas entre elas a Largue Frame, pistolas de bolso e o raro rifle Volcanic em calibre .38 dotados de canos com 16”, 21” e 25” respectivamente, fabricadas durante o primeiro período da parceria Smith & Wesson. A Volcanic Repeating Arms Co., teve suas operações encerradas em março de 1.857, e Oliver F. Winchester assumiu os direitos e patentes, fundando em pouco menos de um mês a empresa The New Haven Arms Company, continuando a fabricar as mesmas armas produzida anteriormente, adotando ao projeto a produção em calibre .30. O Sr.

Winchester apesar de ter limitado conhecimento em armas de fogo, demonstrou-se um hábil administrador ao contratar Tyler Henry, para substituir a gerencia da fábrica de seu antecessor William Hicks, que pediu demissão.

Quando Smith & Wesson abandonaram a Volcanic e passaram a desenvolver seus próprios negócios objetivando fabricar revólveres em calibre .22 de percussão circular (rim-fire).

Henry considerado um armeiro arrojado e dotado de capacidade em solucionar problemas, desenvolveu o projeto do cartucho fogo circular em calibre .44. Este cartucho usava uma carga de pólvora negra de vinte e seis grains (1,69 gramas de peso), gerando velocidade de 366 metros/segundo (1.200 pés/segundo). Padrões respeitados mesmo na atualidade e que estimulou a aplicação no projeto Volcanic. Henry aplicou toda sua capacidade de armeiro e reestruturou o projeto original de Walter Hunt, resultando na criação do rifle de repetição, Henry 1860 que deu origem ao futuro rifle Winchester 1.866, que para atender a demanda do mercado, fez-se necessário ampliar e modernizar o sistema de produção.

Em dezembro de 1.866 abriu-se a subscrição de ações da empresa nova e, ao final de fevereiro de 1.867, a nova Winchester Repeating Arms Company começou a operar. Ofereceu-se aos acionistas da New Haven Arms Co., a opção de vender suas participações ou trocá-las por ações na nova empresa. A fábrica nova foi estabelecida em Bridgeport, em Connecticut, distante cerca de vinte milhas de New Haven. O espaço foi ampliado e dentro de dois anos a folha de pagamento cresceu de cem para duzentos e sessenta funcionários. Simultaneamente, a capacidade de fabricação aumentou para doze mil armas ao ano, completada pela produção de mais de 4,5 milhões de cartuchos. Nesse curto espaço de tempo, a Winchester transformou-se na maior fabricante de rifles de repetição do mundo (O’ MEARA, 1.995, p.41).

As inovações continuaram até adoção dos cartuchos de percussão de fogo central, modificando seu mecanismo percussão de modo que pudesse ser utilizado ambos os tipos de munição. O êxito da fabricação e comercialização pelo mundo de rifles Winchester, fez com essa marca tornasse um verdadeiro símbolo no século 19.

Os cartuchos dotados de sistema de fogo central (Center-fire) apresentavam vantagens comparadas ao de fogo circular (Rim-fire), possibilitando sua recarga. Sua criação é atribuída ao norte-americano Hiram Berdan que patenteou em 1.866, um cartucho metálico dotado de bigorna, com espoleta embutida em seu culote, e que são produzidos atualmente.

Em 1.867, o desenvolvimento de um cartucho metálico com espoleta embutida, similar ao projeto de Berdan, teve como criador Edward Boxer, diferenciando somente no emprego de uma cápsula de espoletamento dotada de bigorna separada do cartucho.

A fabricação do lendário revólver de retrocarga somente foi possível após expirar a patente registrada por Rollin White em 1.855. Esta patente contemplava o carregamento retrocarga de tambores de revólveres, sendo vendida à Smith & Wesson impossibilitando que a Colt e outros fabricantes desenvolvesse modelos com essas características, que somente foi possível em 1.869 ao expirar o registro.

1.1.11 – Revólver de Retrocarga (1.869 à 1.940)

O projeto voltou às pranchas sendo desenvolvido e coordenado por William Mason, superintendente da Colt por dezesseis anos e ex-funcionário da Remington.

O primeiro que Samuel Colt não era um genial projetista de armamento como, por exemplo, foi Browning. Colt era criativo e terminou sim por revelar-se um brilhante “marqueteiro”, tão eficiente foi o trabalho de divulgação de seus produtos. Colt, no entanto, não concebeu mais que uma forma de associar conceitos pré-existentes. Ele uniu numa única arma curta a recém inventada espoleta, o cano raiado e câmaras associadas rodando sobre um eixo, coisas que já existiam. O que ele realmente criou foi uma forma de que as câmaras se alinhassem ao cano e fossem travadas nessa posição através do acionamento de um único mecanismo. (JUNIOR, 2002, p. 22).

A versão definitiva é lançada no ano de 1.873, o Colt Single Action “Peacemaker” de ação simples, dotado inicialmente no calibre .45 colt, o modelo Cavalry de cano de 7 ½”, e outra versões com canos de 5 ½” denominado Artillery, visando o mercado militar. Finalmente o mercado civil é agraciado com um revólver dotado de um cano de 4 ½”, surgindo diversas denominações: Frontier, Peacemaker, Equalizer, sendo genericamente conhecido como Modelo P.

Nesse revólver devido à falta de um sistema de segurança confiável, somente se carrega com cinco cartuchos, deixando que o percussor repouse sobre uma câmara vazia, pois o entalhe intermediário do martelo, feito a guisa de trava, não impede o disparo acidental se cair sobre o martelo. Conta à lenda que nessa câmara vazia os antigos Cowboys guardavam enrolada uma nota de US$ 20,00, sua última reserva monetária. A lenda é boa, só duvido que fossem notas de vinte dólares, que eram três ou quatro meses de salário de um peão de boiadeiro no final do século dezenove (JUNIOR, 2002, p. 23).

O robusto revólver Colt S.A.A (Single Action Army), teve sua trajetória sacramentada ao ter seu protótipo entregue ao “Ordenance Departament” em consignação, na gestão da Colt por Richard Davis no ano de 1.872. O armamento foi submetido aos duríssimos testes da “U.S. Army, expondo sua usinagem às condições mais severas, das baixas temperaturas do rigoroso inverno americano, às tempestades de areia e o calor infernal do deserto, sendo aprovado por não apresentar avarias, ganhando o mercado civil e militar, produzindo sem interrupção 360.000 exemplares até o ano de 1940. A qualidade do projeto é percebida no seu manuseio, sendo inconfundíveis os seus cliques nítidos e harmoniosos, revelando os estágios de funcionamento do mecanismo interno. Ao acionar a orelha do cão o primeiro clique, de uma série de três.

No primeiro, a arma entra em estágio de segurança (repouso do cão) se o tambor estiver bloqueado, no segundo estágio, temos a liberação da janela de ejeção na direita do castelo da arma, permitindo a alimentação do carregador cilíndrico e a extração de cartuchos. No terceiro estágio, o alinhamento de uma câmara do tambor com o cano, permitindo disparar a arma de fogo. O maior legado deixado por Samuel Colt, pode-se considerar sua habilidade em divulgar seu produto, presenteando personalidades com edições customizadas e funcionais.

1.2 – CLASSIFICAÇÃO, CONCEITO E DEFINIÇÃO DAS ARMAS DE FOGO

As armas de fogo podem ter sua classificação, conforme as características do seu emprego, sendo adotado nesta pesquisa o emprego destes artefatos pelos operadores de segurança pública do Estado de Mato Grosso, quanto aos princípios: motor, ação de disparo, carregamento, mobilidade e emprego, calibre do cano, tipo de carregador, alma do cano.

1.2.1 – Quanto ao Princípio Motor

Ação Muscular – o operador de segurança realiza todas as ações de manejo manualmente (municiar, alimentar, carregar, travar, destravar, disparar, extrair, ejetar;

Ação de Gases – após o operador de segurança disparar o artefato, a força expansiva dos gases é responsável pelo retrocesso do ferrolho tencionando a mola recuperadora, provocando procedimentos em diversos estágios simultaneamente de extração, ejeção, engatilhamento e carregamento, ou seja, ficando pronta para disparar. Existindo três variáveis de ação de gases conforme denominados: o curto recuo direto (blow-back); o curto recuo com retardo (delayed blow-back); o recuo indireto por tomada de gases.

1.2.2 – Quanto à Ação de Disparo

Ação Simples – é todo artefato (arma de fogo) que se faça necessário da ação do operador de segurança em armar a armadilha responsável pela percussão da cápsula de espoletamento, ocasionando o disparo;

Ação Dupla – é todo artefato (arma de fogo) dotado de mecanismo capaz de realizar um ciclo completo, ocasionando o disparo sem prévio engatilhamento da armadilha (martelo ou cão), através da ação no gatilho.

1.2.3 – Quanto ao Princípio de Carregamento

Antecarga ou Avancarga – é todo artefato (arma de fogo) que tem a sua alimentação e carregamento pela boca do cano, carga de projeção e projétil. Exemplo: morteiro, bacamarte, pistolete.

Retrocarga – a carga de projeção, projétil ou munição (cartucho carregado) é inserida pela culatra na câmara de disparo. Exemplo: revólver, pistola, carabina, espingarda de caça, etc.

Mista – é todo artefato (arma de fogo) que recebe parte da munição pela boca do cano e parte pela culatra. Exemplo: fuzil no lançamento de granada de bocal.

1.2.4 – Quanto ao Princípio de Mobilidade e Emprego

Fixa – é todo artefato (arma de fogo), instalada em suporte, tripé ou bipé fixo.

Móvel – é todo artefato (arma de fogo), instalada em base móvel, motorizada ou não motorizada.

Não Portátil – é todo artefato (arma de fogo), que possui peso e volume, relativamente excessivo, restringindo seu transporte em veículos ou dividia em fardos para ser transportada por mais de um operador.

Portátil – é todo artefato (arma de fogo), que apesar de seu relativo peso, possibilita o transporte por único operador, por intermédio de fita de transporte ou bandoleira. Exemplo: Fuzil, carabina, espingarda, submetralhadora, metralhadora.

De Porte – é todo artefato (arma de fogo), dotada de pequeno peso e dimensões que possibilitam sua condução em coldre, o porte na cintura, o porte no tornozelo, o porte em coldre axilar. Exemplo: revólver, pistola, garrucha, etc.

1.2.5 – Quanto ao Calibre do Cano, Classificação, Conceito e Definição

Armamento Leve: é todo artefato (arma de fogo), dotada de calibre até o .50 BMG (Browning Machine Gun). Exemplo: a metralhadora antiaérea .50 M2, não portátil, emprego coletivo, alcance máximo, 6.900 metros e alcance de utilização 900 metros.

Armamento Pesado: são todos os artefatos (armas de fogo), dotados com calibres superiores ao .50 BMG.

Conceito e Definição: a designação da nomenclatura de calibre, normalmente implica em referência a espessura do diâmetro interno do cano ou do projétil e a família da qual pertence (fabricante), como exemplo temos o calibre 32-20 Winchester, 32-20 WCF ou calibre 8 x 33 mm, o primeiro número indicando o calibre do projétil e o segundo o comprimento do estojo, um calibre permitido de fogo central e que apresenta um bom desempenho. Podendo ser classificada em calibre real ou nominal. O diâmetro entre cheios da alma do cano, ou crista da raia, representa o calibre real do artefato (arma de fogo), e o diâmetro medido entre os fundos dos sulcos das raias opostas, representa o calibre do projétil.

O calibre nominal é a referência que o fabricante transcreve no cano da arma.

As munições e seus respectivos calibres são desenvolvidos para atender às suas características de aplicação, seja militar, policial ou autodefesa, existindo nomenclaturas variadas, mas para melhor compreensão abordaremos os dois sistemas de medidas mais empregados: O Sistema Norte-Americano, expressado centésimos e milésimos de polegadas, e o Sistema Continental Europeu expressado em milímetros.

1.3 – ARSENAL DE GUERRA NA PROVÍNCIA DE MATO GROSSO

A expansão de arsenais de guerra no Brasil, somente foi possível após a chegada da família real, com o Alvará de 1o de março de 1811, criando a “Real Junta dos Arsenais do Exército”, que passaram a ser denominados de Arsenal Real do Exército. As atividades de fundição possibilitavam a fabricação e reparos nos artefatos bélicos, confeccionados em bronze. Na província de Mato Grosso o Arsenal de Guerra, foi criado em 1818, por ordem de D. João VI e intitulado Real Trem de Guerra. Foi construído para ser um estabelecimento militar para conserto e fundição de armas. Conforme definiu a carta régia, sendo inaugurado em 1.832 e denominado Arsenal de Guerra.

Uma imponente edificação que relembra os tempos antigos, mantendo seus traços arquitetônicos e decorações de brasões, elmos e escudos medievais. O piso do saguão de acesso, é formado por projéteis confeccionados e bronze, está incrustado como pedra fundamental da história de Mato Grosso. Hoje, restaurado não mais abriga um arsenal de guerra, mas cultiva história, arte e cultura.

Chamar de casarão um espaço que compreende salas de teatro, cinema, bibliotecas e galeria de artes, parece muito pouco. Logo ao chegar à região do bairro do Porto pela rua 13 de junho, a fachada e arquitetura do local, relembram tempos antigos da nossa cidade, não só pela imponência do prédio que costumava abrigar um arsenal de guerra. São pequenos os detalhes que fazem a mente divagar pelo tempo: as sinuosidades das grades nos portões de entrada, as cerâmicas e ladrilhos que tecem os caminhos, os corredores a desembocar no jardim, além de peças como os pequenos canhões do século XIX que descansam em frente à chopperia – dois espectadores do tempo, envoltos num emaranhado de cultura (ROSA, 2.009, p. 19 ipsis litteris).

1.3.1 – Fabricantes de Armas no Brasil

A fabricação de armas de fogo, de porte e portátil, no Brasil está restrito à poucas empresas. Dentre elas temos a estatal Indústria de Material Bélico (IMBEL), vinculada ao Exército Brasileiro, produzindo armas de fogo de uso militar, policial e civil. Bem como, fuzis, carabinas, rifles sniper e pistolas, munições e artefatos explosivos.

A maior dentre elas é a empresa privada fabricante gaúcha, Forjas Taurus do Brasil, produzindo armas de fogo ao uso civil e policial. Atende a demanda nacional e internacional exportando, revólver, pistolas semi-automáticas, carabina tática, metralhadora de mão e coletes balísticos.

A Companhia Brasileira de Cartuchos, a CBC, única produtora brasileira de munição civil, fabricante também de espingardas e rifles. Exemplo: CBC Pump 12GA, Rifle Sniper modelo 122 e 122.2 (bolt action), Rifle modelo 7022 (semi-automático), espingardas de caça de tiro singular, etc. Detentora também de um dos maiores centro de treinamento de armas de fogo, sendo o único empreendimento na América Latina a conjugar fabricação de munições e uma estrutura na área de ensino Tático Policial.

O Instituto de Estudos Internacionais de Genebra (Suíça) ipsis verbis, aponta o Brasil se destacando dentre os “maiores fabricantes de armas de pequeno porte do mundo, ao lado da China, Rússia, Alemanha, Bélgica e Estados Unidos”.

A indústria bélica brasileira produziu 2,3 milhões de armas nos últimos cinco anos, das quais 531 mil (a maioria pistolas e revólveres) foram destinadas ao mercado nacional, para policias, forças armadas e público civil. Os dados da Diretoria de Fiscalização de Produtos Controlados do Exército, foram divulgados com exclusividade para a Agência Brasil. […] 464 mil armas recolhidas pela Campanha do Desarmamento, realizada pelo Ministério da Justiça, entre os anos de 2004 e 2005 (ABDALA. 2007, p.1)

1.4 – PROCEDIMENTO TÉCNICO OBRIGATÓRIO

1.4.1 – PPSOM – Procedimentos Primários de Segurança na Operações de Manejo.

São procedimentos seqüenciais que o operador de segurança ao realizar o manejo do armamento, deve obedecer religiosamente, diminuindo riscos à segurança própria e de transeuntes. Como o armamento de porte é o mais empregado pelos operadores de segurança pública, abordaremos o manuseio do revólver e da pistola semi-automática.

1.4.1.1 – Manejo do Revólver – Devemos sempre verificar se a arma está engatilhada.

Ao receber o ou entregar o armamento devemos tê-lo aberto e desmuniciado, adotando procedimentos e condutas reduzindo riscos em potencial no manuseio ao operador de segurança e transeuntes. A seguir algumas condutas que devem ser adotadas pelo operador de segurança no manuseio do armamento:

a) Se a arma estiver engatilhada:

Apontá-la para local seguro;
Com o polegar, segurar firme o cão, de forma que ele não escape;
Com o indicador liberar a tecla do gatilho;
Quando o cão começar a mover-se, soltar o indicador da tecla do gatilho e levar o cão bem devagar até o seu ponto de descanso.

b) Se a arma não estiver engatilhada:

Acionar o dedal serrilhado, apoiando o guarda-mato do revólver na palma da mão esquerda, ao mesmo tempo em que o dedo médio e anular pressione o tambor empurrando-o da direita para esquerda, deixando livre a mortagem, abrindo-o;

Com o polegar da mão esquerda, acionar a vareta do extrator, extraindo os cartuchos, tendo a mão direita em concha para evitar que os cartuchos caiam ao solo e venham a ser danificados pelo choque;

1.4.1.2 – Outras Verificações – após certificar-se de que o revólver não está engatilhado e encontrar-se sem munição, o operador de segurança deve verificar:

a) Se a arma tem marcas de quedas ou pancadas, pois estas podem comprometer o funcionamento e até impedi-lo;

b) Se os parafusos estão apertados. O revólver possui os seguintes parafusos:

– Das placas da empunhadura;
– Fixadores da tampa da caixa do mecanismo;
– Fixador da vareta do extrator e tambor, devendo-se tomar cuidado ao abrir o tambor, para não perder o parafuso;
– Fixador do dedal serrilhado liberador do tambor.

c) Vareta do Extrator:

– Deve estar apertada com a força da mão e não com ferramentas;
– Deve extrair os cartuchos ao ser acionada;
– Deve permitir giro livre do tambor;
– Não pode estar torta;
– Deve travar no alojamento sob o cano.

d) Se o tambor fecha e trava:

– Ao se fechar o tambor deve-se tentar fazê-lo girar, para verificar se a trava não está com defeito.

e) funcionamento do percursor:

– Abre-se o tambor;
– Com o polegar da mão esquerda empurra-se para trás o dedal serrilhado;
– Com o polegar da mão direita aciona-se o cão para trás até ficar travado;
– Coloca-se o indicador da mão esquerda junto ao orifício de saída do percussor no corpo do revólver;
– Aciona-se a tecla do gatilho;
– Deve-se sentir uma pontada no dedo, o que indica que o mecanismo está percutindo;
– Deve-se repetir três vezes o movimento acima;
– Na quarta vez, aciona-se a tecla do gatilho e continua-se a pressioná-la, observando se o percussor continua visível;
– Na posição acima, aperta-se o percussor com o indicador esquerdo, observando se ele permanece fixo.

f) O exterior do cano:

– Não deve apresentar estufamento ou trincamento, tanto na parte externa como no início do cano, no cone de forçamento, onde o projétil sai do tambor e entra em contato com o raiamento do cano.

g) No interior do cano:

– Não deve existir obstrução ou raia solta;
– Para facilitar a visão coloca-se a unha no início do cano.

h) Funcionamento geral:

– Fechar o tambor;
– Acionar o gatilho sete vezes;
– Acionar o cão com o polegar da mão esquerda e disparar sete vezes, em todas observando o giro do tambor e seu travamento após o tiro.

1.4.1.3 – Pistola Semi-automática

Devemos sempre verificar se a arma está engatilhada. Ao receber o ou entregar o armamento devemos tê-la aberta e desmuniciada, adotando procedimentos e condutas reduzindo riscos em potencial no manuseio ao operador de segurança e transeuntes. A seguir algumas condutas que devem ser adotadas pelo operador de segurança no manuseio da pistola semi-automática:

a) Se a arma estiver engatilhada:

– Apontá-la para local seguro;
– Retirar o carregador;
– Executar dois golpes de segurança;
– Reter o ferrolho a retaguarda acionando o retém do ferrolho e realizar a inspeção visual e tátil pela janela de ejeção, na câmara e receptáculo do carregador;
– Acionar o retém do ferrolho fechando a pistola;
– Sendo a pistola dotada de desarmador do cão, acionamos liberando o mesmo ao seu ponto de repouso e travamos a arma;
– Alimentamos a pistola inserindo o carregador no receptáculo até ouvirmos um clique da retenção do carregador;
– Em seguida coldreamos a pistola estando pronto ao emprego operacional.
– Se a pistola não for dotada de desarmador do cão, devemos proceder de forma a desarmar o cão colocando o dedo polegar da mão esquerda antes do cão, e com o polegar direito reter a orelha do cão, acionando o gatilho com o indicador liberando o cão que começará a mover-se, soltamos o dedo do gatilho e o conduzimos até seu ponto de repouso.

1.4.2 – PSAR – Procedimentos de Segurança em Ação Real.

Após efetuar disparos com o revólver, seja em estande de tiro ou em ocorrências de alto risco, a primeira providencia a ser tomada após o último disparo, é abrir o tambor e extrair os cartuchos, utilizando-se dos procedimentos primário de segurança, deixando o cano da arma na vertical e pela ação da gravidade facilitar a extração dos cartuchos, a fim de evitar que algum cartucho fique preso ou ultrapasse o extrator, permanecendo entre a câmara e o extrator, travando o tambor na posição aberta. Caso isso ocorra, o cartucho deverá ser removido para permitir o municiamento do tambor, alimentação do revólver, fechamento e o travamento do tambor, permitindo o perfeito funcionamento. Em seguida coloca-se o revólver no coldre e trava-se a retenção.

Com a pistola, deve retirar o carregador, executar dois golpes de segurança, e os demais procedimentos primários de segurança, sempre tendo o cuidado de municiar os carregadores e tendo sempre na arma um carregador com carga completa, o uso de munição na câmara da arma depende de doutrina e treinamento adotados pela instituição à que o operador de segurança faça parte. Estando a arma alimentada com o carregador e este travado em seu receptáculo. Deve-se travar a arma e coldrear, estando apto ao porte e emprego do equipamento.

1.4.2.1 – Forma Técnica de Portar uma Arma de Fogo.

a) No coldre com boa retenção;
b) Empunhado, com os braços estendidos e atirando;
c) Na lateral, junto ao tórax (deslocamento), com dedo fora do gatilho;
d) Recarga normal, na recarga de combate e na recarga tática;
e) Manuseio para sanar panes, incidentes de tiro ou para limpeza;
f) Não estando atirando evitar o disparo precoce, mantendo o dedo fora do gatilho;
g) Pistola semi-automática engatilhar na ação, nunca confiar nas travas, pois estas podem destravar inadvertidamente ou deixar de funcionar por estar danificada por mau uso ou falta de manutenção.

1.5 – FUNDAMENTOS TÉCNICOS DO TIRO POLICIAL

Todos os especialistas em tiro policial consideram de fundamental importância a evolução do treinamento e doutrina de tiro para os operadores de segurança pública, pois, esta por muitos anos seguiu a metodologia das forças armadas, não atendendo a realidade dos confrontos urbanos em ações de segurança pública. Onde o causador do evento crítico não deve ser visto como inimigo e sim como um indivíduo que deve ser contido em sua ação, respeitando o que preceitua a Constituição, obedecendo a emprego progressivo da força sendo proporcional à ameaça. O emprego da arma de fogo pelos operadores de segurança pública devendo obedecer aos princípios da legalidade, ou seja, ter em mente o perigo iminente pela presença de ameaça letal (arma) por parte do agressor e quando possível verbalizar, tendo sempre em mente a preservação de vidas, principalmente a do operador de segurança.

A interpretação da linguagem corporal do agressor é de fundamental importância ao operador de segurança pública, no desempenho de suas funções ou na aproximação de local de ocorrência, devendo observar as pessoas com intuito de identificar o suspeito, bem como: atitudes e aspectos estranhos, gestos, mãos tremulas, transpiração pesada, movimentação dos olhos, vestimenta suspeita, consulta freqüente ao relógio e aparelho celular. Ao fixarmos o olhar nos olhos do suspeito é possível notar mudanças na fisionomia, possibilitando ao operador de segurança pública estabelecer critérios na abordagem e verbalização, e conseqüentemente o potencial ofensivo do causador do evento crítico.

A doutrina e o treinamento adequados as atividades dos operadores de segurança pública é o tiro policial de sobrevivência, visando estabelecer padrões técnicos que possibilitem o porte e emprego da arma de fogo adequado a função policial, atendendo aos princípios da legalidade, necessidade e proporcionalidade, proporcionando a preservação da vida dos operadores de segurança pública do Estado de Mato Grosso. A ação imediata por parte dos organismos de segurança pública é promover a qualificação continuada, proporcionando o preparo físico e mental, habilidade de defesa e conhecimento tático, qualificando gradativamente os operadores de segurança pública preparando-os ao enfrentamento das ameaças dos causadores de eventos críticos e ocorrências de alto risco, preservando a vida dos encarregados da aplicação da lei.

Portanto, durante o Oitavo Congresso das Nações Unidas sobre a Prevenção de Crimes e o Tratamento aos Infratores, sediada em Havana, Cuba no ano de 1.990, foi signatário da formulação de instrumentos que orientam a atuação dos agentes encarregados pela aplicação da lei, os Princípios Básicos sobre o Uso da Força e Armas de Fogo (PBUFAF) prevêem que:

Conforme a abordagem de Rover: Os governos e organismos encarregados da lei devem assegurar-se de que todos os encarregados da aplicação da lei: sejam selecionados (…); tenham qualidades morais, psicológicas e físicas adequadas; recebam treinamento contínuo, meticuloso e profissional (…); sejam treinados e examinados de acordo com bases em padrões adequados de competência para uso da força; e só recebam autorização para portar uma arma de fogo quando forem especialmente treinados para tal (ROVER apud MELLO, 2008, p.22) [grifo nosso].

Apesar de o Estado conferir aos operadores de segurança na aplicação da lei o “poder” de usar a força, esta deve ser empregada de forma progressiva. Devendo esta somente ser empregada quando a legitimidade e o bom senso permitirem, ou seja, atenderem aos princípios da legalidade, necessidade e proporcionalidade. A falta de qualificação e capacitação continuada dos operadores de segurança pública, principalmente ao porte e emprego da arma de fogo, fere os princípios da legitimidade e proporcionalidade ao provocar a exposição às ocorrências de alto risco dos encarregados na aplicação da lei que se encontram desprovidos de tecnologias adequadas aos enfrentamentos destas ameaças criminosas.

É necessário que se adote uma forma de Controle e Avaliação de Tiro (CAT), tendo a função de subsidiar aos instrutores o nível de habilidade que o instruendo se encontra, pois, habilidade é aquilo que você teoricamente sabe como deve ser, mas não está condicionado a fazer. É a prática que precisamos desenvolver que nos condicionará a ter incorporado os procedimentos técnicos no emprego da força e da arma de fogo no tiro policial, proporcionando a sobrevivência do encarregado de aplicar a lei com legitimidade, velocidade e qualidade.

A necessidade de condicionar os operadores de segurança pública ao porte e emprego de armas de fogo somente será possível pela adoção de doutrina e treinamento adequado, com qualificação continuada conforme Rover apud MELLO (2008, p. 22), “recebam treinamento contínuo, meticuloso e profissional (…)”, tendo em vista a transmissão de informações tecnológicas adequadas, provocando o desenvolvimento de habilidades, modificações de atitudes e conceitos que atendam as necessidades da segurança pública no enfrentamento das ameaças criminosas contra a sociedade em toda extensão territorial do Estado de Mato Grosso.

Doutrina: não é rígida e inflexível, acompanha a evolução, rompe a inércia, organizando e promovendo reajustamentos necessários de forma que irão sedimentar e mudar comportamentos e condutas na instituição.

Treinamento: é o conjunto de procedimentos formais que uma empresa utiliza para facilitar a aprendizagem de seus funcionários, de forma que sua conduta resultante contribua para a consecução dos objetivos e fins da organização (SERPA, 1998, p. 59).

De acordo com Chiavenato (1.994, p. 127) apud Metello, abordando a importância do treinamento para uso da arma de fogo, citando ainda quatro etapas, constando do levantamento das necessidades, programação do treinamento para atender necessidades, implementação e execução dos programas, avaliação dos resultados obtidos na aplicação do processo de aprendizagem.

O treinamento é algo constante e incessante. Treinar uma vez na vida não significa nada. O treinamento é uma contínua redução de dissonância e uma constante busca da competência profissional. Como resultado final, o alcance da excelência é o sucesso pessoal e organizacional (apud METELLO, 2006, p. 43).

A evolução técnica das práticas de tiro nas instituições de segurança pública deve ser vista como um avanço tecnológico considerável que, tem como princípio a rápida detecção do agressor e resposta rápida do operador de segurança pública na tomada de decisão do disparo, pois, o tiro policial legítimo deve ser incorporado, visando à preservação da vida do encarregado de aplicação da lei, necessitando de técnicas complementares para ser realizado:
a) a base do atirador deve ser estável com o tronco levemente inclinado à frente alinhando com os joelhos flexionados, mantendo a cabeça a mais ereta possível, de modo que os olhos trabalhem na posição natural, ou seja, nivelados;
b) o olhar deve fixar no agressor e o armamento deve sair nivelado com o solo e no alinhamento dos olhos, exercendo pressão controlada na empunhadura e empurrando a arma de fogo até distender completamente os dois braços, formando um triângulo isóceles, posicionando o tórax levemente inclinado para frente como se fossemos atravessar o alvo. Ao sentirmos que estabilizou o cano da arma de fogo, o atirador deve concentrar no acionamento da tecla do gatilho, pressionando-o com a falange distal, apoiada na falange medial, exercendo pressão da frente para trás, arremessando o projétil contra o agressor ao sentir que a musculatura de todo o corpo está trabalhando para um tiro preciso, tudo isso é realizado instintivamente e a arma surge entre os olhos nivelados com o tórax do agressor, sempre com o dedo fora do gatilho. O dedo somente vai ao gatilho ao identificar ameaça letal e estar esgotados todos os meios proporcionais a agressão.
c) os dois olhos do atirador devem estar abertos, proporcionando uma visão mais ampla, abrangendo todo o campo de tiro, pois, ao fecharmos um dos olhos, provocamos a contração dos músculos faciais e a incidência diferente de luz nas pupilas, altera o ângulo de visão prejudicando a qualidade do tiro. Devemos levar em consideração também que ao fecharmos um dos olhos estamos perdendo cinqüenta por cento de nosso campo de visão e nos tornamos presa fácil, quando confrontamos com mais de um agressor.
e) conhecer nosso olho diretor é importante, mas, em tiro policial é possível conseguirmos um tiro preciso e com qualidade com ambos os olhos abertos, basta treinarmos e incorporarmos o movimento do tiro, denominado tiro visado policial (TVP), executando perfeita empunhadura e apontando com o dedo, o “point índex”, a famosa técnica do terceiro olho. A arma de fogo torna-se extensão dos braços do atirador. Não devemos fixar o olhar em um ponto pequeno por um espaço prolongado de tempo, pois, isto causa o em baralhamento da visão.

1.5.1 – Técnicas de Empunhadura Simples e de Acompanhamento.

No tiro policial evita-se a prática do tiro com empunhadura simples, somente sendo adotada esta técnica em situações em que o operador de segurança, esteja impossibilitado de efetuar o disparo com ambas as mãos, podendo ser no exercício de proteção pessoal de autoridades ou testemunhas, ou ainda, estando ferido. Ao empunhar a arma com a mão forte, devemos envolver completamente a empunhadura atendo-se a ergonomia da empunhadura da arma. O operador de segurança pública ao empunhar a arma de fogo, deve ter em mente a necessidade de interpretar a ação do agressor e o sua ameaça potencial, fazendo uso da arma de fogo com legitimidade somente quando estiverem esgotados recursos de gerenciamento de crises, atendo-se às ameaças letais que implica diretamente em sua sobrevivência.

A perfeita empunhadura da arma de fogo ao observar os critérios da legitimidade, deve ter o dedo sempre fora do gatilho para evitar o disparo precoce. Adotando a técnica do terceiro olho, devemos abordar a empunhadura da arma com o polegar e indicador esticados, formando uma espécie de pinça, alinhando o polegar com o antebraço, dessa forma, ao decidir disparar a arma de fogo, o dedo ao tocar o gatilho, estará exercendo uma força da frente para trás com a primeira falange do dedo indicador (distal), apoiada na segunda falange (medial). Se a arma estiver equipada com zarelho e fiel, este deve estar alinhado com o antebraço não podendo ser visualizado por uma vista superior. Se o atirador empunhar a arma como se estivesse apontando o dedo ao alvo, o fiel ficará visível e alinhado na parte interna do antebraço.

A perfeita empunhadura não exerce força excessiva e não causa estresse, proporciona um perfeito alinhamento e controle do cano ao atirador, estabilizando a arma de fogo deixando-a pronta ao disparo.

1.5.1.1 – Técnica de Empunhadura Simples.

Na doutrina de tiro policial o tiro com uma mão ou simplesmente, tiro de empunhadura simples, somente é empregado quando não existir a possibilidade do uso de ambas as mãos para estabilizar o armamento, podemos citar: o tiro na proteção de dignitários, testemunhas ou até mesmo onde o operador de segurança pública esteja ferido ou transportando algo com a mão fraca, podendo ser uma pasta com documentos ou valores ao qual foi incumbido de proteger. O disparo com a empunhadura simples apresenta perda de qualidade, mas é possível conseguir um disparo preciso, apesar de que em tiro policial, normalmente este disparo é realizado como tiro de cobertura, sendo adotada somente para dar cobertura à evasão do atirador na busca proteção, utilizando como escudo protetor os meios disponíveis no campo de tiro, podendo ser nas edificações, veículos, postes, irregularidades do terreno, etc.

Esta proteção está relacionada ao tiro barricado sem apoio, não podendo o atirador ultrapassar o armamento da borda do escudo protetor, pois se assim o fizer, corre o risco de ter seu armamento arrebatado ou exposição excessiva, aumentado a possibilidade de ser alvejado por disparos do agressor. Esta proteção resume-se em buscar manter-se longe do campo visual do agressor (cobertura) e protegido dos disparos do agressor (abrigo), isto é, o local deve ser resistente o suficiente para não ser transfixado pelos disparos do agressor.

1.5.1.2 – Técnica de Empunhadura Dupla ou de Acompanhamento.

No tiro policial o tiro com ambas as mãos ou simplesmente, tiro de empunhadura dupla é adotado e empregado, tido como de extrema importância à sobrevivência do operador de segurança ao ser surpreendido e envolvido em ocorrências de alto risco que causa tensão e estresse podendo, desestabilizar e comprometer a qualidade no emprego da arma de fogo.

Portanto, o treinamento adequado resume-se em repetir o posicionamento da mão direita com a mão esquerda. O dedo indicador da mão esquerda fica sobre o dedo médio da mão direita. O médio da mão esquerda fica sobre o anular da mão direita, procurando-se evitar que os demais fiquem desgarrados. Devemos segurar a empunhadura da arma de forma a envolvê-la totalmente, tendo o cuidado de não exercer pressão excessiva e nem deixá-la solta, seria como segurar um pássaro, que não pode ser esmagado, ficar vulnerável ou cair, pois, qualquer deficiência pode ocasionar interferência na qualidade do disparo e controle da arma. O dedo médio e anular deve comprimir a empunhadura contra a palma da mão e o dedo mínimo apóia-se na empunhadura, tornando a parte de baixo da palma da mão a medida ideal para posicionar a lateral direita da empunhadura. Olhando por trás não dá para ver a empunhadura. Assim, o cano estará alinhado no prolongamento do antebraço.

Conforme aborda Serpa em sua obra:

Observando a mão espalmada, nota-se um cheio entre o polegar e o indicador e um vazio na palma da mão. Ao olhar à empunhadura da arma de fogo, vê-se na parte superior da mesma um vazio e, mais abaixo, um cheio. Mão e empunhadura da arma de fogo completam-se e a junção dos dedos citados tem de coincidir na parte superior da empunhadura da arma de fogo, pois é ali que se impede que a arma suba no momento do disparo. O dedo médio e anular comprime a empunhadura da arma de fogo junto à palma da mão, impedido que ela se desestabilize para baixo. O dedo mínimo apóia-se no dedo anular, lembrando que a linha do cano da arma está no prolongamento do antebraço, enquanto que a mão esquerda, fazendo a empunhadura de acompanhamento, é a responsável pela lateralidade do tiro. Caso ocorra o tiro muito para a esquerda, deve-se ter menor incidência da mão esquerda e liberar a arma para a direita. O tiro muito para a direita necessita de mais mão esquerda, para trazer a arma para a esquerda (SERPA, 1998, p. 83) [grifo nosso].

Os erros mais comuns se apresentam com empunhadura de base, ou seja, a mão fraca espalmada acondiciona a base da empunhadura da arma de fogo, técnica adotada pelas forças armadas e obsoletas ao emprego policial. Dedos da mão fraca irregulares no apoio, formando espaços vagos que facilitam o deslocamento da arma de fogo. O dedo indicador da mão fraca apóia-se no guarda-mato, deixando de proteger a mão forte.

1.5.2 – Técnica de Acionamento da Tecla do Gatilho.

Ao chegarmos à etapa de acionar o gatilho, entende-se já ter cumprido todas as outras etapas, principalmente no que diz respeito ao uso progressivo da força e arma de fogo, legitimando a pronta resposta do operador de segurança pública.

Ao acionar o gatilho o atirador deve exercer força contínua da frente para trás, envolvendo ergonomicamente a tecla do gatilho com a falange distal do dedo indicador, apoiado na falange medial, impedindo que o dedo escape do gatilho no momento do disparo, pois, fatores de estresse podem influenciar negativamente na qualidade do tiro e na coordenação do atirador. O atirador deve estar atento a não encostar o dedo indicador na lateral da arma, deixando espaço para que não venha a interferir no alinhamento forçando a arma de fogo lateralmente. No tiro em ação simples, onde o cão é preliminarmente engatilhado, o acionamento deve ser com a ponta do dedo, deixando um espaço que possibilite a passagem de luz, denominado nas forças armadas de luz do dedo. No disparo em ação dupla é necessário desprender maior pressão para termos a execução dos dois estágios, mas a força deve ser da frente para trás, sendo determinante a perfeita empunhadura da arma de fogo no momento do saque.

1.5.3 – Treinamento de Controle do Cano e do Gatilho.

No treinamento de pronto emprego da arma de fogo no tiro policial, o atirador deve condicionar-se a realizar o perfeito alinhamento do cano em direção ao alvo, atendo-se ao perfeito nivelamento, saindo de uma posição de retenção exercendo a função de terceiro olho. Buscando incorporar os procedimento de porte, saque, retenção e pronto emprego, identificando antecipadamente a necessidade de disparo baseando-se na trilogia de decisão de disparo: legitimidade, velocidade e qualidade. Estando a legitimidade, relacionada à ameaça letal do agressor, representando perigo ao agente encarregado de aplicação da lei; velocidade está relacionada à capacidade do agente em processar e responder instantaneamente as informações de ameaça letal, com agilidade no emprego da arma de fogo; a qualidade é a resultante da capacidade de discernimento do agente em aproveitar a oportunidade sendo preciso em sua ação.

A ação do dedo indicador no gatilho deve estar condicionada a interpretação à atitude do agressor, estando visado e agressão iminente. Para que essa ação seja assimilada, faz-se necessário treinamento adequado, que determinará que ao empunhar a arma o faça sempre com o dedo fora do gatilho e alinhada na lateral da armação da arma.

O treinamento de acionamento do gatilho pode ser realizado utilizando um cartucho deflagrado próximo à alça de mira, procurando mantê-la durante o acionamento em seco, condicionando-se de forma a evitar a famosa gatilhada no momento do disparo. Este treinamento deve ser realizado nas três posições básicas de tiro, sendo: posições em pé, joelho e deitado em decúbito ventral. Somente o treinamento constante destes movimentos proporcionará ao instruendo à incorporação dos procedimentos do tiro policial com qualidade necessária a sobrevivência policial.

1.5.4 – Técnicas de Saque do Sistema Israelense, o saque S10.

O treinamento da técnica de saque é fundamental ao operador de segurança pública, capacitando-o ao pronto emprego com tempo reduzido, evitando o desconforto de ser surpreendido em situações de alto risco.

Este treinamento será dividido em dez movimentos, contados a partir da posição inicial, estando o atirador portando a arma no coldre em posição natural e ambas as mãos posicionadas próximo a fivela do cinto.

1.6 – VISADA DO TIRO POLICIAL E O TIRO ESPORTIVO.

A forma de realizar a visada no tiro policial é diferente do tiro Esportivo, tendo em vista no tiro policial, a busca pelo tiro preciso, enquanto no tiro esportivo, busca-se a precisão. A visada do tiro esportivo busca o perfeito enquadramento dos aparelhos de pontaria da arma de fogo, denominada linha de mira, onde o atirador busca manter nítido em nosso foco de visão, buscando alinhar com o alvo em segundo plano formando a fotografia, ou seja, a linha de visada que é a distancia da boca do cano da arma até o alvo.

Já na visada adotada no tiro policial, representa uma interpretação totalmente nova e antagônica ao tiro esportivo, devendo o atirador manter os dois olhos abertos e nivelados entre si, posicionada normalmente a cabeça, sem inclinar para nenhum lado para evitar embaralhamento da visão embaralhada, devendo a arma de fogo surgir entre os olhos e o alvo, nivelada entre o atirador e o agressor, em perfeita equilíbrio. No Tiro Visado Policial (TVP), é importante que o alvo esteja nítido em nosso foco de visão e não os aparelhos de pontaria como no tiro esportivo.

Portanto, a falta de referências bibliográficas de tiro policial, levou às instituições ligadas a segurança pública a adotarem metodologias de ensino oriundas das forças armadas, tais como tiro de precisão e voltados ao combate contra inimigos, tendo como princípio básico técnicas de ataque, voltadas para guerra, sendo consideradas ultrapassadas e incabíveis ao emprego policial. Tendo em vista que o uso da força e arma de fogo pelo policial, devendo atender os princípios da legalidade e proporcionalidade, adotando-se progressivamente, táticas defensivas e proporcionais a agressão recebida.

Outras metodologias que foram adotadas foram as de tiro esportivo e tiro prático, adaptações de técnicas oriundas de competições esportivas, onde se aferem a capacidade de reflexo, raciocínio e outras habilidades que não atendem o emprego na atividade policial, baseado na legitimidade.

1.7 – POSIÇÕES BÁSICAS DE TIRO VISADO POLICIAL.

No tiro policial aqui apresentado as posições variam no tiro a partir da posição em pé, com os joelhos flexionados, tronco levemente inclinado a frente, com ambos os olhos abertos, empunhadura de acompanhamento e braços totalmente distendidos (isóceles).

A posição de joelhos e deitado, permanecem com empunhadura de acompanhamento e a posição dos braços idênticas a posição em pé (isóceles).

Todavia, existem outras posições de considera não usuais e irrelevantes ao tiro policial, sendo na verdade adaptações a realidade do momento. Esta liberdade de adaptabilidade representa a metodologia do construtivismo, devendo ser buscado pelo instruendo com constância.

1.8 – DO PROCESSO DE ENSINO EMPÍRICO AO CONSTRUTIVISMO.

Dentro do processo de ensino das instituições responsáveis em capacitar os operadores de segurança pública, nós temos a linha tradicional conservadora, baseada no empirismo (tecnicismo), onde o modelo pedagógico transforma o instruendo em simples reprodutor de procedimento técnicos, adestrado a agir e executar ordens.

A mudança de paradigmas representa a reformulação de conceitos onde visamos maior interação entre instrutor e instruendo, possibilitando que o operador de segurança pública torne capaz de construir o seu próprio entendimento, não o aprisionando a uma única tecnologia ou método. O orientador deve deixar de ser a única fonte de conhecimento e passar a representar o papel de facilitador, direcionando o operador de segurança a assimilar e acomodar novos conhecimentos. O Construtivismo permite ao instruendo, compreender o mundo ao qual faz parte, estimulando-o na busca e construção do conhecimento, evoluindo e aperfeiçoando-se constantemente. Na qualificação do operador de segurança pública ao porte e emprego de arma de fogo, é adotar como símbolo a preservação da vida do indivíduo, estimulando-o a buscar o aperfeiçoamento que resultará em melhor qualidade no exercício de suas funções.

O termo adestramento deve ser banido do vocabulário dos educadores, pois, nas palavras de Becker (2009),”O bicho eu adestro, é estímulo-resposta. A criança envolve inteligência, pensamento divergente, ela questiona, vai além”.

E o autor vai além e conceitua o método pedagógico, onde o objeto (indivíduo) em constante interação com o meio é capaz de construir conhecimento e transformar, como veremos a seguir:

Construtivismo significa isto: a idéia de que nada, a rigor, está pronto, acabado, e de que, especificamente, o conhecimento não é dado, em nenhuma instância, como algo terminado. Ele se constitui pela interação do indivíduo com o meio físico e social, com o simbolismo humano, com o mundo das relações sociais; e se constitui pela força de sua ação e não por qualquer dotação prévia, na bagagem hereditária ou meio, de tal modo que podemos afirmar de que antes da ação não há psiquismo nem consciência e, muito menos, pensamento. (BECKER, 2.009, p. 88 e 89) [grifo nosso].

Portanto, é possível modificar a forma de capacitar, estimulando e motivando os operadores de segurança pública a construir seu entendimento, principalmente àqueles que fazem parte da grande maioria que estão lotados em localidades remotas, logisticamente fora do raio de ação dos grupos especializados localizados na capital do Estado de Mato Grosso, motivo que leva grupos especializados em roubos a instituições financeiras a agir com extrema supremacia logística e tática, portando armamento sofisticado e superior ao disponibilizado pelo Estado aos operadores de segurança pública, sendo na maioria das vezes tomados como reféns juntamente com a população destas localidades.

Isto é o que caracteriza as ocorrências de alto risco, pois, os causadores desses eventos críticos, demonstram habilidades superiores aos dos operadores de segurança pública, demonstrando frieza e naturalidade em suas ações, aterrorizando e expondo suas vítimas a um elevadíssimo nível de estresse, atingindo diretamente os operadores de segurança pública, que nestas situações tem o dever de agir e restabelecer a ordem e promover sensação de segurança à sociedade.

A exposição ao risco extremo, aliado ao fator surpresa do confronto armado, causa tensão excessiva afetando diretamente os profissionais que não são agraciados com treinamento contínuo, meticuloso e profissional, conforme discorre Campos, ao abordar a importância da preparação continuada, voltada à minimização dos riscos inerentes a profissão:

A qualificação do policial através de treinamentos deverá estar à altura da exigência do serviço que lhe é inerente, principalmente na atuação do mecanismo do uso progressivo da força. […] Vale ressaltar que na ausência de doutrina, estrutura e equipamento ideal, a didática da instrução fica prejudicada nos quesitos de qualidade e realismo do treinamento, podendo inclusive não obter sucesso, gerando com isso, práticas empíricas de instrução pouco eficientes ao que se destina, ou até mesmo durante a necessidade de utilização de defesa em situações fora de serviço. É sabido que o policial tem o policial tem que tomar decisões importantes em frações de tempo muito ínfimo e sob forte estresse. […] verificamos que no momento de estresse decorrente de uma ação de confronto, terá que recorrer ao condicionamento anterior adquirido durante o seu treinamento específico, o que chamamos de memória psicomotora, caso não haja tal treinamento meticuloso, certamente estará o policial vulnerável a situação de risco.

O policial deverá receber todo tipo de preparação para uso proporcional da força no trato com os mais diversos tipos de ocorrências que possam surgir em sua carreira, pois é sabido que a energia aplicada deverá ser proporcional a agressão proporcionada (CAMPOS, 2.009, p. 33 e 34) [grifo nosso].

É importante salientar que, não basta redigirmos novas diretrizes e reformular as grades curriculares se elas não forem exeqüíveis, conforme está previsto na Portaria no 001/CCDP/PMMT/05, onde a instituição Policia Militar do Estado de Mato Grosso, adotou o sistema de capacitação modular, obedecendo aos padrões do Método Giraldi, o Tiro Defensivo na Preservação da Vida (TDPV), (Anexo A) que diz:

[…] adotar o Método Giraldi como padrão de ensino da Disciplina de Tiro Policial nas Unidades de Ensino da PMMT; adotar o sistema de capacitação modular por arma obedecendo aos padrões do Método Giraldi, em todos os Cursos de Formação, Habilitação e Aperfeiçoamento da PMMT. (apud METELLO, 2.006, p. 47).

E conforme está estabelecido na grade curricular do Método Giraldi, para habilitar ao porte e emprego do revólver e pistola, ambos dispõem da mesma carga horária, totalizando 120 (cento e vinte horas/aula), conforme tabela subdividida em:

A problemática existente no ensino das Instituições de Segurança Pública é o descompromisso em cumprir o que está previsto nas portarias e normativas que regulam a capacitação dos operadores de segurança, isto fica bem explicito nas palavras de Storani, ao relatar as Limitações do Método, em sua obra de pós-graduação, onde abordou O Treinamento Perceptivo-Motor na Melhoria da Performance do Tiro Policial em Confrontos Armados nas Áreas de Alto Risco:

Um fator que influenciou diretamente no resultado foi o quantitativo de tiros efetuados. Onde se previa uma quantidade ideal de cem cartuchos por homem, visando incremento fator “precisão”, o gasto total real chegou a “trinta e seis” cartuchos por homem. Esta limitação deveu-se a problemas de logísticos, e pode ter influenciado no resultado do trabalho, mesmo com os resultados obtidos, onde se verificou o aumento de rendimento em todos os parâmetros trabalhados, inclusive a Precisão. (STORANI, 2.000, p. 21).

É possível ver operadores de segurança com quinze anos de serviço que alegam terem sidos capacitados com cinco tiros de revólver e cinco de mosquetão, permanecendo o fator, capacitação sempre em segundo plano aumentando a possibilidade de resultados trágicos por imperícia do operador de segurança pública, que faz uso da arma de fogo como equipamento de trabalho.

A quantidade de tiros para habilitar o operador de segurança, representa um avanço, mas é importante que se verifique se o que esta portaria regulamenta está sendo executado na habilitação ao porte e emprego do revólver e pistola de dotação da PMMT estão assim distribuídos, conforme disposta na tabela abaixo:

Tabela 2

Quantidade de Disparos para Habilitação ao Porte e Emprego

tabela

Fonte: Portaria no 001/CCDP/PMMT/2005
TDPV – Tiro Defensivo na Preservação da Vida

Nas palavras de Oliveira (1956) apud Serpa, transcreve que:

[…] instrução de tiro para todas as organizações policiais no Brasil é impressionantemente deficiente. […] estamos em tempo de pensar maduramente no assunto, pois ensinar tiro de defesa com as dificuldades existentes é impossível, e não ensinar, como atualmente se faz, é um crime. Um crime grave, pois é um crime da policia contra a sociedade. (SERPA, 1.998, p. 54 e 55).

Se nos idos de 1.956 era dessa forma e continua sendo na atualidade, isso demonstra que o sistema de ensino tradicional não se apresenta satisfatório e faz se necessárias mudanças urgentes, pois vidas vêm sendo ceifadas na população de operadores de segurança pública por falta de capacitação continuada.

Conforme a teoria de necessidades humanas criada por de Maslow (1934) apud Soares, afirma:

[…] o ser humano possui necessidades primárias e secundárias. As primeiras são as necessidades fisiológicas e de segurança, ou seja, sobreviver e estar em segurança são as primeiras necessidades do ser humano. Entre as necessidades secundárias, […] pela ordem, as necessidades sociais, de afeto e alto realização. Assim, a primeira necessidade que o ser humano sente, depois de satisfeitas as necessidades de sobrevivência e segurança são justamente as de reunião e associação (Maslow apud Soares, 1.998, 1 CD-ROM p. 3) [grifo nosso].

Desta forma, é importante que se mude a metodologia de ensino nas instituições de segurança pública, adotando o construtivismo, onde a interação entre indivíduo e objeto promove maior capacidade de retenção, principalmente por ser um método que trabalha com símbolos, o símbolo na formação de operadores é a preservação da vida dos mesmos. Portanto, o Estado não precisa formar heróis, mais profissionais que tenham discernimento e capacidade de tomar a decisão correta em situações de alto risco, onde o estresse pode influenciar e levar o agente responsável em aplicar a lei a tornarem-se simplesmente dados em relatórios estatísticos.

CAPÍTULO II: METODOLOGIA

O presente estudo ocupou-se dos procedimentos metodológicos aplicados aos objetivos, geral e específico, estabelecendo os critérios básicos para o desenvolvimento da pesquisa quanto aos fins e aos meios. A pesquisa qualitativa para subsidiar valores e pesquisa participante como forma de garantir as análises realizadas, a pesquisa bibliográfica foi realizada com profundidade com intuito de apresentar uma visão atualizada e a necessidade de conscientização de nossos gestores em promover mudanças nas políticas de segurança, buscando valorizar e capacitar seus recursos humanos, melhorando a qualidade do serviço prestado a sociedade.

A pesquisa bibliográfica foi realizada a partir de obras literárias de autores de renome e de publicações periódicas de diversos meios de comunicação informativos (revistas, jornais e internet); ferramentas que foram empregadas até exaurir recursos e o tempo que já não temos disponível, mas que nos revelaram que a falta de capacitação continuada de nossos operadores de segurança é responsável em provocar baixas no combate contra o crescente aumento da violência.

Sob a ótica de Ruiz (2002, p. 22), este autor faz uma observação de que a pesquisa qualitativa identifica a “presença ou ausência de algo” (o tipo de coisa e o que a qualifica), opondo-se à pesquisa quantitativa, que envolve a “medição do grau” em que determinada coisa se apresenta. Para esses autores, a pesquisa qualitativa está comprometida com o trabalho de campo e não com a enumeração. No entanto, ao se falar de pesquisa qualitativa, não se deve supor que a mesma englobe tudo o que não é quantitativo. Suas diversas expressões incluem a indução analítica, a análise de conteúdo, semiótica, hermenêutica, entrevistas, o estudo de histórias de vida, e certas manipulações utilizando arquivos, computador e manipulação estatística.

Sob a ótica de Neves (1996), a pesquisa qualitativa visa a obtenção de dados descritivos, mediante contato direto e a interação do pesquisador com o objeto de estudo e afirma ainda:

[…] métodos qualitativos trazem como contribuição ao trabalho de pesquisa uma mistura de procedimentos de cunho racional e intuitivo capazes de contribuir para a melhor compreensão dos fenômenos. […] Nas ciências sociais, os pesquisadores, ao empregarem métodos qualitativos estão mais preocupados com o processo social do que com a estrutura social: buscam visualizar o contexto e, se possível, ter uma integração empática com o processo objeto de estudo que implique melhor compreensão do fenômeno. (NEVES, 1.996, p. 2).

O estudo seguiu as sugestões da pesquisa qualitativa, que, segundo Roesch (1999), identifica a presença ou ausência de algo a qual proporcionou descobrir fatores que influenciam o desempenho e o conhecimento dos operadores de segurança acerca da temática explorada.

Ruiz (2002, p. 22) observa que a pesquisa qualitativa identifica a “presença ou ausência de algo” (que tipo de coisa e o que a qualifica), opondo-se à pesquisa quantitativa, que envolve a “medição do grau” em que determinada coisa se apresenta. Para esses autores, a pesquisa qualitativa está comprometida com o trabalho de campo e não com a enumeração. No entanto, ao se falar de pesquisa qualitativa, não se deve supor que a mesma englobe tudo o que não é quantitativo. Suas diversas expressões incluem a indução analítica, a análise de conteúdo, semiótica, hermenêutica, entrevistas, o estudo de histórias de vida, e certas manipulações utilizando arquivos, computador e manipulação estatística.

O método utilizado foi o de caráter exploratório, pois de acordo com ROESCH (1999), esse tipo de pesquisa tem como principal característica a informalidade, a flexibilidade e criatividade. Nela procuramos obter um primeiro contato com a situação que foi pesquisada ou um melhor conhecimento sobre o objeto em estudo levantado. E, como afirmamos no início, optamos, também, pela pesquisa bibliográfica, com estudo e aprofundamento em obras que serviram para fundamentar o nosso estudo; além disso, proporcionou a busca de informações necessárias sobre o assunto para, assim, chegarmos a um diagnóstico.

Sob a ótica de ROESCH (1999), este afirma que:

[…] a pesquisa qualitativa é apropriada para a avaliação formativa, quando se trata de melhorar a efetividade de um programa, ou plano, ou mesmo quando é o caso da proposição de planos, ou seja, quando se trata de selecionar as metas de um programa e construir uma intervenção, mas não é adequada para avaliar resultados de programas ou planos. (ROESCH, 1.999, p. 155).

Utilizou-se um questionário, com perguntas diretas e fechadas, visando obtenção de informações sob a qualificação dos operadores de segurança pública, enquanto usuários de armas de fogo e exposto ao alto risco dos confrontos armados com grupos de criminosos que aterrorizam o Estado de Mato Grosso, os tornando reféns estando desprovidos de instrumentos adequados ao enfretamento desta crescente ameaça.

A etapa final da pesquisa consistiu na pesquisa documental onde aprofundamos em levantar dados do quantitativo e causa morte de natureza violenta, dos últimos 05 (cinco) anos no quadro dos operadores de segurança pública. Conforme Ludke e André nos orientam que: Quando não há mais documento para analisar, quando a exploração de novas fontes leva a redundância de informação ou a um acréscimo muito pequeno, em vista do esforço despendido, e quando a um sentido de integração na informação já obtida, é um bom sinal para concluir o estudo. (Ludke e André, 1.986, p. 44) [grifo nosso].

Multiplicidades de Olhares sobre a Aprendizagem da Criança

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A educação tem a cada dia assumido um grandioso e importante papel perante a sociedade. Ao falar em educação, fala-se em ambiente escolar e é a escola que tem sido a grande responsável pela formação educacional dos indivíduos. O problema é que tais indivíduos saem da escola sem a formação que a sociedade tem exigido dos mesmos. Os âmbitos escolares, mais precisamente os profissionais da educação, carecem rever suas práticas educativas, procurar acima de tudo perceber como os educandos desenvolvem sua aprendizagem para depois mediar a construção do conhecimento em sala de aula. O que se tentou com esse trabalho foi perceber como os alunos aprendem e o que os educadores tem feito para propor o desenvolvimento da aprendizagem deles em sala de aula. Dessa forma, alguns autores que se propõem a estudar sobre o desenvolvimento dos educandos e suas implicações no contexto social e educacional, estão presentes nesse trabalho para enriquecer as discussões aqui propostas.

SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO
2. QUEM É O SER HUMANO QUE APRENDE
3. A EDUCAÇÃO FRENTE A UM MUNDO QUE SE TRANSFORMA
4. UM OLHAR SOBRE ALGUMAS PRÁTICAS EDUCATIVAS
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS

INTRODUÇÃO

O que os educandos têm aprendido na escola? O que os educadores têm feito para proporcionar o desenvolvimento da aprendizagem dos seus educandos? Quais metodologias têm sido usadas? As escolas atualmente têm atendido às expectativas de alguns pais?

A imagem é muito sugestiva, remete o leitor à reflexão dos questionamentos apresentados no parágrafo anterior. Os pais e/ou responsáveis ao levarem as crianças à escola depositam nela a responsabilidade de “educar” seus filhos, bem como torná-lo um cidadão responsável e inteligente. Será que os âmbitos escolares têm dado conta dessa grande responsabilidade? Será que o desenvolvimento integral do ser humano tem sido levado em consideração pelos educadores ao prepararem suas aulas?

Tais inquietações despertaram-me o interesse em buscar como as crianças têm construído conhecimento em sala de aula. É diante disso, que o presente trabalho irá buscar a apresentação dos melhores caminhos para o aluno chegar ao processo de aprendizagem. Esse, porém, é o grande desafio dele. Para isso, é de real importância analisar as práticas de educadores em sala de aula, bem como, perceber como os profissionais da educação tem pensado acerca do que é aprender nos dias atuais.

Pensar sobre a multiplicidade de olhares para aprendizagem da criança é de real importância. O termo aprender tem ido além da epistemologia da palavra. É emergente refletir sobre como os alunos desenvolvem aprendizagem e como refletem positivamente ou negativamente em suas vidas. Entender como se dá o desenvolvimento da aprendizagem da criança auxilia o trabalho dos profissionais educativos, propicia a realização de um trabalho mais eficaz com metodologias adequadas e mais próximas a seus alunos.

Todo e qualquer educador, preocupado com o desenvolvimento da aprendizagem dos educandos, carece buscar compreender o que dificulta a aprendizagem dos seus alunos. Esse trabalho traz a tona a grande necessidade de se refletir como tem ocorrido a transmissão de conteúdos em sala de aula, os mesmos estão muito distanciados do mundo real de cada alunado e tem implicado na ausência de aprendizagem.

No primeiro capítulo, é apresentado uma abordagem acerca do indivíduo que aprende, levando em consideração suas potencialidades, suas fases de desenvolvimento. Nele foi utilizado como referencial teórico, Piaget, Emília Ferreiro, Moraes, Becker, Demo, entre outros. O primeiro deu uma enorme contribuição ao traçar o nível de aprendizagem de uma criança, vale ressaltar que, essas idéias foram escritas em um outro momento da história da educação. No entanto, suas pesquisas trouxeram grandes implicações prática e positivas para a mesma. Emília Ferreiro que foi orientada por Piaget, desenvolveu métodos de alfabetização que também deram certo. Desse modo, todos os outros referenciais apresentam uma grande característica: Acreditam na educação que prioriza o ser que está envolvido nos processos educativos.

O segundo capítulo traz a tona a dinamicidade presente no mundo atual e o desafio dos educadores em propor uma educação que acompanhe essa dinamicidade e a transforme em conhecimento educacional. Um dos referenciais teóricos desse segundo capítulo é Maria Cândida Moraes. Ela contribuiu com grandes reflexões. Em uma delas deixa claro que a educação precisa extrapolar as questões pedagógicas e ajudar o aluno a pensar criticamente acerca do que ocorre no social.

O terceiro capítulo traz alguns relatos elaborados a partir de análises, observações e reflexões. Também é apresentado um relato de Celso Antunes. Nele é expressa a falta de flexibilidade por parte de um educador. Para complementar, há uma citação de Paulo freire que não poderia faltar em um trabalho como esses. A Pedagogia da Autonomia com seus saberes necessários a prática educativa propõe também uma grande reflexão acerca das ações educativas. Por fim, vem o último capítulo com as considerações finais tecidas acerca do tema.

2. QUEM É O SER HUMANO QUE APRENDE

Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões-da-independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas. A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinho, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo. Dessa vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias. Quando o menino chegou falando que todas as borboletas da terra passaram pela chácara de Siá Epídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça: – Não há nada a fazer, Dona Colo. Este menino é mesmo um caso de poesia. (Carlos Drummond de Andrade. In.: Ensino Fundamental de nove anos, 2006, p. 13)

Educar e desenvolver o aprendizado dos educandos hoje em dia, são ações que estão e/ou deveriam estar intrinsecamente ligadas. Tal desenvolvimento carece apenas do interesse dos educandos. O educador através de sua prática docente é quem mediará todo esse processo, respeitando as diferentes formas que o aluno encontra para desenvolver-se intelectualmente.

A escola, de um modo geral, não tem sabido lidar com a heterogeneidade da aprendizagem em sala de aula. O texto apresentado acima mostra a potencialidade de criação de uma criança. Em sala de aula, tudo isso é ignorado. Ainda se padronizam o que é ser aluno e/ou ser criança.

Os tempos mudaram, as informações chegam com muita velocidade aos ouvidos dos seres humanos, a evolução tem ocorrido em quase todos os âmbitos, exceto na educação. Até o século XX, ainda era admissível que a escola considerasse que os educandos aprendiam apenas ouvindo o professor e repetindo o que ele dizia, agora os tempos mudaram, o mundo mudou, é emergente acompanhar essas mudanças.

Não é difícil perceber que as práticas que têm sido utilizadas em sala de aula, mostram resultados vergonhosos. Faz-se necessário aos educadores situarem no mundo atual, procurar realmente promover a aprendizagem, pesquisar e entender como os alunos aprendem. A educação perpassa o âmbito escolar, a barreira que tem separado tudo isso precisa desde já ser rompida.

Os professores até percebem que o mundo ao redor passa por transformações de forma acelerada, no entanto, os resultados que a educação apresenta é lamentável. Muitos insistem em ensinar utilizando as mesmas práticas que lhes foram ensinadas. Dessa maneira, a aprendizagem não vem ocorrendo, o que aumenta os casos de indisciplina. Os alunos de hoje em dia vão de encontro a essas metodologias que imbecilizam e provocam a desordem em sala de aula.

Se uma pessoa que fosse escolarizada no final do século XIX fosse visitar uma escola atualmente veria uma prática de ensino bem semelhante a do seu tempo: o professor diante dos alunos transmitindo conteúdos que foram decididos mediante o livro didático, os alunos por sua vez deveriam ficar quietos, recebendo todas as informações que não são relevantes. Ao visitante seria constatado um diferencial: os estudantes são mais rebeldes e não respeitam os professores, afinal eles dispõem de mais recursos. Fora da escola eles aprendem mais.

Acreditamos que a educação desempenha papel fundamental na procura de conhecimento novo, de explicações novas, de um “saber-fazer” novo, mais global, holístico, integral. E talvez ela possa contribuir para corrigir distorções visíveis no mundo de hoje, decorrentes de um processo de fragmentação do pensamento permeado por diferenças, distinções e separações e que nos leva a ver o mundo em partes desconectadas, com sérios desdobramentos na evolução da humanidade. (Moraes, 1997, p. 23)

Acredita-se que muitos problemas da humanidade poderiam ser resolvidos com a educação. A formação dos indivíduos é responsabilidade da escola. A escola não tem dado conta disso. Diante disso, tem-se procurado quem são os culpados de tal fracasso que se dissemina. No momento, o pertinente é procurar formas de contribuir com a mudança dessa realidade. A escola de um modo em geral precisa conhecer como se dá o conhecimento no processo de ensino-aprendizagem. Esse pode se o cerne da questão que aqui se discute.

Para compreender o conhecimento no processo de ensino-aprendizagem, a escola, mais precisamente o educador, precisa se desprender de várias coisas que estão enraizadas no dia-a-dia do roteiro de uma aula. Geralmente os planos de aula são bem limitados, o que nesse processo não há tais limitações. É preciso saber lidar com o desconhecido, com o imprevisível. Nesse sentido, a educação carece de profissionais que proponham ao aluno o desenvolvimento de sua aprendizagem, respeitando suas particularidades, seus saberes, sua forma de desenvolver o conhecimento.

O processo de desenvolvimento de conhecimento não é algo muito simples. Muitos são os mecanismos utilizados nessa dinâmica da aprendizagem. Na íntegra, é algo muito dinâmico e carregado de especificidades, no entanto, os educadores precisam estar atentos para poder mediar o desenvolvimento da aprendizagem significativa dos educandos.

Cada aluno tem suas aptidões particulares no desenvolvimento de sua aprendizagem, ou seja, o modo que cada criança aprende é particular e pode ou não ser desenvolvido no contexto escolar, cabe ao educador saber cuidar dessa aprendizagem, ajudar o aluno a desenvolver-se de verdade e não utilizar a pedagogia da punição e premiação.

As crianças, ao chegarem à escola, trazem consigo muitos anseios, sonhos e desejos. No entanto, tudo isso tem sido menosprezado por diversos educadores e de forma intencional, pois o novo que o aluno traz à sala de aula pode causar a desordem. Assim, os educadores acabam podando esse aluno, deixando neles marcas inapagáveis que são carregadas para sempre, e que poderão prejudicar o seu processo de aprendizagem.

Cada criança aprende de modo muito particular, faz-se necessário ao educador estar atento a tal fato para não deixar passar despercebido e castrar esse momento mágico do seu aluno. A sala de aula deve se tornar um laboratório de conhecimentos, é na vivência desse aluno que o conhecimento é construído e/ou reconstruído constantemente. Desse modo, a aprendizagem poderá se tornar eficaz, carregada de significados, consciência e valores para o aprendiz.

Fernando Becker (2001, p.42) é bem claro quando diz:

Tomada de consciência significa apropriar-se dos mecanismos da própria ação, ou seja, o avanço do sujeito na direção do objeto, a possibilidade de o sujeito avançar no sentido de apreender o mundo, de construir o mundo, de transformar o mundo que está aí, se dá na precisa medida que ele apreende a si mesmo com sujeito, que ele apreende a sua prática, a sua ação.

Os educadores necessitam da flexibilidade para mediar com eficácia a construção do conhecimento em sala de aula estando sempre atentos no desenvolvimento particular de cada aluno dentro daquele âmbito educacional. O educador pode construir um ambiente favorável à aprendizagem, o que facilita a construção de uma aprendizagem significativa por parte dos alunos.

É preciso ao educador levar em consideração que nos dias atuais o contexto social é muito conturbado, cheio de novidades, notícias diferenciadas a todo o momento, o mundo está fervendo, a cabeça do aluno está turbilhando, não dá mais para dizer apenas o que é artigo, essa informação não traz um vínculo com o que ele vivencia todos os dias, isso não irá fazer o cérebro do aluno dançar. Dessa maneira, o esforço mental não está ocorrendo, e não haverá aprendizagem, o aluno precisa de alguém que o desestruture, é a partir dessa desestruturação que o aluno pode aprender de fato.

Fica implicitamente evidente que para essas mudanças ocorrerem, é necessário que a metodologia do professor seja mudada. Muitas das práticas pedagógicas, hoje em dia, ainda estão fundamentadas em uma metodologia expositiva, que por sua vez é o retrato de uma educação como transmissão. Nesses casos, o professor até tenta “inovar”, no entanto, sua inovação traz uma nova roupagem, que no fundo reflete a exposição de conteúdos, que por fim continua contribuindo com a formação de seres humanos padronizados, alienados, que não conseguem fazer relação alguma no seu próprio dia-a-dia.

A educação tem se mostrado reflexo da limitação humana, assim como mostra o texto seguinte:

O pombo real

Nasruddim se tornou o Primeiro Ministro do Rei. Certo dia, ao vagar eplo palácio, pela primeira vez em sua vida, viu um falcão real.

Acontece que o nosso Nasruddim não tinha visto nunca um pombo assim… tomando, pois, depressa, uma tesoura, cortou as garras e aparou as asas e o próprio bico adunco do falcão.

E disse: – Agora sim você é um pombo, um pássaro decente, pois seu dono não estava cuidando de você. (Antony de Mello, in.: Construção do Conhecimento, 2005,p.18)

Quão grande é a responsabilidade dos educadores! Quantos Nasruddim a escola tem formado? Nesse caso, seria mais fácil reverter a pergunta: Quantos educandos saem da escola com visão ampla de mundo? Torna-se delicado discutir a construção de conhecimentos, a formação de indivíduos. É delicado, porém emergente.

A escola ainda se preocupa muito em dar conta dos conteúdos trazidos no livro didático, acredita ainda que é importante passar para os alunos, os professores por sua vez correm contra o tempo para trabalhar todo o livro. O resultado dessas ações tem sido o fracasso escolar, evasão e imbecilização dos indivíduos.

Construir conhecimentos vai muito além da mecanização dos indivíduos. Um ambiente que propõe construção de conhecimento é acolhedor, o aluno se alegra ao chegar e se entristece porque já tem que ir. O professor nesse contexto promove mediações entre o aluno e o objeto de conhecimento a ser estudado, nesse momento é necessário fazer relações, questionar, definir, redefinir. Pesquisas comprovam que as metodologias expositivas são inúteis, pois os alunos em um ano letivo captam apenas de 10% a 20% do que foi exposto.

A educação precisa ser revolucionada, o aluno deve ser levado à pesquisa, ao questionamento, ele precisa aprender a pensar. Atualmente, algumas pessoas ainda acham inteligente o aluno que tem facilidade para decorar, no entanto, as exigências sociais vêm mostrando o contrário, é preciso saber dialogar, agir de forma inteligente e cautelosas nas situações do dia-a-dia. Se a inteligência de uma pessoa fosse medida através da capacidade de decorar, os robôs seriam tão inteligentes quanto o ser humano, pois decorar é uma tarefa programada, sem ramificações alguma.

O ato educativo de um ponto de vista é bem complexo, cheio de possibilidades, não há uma fórmula para se aprender. O aluno deve ser levado a perceber essa complexidade, o educador por sua vez precisa mediar essa situação, em que será mostrado um leque de situações que o levará ao aprendizado.

A educação tem falhado bastante, a situação não poderia ser diferente, há professores que não respeitam as limitações dos seus alunos, que ignoram a heterogeneidade presente em sala de aula, que não sabem lidar com os seres humanos com quem convivem diariamente. Nessas circunstâncias, é possível prevê sua prática: fragmenta sempre o conhecimento, resultado disso é a contribuição com a formação de pessoas que em um futuro bem próximo não consegue resolver nem os problemas de sua área de formação.

É muito comum hoje em dia, quando se pergunta a um licenciado em Letras como fazer uma determinada representação de um número cardinal para um numeral romano ele responder: – Essa não é minha área. Essa é uma prova real da fragilidade do ensino das escolas atuais. A fragmentação do conhecimento ocorre constantemente. Os títulos que muitos profissionais recebem na prática não têm validade alguma.

É preciso superar o conhecimento “disciplinarizado”, porque, reduzindo a realidade ao olhar de apenas uma disciplina, só pode ser deturpante; em vez de “construir” a realidade , “inventa-a”. O sociólogo que só sabe sociologia, certamente, o que menos sabe é sociologia, pois sequer manifesta mínima autocrítica de que sociologia não passa de um olhar. É restrição despropositada manter nos departamentos apenas professores da mesma área, porque produzindo teoria monótona e oficial, abandona-se a dialética complexa do argumento. (Demo, 2002, p. 9-10)

Ser professor com o intuito de promover mudanças significativas no contexto educacional, em meio a essa crise que perpassa a educação, não é fácil, mas é possível. O profissional que a escola carece no momento deve perceber a educação como um processo, em que o conhecimento precisa ser construído em sala de aula juntamente com os educandos. É preciso desmistificar as idéias sobre o que é educar e aprender.

Vale ressaltar que tais idéias não são demagógicas, elas são possíveis. É um processo lento, mas que pode resultar em um melhor grupo de pessoas com uma boa formação de fato. A escola, desde já, precisa respeitar o nível de aprendizagem que se encontra cada criança, isso é muito importante ao educador.

Alguns teóricos, entre eles Jean Piaget escreveu sobre a aprendizagem da criança, ele acreditava que o desenvolvimento é uma manifestação da aprendizagem e que ela é responsável pela formação dos conhecimentos. Dessa forma, em 1975, escreveu sobre a teoria do desenvolvimento humano, dividindo-a em quatro fases: Sensório-motor (0 a 2 anos); Pré-Operacional (2 a 7 anos); Operatório-Concreto (7 a 11 anos) e Operatório-Formal (12 anos em diante). Piaget lembra que essa divisão em faixas etárias é uma referência, não deve ser tomada como uma norma rígida.

A primeira fase na qual Piaget relata é a do recém-nascido e do lactante, que vai de 0 a 2 anos, nesse momento a criança através da percepção e dos movimentos procura conquistar todos os que os cercam. A segunda fase, caracteriza como a primeira infância, que vai dos 2 aos 7 anos, nesse momento é o aparecimento e o desenvolvimento da linguagem que provocará os aspectos de emoção, da afetividade e do convívio social da criança.

A terceira fase, segundo Piaget é considerada como a infância propriamente dita, que vai dos 7 aos 11 anos. Nesse momento, o egocentrismo intelectual começa a ser superado, a criança começa a estabelecer algumas relações que a faz ter pontos de vista diferenciados. A quarta fase é a da adolescência, em que o indivíduo já é capaz de fazer reflexões espontâneas, de tirar conclusões de algumas situações.

As teorias piagetianas são de grande valia a este estudo sobre a aprendizagem da criança. Além dele, Vigotski com sua teoria, também contribuiu muito com a educação e com a psicologia, ele escreveu que “a aprendizagem sempre inclui relações entre as pessoas. A relação do indivíduo com o mundo está sempre mediada pelo outro. Vigotski defende a idéia de que não há um desenvolvimento pronto e previsto dentro de nós que vai se atualizando conforme o tempo passa ou recebemos influência externa”.

A Psicopedagoga Emília Ferreiro tem contribuído muito com a educação, ela que foi orientada por Jean Piaget diz que “ o que a criança aprende não corresponde ao que lhe é ensinado, pois existe um espaço aberto de elaboração do sujeito. O educador deve estar atento a esse processos para promover, adequadamente, a aprendizagem”.

Cada teórico citado trouxe e/ou traz contribuições importantíssimas na área educacional. É de real importância aos educadores conhecer as idéias desses teóricos acerca do desenvolvimento da aprendizagem humana, as mesmas podem os ajudar a saberem lidar com as inquietações dos alunos no cotidiano escolar. Para tentar compreender como ocorre a aprendizagem de uma criança, muitas análises das situações vivenciadas em sala de aula precisam ser levadas em consideração, por conseguinte, os conhecimentos que os educadores adquirem acerca de alguns teóricos também serão de grande valia.

Pensar o desenvolvimento da aprendizagem da criança é procurar contribuir com uma melhor formação para os educadores. Ao educador, é preciso muito empenho, força de vontade e acima de tudo ter paixão pela profissão. Os educandos por sua vez implicitamente almejam por uma educação que os façam desenvolve-se intelectualmente. A rebeldia, a indisciplina em uma sala de aula, em alguns casos, advém do desejo de não continuarem sendo imbecilizados, para isso muitos estudos precisam ser realizados pelos alunos, lembrando que o mesmo deve começar na própria sala de aula.

No cotidiano escolar ainda há muita resistência por parte dos professores em procurar entender o processo da aquisição de conhecimento dos seus alunos. É importante aos educadores conhecer como funciona o cérebro humano, tal estudo pode ajudá-los a entender algumas reações dos alunos em sala de aula, afinal cada parte do cérebro é responsável por exercer determinadas funções.

Tomemos como exemplo o ambiente escolar: ele pode estimular e aguçar os sentidos dos alunos e deixá-los propícios ao aprendizado. As atividades propostas em sala de aula devem primar pelo desenvolvimento de todas as partes do cérebro, todos precisam ser estimulados para de fato a aprendizagem ocorrer de forma significativa. Muitos educadores implicitamente contribuem com o fracasso escolar em decorrência de não saber como promover atividades que contemple o desenvolvimento de todas as partes do cérebro dos educandos.

A escola é muito parada, o cérebro do aluno está acostumado com a dinamicidade do mundo fora do âmbito escolar. Atividades pouco atrativas não contribuem com a aprendizagem da criança, é preciso estar sempre propondo o estabelecimento de relações entre a criança e o que está sendo estudado. Dessa forma, as informações processadas pelo aluno pode tornar-se conhecimento.

O conhecimento cientifico e filosófico trabalhado na escola é construído por meio de operações do pensamento, que se fundamentam na linguagem verbal. Ocorre que existe diferentes níveis de operações mentais. Para um conhecimento mais efetivo, o sujeito deve superar os processos mentais inferiores de recordação, reconhecimento e associação, tendo em vista operações superiores (ex: comparação, levantamento de hipóteses, critica, resumo, interpretação imaginação, solução de problemas, decisão, julgamento, avaliação)”. (Vasconcelos, 2005, p. 99 )

A educação na realidade tem andado na contramão, quanto mais conteúdos se ensinam na escola, menos os alunos aprendem. As escolas julgam necessário trabalhar tantos conteúdos por que no futuro a aluno vai precisar para passar em concursos e vestibulares, no entanto, é impossível aos educandos assimilar tantos conteúdos em um único ano. Tal prática é inútil, algumas coisas poderão até ser memorizadas, mas que se apagará com o tempo, pois o principal não tem sido realizado nas escolas. É preciso preparar o aluno para receber tais informações, ou seja, é importante mediar situações de aprendizagem que levem o aluno a um amadurecimento pessoal, no qual poderá deixá-lo apto ao aprendizado.

As escolas atuais precisam propor uma educação que promova o desenvolvimento do pensamento. Para isso, é preciso priorizar a qualidade do que se transmite em sala de aula, deixando de lado a quantidade de conteúdos inúteis para o educando nesse dado momento.

A escola defensora da formação humana, pensa que as quantidades de cultura inútil enfiadas cérebro adentro fazem parte da formação. Nada disso, quando muitos podem fazer da distorção da mente do estudante. Vejam que é muito mais importante saber usar um catálogo telefônico que decorar milhares de números e relaciona-los com pessoas. A nossa escola preconiza muito mais o ato e decorar números e listas do que o fato de aprender a usa-las com a extrapolação que se segue, imediatamente, que é a de saber usar qualquer tipo de lista telefônica.”(Werneck. 2001, p.16)

A realidade é que mesmo alguns educadores tenham tentado mudar o que ocorre no âmbito educacional, a escola continua priorizando conteúdos, outros professores julgam necessário explicar cada tempo verbal ao aluno, o mesmo tenta decorar para acertar na prova e depois esquece, mas se consegue tirar uma boa nota é o que interessa. Nesse caso, a escola perdeu tempo e não contribuiu com o desenvolvimento do conhecimento do aluno.

Ao trabalhar verbos em sala de aula, é preciso levar o aluno a reflexão da dinamicidade presente na linguagem de cada individuo, após o trabalho com verbos deverá está associando à linguagem deles. É preciso envolvê-los no processo de ensino e aprendizagem, fazendo-os perceber que fazem parte do processo e desmistificar a idéia de que estão fora dele.

O trabalho em sala de aula deve ocorrer de forma interdisciplinar. Já não é possível tentar enfiar conhecimentos desmembrados na cabeça dos educandos. Dessa maneira, a escola só continua perdendo tempo e contribuindo com o fracasso da formação do sujeito. Nesse caso, ficará ainda mais evidente que a educação não consegue sair da contramão, há muita resistência por parte de muitos profissionais da educação em aceitar o novo, e não o aceitando, tudo permanecerá como está, resultado disso: fracasso escolar.

Hoje em dia não cabe mais a educação apenas levar o aluno a adquirir e compreender o conhecimento, esse tem que ser transformado em sabedoria, bem como, ajudá-lo a resolver seus problemas pessoais e/ou profissionais. Para que isso ocorra, o trabalho interdisciplinar deve ocorrer em sala de aula, nesse caso deve estar voltado para uma prática reflexiva constante, proporcionando uma construção de conhecimentos cheios de significados para os educandos. Diante disso Luck (1994, p.20) coloca:

O enfoque interdisciplinar, no contexto da educação, manifesta-se, portanto, como uma contribuição para a reflexão e o encaminhamento de solução às dificuldades relacionadas à pesquisa e ao ensino, e que dizem respeito a maneira como o conhecimento é tratado em ambas funções da educação.

O ensino fragmentado não atrai a criança em seu processo de aquisição do conhecimento. A fragmentação de conteúdos que são trabalhados na escola tem sido um dos principais agentes do fracasso escolar. O número de pessoas que tem adentrado a escola vem crescendo muito nos últimos tempos, no entanto, as pessoas acabam saindo escola sem ao menos estarem preparadas para agir e para viver em sociedade, isso ocorre por que os conteúdos trabalhados nos âmbitos educacionais estão totalmente dissociados do contexto social.

É preciso urgentemente propor uma educação em que não priorize apenas o aprendizado do currículo escolar, tal currículo deve contemplar a formação para a contribuição desses educandos com a sociedade, com o meio no qual ele está inserido. A sociedade deposita na escola a responsabilidade de formar seres mais sensatos e capazes de propor a construção de um mundo melhor, os professores, por sua vez, em alguns discursos sobre a missão da educação escolar, também falam sobre esse tipo de formação, no entanto, na prática a situação se reverte, pois as ações em sala de aula não contribuem em nada com a formação de um indivíduo que se enquadre nessa idéia que é propagada pela sociedade.

Educar, nesse contexto apresentado, torna-se uma tarefa difícil, que carece de pessoas que percebam a educação como algo macro cheio de ramificações, possibilidades, acertos e erros. Assim, para dar conta de tudo isso é necessário “educar para um outro mundo é possível” como diz Moacir Gadotti, ele ainda coloca a seguinte afirmação:

Assim procedendo, estamos assumindo a historia como possibilidade e não como fatalidade. Por isso, educar para um outro mundo possível é também educar para a ruptura, para a rebeldia, para a recusa, para dizer “não”, para gritar, para sonhar com outros mundos possíveis. Denunciando e anunciando. O núcleo central da concepção neoliberal da educação é a negação do sonho e da utopia. Por esse motivo, uma educação para o outro mundo possível é, sobretudo, a educação para o sonho para a esperança.(Revista Pátio.2007, p. 10)

Nesse pensamento, Gadotti apresenta um caminho possível para começar a contribuir com a melhoria da educação. Mas vale a pena ressaltar que esse pode ser o começo, o problema agora está na prática em sala de aula, nas metodologias que o profissional de educação irá utilizar para dar o primeiro passo rumo a construção do conhecimento em sala de aula. É preciso muita cautela, pois nesse caminho a ser traçado o aluno é a peça fundamental, por isso, é importante levar em consideração seu histórico de vida. Ao adentrar à escola, o aluno não vem sem nada, em sua cabeça há uma grande bagagem, que deve ser levada em consideração, por isso, nesse processo o educador precisa conhecer cada aluno para saber como e por onde começar.

O conteúdo e/ou o programa da escola tem que se adequar ao aluno e não o aluno se adequar ao programa estabelecido na escola, como tem sido feito na maioria dos âmbitos escolares brasileiros. Esse motivo é o que gera a falta de interesse por parte do aluno. Sem interesse por parte do aluno, a aprendizagem não ocorre, o que acaba ocorrendo é a promoção que mesmo recebe ano após ano, até concluir os estudos, e como muitos dizem até se “formar”. Será que a escola tem formado algum ser humano? Ou será que ela está deformando-os?

A aprendizagem de uma criança poderia ser compreendia como um momento mágico, ilimitável, envolvente, ela não deveria ser posta como uma obrigação. Faz-se necessário ao educador aproveitar a fase inicial de aquisição de conhecimento desse aluno, nesse momento, a criança tende a está na fase dos questionamentos, tudo o que está a sua volta é analisado. Dessa maneira, ao levar tais elementos em consideração, a prática pedagógica irá mudar processualmente e o mais importante poderá esta contribuindo com a formação de sujeitos conscientes, inovadores e mais preparados para conviver no meio social.

3. A EDUCAÇÃO FRENTE A UM MUNDO QUE SE TRANSFORMA

Estudo Errado – Gabriel O Pensador

Eu tô aqui Pra quê?
Será que é pra aprender?
Ou será que é pra aceitar, me acomodar e obedecer?
Tô tentando passar de ano pro meu pai não me bater
Sem recreio de saco cheio porque eu não fiz o dever
A professora já tá de marcação porque sempre me pega
Disfarçando espiando colando toda prova dos colegas
E ela esfrega na minha cara um zero bem redondo
E quando chega o boletim lá em casa eu me escondo
Eu quero jogar botão, vídeo-game, bola de gude
Mas meus pais só querem que eu “vá pra aula!” e “estude!”
Então dessa vez eu vou estudar até decorar cumpádi
Pra me dar bem e minha mãe deixar ficar acordado até mais tarde
Ou quem sabe aumentar minha mesada
Pra eu comprar mais revistinha (do Cascão?)
Não. De mulher pelada
A diversão é limitada e o meu pai não tem tempo pra nada
E a entrada no cinema é censurada (vai pra casa pirralhada!)
A rua é perigosa então eu vejo televisão
(Tá lá mais um corpo estendido no chão)
Na hora do jornal eu desligo porque eu nem sei nem o que é inflação
– Ué não te ensinaram?
– Não. A maioria das matérias que eles dão eu acho inútil
Em vão, pouco interessantes, eu fico pu..
Tô cansado de estudar, de madrugar, que sacrilégio
(Vai pro colégio!!)
Então eu fui relendo tudo até a prova começar
Voltei louco pra contar:
Manhê! Tirei um dez na prova
Me dei bem tirei um cem e eu quero ver quem me reprova
Decorei toda lição
Não errei nenhuma questão
Não aprendi nada de bom
Mas tirei dez (boa filhão!)
Quase tudo que aprendi, amanhã eu já esqueci
Decorei, copiei, memorizei, mas não entendi
Quase tudo que aprendi, amanhã eu já esqueci
Decorei, copiei, memorizei, mas não entendi
Decoreba: esse é o método de ensino
Eles me tratam como ameba e assim eu num raciocino
Não aprendo as causas e conseqüências só decoro os fatos
Desse jeito até história fica chato
Mas os velhos me disseram que o “porque” é o segredo
Então quando eu num entendo nada, eu levanto o dedo
Porque eu quero usar a mente pra ficar inteligente
Eu sei que ainda num sou gente grande, mas eu já sou gente
E sei que o estudo é uma coisa boa
O problema é que sem motivação a gente enjoa
O sistema bota um monte de abobrinha no programa
Mas pra aprender a ser um ingonorante (…)
Ah, um ignorante, por mim eu nem saía da minha cama (Ah, deixa eudormir)
Eu gosto dos professores e eu preciso de um mestre
Mas eu prefiro que eles me ensinem alguma coisa que preste
– O que é corrupção? Pra que serve um deputado?
Não me diga que o Brasil foi descoberto por acaso!
Ou que a minhoca é hermafrodita
Ou sobre a tênia solitária.
Não me faça decorar as capitanias hereditárias!! (…)
Vamos fugir dessa jaula!
“Hoje eu tô feliz” (matou o presidente?)
Não. A aula
Matei a aula porque num dava
Eu não agüentava mais
E fui escutar o Pensador escondido dos meus pais
Mas se eles fossem da minha idade eles entenderiam
(Esse num é o valor que um aluno merecia!)
Íííh… Sujô (Hein?)
O inspetor!
(Acabou a farra, já pra sala do coordenador!)
Achei que ia ser suspenso mas era só pra conversar
E me disseram que a escola era meu segundo lar
E é verdade, eu aprendo muita coisa realmente
Faço amigos, conheço gente, mas não quero estudar pra sempre!
Então eu vou passar de ano
Não tenho outra saída
Mas o ideal é que a escola me prepare pra vida
Discutindo e ensinando os problemas atuais
E não me dando as mesmas aulas que eles deram pros meus pais
Com matérias das quais eles não lembram mais nada
E quando eu tiro dez é sempre a mesma palhaçada
Refrão
Encarem as crianças com mais seriedade
Pois na escola é onde formamos nossa personalidade
Vocês tratam a educação como um negócio onde a ganância aexploração e a
indiferença são sócios
Quem devia lucrar só é prejudicado
Assim cês vão criar uma geração de revoltados
Tá tudo errado e eu já tou de saco cheio
Agora me dá minha bola e deixa eu ir embora pro recreio…

A música apresentada é o retrato da educação contemporânea. Os educadores, ou melhor, os âmbitos educacionais, consideram que o aluno ao estudar ciências exatas, naturais, matemática, ciências sociais, entre outras “áreas do conhecimento” aprendem diretamente os conteúdos programados e indiretamente aprendem a pensar, refletir com clareza e desenvolver um espírito crítico, mas a realidade nas escolas não condiz com esse discurso. O aluno da atualidade não está sendo preparado adequadamente para pensar, para avaliar de forma crítica as idéias novas que aparecem à sua frente.

A educação brasileira carece de inteira reformulação, a tarefa não é fácil, os responsáveis pela educação precisam se conscientizar de que algo precisa ser feito urgentemente. Está na hora de acabar com a ilusão de que o currículo da escola esteja contribuindo para desenvolver a aprendizagem do aluno, aprendizagem essa que o faça pensar. A formação da criticidade dos educandos tem sido deixada de lado, essa formação tem ficado em um segundo plano da educação.

A capacidade de pensar com clareza, com agilidade e com espírito crítico precisa ser a grande prioridade da educação formal, que deve ser aprendida diretamente, através das ações educativas direcionadas exclusivamente ao pensamento do alunado. Esse tipo de formação do educando precisa ser praticada desde cedo, nos primeiros contatos do aluno com o âmbito escolar e em todo o decorrer de sua vida estudantil.

Transformar a educação é algo que não vai acontecer repentinamente, é preciso então, começar a dar os primeiros passos para que isso ocorra. O autor e doutor em Psicologia Guy Claxton em uma matéria publicada na revista Pátio (fevereiro/abril 2006), escreveu sobre a capacidade de aprender e relatou sobre a evolução dos atuais modos de abordar a aprendizagem do aprender. Segundo o autor essa evolução ocorreu em quatro estágios:

O primeiro e mais antigo refere-se ao “aperfeiçoamento da aprendizagem”, que prima pelo resultado quantitativo, nas aulas os professores se organizam bem, traz uma nova roupagem, no entanto, a qualidade é deixada de lado.

O segundo estágio, ou a segunda geração de abordagens, considerava a aprendizagem um processo, nesse momento apresenta-se uma evolução, no entanto, a aprendizagem seguia em uma linha linear, baseada em técnicos. Contudo, segundo Guy Claxton, ser um bom aprendiz envolve mais do que técnicas. Dessa maneira, a terceira geração priorizou os “estilos de aprendizagens”, aqui o professor ajudava as crianças a aprender melhor descobrindo qual era o seu estilo predominante, utilizando as respostas dos alunos para ajustar seu próprio estilo de ensino.

Tal estágio também apresentou características preocupantes, as tipologias utilizadas eram grosseiras e muitas delas eram cientificamente suspeitas. A quarta geração trazia a abordagem do “aprender a aprender”, essa geração carece de professores que vejam como essa tarefa ajuda as crianças a desenvolver seus próprios “músculos da aprendizagem” e “vigor de aprendizagem”, elas são vistas como parceiras em um processo de descoberta de conhecimento útil sobre aprendizagem.

Segundo o autor, “o interesse desses professores no processo de aprendizagem é palpável na sala de aula. Pode haver uma “parede de questionamento” na qual as crianças reúnem todas as questões pessoais e gradativamente poder ser a pessoa que escolhe uma delas e conduz uma sessão de questionamentos”.

Essa quarta geração, como diz Guy Claxton, traz atividades práticas e eficientes, aqui o aluno além de ser o sujeito do processo de aprendizagem, está a todo momento em contato com situações palpáveis que mexem com o intelecto do aluno e o faz aprender de forma significativa. Cada tipo de estágio desses, podem ser encontradas no cotidiano escolar, os educadores precisam batalhar para colocar em prática o quarto estágio, que pode contribuir de maneira muito significativa com a aprendizagem que deve levar o aluno a se tornar um ser critico e criativo.

As crianças também precisam aprender a pensar de maneira analítica ou crítica. Muitas vezes, esperamos que façam o que lhe dizem para fazer. Com isso, o que eles podem aprender é a aceitar o que lhe dizem, sem pensar criticamente sobre isso. Maus governos e organizações aproveitam-se desse fato. Na verdade, o que maus governos e organizações aproveitam-se desse fato. Na verdade, o que maus governos e outras organizações menos querem é pensamento crítico, pois com isso as pessoas perceberão o quanto elas são ruins e por quê. Portanto, precisamos incentivar as crianças a pensar criticamente sobre o mundo ao seu redor, por exemplo, reconhecendo injustiças quando elas acorrem, e não apenas aceitá-las (Revista Pátio, 2006, p. 19)

É incumbida a escola a responsabilidade pela educação formal, eis nesse momento uma grande missão: a formação integral do ser humano, tal formação que em grande maioria dos casos tem ficado em meros discursos. O pensamento acima de Robert J. Sternberg traz à tona, algo muito pertinente em relação a algumas pessoas que se aproveitam da má formação intelectual dos indivíduos, dessa maneira, muitas pessoas são enganadas cotidianamente, coisa que talvez não ocorresse se os mesmos tivessem recebido uma educação que lhe proporcionasse enxergar as coisas de forma crítica.

Ser professor nos dias atuais é um grande desafio. A educação na qual muitos recebem e/ou receberam nos âmbitos escolares não os fazem e/ou não os fizeram pensar de forma crítica as informações que ouvem e lêem . Na sociedade atual, muitas vezes as crianças supõem que, se algo foi publicado no jornal, ou dito na televisão, ou apareceu na internet, deve ser verdade. Elas necessitam aprender a perceber quando determinadas declarações são falsas ou verdadeiras.

A escola precisa incentivar a criança a questionar suas próprias idéias. O que tem acontecido nas escolas é a preocupação em colocar na cabeça dos educandos os conteúdos e/ou assuntos programados, no entanto, por eles estarem tão distantes da vida real do aluno, acabam não os ajudando a agir de forma criativa na sua vida cotidiana. No dia a dia, os alunos precisam de idéias que lhes sejam úteis e o auxiliem a ir além do que já e conhecido.

É emergente na educação brasileira mostrar às crianças o quanto é importante saber o que elas não sabem. Ninguém sabe tudo. Quando as pessoas começam a achar que sabem tudo, geralmente isso é o inicio do seu fracasso intelectual. Elas não percebem como sua própria ignorância as impedem de alcançar suas metas. Aprender é um processo contínuo, as crianças precisam aprender que a aprendizagem não para quando elas saem da escola, pelo contrário ela continua durante toda sua vida.

As crianças, principalmente no início da sua escolarização, apresentam um grande potencial criativo, que deve ser aproveitado no âmbito escolar. Em uma sala de aula há uma diversidade de potenciais criativos, representado por toda a criança, que deve ser instigada a pensar sobre como reagir, quando surgirem problemas em sua vida, incentivando-as a superar obstáculos. Nesse caso, preparar o educando apenas para os testes, provas, não são de grande valia, pois a transmissão de conhecimentos só contribui com o fracasso na sua formação.

A educação precisa estar em consonância com essa nova visão do mundo com a sociedade almejada no futuro, e para tanto, é necessário criar ambientes educacionais que extrapole as questões pedagógicas, que busquem o entendimento da condição humana, a preparação do cidadão para exercer sua cidadania, para uma participação mais responsável, na comunidade local e planetária, tendo como prioridade o cultivo de valores humanitários, ecológicos e espirituais. Isso requer novos métodos de ensino, novos currículos e novos valores, e novas práticas educacionais absolutamente diferentes das que estamos acostumados a encontrar na nossa escola.(Moraes, 1997, p.112)

A autora, com esse pensamento, instiga e/ou pretende instigar os educandos a buscar a criação de novos ambientes educativos, dos quais permitam e promovam a formação de seres conscientes, críticos, pré dispostos para o novo. Desse modo, acredita-se que com ambientes educacionais dessa forma, implicitamente futuros ambientes sociais, culturais serão construídos, no entanto, apresentarão um grande diferencial, pois será dado um novo salto para a evolução dos seres humanos.

A sociedade atual, tem de uma certa forma, depositado na educação a responsabilidade pela melhoria da sociedade. Assim, é preciso batalhar e implantar uma educação que leve o aluno a desenvolver ações positivas, criativas, voltadas a cooperação, responsabilidade para com os outros seres vivos. A educação deve também primar pelos direito da humanidade, promovendo o diálogo e restaurando a paz entre os homens.

A criança que vai à escola precisa ser vista como um ser humano, capaz de ir além do que o currículo escolar exige dele. A educação precisa ajudar a criança a despertar sua autoconsciência para assim compreender a analisar sua própria natureza e a do outro. Tal educação se faz necessária em decorrência das intensas transformações sociais, que modificam os modos de viver e ver o mundo, mudam as instituições da sociedade, entre elas, a escola, que está encarregada de propor a educação formal.

A escola tem um grave defeito, pois vê o aluno como um ser humano, que tem defeitos e qualidades, mas sim como um aluno que não pode errar, habituando-os a estarem quietos, sentados e respondendo sim ou não. Cotidianamente, os alunos têm aprendido o que não lhe ensinam e as coisas que são passadas na escola não são aprendidas por eles. Há nesse caso um grande impasse que impede o progresso escolar, ela foi concebida e/ou programada para ensinar e de preferência a grupos homogêneos de alunos, no entanto, os públicos escolares são muito heterogêneos, assim tem-se tentado ensinar a públicos inexistentes.

A mudança tem que acontecer, a escola precisa assumir urgentemente um grande desafio: saber lidar a nova concepção de aprendizagem. Essa nova concepção elenca o que vem sendo abordado nesse trabalho, é o compreender, o pensar, o agir e o sentir. Nesse sentido, as inteligências múltiplas podem ajudar na proposição de um ensino mais eficaz. Fica evidente que não dá mais para a escola ignorar a dinamicidade apresentada pelos alunos em um âmbito escolar.

O educador nesse processo de transformação escolar necessita ter uma visão multidimensional acerca do que é a aprendizagem. Em hipótese alguma, ela pode ter uma visão padronizada do que é educação. Em sala de aula, precisa-se de estratégias, pois se defrontará com diversas mentes pensantes, munidas de saberes diferenciados, ou não, nos quais carece atenção e respeito.

Diante da discussão, fica explícito que o educador precisa urgentemente está refletindo sobre sua atuação em sala de aula e conseqüentemente buscar sempre se atualizar. O autor Celso Antunes, em seu livro: Como desenvolver as competências em sala de aula, vem fazer o leitor refletir sobre essa atuação e atualização que a priore devem ser encaradas como ações emergentes.

Não mais basta acumular conhecimentos para depois deles se usufruir. É, antes, essencial estar à altura de aproveitar e explorar pela vida inteira, todas as possibilidades do aprendizado, da atualização, do enriquecimento, para as mudanças que em todos os momentos nos assaltam (2001, p.7)

O mesmo autor aborda quatro tipos de aprendizagens, que são essenciais na educação que hoje se propõe. A primeira é aprender a conhecer, que implica saber ilimitado, que exclui de certa forma saberes padronizados, dando lugar a construção diária de conhecimentos, que exercitam os pensamentos e auxiliam no real desenvolvimento dos indivíduos. O segundo condiz ao aprender a fazer, que retrata o estímulo criatividade, que resultará na ação do indivíduo no meio em que ele está inserido. Por consegüinte, vem o aprender a viver juntos, a viver com os outros, aqui o autor lembra ao leitor e/ou educador que para se aprender a viver com os outros é preciso tornar o ambiente escolar propício a esse pilar tão importante para o ser humano, no entanto, é necessário antes de tudo fazer um trabalho que mude a cara da escola, tornando-a um ambiente favorável a descoberta do outro.

A quarta aprendizagem é o aprender a ser. Essa propõe aos educadores olhar o aluno como um ser humano, que tem espírito e corpo, inteligência e sensibilidade, ética e espiritualidade, preparando-os assim para o desenvolvimento de sua autonomia. Esses quatro tipos de aprendizagens são chamados de “Pilares do conhecimento”, considerados fundamentais para a formação dos seres humanos, os quais condizem com as competências que o mundo contemporâneo vem exigindo dos indivíduos.

Nessa mesma obra, Celso Antunes faz uma adaptação das propostas educacionais do educador suíço Perrenoud à realidade educacional brasileira. Dessa forma, ressalta na obra as inteligências e competências que devem ser acordadas nos indivíduos. Ao falar em inteligência, destaca-se a idéia de que todos já nascem com ela, para ter certeza disso, basta observar as ações de uma criança desde os seus primeiros momentos de vida, já as competências precisam ser construídas à medida que as inteligências dos indivíduos são ampliadas. No âmbito educacional, é necessário haver uma íntegra ligação entre: competências, inteligências e conteúdos. Os conteúdos devem ser trabalhados de forma que, competências sejam traçadas junto a eles, e que inteligências sejam despertadas e/ou ampliadas nesse processo.

Quando se fala em competências, o autor não usa esse termo aleatoriamente, ele traz idéias consistentes e explana sobre as competências que deverão ser afloradas nos alunos, mostra ao educador meios de desenvolvê-las em sala de aula. Não basta ao aluno apenas saber ler e escrever, é importante que o educador leve o aluno a entender os símbolos e saber lidar com eles. Pretende-se, dessa forma, contribuir com a formação de bons leitores ao invés de meros reprodutores de um código escrito.

Quando se fala nas ciências exatas, a escola tem feito com que o aluno deteste a matemática, o aluno deve ser conduzido ao caminho desse conhecimento de forma interessante e prazerosa, é preciso aqui trazer situações diárias do aluno, para ele perceber que faz sentido aprender a Matemática. Em todas as áreas do conhecimento ações que aproximem o já vivenciado no dia-a-dia do aluno com a programação dos conteúdos “obrigatórios” que o professor precisa seguir, poderá motivar o aluno e ajudá-lo a desenvolver diversas competências.

Em diversas salas de aula, deve ser propiciado aos alunos, a valorização do diálogo, da importância do outro. Desde muito cedo, a criança precisa está se relacionando com outras crianças, aprender a lidar com as diferenças dos outros, e quando isso acontece, está automaticamente desenvolvendo competências, pois o aluno nesse momento estará conhecendo outras formas de ser e verá que o meio social é composto assim: diferenças que formam a unidade, ou que, deveriam formar a unidade. O professor então deve estar atento para contribuir com a diminuição do preconceito, preparar seres aptos ao respeito e a cooperação.

É incontestável toda essa responsabilidade que é incumbida ao professor, mas para o professor conseguir mediar o desenvolvimento de múltiplas competências e inteligências no aluno, deve verificar como está ocorrendo o desenvolvimento de sua inteligência e suas competências.

Para buscar através de uma síntese o possível ponto de intercessão entre Inteligência e Competência, seria possível afirmar que as inteligências (lingüísticas, lógico-matemática, sonora, sinestésico, corporal, espacial, naturalista, intrapessoal, interpessoal e existencial) são algo assim como facas que se usam para múltiplos fins e que as competências constituem as pedras de amolar, que as afiam e as tornam mais agudas, mais cortantes. Não há pois qualquer possibilidade de conflito em se estimular as múltiplas inteligências, construindo-se diversas competências e, isto acontecendo, o uso das mesmas se inicia em uma sala de aula, mas manifesta-se em todos os atos e todas ações do viver. (Antunes, 2001, p.19)

Esse pensamento sintetiza o que é, para que é preciso entender, estudar e analisar as competências e inteligências. A tarefa de mediar tais desenvolvimentos carece do professor o domínio de algumas ações educativas, que Celso Antunes denomina de oito competências essenciais.

Essas oito competências ajudarão o educador a entender as demandas da “nova” educação, em que muitos procuram se inserir. Essas competências se interligam muito uma com a outra. A primeira faz o leitor refletir sobre sua prática em sala de aula, é preciso coragem para se incluir e desenvolver-se no quadro dessa competência, o educador media o conhecimento, analisa o nível de aprendizagem em que o aluno se encontra e só depois ele determina que conteúdos trabalhar, é nesse momento que o professor tem certeza quais são os objetivos que pretende traçar para determinada turma, para os determinados alunos.

Então, se o professor já dirige e organiza situações de aprendizagens, ele precisa administrar a progressão das aprendizagens dos educandos. Celso Antunes diz que desenvolver em suas ações outras competências, implica em saber lidar com os conteúdos programáticos, ou seja, saber fazer interligações de determinados conteúdos com diversas disciplinas. Dessa forma, é imprescindível ao professor acompanhar o progresso do seu aluno, de forma que suas competências sejam exploradas diariamente. As informações passadas em sala de aula têm que ter um significado, ser contextualizadas com a vida e com o espaço no qual o aluno vive. O conhecimento escolar deve urgentemente ser aproximado do que já é comum na vivência do aluno.

A terceira competência que é incumbida ao professor trata do entendimento dele em relação a heterogeneidade da sua classe. Nesse momento, o educador deve trabalhar a interatividade, proporcionar momentos em que a aprendizagem interaja com a solidariedade. Por conseguinte, vem a quarta competência exigida: envolver os alunos na aprendizagem e, portanto, na sua reconstrução e compreensão de mundo, que implica em levar o aluno romper as paredes da escola, no sentido de conhecer outras realidades, outros meios para assim compreender o mundo que o cerca. O professor deve instigar o aluno ao desejo de aprender, fazer o educando se sentir importante nesse processo de aprendizagem.

A quinta competência permeia a quarta, retrata a importância do trabalho em grupo, em que o educador automaticamente propõe a igualdade entre os alunos, é mister esse trabalho na sala de aula. Dessa forma, o trabalho de elaboração de projetos pedagógicos verdadeiramente em equipe, proporcionará ao educando o conhecimento integrado com relação a algumas disciplinas. A sexta competência é: dominar e fazer uso de novas tecnologias. O professor, ao possuir essa competência, ajudará o seu aluno a se inserir no mundo tecnológico que tanto exclui pessoas que não se adaptam e nem tentam se adaptar a ele. O professor que possui essa competência saberá se sobressair e ajudar o aluno no esclarecimento de algumas dúvidas a cerca do assunto.

A sétima competência vem fazer o leitor refletir sobre a violência cometida em sala de aula. O termo violência não deve ser restrito a questão da violência física, o preconceito, a discriminação condiz a tipos de violências presentes em sala de aula. O educador precisa implantar em sala de aula métodos que impliquem na propagação do respeito mútuo entre todos os alunos, os mesmos sofrem no seu meio social diversos tipos de violências, a escola na maioria dos casos não tem contribuído com a diminuição de atitudes violentas dentro da própria escola. Celso Antunes diz:

Não mais é possível pensar que apenas alguns professores, dependendo das disciplinas que ministram, são responsáveis pela formação moral plena e irrestrita do aluno, um médico é sempre um médico, mesmo quando a necessidade imperiosa de socorro não é da sua especialidade, da mesma forma, um educador e deve fazer de seu espaço, uma luta contra qualquer espécie de preconceito, qualquer tipo de discriminação independentemente da série ou da disciplina que trabalha. É essencial que estejamos conscientes de que se um aluno completa seu ciclo escolar carregando idéias discriminatórias, pouco valor existe na matemática que aprendeu, na história da qual se lembra, na Língua Portuguesa, através da qual se expressa. Participar da criação de regras de conduta à disciplina e à comunicação em aula”. (Antunes, 2001, p.74)

A última competência é gritante, o educador precisa administrar sua própria formação e o seu enriquecimento contínuo. É necessário a busca constante por inovações. O educador Paulo Freire dizia que era muito importante estar aberto as inovações, senão suas idéias iriam cair no esquecimento. Já houve um tempo em que o professor apenas precisasse dominar os conhecimentos da disciplina que lecionava, mas esse tipo tempo se foi, o educador que não perceber isso, não irá contribuir com a melhoria educacional, apenas ajudará a continuar com o fracasso presente nas escolas.

É preciso muita coragem e ousadia para propor mudanças significativas no âmbito escolar, mesmo por que, para a escola mudar, as pessoas que a fazem necessitam mudar. As informações têm chegado às pessoas de forma muito acelerada, o aluno exige profissionais que os orientem a digeri todas as informações que lhe são passadas. O professor tem a missão de organizar, desenvolver situações diferenciadas de aprendizagem, propiciando de fato ao aluno a oportunidade de gerenciar os “conhecimentos que adquirem, transformando-os em sabedoria, “sabedoria é saber agir” eis o cerne da questão, mediar o aluno de forma que os mesmos saibam utilizar adequadamente o conhecimento adquirido.

4. UM OLHAR SOBRE ALGUMAS PRÁTICAS EDUCATIVAS.

Quem não come aprende na escola
Eu tive fome e não mão deste de comer
Por isso sofro a ignorância
Porque apensar da relutância
Jamais consegui aprender.
Matricu1ei-me aos sete anos como manda a legislação
Numa escola simples em qualquer canto da União,
Nada aprendi, livro não tinha
Não conheço nenhuma lição
Só aquelas que estão escritas
Num velho e amassado papel de pão,
Dormia nas aulas em plena manhã
Sentia fome do estômago doer
Esperava aflito a hora da merenda
Momento alegre que ficava entregue
À melhor lição: encher o prato e comer,
Voltava á sala, nada aprendia
Nem me lembro bem da sinfonia
Que nas manhãs se perdia
Com o cinco vezes quatro,
O sete vezes sete, o nove vezes nove…
Na hora da prova quase sempre errava
O que escrevia a professora riscava.
E, no fim do ano, triste me reprovava,
Repeti três anos e saí da escola
Lavei carros, fui engraxate,
Limpei vidros, fui até mascate,
Juntei-me a “gangs”, conheci bandidos
Fui ventanista e puxador de carro. ,
Cinco vezes , quatro foram as paradas
Junto às casas assaltadas,
Sete vezes as voltas que dei no camburão
Por crimes cometidos com a minha mão
Que sem saber escrever um lição
Matava ,roubava, escapando à punição.
Até que me prenderam, as mãos me algemaram
Um processo muito grande escreveram
Contando os crimes meus e os outros
Que meus amigos cometeram,
Aos vinte e cinco anos vividos
Somando dias e dias sofridos
Fui condenado a viver trancafiado
De toda a sociedade separado
Para ver se aprendia, agora, a lição.
Tarde, muito tarde, nove vezes nove
Serão os anos da soma da condenação
Sem esperança alguma de libertação.
Assinei a sentença no final do julgamento
Pressionando o polegar com a força da minha mão,
Nada aprendi, estava condenado
E nem percebi que tinha sido destinado
À condenação e à prisão do meu Estado
Quando antes da escola, aos quatro anos, fui abandonado.
Nada sei, nada estudei
Não tive condições de aprender
Porque não mc deram nada dc comer.

(In: “Se você finge que ensina, eu finjo que aprendo” de Hamilton Werneck)

O desafio da criança, nesse texto, traz a tona uma grande realidade das escolas brasileiras. Os âmbitos educacionais em muitos casos, não têm sabido acolher o alunado. Os alunos evadem por não encontrarem nas escolas um ambiente que façam perceber que estudar é importante para o desenvolvimento do ser humano. O fingimento tem sido constante, professor finge que ensina e alunos fingem que aprendem. O aluno que se expressa no texto não deve ser tratado como mais um em meio a uma sala de aula, muito pelo contrário, alunos assim devem ser conquistados pouco a pouco, assim será mais fácil ajudá-lo na aquisição , construção e/ ou ampliação de conhecimentos .

Vejamos agora alguns casos, em que as ações educativas nada têm contribuído com a aprendizagem dos educandos:

A professora X participou de programas de capacitação recentemente. No curso aprendeu que não devemos carregar tanto os alunos com conteúdos, que o lúdico é necessário e que faz parte do processo de crescimento das crianças .Pensando em todas as dinâmicas divertidas que vivenciou, ela resolveu inovar.

A aula da professora começou com uma bela dinâmica que fez no curso, na qual todos os alunos deveriam estar segurando uma folha arrumada em forma de funil com uma velinha dentro. A professora disse que os alunos deveriam olhar a vela e pensar “na chama que os nove para estar juntos da sala de aula.” Os meninos não entenderam muito o que a professora queria dizer, mas seguraram a vela dentro do papel e ficaram vendo o que ia acontecendo. A professora colocando a música de relaxar, não percebeu que dois alunos estavam com o papel pegando fogo. Os outros começaram a gritar, a professora pediu que se acalmassem e começou a perguntar:

– O que querem trabalhar hoje? O que gostariam de fazer?

Os meninos acharam muito estranho! A professora nunca tinha feito essas perguntas e decidiram aproveitar.

– Queremos brincar de bola!Queremos um recreio enorme! Queremos merenda agora!

– Vamos fazer a dinâmica “Estoura balões.”

Correu, pegou os balões em sua pasta nova do curso da capacitação e deu um a cada criança, pedindo-lhes que os enchesse, assim, cada um teria que proteger seus balões para o outro não estourar (“Foi maravilhoso fazer isto no curso!” pensou ela.). As crianças odoraram a idéia. Imagine estourar balões em vez de estudar as operações matemáticas. Começaram a estourar os balões dos colegas, uns caiam em cima dos outros, uns empurravam os outros, o barulho foi imenso. As professoras das outras salas foram reclamar e a professora X desesperada, pediu que sentassem, mas a turma não voltava ao “ normal” meio sem paciência e frustrada com o desacerto de suas idéias , indignou-se e gritou:

– Ok! Não querem colaborar? Pois bem, teste relâmpago, e é para nota, podem arrumar as cadeiras em fila.

Parece cômico tal situação, mas tais ações contribuem com a falta de desenvolvimento da aprendizagem. A professora ao tentar acertar, causou um grande tumulto, os alunos estavam adorando, pois a hora de brincar e lanchar são os únicos momentos que os deixam motivados. É preciso inovar, no entanto, o professor precisa fazer uma longa analise antes de aplicar qualquer coisa. Tal professora foi bastante infeliz na realização das dinâmicas, as mesmas não surtiram o efeito que esperava.

Vejamos agora outra situação: A professora Lua caiu de pára-quedas na educação. Não sabe exatamente a que veio e para onde vai. Ela chega à sala de aula às oito horas da manhã, é uma escola pública do Ensino Fundamental. As crianças da 3ª série a esperam para mais um dia de aula confuso. A professora começa a aula perguntando aos alunos o que eles querem fazer, os mesmos ficam sem saber o que dizer. Um dos meninos da classe, diz em tom de graças:

– Ô professora, não é a senhora que tem que dizer o que agente vai fazer?

– Bem, então vamos fazer contas de subtrair. Não, não, não… Vamos fazer uma leitura no livro de ciências.

Pensando bem, se organizem em grupos e cada um fará uma coisa.

Novamente, um dos alunos interrompe:

– Mas, professora!

– Vai ficar questionando o que eu decido fazer na sala de aula. Afinal, a professora aqui sou eu. Portanto, volte para a sua carteira cumprir a sua tarefa

O sinal toca e todos vão embora.

Como uma aula desse tipo pode promover a aprendizagem dos educados? O que o professores que agem dessa maneira entendem de educação? A resposta para todos os questionamentos torna-se inevitável, mas uma vez o resultado será o fracasso escolar, o pior é que seres serão conduzidos ao fracasso e privados de ter uma educação de qualidade. Alguns alunos vão de encontro a aulas assim, provocam a indisciplina que tanto incomodam os professores; esses professores replicam dizendo que o aluno não quer nada e são desinteressados pois para ele o ideal é o aluno ficar quieto, fazer sem questionar as atividades que lhes são pedidas.

Que conceitos de disciplina tem a maioria dos educadores?Geralmente , disciplina é entendida como adequação do comportamento do aluno aquilo que o professor deseja .Só é considerado disciplina o aluno que comporta –se como o professor quer. A questão que poderia ser como colocada é a seguinte: que comportamento deseja o professor? É freqüente o desejo do professor que o aluno fique quieto , ouça as explicações que tem para dar , faça direitinho os exercícios e pronto.se isto acontecer , sentir-se-á realizado.(Vasconcellos,2004p.47).

O caso seguinte condiz com a realidade de muitos professores: Iniciam-se as aulas do ano letivo da escola “Y”, as professoras da 2ª série combinam como fazer os planejamentos. Decidem que cada professora ficará responsável em fazer o planejamento de uma semana e depois repassá-los. Neste grupo, estava a professora X que já lecionava nesta escola e na 2ª série há 15 anos. Ela conhecia os conteúdos da série como a palma das mãos. Assim, pensou:

– Vai ser fácil, cada um faz uma semana em sua casa e não precisa sair de casa, mais uma noite. Aproximava-se o dia em que a professora teria que repassar seu planejamento. Em sua casa, com os livros didáticos em mãos e o caderno de planos dos anos anteriores, ela começou a ler. Em meio a leitura, uma colega questionou:

– Colega, eu estou enganada ou este planejamento já foi aplicado há três anos?

A professora, meio que ofendida, respondeu:

– Você acha que eu ia pegar um planejamento velho e fazer de conta que é novo?

Uma colega intervém:

– Bem, como o combinado foi cada um fazer uma semana, nós só temos que acatar o que a colega elaborou.

E lá se foram elas copiarem em suas salas de aula.

Ações como as que foram descritas também são comum nos ambientes educacionais. O professor que age dessa maneira não tem nenhum tipo de comprometimento pela educação. A aprendizagem dos indivíduos não é visada nesse momento, aliás isso é o que menos importa a professores que costumam agir assim. Ao levar para sala de aula um plano que foi traçado para outros alunos, em outro momento, não iria contribuir com o desenvolvimento da aprendizagem dos alunos, o professor precisa acordar. O plano de aula deve ser traçado mediante a necessidade apresentada pelos alunos. Diante disso, o professor precisa traçar metas que o permitam de fato mediar a construção eficaz do conhecimento em sala de aula.

A próxima situação que será apresentada se difere das outras. Vejamos o exemplo da professora “L”:

“A professora ‘L” já é professora há mais de 20 anos e está há 7 anos trabalhando com a 2ª série do Ensino Fundamental, que hoje se trata do 3ª ano.

Muito preocupada com a aprendizagem de sua turma está sempre bolando atividades para que essa aprendizagem se efetive. Num certo dia, estava organizando a sua aula de Português e encontrou uma atividade interessante sobre o assunto que ia começar a trabalhar ( pontuação) na pasta da sua filha, que estuda 3º ano em uma outra escola, na qual possui uma proposta pedagógica embasada na concepção construtiva.



Ao realizar atividade observou que as crianças sentiram dificuldades em responder as questões. Então, resolveu direcionar a atividade respondendo as questões do texto coletivamente no quadro. Quando concluiu a atividade, não conseguiu compreender o motivo da dificuldade que o grupo sentiu, pois o objetivo traçado sobre o trabalho com a pontuação estava muito claro. Talvez esse seja o grande problema, o objetivo pode está claro para o professor, no entanto, as atividades realizadas não estão adequadas para aquela turma.

Vejamos agora a situação da professora “M”. Ela chega à escola sempre atrasada, as crianças cheias de energia fazem um grande barulho, pulam, brincam e quando ela chega, dá um belo grito pedindo silêncio e esquece logo do bom dia.

– Arrumem a sala em dupla.

Um aluno questiona a professora.

– Minha pró, o que é dupla?

Ela responde com grosseria.

– Dois componentes, é claro!

Começa então a pedir para fazer o exercício de Ciências sobre o aparelho digestivo. Os alunos demonstram inquietações, pois não tiveram nenhuma explanação. A professora olha o relógio e lembra:

– Epa! Esqueci da dinâmica. (No pensamento lembra: A coordenadora falou tanto! Tenho que fazer!)

– Crianças, fiquem em pé. Vamos realizar uma brincadeira. (Já com o tom de voz diferente.)

Um aluno questionador pergunta:

– Professora, o que vem agora? Antes foi uma atividade que eu nunca tinha visto e agora uma brincadeira?

A professora responde:

– Bem então vamos fazer a nossa oração matinal que eu esqueci logo cedo.

Novamente o aluno questionador contesta.

– Mas professora isso não era antes de começar a aula?

A professora fica sem saber explicar as “idas e vindas” de sua ação pedagógica em sala de aula.

Para sua salvação, vem a hora da merenda.

O aluno ao sair da sala, comenta com os colegas:

– Que confusão!

A falta de preparação dessa professora é explícito, no entanto os alunos percebem que algo não vai bem. Ações como a dessa professora, infelizmente também são corriqueiras nos âmbitos educacionais. Dessa forma, como fica a aprendizagem dos educandos? Como o conhecimento vai se desenvolver em meio a tanta falta de preparação do professor?

Os casos, até agora descritos nesse trabalho, são frutos de algumas observações e diálogos com professores, em uma escola das séries iniciais do município de Antas-BA. Quando se fala de aprendizagem, faz-se necessário não apenas observar o aluno, ma também é pertinente perceber como os professores estão contribuindo em sala de aula com o desenvolvimento dessa aprendizagem dos educandos. O resultado é entristecedor, ainda falta comprometimento dos professores, a escola ainda não é atrativa para os aluno, os âmbitos escolares não têm sabido lidar com a aprendizagem dos educandos.

A situação a seguir escrita por Celso Antunes, sintetiza o que tem sido discutido até aqui:

Marcelo é um excelente professor de Geografia. Na aula sobre o Pantanal até excedeu-se. Falou com entusiasmo, relatou com detalhes, descreveu com precisão. Preencheu a lousa com critério, soube fazer com que os alunos descobrissem na interpretação do texto do livro a magia dessa região quase selvagem. Exibiu um vídeo, congelou cenas e enriqueceu-as com detalhes, com fatos experimentados, acontecimentos do dia-a-dia de cada um.

Em sua prova, é evidente, não deu outra: uma redação sobre o tema e questões operatórias que envolviam o Pantanal, seus rios, suas aves, sua vegetação… a planície imensa. Os alunos acharam fácil. Apanharam suas folhas e começaram a trazer, palavra por palavra, suas imagens para o papel. As canetas corriam soltas e as linhas transformavam-se em parágrafos. Marcelo sabia o quanto teria que corrigir, mas vibrava…Sentia que os alunos aprendiam. Descobria o interesse que sua ciência despertava. Não pôde conter uma emoção diferente quando Heleninha, sua aluna predileta, foi até sua mesa e arfante solicitou:

– Posso pegar mais uma folha em branco?

O único ponto de discórdia, o único sentimento opaco que aborrecia Marcelo, era o Luizinho, aquele da segunda fila. – Puxa vida! – pensava – Luizinho assistira todas as suas aulas, arregalara os olhos com as explicações e agora, na prova, silêncio absoluto, imobilidade total… nem sequer uma linha. Sentiu ímpetos de esganar. Luizinho pagaria seu preço, iria certamente para a recuperação. Se duvidassem poderia, até mesmo, leva-lo à retenção. Seria até possível arrancar um ano inteirinho de sua vida…

Minutos depois, avisou que o tempo estava terminado. Que entregassem suas folhas. Viu então que, rapidamente, Luisinho desenhou, na primeira página das folhas da prova, o Pantanal. Rico, minucioso, preciso. Marcelo emocionou-se, ao ver aquele quadro, de irretocável perfeição, nas mãos de Luizinho que coloria as últimas sobras. Entusiasmado indagou:

– E aí, Luis? Você já esteve no Pantanal?

Não. Luizinho jamais saíra de sua cidade. Construiu sua imagem a partir das aulas ouvidas. Marcelo sentiu-se um gigante e, de repente, descobriu-se o próprio Piaget. Havia com suas palavras construído uma imagem completa, correta e absoluta na mente de seu aluno.

Mas, deu zero pela redação. É claro. Naquela escola não era permitido que se rabiscassem as folhas da prova.

A história de Luizinho repete-se em muitas escolas.

Sua Inteligência pictórica é imensa, colossal, lúcida, clara e contrasta visivelmente com as limitações de sua competência verbal. Expressou o que sabia, da maneira como conseguia. Mas, não são todos os professores que se encontram treinados para ouvir linguagens diferentes da que a escola instituiu como única e universal.(Celso Antunes, 2000, p. 72-73)

Na nossa sociedade, há muitos professores agindo como Marcelo, professor muito bom, propõe uma mediação entre conhecimento e aprendizagem, no entanto, os espaços escolares padronizaram a forma de mostrar o que aprenderam, deve ser a prova escrita e nada mais. Veja a gravura a seguir:

O aluno Agostinho, pelo que é mostrado, possui habilidades na área de expressão artística. No entanto, fora da sala de aula é que ele pode expressar o que sabe. O conhecimento da expressão artística vai além do que a professora expõe em sala de aula, dá para notar falta de atrativos na aula dela. O Agostinho age de forma inteligente não querendo permanecer em sala de aula, afinal o espaço escolar não tem dado espaço para mostrar o que sabe. Paulo Freire no seu livro Pedagogia da Autonomia, diz:

Por que não discutir com os alunos a realidade concreta a que se deva associar a disciplina cujo conteúdo se ensina, a realidade agressiva em que a violência é a constante e a convivência das pessoas é muito maior com a morte do que com a vida? Por que não estabelecer uma “intimidade” entre os saberes curriculares fundamentais aos alunos e a experiência social que eles têm como indivíduos? Por que não discutir as implicações políticas e ideológicas de um tal descaso dos dominantes pelas áreas pobres da cidade?A ética de classes embutida neste descaso? Por que dirá um educador reacionariamente pragmático, a escola não tem nada que ver com isso. A escola não é partido. Ela tem que ensinar os conteúdos, transferi-los aos alunos. Aprendidos estes operam por si mesmos. (Freire, 1996, p.30-31)

Ao olhar criticamente as práticas educativas, percebe-se que para a aprendizagem ocorrer de fato, os profissionais da educação necessitam conhecer e por em prática o que Paulo Freire coloca no livro aqui citado. É emergente perceber, discutir e analisar que “ensinar não é transferir conhecimentos”, ensinar é algo muito abrangente, é uma prática que existem diversos saberes aos educadores. Essas práticas errôneas e tão comuns no dia-a-dia de algumas escolas resultam na falta de aprendizagem. A educação carece urgentemente de educadores que abracem com amor a causa da educação.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A multiplicidade de olhares para a aprendizagem da criança permite uma ampla discussão acerca do aprender e da qualificação docente. O aprender só ocorrerá de fato, se o educador estiver proporcionando situações que sejam favoráveis à aprendizagem. É mister ao educador saber lidar com a heterogeneidade presente em sala de aula, bem como procurar conhecer quais atividades tem contribuído para que seus alunos construam conhecimento.

Geralmente os professores se preocupam em dar todos os conteúdos presentes nos livros didáticos, não param para refletir se são importantes ou não e esquecem que os mesmos foram organizados levando em consideração a realidade de outro lugar. A ilustração remete o leitor a pensar que os educadores devem travar uma grande batalha: vencer a padronização dos conteúdos, refletir constantemente sobre sua prática, propor momentos de interação em que pontos de vista sejam refletidos, estar em sintonia com outros profissionais da educação, para dialogar sobre suas práticas. Dessa maneira, não só o professor, mas os educandos serão vencedores do desafio da qualificação e da formação cotidiana.

Muitos profissionais não tem encontrado tempo para fazer analises como as que se propõe nesse trabalho, por falta de tempo levam diversos conteúdos para os alunos, marcam a prova, os alunos ( a maioria ) não saem bem e são tachados como desinteressados, acabam não desenvolvendo nenhuma aprendizagem. É emergente perceber não só apenas no aluno quieto, mas também naquele que tira o sossego do professor, quando e como o seu cérebro fica mais propicio ao aprender. Vale lembrar que a aprendizagem ocorre com mais precisão, quando o assunto e/ou tema abordado é de interesse do aluno, portanto é esse ponto que deve ser levado em consideração pelos professores.

A educação precisa estar em consonância com essa nova visão de mundo, com a sociedade almejada no futuro, e, para tanto, é necessário criar ambientes educacionais que extrapolem as questões pedagógicas, que busquem o entendimento da condição humana, a preparação do cidadão para exercer sua cidadania, para uma participação mais responsável na comunicação local e planetária, tendo como prioridade o cultivo de valores humanitários, ecológicos e espirituais. Isso requer novos métodos de ensino, novos currículos e novos valores, e novas práticas educacionais absolutamente diferentes das que estamos acostumadas a encontrar em nossas escolas(Moraes, 1997, p.112)

Atualmente, a escola vem sendo incumbida de promover o desenvolvimento integral do indivíduo, esse fato supõe ao educador compreender a maneira como a criança aprende e se desenvolve. Nesse trabalho, fica explícito que as metodologias utilizadas em muitos âmbitos educacionais não contribuem com a formação integral dos indivíduos, na maioria dos casos elas são imbecilizantes. O educador Paulo Freire escreveu que ensinar exige compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo. Mas como o sujeito irá intervir no mundo, se na escola estão lhe ensinando o que é artigo, substantivo, e/ou adjetivo de forma mecânica? Como intervir em alguma coisa se os alunos não conseguem se expressar bem e não compreendem criticamente o que ocorre a sua volta?

Assim, falar em aprendizagem da criança carece fazer uma reflexão acerca de como essa aprendizagem tem sido encarada pelos profissionais educativos. Esse trabalho apresentou diversos olhares de autores, que assim como eu, se preocupam em melhorar o contexto educacional. Dessa forma, esse trabalho não se finaliza aqui, enquanto houver a necessidade de fazer a educação melhorar, haverá a necessidade de se refletir, propor e fazer a mudança acontecer.

Com o pensamento abaixo de Rui Canário, encerra-se essa etapa deste trabalho:

Se aprender é algo intrínseco ao ser humano, a verdade é que o ensino não é uma condição necessária nem suficiente para que se verifique uma aprendizagem. Aprende-se coisas que não são ensinadas e ensina-se coisas que ninguém aprende. A escola carrega consigo dois problemas que condicionam a sua eficácia: o primeiro é que ela foi concebida e programada para ensinar; o segundo é que ela foi concebida e programada para ensinar grupos homogêneos de alunos, o que a desarma perante a crescente heterogeneidade dos públicos escolares”. (Revista Pátio, agosto/outubro 2006, p.9)

REFERÊNCIAS

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A Desconformidade no Ensino-Aprendizagem de Matemática

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O exercício do magistério em escolas públicas, tem possibilitado aos professores de Matemática constatar que há uma desconformidade no processo de ensino-aprendizagem da disciplina. Essa desconformidade assume proporções inquietantes quando se constata que os alunos egressos da 8a série do Ensino Fundamental não apresentam os conhecimentos mínimos necessários à apreensão dos conteúdos do currículo proposto para o primeiro ano do Ensino Médio. Buscando comprovar a efetividade dessa defasagem e compreender suas causas, este trabalho monográfico procurou, através de estudo de caso, avaliar em que medida os alunos egressos do Ensino Fundamental apresentam os conhecimentos, habilidades e competência necessários à apreensão dos conteúdos propostos para o 1º ano do Ensino Médio e identificar as variáveis que interferem no seu desempenho de modo a propor alternativas que promovam sua superação.

A pesquisa realizada no Colégio Estadual Senhor do Bonfim (Salvador, BA), com professores e alunos, não apenas confirmou a desconformidade do ensino-aprendizagem da Matemática como apresentou como principais problemas: (a) qualidade do Ensino Fundamental marcada pela desqualificação profissional, falta de responsabilidade profissional dos professores; (b) baixa remuneração dos professores; (c) preocupação com os índices de aprovação sobrepondo-se à preocupação com a aprendizagem; (d) redução de gastos e material didático insuficiente; (e) currículos inadequados. Ficou também evidenciado que, no que tange aos educandos, falta interesse; falta conhecimento da língua materna, tanto no que se refere à compreensão, como à interpretação textual; falta leitura; falta o exercício da escrita; falta motivação; faltam reais condições para a apreensão dos conteúdos.

Os dados da pesquisa indicaram ainda que muitas outras deficiências contribuem ainda para a criação de um ambiente que não favorece o desenvolvimento da aprendizagem: faltam aulas extras de informática, teatro, dança e redação; faltam bibliotecas e laboratórios; é preciso resignificar os conteúdos e passar atividades de casa com mais freqüência; é necessário que os professores sintam prazer em dar aulas. Espera-se que os resultados dessa pesquisa contribuam para o recrudescimento do debate, criando condições para a superação dessa desconformidade.


SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
3. A DESCONFORMIDADE NO ENSINO-APRENDIZAGEM DE MATEMÁTICA
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS

1. INTRODUÇÃO

Este trabalho monográfico foi idealizado quando se percebeu que os alunos egressos da 8a série, não tinham o conhecimento mínimo de Matemática que lhes permitissem apreender o conteúdo do currículo proposto para o 1o. ano do Ensino Médio do Colégio Estadual Senhor do Bonfim. Mas qual seria esse conhecimento mínimo necessário? De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), por meio eletrônico, este conhecimento mínimo busca o conhecimento das quatro Operações Fundamentais (ordinárias, decimais e fracionárias), Expressões (numéricas, algébricas e fracionárias), Médias (aritméticas e ponderadas), Regra de Três (simples e composta), Sistema de Números Naturais (Conjuntos) e Sistema Métrico Decimal (medidas de comprimento, superfície, volume, capacidade e de massa).

Nesse sentido, o professor Robinson Tenório (1995, p.101), em seu livro “Aprendendo pelas Raízes: alguns caminhos da Matemática na história”, afirma que esses alunos vêm atravessando uma crise profunda na aprendizagem de Matemática.

O ensino da Matemática se encontra numa crise profunda. É claro que podemos generalizar, acrescentando que essa crise abarca todo o ensino geral. Todavia, é em relação à Matemática que sentimos mais a gravidade desse problema. Quem, como estudante de Matemática, ainda não experimentou a “ansiedade Matemática”? A Matemática – pelo menos até a graduação plena – surge aos olhos dos alunos como pura magia, repleta de “armadilhas”, truques mirabolantes e outros quejandos. […] O ensino dessa ciência continua em profunda crise e, diante um quadro tão penoso ao educador, surge a inevitável pergunta: como, realmente, superar essa grave situação?

Esse problema percebido pelos professores no cotidiano da sala de aula e confirmado pelo professor Tenório (1995), foi também constatado no Colégio Estadual Senhor do Bonfim (Salvador – BA). Assim, a partir de um estudo de caso desenvolvido nessa unidade de ensino, esse trabalho pretendeu responder ao desafio lançado pelo professor Robinson Tenório ao

perguntar o que deve ser feito para que esse problema seja relacionado com esse objetivo, buscou-se, inicialmente, responder a três quesitos: (a) Qual a causa desse despreparo? (b) Estará ela no professor, no aluno ou no currículo? (c) Como esses alunos conseguem chegar ao Ensino Médio sem os conhecimentos mínimos necessários?

Ora, a LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, Lei no. 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que “[…] trouxe um grande avanço para a educação, uma vez que propõe uma prática avaliativa com vistas a uma pedagogia progressista construtivista” (SOUZA DOS ANJOS, 2.000, p. 9), preconiza que:

A educação básica tem por finalidade desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores. (CAPÍTULO II. Da Educação Básica. Seção I. Das Disposições Gerais. Art. 22). A educação básica, nos níveis fundamental e médio, será organizada de acordo com as seguintes regras comuns: […] V – a verificação do rendimento escolar observará os seguintes critérios: a) avaliação contínua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais. (CAPÍTULO II. Da Educação Básica. Seção I. Das Disposições Gerais. Art. 14).

No entanto, ao que parece, algumas instituições de ensino não vêm seguindo a LDB – Lei no. 9.394/96 como deveriam. A avaliação “contínua, cumulativa e processual” (BRASIL, 1996), não vem sendo aplicada corretamente. Será por essa razão que os alunos não progridem a contento? Por que não recuperam, quando o objetivo é recuperar e aprender?

Haverá por trás disso, também, condições estruturais, tais como escolas desestruturadas, sem

apoio material e pedagógico? Estarão os professores desqualificados para o ensino por não saberem como tornar atrativo o ensino-aprendizagem da Matemática?

As dificuldades que devem ser enfrentadas por alunos e professores do 1o ano do Ensino Médio, na superação dessa desconformidade, exigem que se busque identificar suas causas e propor alternativas. As causas da precária aprendizagem de Matemática, dos alunos do Colégio Estadual Senhor do Bonfim (CESB) foram identificadas como sendo decorrentes do acolhimento de qualquer público, não lhe sendo possível fazer um exame de seleção para o ingresso do alunado na instituição; metodologia do Ensino Médio inadequada para o momento histórico e social do aluno; falta de empenho e habilidade de alguns professores em certas áreas de ensino; currículo inadequado. Pressupõe-se que as causas dessa carência de conhecimentos seja, também, deficiência na metodologia do ensino de Matemática e alunos desnutridos e anêmicos.

De acordo com (BIANCHINI, 2000) os conteúdos programáticos de Matemática, previstos para a 8a. série do Ensino Fundamental e (YOUSSEF, 2000) para o 1o. ano do Ensino Médio são:

Conforme relato dos professores Carlos Henrique Araújo e Nildo Luzio, no artigo “Dificuldades no Ensino de Matemática”, em seu relatório de acordo com o Sistema de Avaliação da Educação Básica – Saeb (BRASIL, 2001), principal avaliação sobre o aprendizado das crianças brasileiras, divulgado pela Internet, o desenvolvimento de habilidades básicas em Matemática vem se revelando insuficiente. A análise dos resultados, feita por meio de uma escala única de desempenho, mostra que 13% dos alunos da 4a série não demonstraram, na resolução dos testes em 2001, habilidades passíveis de serem descritas na escala. São estudantes que estão no estágio muito crítico, não construíram competências necessárias para resolver problemas com números naturais, seja de multiplicação ou de divisão ou mesmo de soma e de subtração. Esse contingente representa, de forma inequívoca, o analfabetismo matemático.

Isso porque, após quatro anos de escolarização não construíram competências básicas necessárias para o cotidiano e para prosseguirem no segundo ciclo do Ensino Fundamental.

Os demais estudantes da 4a série, embora revelem algumas competências desenvolvidas, também estão muito aquém do desejável e do necessário. Desses, 19% encontram-se no primeiro nível da escala, e apenas dominam a habilidade de calcular uma área de figuras geométricas simples desenhadas em uma malha quadriculada somando os lados da figura. Pouco mais de 20% localizam-se no segundo nível da escala de desempenho, e demonstram apenas capacidade de resolver problemas envolvendo adições de pequenas quantidades em dinheiro. Esses dois níveis podem ser denominados como críticos.

Partindo do suposto de que no corpo deste trabalho o ensino-aprendizagem é o ato do professor transmitir conhecimentos, informações ou esclarecimentos úteis ou indispensáveis ao educando que os apreende e resignifica num processo de trocas mutuamente enriquecedor, buscou-se:

a) Verificar na opinião dos alunos, a grande dificuldade que têm na aprendizagem de Matemática e também das demais disciplinas.

b) Identificar, na opinião dos professores, quais as principais causas da desconformidade na apreensão dos conteúdos apresentados pelos alunos egressos da 8a série.

Para a consecução desses objetivos, partiu-se de uma pesquisa bibliográfica e documental. Foi, também, efetuada uma pesquisa de campo no Colégio Estadual Senhor do Bonfim, em Salvador, BA, unidade escolhida para o estudo de caso. Este estabelecimento de ensino foi fundado através da Portaria 3544/84, publicada no Diário Oficial do Estado em 1o de março de 1984. Sua sede está localizada na rua General Labatut, esquina com rua Ayres Saldanha, nos Barris, em Salvador, BA. Hoje, suas instalações ocupam o no. 41, na rua General Labatut, ao lado da Biblioteca Central de Salvador.

Para se estudar a teoria dos conjuntos é mister que se tenha um pré-requisito de noção, nomeação, especificação, subconjuntos e números naturais, o que não é oferecido na 8a série. Pressupõe-se que o aluno já tenha esse conhecimento trazido desde a Educação Infantil até a 7a. série. Para estudar Relações e Funções ele já deve trazer da 4a. série essa noção e para estudar Exponenciais e Logaritmos ele tem que trazer sólidos conhecimentos da 8a. série, o que ocorre apenas com Potenciação (o que é muito pouco). Os demais assuntos do programa, quando dados na da 8a série, devem ser estudados só no 2o. ano do Nível Médio.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA.

Por um lado há um esquema de poder no que diz respeito à relação professor-aluno. Se cada um dos dois lados não conquistar seu espaço, com certeza não haverá futuro para uma relação justa e honesta. Se os alunos não se dispuserem a realmente compreender algo, reconstruindo o conhecimento, e se os professores não estiverem abertos e preparados para isso, continuaremos, a ter uma escola chata, repetitiva, monótona e que não responde aos anseios de mais ninguém. Também cabe à comunidade envolvida na educação uma maior cobrança das autoridades e, como conseqüência, uma maior participação no processo (RODRIGUES, 2003)”.

Alguns educadores focalizam seu trabalho em sala-de-aula na ‘Matemática informal’, que inclui cálculos mentais e cálculos escritos não convencionais desenvolvidos pelos alunos.

Embora esses cálculos sejam importantes, na medida em que permitem solucionar diversos problemas do quotidiano, não menos importante é o ensino dos cálculos escritos convencionais (contas de adição, subtração, multiplicação e divisão), que, contudo, vêm tendo seu espaço reduzido.

De fato, há várias formas de se resolver uma operação com números naturais: (i) por meio de cálculos mentais, (ii) com auxílio de materiais concretos, (iii) com símbolos escritos e (iv) com calculadoras. Cada uma dessas formas apresenta vantagens e desvantagens, na dependência do contexto em que são realizadas e dos números envolvidos nas operações.

Acredita-se que é importante dominar todas as formas de resolver operações elementares, uma vez que isso possibilita maior facilidade e flexibilidade para a solução de problemas.

Além disso, os cálculos convencionais representam uma linguagem padronizada, que facilita a comunicação, e constituem a base para o entendimento de Álgebra, a linguagem das Ciências Exatas.

Duas outras idéias consideradas incompatíveis por alguns educadores são a automatização de processos matemáticos e o entendimento. É possível fazer cálculos corretamente sem que se entendam os processos envolvidos, e é possível também compreender processos matemáticos e automatizá-los.(AMORIM E AMATO, 2004).

Um bom entendimento da Matemática significa não apenas saber realizar cálculos, mas compreender os processos neles envolvidos. Por exemplo: ‘por que colocamos um zero no resto de uma divisão quando colocamos uma vírgula no quociente?’, ou ‘por que a multiplicação de frações gera resultados menores que os números envolvidos?’.

O entendimento desses processos é também importante para não se criarem atitudes negativas em relação à disciplina: para alguns educandos, não é possível gostar de Matemática quando não se pode compreendê-la. (AMORIM E AMATO, 2004).

Alguns alunos costumam perceber que, em uma multiplicação de números naturais, o resultado é sempre maior (3 x 8 = 24) ou pelo menos igual (1 x 8 = 8) a um dos números envolvidos, ao passo que na multiplicação de frações o resultado pode ser menor que ambos os números envolvidos na operação.

texto

Essa observação resulta em questionamentos como: ‘Por que o resultado de uma multiplicação de frações pode ser menor que os dois números envolvidos?’ (depoimento verbal).

Quando o professor não apresenta um entendimento adequado sobre essas operações, esses questionamentos podem representar grandes transtornos, e o que se observa é a tendência de responder aos alunos que ‘os matemáticos assim convencionaram e pronto’ (depoimento verbal).

Não saber responder a essas perguntas dos alunos significa criar a idéia de que a Matemática é um “bicho-de-sete-cabeças”1, uma disciplina totalmente desprovida de lógica, quando, de fato, ela deveria auxiliar o desenvolvimento do raciocínio lógico.

Para David Ausubel apud Amorim e Amato (2004), uma aprendizagem significativa ocorre quando o aluno aprende novos conceitos a partir da construção de conexões com conceitos anteriormente trabalhados.

Um ensino fundamentado em conteúdos significativos, e, portanto, na construção de conexões entre conceitos e operações, seria a base para um bom entendimento da Matemática.

David Ausubel apud AMORIM E AMATO (2004), no entanto, não acredita que exista dicotomia entre aprendizagem significativa e automatização de fatos, fórmulas e cálculos. Por exemplo, entende-se a importância da escovação dentária após cada refeição para a prevenção de cáries; essa idéia, depois de compreendida, é automatizada para que não seja necessário, após cada refeição, pensar no motivo pelo qual escovar os dentes é importante.

Da mesma forma, quando os alunos automatizam conteúdos trabalhados anteriormente, poderão entender novos conceitos mais facilmente, uma vez que não será necessário interromper o aprendizado desses novos conceitos para encontrar resultados que já poderiam estar automatizados. A automatização, no entanto, deve ser enfatizada apenas nas etapas finais do processo de aprendizagem, e não nas iniciais.

Outra divergência observada no ensino de Matemática diz respeito à retirada de alguns conteúdos do currículo do Ensino Fundamental. Alguns educadores acreditam que conteúdos que não são importantes no quotidiano deveriam ser retirados do currículo. Outros acreditam que o ensino de conteúdos mais complexos deveria ser adiado para séries posteriores, quando os alunos apresentarem maior maturidade para acomodá-los.

Essas idéias, contudo, devem ser avaliadas de forma cautelosa. Retirar do currículo do Ensino Fundamental conteúdos como Teoria de Conjuntos e Expressões Numéricas parece ter fundamento; a retirada de conteúdos que constituem pré-requisitos para o aprendizado de novos conteúdos, por sua vez, pode ter graves conseqüências para o aprendizado da Matemática.

Nesse caso, incluem-se as operações com frações e o aprendizado subseqüente de Probabilidade, Proporções e Álgebra. Muitos dos conceitos matemáticos ensinados nas séries iniciais do Ensino Fundamental não são triviais nem muito utilizados no quotidiano, porém representam a base para o aprendizado da Matemática mais avançada, e para o seu desenvolvimento como a linguagem das Ciências Exatas.

São observados bons resultados em relação à aprendizagem da Matemática quando se inicia o ensino de conteúdos considerados difíceis mais precocemente, e de maneira mais informal, à medida em que os alunos construam gradativamente conceitos coerentes.

Há várias formas, por exemplo, de se representarem as operações com frações utilizando-se essa abordagem. A proposta é iniciar o ensino dessas operações nas séries iniciais do Ensino Fundamental por meio de jogos e atividades que envolvam representações informais, como materiais concretos e desenhos.

As atividades destinadas à formalização dos cálculos, por sua vez, poderiam ser realizadas na quinta série. Deve-se ter o cuidado, contudo, de não ensinar Matemática apenas como uma forma de resolução dos problemas do dia-a-dia. Mais que um instrumento para auxiliar a estimativa da conta do supermercado ou a divisão de uma pizza entre amigos, a Matemática é a linguagem das Ciências Exatas. Como afirmou Galileo (apud AMORIM E AMATO, 2004), “Matemática é o alfabeto com o qual Deus escreveu o universo”. Segundo os autores, este alfabeto, mais especificamente, é a Álgebra.

O professor Robinson Tenório, na introdução de seu livro Aprendendo pelas Raízes (1995), bem enfatiza, já em seu primeiro parágrafo, que a alfabetização Matemática é um dos mais graves problemas educacionais no Brasil, pois sua efetivação exclui muitas crianças da escola, colocando-as à margem do conhecimento sistematizado; mesmo os que percorreram os diversos graus de ensino, “alguns da educação básica à superior, não podem ser considerados alfabetizados, no amplo sentido do termo, já que a compreensão do termo se dá, quando muito, de maneira técnica e formal, incapaz de propiciar uma leitura significativa das relações”. (TENÓRIO, 1995, p101)

Outro ponto que vem sendo debatido é a retirada de conteúdos considerados complexos das séries iniciais do Ensino Fundamental. Recentemente, por exemplo, foi sugerida, em documento oficial, a exclusão de operações com frações do currículo da 3a e 4a séries do Ensino Fundamental.

No entanto, como afirmou Jerome Bruner (apud AMORIM E AMATO, 2004), conceitos complexos devem ser trabalhados “cedo e da maneira intelectualmente mais honesta possível […], deixando que os tópicos sejam desenvolvidos várias vezes em graus posteriores”.

No ensino especial a idéia de estimulação precoce funciona muito bem na educação de crianças com deficiência mental. Pode-se, portanto, esperar resultados ainda mais efetivos da utilização dessa idéia na estimulação de crianças normais.

Considera-se, portanto, que é perfeitamente possível ensinar e aprender significativamente as operações com frações na 3a e 4a séries do Ensino Fundamental. Na verdade, a proposta de retirada dos conteúdos decorre das dificuldades que os educandos têm em formar estruturas conceituais, ou seja, em formar os conceitos e as conexões entre eles. Esses problemas, entretanto, não foram solucionados com a retirada de conteúdos do currículo.

O que se denota é que os matemáticos levaram um milênio para aceitarem os números negativos; é razoável, assim, que haja dificuldades em se aprender esses números. E, portanto, que os professores de Matemática têm que ter muita paciência e habilidade ao ensinar esse conteúdo aos alunos.

Não obstante, como acredita o matemático Morris Kline (apud AMORIM E AMATO, 2004), os alunos “terão que dominar essas dificuldades da mesma maneira que os matemáticos o fizeram, acostumando-se gradativamente com os novos conceitos, trabalhando com eles e aproveitando-se de todo apoio intuitivo que o professor possa reunir”.

Por último, é importante salientar que os países desenvolvidos que realizaram reformulações curriculares nos anos 70 e 80 envolvendo a retirada de conteúdos complexos como frações, tiveram seu desempenho reduzido em comparações internacionais. (AMORIM e AMATO, 2004).

As conseqüências desse tipo de reformulação poderão ser ainda mais drásticas em nosso país, que já vem ocupando os últimos lugares nesse ranking (países que têm a pior classificação em conhecimentos de Matemática), conforme Amorim e Amato (2004). E, por conseguinte, no Colégio Estadual Senhor do Bonfim.

Ora, se os alunos não têm um bom desempenho no Ensino Fundamental, por certo também não terão no Ensino Médio, conforme essa pesquisadora observou através da prática docente, ao longo do ano de 2003 e deste ano de 2004.

Como esses mesmos alunos se sairão no ensino de 3o.Grau? Muitos nem conseguem passar no exame vestibular. E os que conseguem, ou desistem, ou se tornam profissionais medíocres que não conseguem um emprego formal, nem ter sucesso num empreendimento particular, conforme GUERRA, L.N. (meio eletrônico).

E essa deficiência no aprendizado de Matemática alcança proporções críticas quando se denota ver que 52% dos estudantes brasileiros de 4ª série estariam nos estágios muito crítico e crítico do domínio de habilidades de Matemática.

De acordo com o relato do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), divulgado pela Internet, www.portaldoprofessor.inep.gov.br/artigos/dificuldades_ensino_ matematica. jsp (2004), o exemplo abaixo ilustra uma questão que o aluno nos estágios mencionados acima conseguem responder:

Um aluno comprou 1 salgadinho, 1 refrigerante e 1 doce. Quanto gastou?

Esta é a tabela de preços da cantina de uma escola.

tabela

(PORTAL DO PROFESSOR, 2004)

A aritmética aplicada nas quatro séries iniciais do Ensino Fundamental brasileiro abrange o desenvolvimento de habilidades de resolução de problemas envolvendo as quatro operações.

Essas habilidades são importantes, não somente para a trajetória escolar, mas para o próprio cotidiano da vida moderna, e são necessárias em situações como ir ao supermercado e efetuar o pagamento de uma conta, calcular os juros de uma prestação qualquer, verificar o extrato bancário.

O desenvolvimento de habilidades de média e alta complexidade, como a resolução de uma equação de 1º grau ou mesmo o entendimento de uma função de 1º grau e suas aplicações, depende da habilidade aritmética. Esse é um pré-requisito. Os alunos que não consolidaram essas competências estarão prosseguindo em sua trajetória escolar acumulando sérios déficits, e o desenvolvimento de habilidades de média e alta complexidade estará comprometido, e poderá ser mesmo mais um analfabeto matemático.

O Sistema de Avaliação da Educação Básica –Saeb (BRASIL, 2001) revela, ainda, que 19% dos alunos situam-se no nível 3 da escala. Esse grupo demonstrou ser capaz de resolver problemas de soma e subtração envolvendo números de até três algarismos, e calcular o resultado de uma multiplicação com um algarismo e identificação de frações com apoio de representação gráfica. Quase 22% encontram-se no quarto nível de desenvolvimento de habilidades da escala de desempenho. Construíram as seguintes habilidades, além de todas as anteriores: subtração de números racionais com o mesmo número de casas decimais, multiplicação de números com dois algarismos, divisões exatas por número de um algarismo, interpretação de gráficos simples.

Consideram-se os níveis acima descritos como uma fase intermediária. São 41% dos alunos brasileiros.

Veja a seguir uma questão que o estudante no estágio acima consegue resolver:

Foram à festa junina 135 meninas e 120 meninos. Ao todo eram 255 crianças. Na festa do Dia das Crianças havia o mesmo número de crianças. Destas 135 eram meninos. Quantas meninas estavam na festa do Dia das Crianças?

(A) 135
(B) 100
(C) 255
(D) 120◄3

(PORTAL DO PROFESSOR, 2004)

Por fim, temos 7% dos alunos nos níveis 5 e 6, o que se denomina de estágio adequado. São as crianças que desenvolveram as habilidades esperadas para o primeiro ciclo do Ensino Fundamental. Esse reduzido grupo incorporou, além de todas as outras habilidades já descritas, mais algumas que o singulariza: calcula o resultado de uma divisão por número de dois algarismos, lida com porcentagens simples, identifica o número natural na reta numérica, sabe comparar números racionais na forma decimal, resolve problemas que utilizam a multiplicação envolvendo a noção de proporcionalidade, problemas com mais de uma operação e interpretam gráficos de setores (o chamado gráfico de “pizza”) associando-os aos dados de uma tabela.

As questões abaixo mostram o que o estudante no estágio adequado é capaz de resolver:

O quociente e o resto de 998 ÷ 35 são respectivamente:

a) 17 e 28
b) 28 e 18◄4
c) 35 e 5
d) 29 e 1

Qual é o maior dos números abaixo?

a) 0,398
b) 0,5
c) 0,52
d) 0,8◄5

Diante desses resultados a pergunta que se impõe é: o que fazer? Primeiro, deve-se melhorar as condições de infra-estrutura da escola. A biblioteca deve ter livros e estar aberta aos estudantes, sem deixar de lado a importância de orientação pedagógica para o estudo e a leitura. As salas de aula devem estar limpas, as carteiras e cadeiras em bom estado de conservação, os banheiros limpos com papel higiênico, as quadras de esporte em bom funcionamento para a prática da educação. Os alunos devem ter acesso a bons livros didáticos, a escola deve ser atraente e permitir a participação da comunidade escolar, integrando os pais dos alunos ao cotidiano escolar. Sem dúvida, todos esses aspectos são de crucial importância para o bom desempenho do educando.

Porém, há aspectos que são ainda mais fundamentais. Trata-se da qualificação dos professores e de sua responsabilização como profissionais. A maioria deles possui 11 anos, em média, de escolaridade, de acordo com o site PORTAL DO PROFESSOR (2004). São oriundos do antigo magistério ou de outras modalidades de Ensino Médio. O problema não reside em seu nível de escolarização, mas sim na sua preparação para lecionar a Matemática básica. A dificuldade maior reside no fato de que nos antigos cursos de magistério, e mesmo nos atuais oferecidos pelas faculdades de educação, a preparação para o ensino da Matemática está sendo ineficiente para gerar aprendizagem adequada. Isso, todavia, não se aplica neste estabelecimento de ensino porque todos os entrevistados têm nível superior completo. São oriundos dos cursos cujas disciplinas fazem parte do currículo do Ensino Médio. Por exemplo, se são licenciados em Matemática dão aulas de Matemática.

Oitenta por cento deles dão aulas para as disciplinas para as quais eles foram licenciados.

Pode ser que a maioria desses professores domine as habilidades de Matemática pertinentes às quatro séries iniciais de escolarização. No entanto, é muito provável que não dominem as competências e habilidades para lecionar a Matemática nesse nível. A pesquisa em educação Matemática tem avançado no mundo e no Brasil. Há experiências (PORTAL DO PROFESSOR, 2004), em diversos centros de estudos dessa área. Tal avanço deve ser levado aos professores da educação básica. Eles devem dominar as estratégias de ensino baseadas no conhecimento de como a criança de sete a dez anos de idade constrói o conceito de número e figuras geométricas. Precisam conhecer melhor as estratégias que promovam o bom ensino e estarem preparados para escolher, dentre os livros didáticos disponíveis, aqueles que melhor se adaptam às necessidades da qualidade da educação. É fundamental que os professores sejam orientados a como trabalhar com o livro didático e utilizar outros recursos pedagógicos.

A melhor preparação dos docentes por si só não é suficiente. Eles também precisam ser cobrados a ministrar o conteúdo previsto em cada uma das séries, além de serem valorizados e bem pagos, (PORTAL DO PROFESSOR, 2004). Caso contrário, o déficit dos estudantes, em termos de competências básicas em Matemática, irá persistir e prejudicar a escolarização nos anos posteriores.

Os docentes da 8a. série também dominam o conteúdo, mas precisam ter as habilidades e competências pedagógicas necessárias ao ensino. Será que todos trazem em seu bojo todos esses recursos? Certamente que não.

Além disso, na idade desses alunos, nem sempre mergulhar no ambiente informacional mostra resultados positivos, por causa da dispersão natural da adolescência. Na biblioteca, as atividades em grupo também não produzem efeito, devido a essa dispersão citada.

Nesse período de muitas escolhas, de busca de independência e de identidade com o grupo, os alunos tornam-se conscientes do ambiente da informação e já estão totalmente familiarizados com a pesquisa em várias fontes, com o uso da internet e de recursos audiovisuais, muitas vezes para buscar assuntos de interesse pessoal (PRADO, 2003, p. 72).

A maioria dos professores acha que o aluno é carente de leitura. Pois a leitura abriria sua mente, conforme o relato verbal de um professor do Colégio Estadual Senhor do Bonfim. A interpretação de texto é muito importante até mesmo para as disciplinas ditas como exatas. Como entender a formulação de uma pergunta sem a sua devida interpretação? Como entender um texto sem conseguir lhe dar um sentido? O aluno não tem o hábito da leitura que também faria melhorar seu vocabulário. 100% dos professores de Matemática crêem que os alunos que têm dificuldade na disciplina têm deficiência na leitura e na interpretação do quesito; 30% das demais áreas acham o mesmo.

O painel de conhecimentos do corpo discente é muito fraco – conforme citou um professor do Colégio Estadual Senhor do Bonfim. Sua visão de mundo fica aquém do que se espera do conhecimento de um adolescente. É bem verdade que ele não está suficientemente maduro para receber uma carga de conhecimentos abstratos; mas um mínimo espera-se que ele consiga absorver algo. Parece que a grade curricular em Matemática, por exemplo, não está adequada para a idade convencional e mental do adolescente.

Por sua vez, o aluno não vislumbra perspectiva nos conhecimentos das disciplinas escolares. Ele sabe que “de nada lhe adiantará estudar”, pois para ganhar “muito dinheiro” tem que “saber cantar pagode”, “jogar futebol” ou “traficar drogas” (relato verbal). Para isso não depende de estudo regular na rede pública estadual. Estudar em colégio público é passar pela vida, é apenas cumprir mais uma etapa de sua vivência, segundo a mentalidade de muitos estudantes.

Essas questões estão na origem um maior aprofundamento, visando:

a) Esclarecer as razões pelas quais o aluno da rede pública estadual não possui conhecimentos suficientes para acompanhar os ensinamentos do professor de Matemática.

b) Refletir sobre o processo ensino-aprendizagem, através de entrevistas, questionários e alguns encontros com professores e alunos.

c) Discutir acerca do ensino-aprendizagem do aluno do Ensino Médio, bem como do seu domínio teórico-prático do conhecimento é o que tentamos neste trabalho.

d) Verificar sugestões para equacionar o problema é um de nossos objetivos.

3. A DESCONFORMIDADE NO ENSINO-APRENDIZAGEM DE MATEMÁTICA: UM ESTUDO DE CASO NO COLÉGIO ESTADUAL SENHOR DO BONFIM

Este trabalho monográfico envolveu um trabalho de campo bastante criterioso: foram 25 (vinte e cinco) professores entrevistados e 160 (cento e sessenta) alunos (10% dos alunos que freqüentam o Colégio no 1o. Ano do Ensino Médio). Conforme o ANEXO 1, foi apresentado apenas o resultado dos alunos do turno matutino. Em Matemática são 345 (trezentos e quarenta e cinco) alunos, sendo que destes 51% encontram-se abaixo da média na 1a. Unidade. Após a coleta de dados, foram obtidos alguns resultados.

Essa pesquisa foi precedida de uma pesquisa bibliográfica e do ………………visando a construção do referencial teórico. Apesar disso os dados receberam tratamento estatístico, com estes a facilitar sua interpretação.

Os professores entrevistados pertencem às mais diferentes áreas: Matemática, Química, Biologia, Filosofia, História, Geografia, Português e Educação Física e Educação Artística. Os alunos foram escolhidos aleatoriamente. Todos os questionários foram respondidos, embora apenas 82,3% dos professores tenham ………. em participar.

Nos questionários e entrevistas aplicados, conforme APÊNDICES A e C, deste trabalho monográfico, os professores foram unânimes em afirmar que os alunos vêm mesmo com insuficiência na aprendizagem. “Deficiência no Ensino Fundamental; falta de leitura/estímulo/ dificuldades em português”. Por outro lado, o aluno está desmotivado para estudar. Ele não sabe ler. Não tem expectativas e não vê como o estudo pode mudar sua vida para melhor.

Perguntado aos professores se no início do ano letivo, costumam fazer uma avaliação diagnóstica com seus alunos, 100% deles dizem que fazem. Se fazem, por que não é feito um acompanhamento desse aluno a fim de fazê-lo alcançar um mínimo necessário de conhecimento? Mas quando essa pergunta foi feita aos alunos, apenas 58,9% disseram que sim. E os 43,1% que alegam que não o fazem? Cremos que os professores fazem, mas no início do ano letivo, só uns 60% comparecem às aulas. Isso é cultural. Os alunos acham que as aulas só começam, realmente, em março e não em fevereiro.

Se é verdade que os alunos chegam ao Ensino Médio sem um mínimo desejável para cursá-lo, então é necessário traçar um diagnóstico para verificar qual a raiz do problema. Uma vez traçado esse diagnóstico é hora de se propor estratégias para debelá-lo. Não é fácil, mas entrevistando alunos e professores, fazendo longas reflexões e discutindo mais profundamente pode-se chegar a um consenso para o que e como fazer.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A aprendizagem significativa parece ocorrer por meio de processos: explorando, fracassando, tentando, corrigindo, obtendo dados, elaborando conjecturas, testando-as, construindo explicações, que são resultados de inferências, comparações, analogias, reflexões, sobretudo do estabelecimento de relações entre as aprendizagens prévias e o novo objeto de conhecimento.

“Nesse cenário, o professor é um provocador que instiga a mente do aluno, fazendo-o pensar, ter idéias, refletir, dar explicações, tomar decisões. Ele precisa planejar ambientes problematizadores que contenham obstáculos (para desequilibração), possibilitando que o aluno obtenha informações, atue em equipes, de forma colaborativa, elabore hipóteses, teste hipóteses, realize experiências, tome decisões, procure informações, resolva problemas” (SOARES, 2004).

Para resolver o problema seria necessário que mudanças consistentes fossem implementadas. O Ensino Médio deveria ter quatro anos, como ocorre no Chile (GENTILE, 2004) para que se pudesse revisar os assuntos da 8a série.

As dificuldades que muitos alunos encontram para aprender Matemática não são recentes, nem exclusivas de países em desenvolvimento, ou do Brasil, ou do Estado da Bahia e, muito menos do Colégio Estadual Senhor do Bonfim. Mas os alunos apontam boas sugestões para tornar o Colégio Estadual Senhor do Bonfim um colégio ideal; sem falar nos professores, que muitas vezes suas sugestões são coincidentes com as dos alunos.

A qualificação dos educadores do Ensino Fundamental, bem como do Ensino Médio, e sua melhor remuneração parece ser um bom estímulo; entretanto, só isto não é suficiente, pois há os maus profissionais que não se interessam em estar sempre se renovando. Eles apenas recebem o seu salário no final do mês. O bom profissional é aquele que procura fazer bem feito, em qualquer circunstância.

Há que ter também a obrigatoriedade da educação maternal e creches para crianças de 0 a 6 anos. Mães têm que sair para trabalhar e não têm com quem deixar seus filhos. E, mesmo para aquelas que lêem, deixar os filhos na escola maternal ou creche ainda é a melhor opção, pois elas têm horários, atividades lúdicas programadas e adequadas à idade e maior organização no dia da criança. Por outro lado, é sabido que uma criança que tem preparo nestas escolas têm a aprendizagem da alfabetização facilitada. É um bom reflexo para o Ensino Fundamental e, posteriormente para o Ensino Médio e a Faculdade.

Escolas e colégios com bibliotecas bem equipadas possibilitam a professores e alunos consultarem, pesquisarem, estudarem e aprenderem. Mas só de boas bibliotecas se fazem um bom colégio. Os laboratórios de informática também são necessários com aulas, inclusive). Hoje, pesquisas são básicas, fundamentais, para o aprendizado. Estes laboratórios serviriam para a pesquisa e o próprio aprender a lidar com o computador. Os alunos reclamam muito da falta de uma sala de informática.

Os laboratórios de Biologia, Física, Matemática e Química são também necessários para o melhor aprendizado do aluno. Um laboratório de Matemática conteria jogos, como o de xadrez, pois este jogo aguça o raciocínio; ou jogos que contemplem as operações matemáticas, pois clareiam a mente para o aprendizado – lúdico, mas eficiente. Talvez o Colégio tenha que reduzir duas turmas de alunos para poder instalar as salas de laboratório e informática. Sem tecnologia não há desenvolvimento e sem educação de qualidade não se domina tecnologia, como disse um dos professores de Geografia do Colégio.

Outro ponto bastante defendido e difundido entre os professores é o estímulo à leitura (jornais, revistas, livros etc) reflexiva e a escrita, pois os alunos têm dificuldade na escrita das palavras e no entendimento do que a frase quer dizer. Em conseqüência, a leitura dos enunciados do problema de Matemática ou Física fica dificultada. Adotar periodicamente livros didáticos e paradidáticos é uma solução para trabalhar a mente, estudar e consultar. Aula extra de redação também é importante. A criação de grupos de arte (teatro, dança, música, poemas etc) traz alegria, entusiasmo e empenho dos alunos: porque eles são muito criativos.

Os professores precisam tornar as aulas mais atrativas, dinâmicas, participativas e eletrizantes. O professor que entra em sala de aula, “pisando forte como um soldado, de nariz arrebitado”, conforme palavras de um aluno; sério, circunspecto e que não dá um sorriso na aula, de acordo com afirmação de outro aluno, deve mudar. Os alunos sentem muito isto, conforme deixaram transparecer, porque hoje o comportamento do jovem é outro em sala de aula em relação do que ocorria com nossos pais. Outra coisa que os alunos sugerem é que os professores deveriam ser mais descontraídos, brincar mais com a turma. Para ter um bom relacionamento com os alunos é preciso conversar, interagir com eles (isto foi a proposta de um aluno). Outra coisa, professor que só manda copiar não os agrada.

Tem professor que quando os alunos pedem para repetir a explicação, eles não o fazem (no depoimento de um aluno). Outros não explicam o assunto e passam exercícios que são resolvidos pelo próprio professor e não dão oportunidade para os alunos raciocinarem. Muitas aulas se tornam enfadonhas, rotineiras, péssimas. “Por mais que eu tente entender, não consigo”. O mais triste foi o que um aluno escreveu: “Muitos professores não gostam de dar aula para nós”.

Não pensem que os alunos estão lá só para brincar: eles pedem um ensino de qualidade (que seja mais “puxado”), “ensinar a aprender a gostar mais da matéria”, a escola deveria promover algo diferente para os alunos: eventos, campeonatos, gincanas, reforços e tudo o que faça o aluno gostar de estudar; passar atividades de casa com mais freqüência. Os professores deveriam ser mais divertidos. Poderia agir de forma mais inteligente, que explicasse não só utilizando o quadro, mas nos gestos e no exemplo de vida, pois assim o assunto ficaria interessante.

Aumentar carga horária de disciplinas que são cobradas no vestibular e cotidiano. Fazer muitos exercícios em sala (depoimento de um professor de Matemática).

O professor de Matemática deve reforçar o ensino, centrando nos conteúdos que acompanharão o aluno durante toda a vida escolar, dando-lhe suporte e auxílio quando necessário; mostrar a seqüência dos assuntos na série e trazer de volta alguns valores esquecidos pela própria sociedade. Como escreveu um professor de Matemática, os alunos devem “ler, ler, ler e ler, ler, ler e ler e depois ler e …”

Acabar com o Fluxo Escolar e Aceleração, conforme sugeriu um professor de Biologia e Química, porque parece que não deu certo no Estado da Bahia. Mas isto não é assunto para o Colégio Estadual Senhor do Bonfim. É de esfera federal, do Ministério da Educação.

Como vemos, não é um problema que temos que resolver, mas vários e nem sã\o tão difíceis assim. Se o Colégio Estadual Senhor do Bonfim (CESB) der as mãos com a Secretaria de Educação do Estado da Bahia (SEC) tudo fluirá mais fácil.

É preciso que o professor competente e valorizado encontre prazer de ensinar para que possibilite o prazer de aprender, pois a má qualidade de ensino provoca um desestímulo na busca do conhecimento. É vital a necessidade de remunerar melhor os professores para que eles se interessem mais pelos alunos, para que não haja tanta desesperança; escolas melhor equipadas com bibliotecas e salas de leitura condizentes; e alunos melhor alimentados. Portanto, a absorção de conhecimentos pelo aluno depende de como essas informações lhes foram ensinadas, que por sua vez, depende das condições sociais que determinam a qualidade de ensino. O aluno chega no 1o. Ano mau informado, com sérios problemas de aprendizagem, até mesmo de assuntos que não lhe foram passados e fica difícil alcançar o que se quer lhe ministrar.

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Direito e Legislação

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INTRODUÇÃO

Para se viver em sociedade é necessário que os indivíduos criem normas de conduta e leis que garantam o bom funcionamento da sociedade. Assim, o direito é responsável pelo cumprimento da Lei. O direito e suas formas de aplicação são necessários para que se garantam condições dignas de sobrevivência dos membros de uma sociedade.

Algumas profissões para se concretizarem precisam estar embasadas em conhecimentos legislativos, isso ocorre com as profissões que atuam na defesa e na viabilização de direitos. Assim, o serviço social além de seu embasamento teórico tem nas legislações um instrumental para sua atuação profissional.

DESENVOLVIMENTO:

Mota (2000) afirma que ao iniciar os anos 1980, por força da pressão organizada dos trabalhadores, novas mudanças são realizadas no âmbito das políticas de proteção social. Observa-se que antes da década de 1980, no Brasil, as políticas sociais eram tratadas pelo Estado de forma assistencialista e para garantir a acumulação do capital e do Estado, sendo postas em prática para controlar as revoluções da sociedade civil.

É com a abertura política, com o papel dos movimentos sociais e a crise econômica dos anos 1980, que se abrem possibilidades para a consecução do Estado Democrático de Direitos. Dessa forma, a convocação da Constituinte trouxe a possibilidade de construir novos caminhos para a construção da democracia e a Constituição de 1988 cria no país um novo pacto sociopolítico.

A Constituição Federal de 1988 inseriu a Assistência Social no grupo das políticas integrantes da Seguridade Social, tornando-a objeto de direitos. Previu a universalidade de cobertura e do atendimento, a seletividade e a distributividade na prestação dos benefícios e serviços e o caráter democrático e descentralizado da administração (artigo 194), sendo aos que dela necessitem (artigo 203). A assistência foi regulamentada pela Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS , em 1993, como resultado de intenso movimento de estudiosos e profissionais do Serviço Social e intelectuais de vários segmentos, que durante anos discutiram e trabalharam para sua efetivação.

Neste sentido, a Constituição Federal é sem dúvida um marco, porque reconhece a Assistência Social como política social que, junto com as políticas de Saúde e de Previdência Social, compõem o Sistema de Seguridade Social brasileiro. Assim, a partir da Constituição Federal de 1988, a Política de Assistência Social adquire status de política pública que, além de ter sido um avanço no que diz respeito à garantia de direitos aos cidadãos, foi uma conquista da sociedade civil. Portanto, pensar esta área como política social é uma possibilidade recente.

Dessa forma, a assistência social passa a ser direito dos que dela necessitarem e política de proteção social, juntamente com as demais políticas que compõem a seguridade, visando garantir direitos e melhores condições de vida. Propõe a participação popular e o exercício do controle social na gestão e implementação da Política de Assistência Social, tornando possível a participação da sociedade civil na formulação das políticas sociais.

Surgem os conselhos municipais, espaço onde a sociedade civil participa na formulação das políticas sociais. Conforme Raichelis (2000) os conselhos foram instituídos como mecanismos de ampliação da participação da sociedade nas decisões políticas, por sua composição paritária (sociedade civil e governo), os conselhos emergem como espaço de participação de diversificados e novos sujeitos sociais. Tratam-se de novos canais de participação da sociedade civil na coisa pública, constituindo esferas públicas democráticas no âmbito das políticas sociais.

No atual processo de descentralização e municipalização das políticas sociais no Brasil, a existência do Conselho aparece como uma das condições para que os municípios recebam recursos dos governos federal, estadual ou municipal. Desta forma, uma parcela considerável de municípios do país tem criado conselhos municipais. Destacam-se nesse sentido, os que são criados no âmbito daquelas políticas públicas nas quais se registram maiores avanços em termos de leis complementares, em decorrência da mobilização da sociedade civil, ocorrida nessas áreas.

Para os movimentos sociais pela infância brasileira, a década de 80 representou também importantes e decisivas conquistas. É neste contexto que foi aprovado o Estatuto de Criança e do Adolescente-ECA. Na Assembléia Constituinte organizou-se um grupo de trabalho comprometido com o tema da criança e do adolescente, cujo resultado concretizou-se no artigo 227, que introduz conteúdo e enfoque próprios da Doutrina de Proteção Integral da Organização das Nações Unidas, trazendo os avanços da normativa internacional para a população infanto-juvenil brasileira.

Este artigo garantia às crianças e adolescentes os direitos fundamentais de sobrevivência, desenvolvimento pessoal, social, integridade física, psicológica e moral, além de protegê-los de forma especial, ou seja, através de dispositivos legais diferenciados, contra negligência, maus tratos, violência, exploração, crueldade e opressão. Dessa forma a promulgação do ECA (Lei 8.069/90) ocorreu em 13 de Julho de 1990, consolidando uma grande conquista da sociedade brasileira: a produção de um documento de direitos humanos que contempla o que há de mais avançado na normativa internacional em respeito aos direitos da população infanto-juvenil

Entretanto, a renovação legal e institucional no processo de formulação e implementação de políticas sociais, não tem sido acompanhada pela renovação das práticas políticas e da efetiva democratização da gestão. Por outro lado, constata-se a existência de uma sociedade civil pouco mobilizada, na qual nem mesmo os setores organizados parecem reconhecer a importância dos conselhos enquanto mecanismos de controle social.

Sendo assim, no intuito de garantir direitos o Serviço Social passa a atuar em defesa dos vários segmentos sociais na busca da garantia de direitos. Assim, o assistente social ao realizar seu trabalho, atua no atendimento das necessidades humanas que se constituem em direitos, focaliza a sua prática em interesses sociais historicamente determinados, pois entende que o homem é um sujeito histórico que tem necessidades ligadas ao seu desenvolvimento material e espiritual, em consideração à sua genericidade e singularidade. (SILVA,200).

Assim, o compromisso do assistente social deve estar voltado para as particularidades dos fenômenos sociais, nos atendimentos de questões de caráter imediato, no seu âmbito particular de trabalho, nas demandas de sobrevivência. O Serviço Social, assim, objetiva ações voltadas à satisfação das necessidades humanas direcionadas à efetivação dos direitos, bem como às atribuições profissionais determinadas pela sociedade e pela profissão em cada momento histórico.

Neste sentido, faz-se necessário o compromisso e as exigências de análises teóricas e históricas concretas, é preciso pensar a relação entre o compromisso e a direção social, que nos remete a buscar alternativas, habilidades e uma competência no sentido de administrar o processamento teórico-prático. Na busca de decifrar e compreender realidade, em constante movimento, nas tendências e nas possibilidades que se colocam para o assistente social(SILVA,2000).

Desse modo, a defesa intransigente dos direitos sociais faz parte da teoria, valores, deontologia e prática do Serviço Social. Os direitos correspondentes às necessidades humanas têm de ser garantidos e promovidos, e justifica se pelas ações do Serviço Social. A defesa de tais direitos deverá, assim, fazer parte integrante do Serviço Social.

Neste sentido, faz-se necessário o compromisso e as exigências de análises teóricas e históricas concretas, é preciso pensar a relação entre o compromisso e a direção social, que nos remete a buscar alternativas, habilidades e uma competência no sentido de administrar o processamento teórico-prático. Na busca de decifrar e compreender realidade, em constante movimento, nas tendências e nas possibilidades que se colocam para o assistente social(SILVA,2000).

Sendo assim, a Política Setorial que norteia o trabalho do Serviço Social é a política de Assistência Social (regulamentada pela Lei Orgânica da Assistência Social, nº. 8.742 de 1993), a qual preconiza a assistência social, como direito do cidadão e dever do Estado, é Política de Seguridade Social não contributiva, que provê os “mínimos sociais”, realizada através de um conjunto integrado de iniciativa pública e da sociedade, para garantir o atendimento às necessidades básicas, de todos aqueles, que, dela necessitar. (BRASIL, 1993).

Além dos conhecimentos específicos de sua área de atuação, para realizar seu trabalho é importante que o assistente social tenha conhecimento da legislação, pois a Assistência Social fará interface com várias políticas setoriais que são direcionadas por leis específicas. Dessa forma, a política de Assistência Social integra-se às demais políticas sociais como uma função de viabilizar, quando necessário com ações de assistência, o acesso aos direitos e serviços aos quais tem direito, os cidadãos.que foram preconizados pela Constituição federal de 1988.(BATISTUTI,2009).

Com a Constituição Federal de 1988 a assistência social foi inserida no grupo das políticas integrantes da Seguridade Social, tornando-a objeto de direitos. A Constituição previu a universalidade da cobertura e do atendimento, a seletividade e a distributividade na prestação dos benefícios e serviços e o caráter democrático e descentralizado da administração (art.194), devendo ser prestada aos que dela necessitem (BRASIL,).

Dessa forma, para o exercício profissional faz-se necessário que o assistente social coloque em prática todo o seu conhecimento teórico metodológico, LOAS, Constituição Federal, e os demais aportes legais (políticas setoriais, políticas de direitos) Tudo isso é feito no intuito de propor ações que possibilitem aos usuários dos programas governamentais e institucionais terem acessos a bens e serviços garantidos por leis.

De acordo com Bravo (2000), os debates em torno da Constituição de 1988 possibilitaram uma nova visão acerca do papel do Estado e, como conseqüência, houve um reordenamento instituicional, reafirmando o compromisso do Estado com a promessa de “afirmação e extensão dos direitos sociais”. Esse reordenamento possibilitou o surgimento de “novos espaços em que forças sociais foram protagonistas na formulação de projetos societários” (Raichelis, 2005, p.35)

Conforme Vieira (1992) no Estado Democrático de Direito, os indivíduos têm seus direitos e as liberdades fundamentais, garantidos, No entanto, a realização desse Estado, não se caracteriza apenas com o aparato jurídico formal. Mas, principalmente pela presença de mecanismos sócio-econômicos. Desse modo, é a participação dos indivíduos em todas as instâncias societárias que irá garantir o direito de acesso à justiça como parte integrante da cidadania, que se torna real quando todos os direitos assegurados pelos princípios da justiça e suas instituições, é que o exercício da cidadania se torna efetivo.

Outro autor que mostra a importância da participação da sociedade no processo democrático é Veronense (1996), para quem, a participação da sociedade civil é importante no sentido de poder dialogar com o Estado. Ao se elaborar grupos de trabalhos, procura-se discutir e levantar as demandas do município com a sociedade civil, porque ela sabe das necessidades de suas organizações aquilo que precisa ser feito. Esse processo que envolve a sociedade civil legitima o princípio de participação previsto nas legislações específicas, bem como, coloca a mesma como parceira e co-responsável pelas decisões tomadas e da efetivação dessa política social.

Neste contexto,quando a atuação profissional é funcional ao poder vigente, o Serviço Social contribui para repetir trajetórias, mas quando o profissional trabalha com visão crítica passa a ser um aliado do usuário, buscando rearticular os patrimônios e fortalecer os interesses dos dominados. Uma vez que, o Estado não possui políticas públicas capazes de responder às demandas da população.

Neste sentido, o Código de Ética dos Assistentes Sociais de 1993, fez a opção pelos pressupostos da democracia, cidadania, liberdade, pluralismo e vida digna para cada brasileiro. Tais princípios se respaldam nos fundamentos da República Federativa do Brasil, contidos na Constituição Federal de 1988, que por sua vez constitui-se também legitimidade do Serviço Social.

Sem dúvida que os avanços em termos legislativos e até políticos institucionais são significativos quando se trata da garantia de direitos individuais, coletivos das liberdades fundamentais das crianças e adolescentes principalmente como provedores de instrumentos de garantias de direitos como Conselho Tutelar, fundo da criança. Entretanto, observa-se que há um distanciamento no que preconiza a lei e sua real efetividade. Assim, a instauração dos conselhos e a compreensão da importância do seu papel, a participação da sociedade civil organizada são outros fatores que podem contribuir para a efetivação real do marco legal.

CONCLUSÃO

Este texto procurou relacionar a importância das legislações como instrumento de trabalho do serviço social, bem como, apresentar a importância desses instrumentos na garantia dos direitos dos usuários do serviço social. É interessante demarcar que esta problemática não se esgota no estudo ora apresentado, uma vez que este se trata apenas de uma reflexão sobre a temática. Portanto, esse é um assunto complexo, portanto não se pretende esgotá-lo, mas sim contribuir para futuras pesquisas e análises. Sendo assim, este trabalho é recomendado a todos os profissionais e estudantes que precisam do conhecimento legislativo em sua área de atuação.

REFERÊNCIA BIBLIOGRAFICAS:

BRASIL Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei 8.069/90 de 13 de julho de 1990. Brasília: Congresso Nacional, 1990.

BRASIL. BRAVO, M.I.S; PEREIRA, P.A. Política Social e Democracia. (Org’s). São Paulo: Cortez; Rio de Janeiro: UERJ, 2000.

CFESS. Código de Ética do Assistente Social. 4 ed. Brasília: CFESS, 1999-2002.

MORAES, Alexandre de. O Direito Constitucional. 13ª.ed. São Paulo: Editora Atlas S.A, 2003.

SILVA, Maria Lúcia da. Um novo fazer profissional. In: Programa de Capacitação em Serviço Social e Política Social – módulo 4:UNB-CEAD, 2000.

VIEIRA, Evaldo. Democracia de Política Social. São Paulo : Cortez, 1992

VERONESE, Josiane Rose Petry. Os Direitos da Criança e do Adolescente – Origem, desenvolvimento e perspectivas: uma abordagem sócio-jurídica. Tese de professor titular, UFSC, 1996.

Dificuldades de Exercício do Controle Social

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Nossa proposta de trabalho é discutir a política de Atenção á criança e Adolescência, no município de Ipatinga, bem como, refletir sobre as dificuldades de exercício do controle social e da participação da sociedade civil nas arenas públicas destinadas às políticas para a infância e adolescência. Para isso, realizaremos um breve resgate histórico das políticas adotadas no país desde colonização até a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente. Acreditamos que refletir é uma forma de buscar alternativas que rompam com as barreiras impostas à participação coletiva, reflexo da tradição política autoritária na gestão das políticas públicas.

Na história da proteção à infância e juventude brasileira, tem-se no período colonial e Imperial, o início da intervenção por parte do Estado. Data dessa época as primeiras iniciativas de atendimento a crianças e adolescentes em situação de miséria e abandono. Com a colonização brasileira iniciou-se o problema do abandono de crianças em decorrência da captura de nativos, que eram vendidos e afastados dos familiares e seus filhos. Para a coroa portuguesa os índios eram considerados ‘pecaminosos e bárbaros’ e seus filhos deveriam ser afastados para evitar a influência maléfica dos pais.

Tal atendimento consistia de intervenção pautada na catequese e caridade religiosa, seguida pela filantropia privada, através das instituições filantrópicas fundadas principalmente por médicos higienistas, não obstante a falácia da eugenia e degenerescência, que objetivavam comprovar suas teses, através de uma prática pautada em métodos científicos de educação, saúde e higiene.

De acordo com Bosi (1992), a separação de crianças índias e negras de seus progenitores, através da intervenção dos colonizadores e com a ajuda dos padres jesuítas se deu no ano de 1551, tendo este ano por “marco do início do recolhimento de crianças ‘desvalidas’, por parte da igreja no Brasil” (, p.180), Neste ano fundou-se a primeira casa de recolhimento de crianças. A partir daí, outros colégios e casas de recolhimento foram criados para servir aos objetivos da catequese, educando os filhos de índios e mestiços segundo seus princípios culturais e religiosos.

Em decorrência da miséria dos pais, diversos recém-nascidos eram expostos mortos ou seriamente adoentados nas Rodas dos Expostos das Instituições Religiosas, com a única finalidade de terem um enterro digno. Muitos escravos também entregavam seus filhos à Roda , na esperança que fossem livres e não sofressem os castigos que eles mesmos sofriam.

Esse tipo de instituição se alastrou pelo Brasil e passou a ser utilizada também por outros motivos, tais como: separar os filhos recém nascidos das escravas para que os senhores pudessem alugá-las como ama de leite ou para evitar despesas com a criação dos filhos de escravos e, ainda, devido às epidemias que dizimaram famílias e deixaram crianças órfãs. Essa situação persistiu até o século XVIII quando a sociedade e as autoridades passaram a se preocupar com o abandono intencional dos filhos recém-nascidos nas ruas e nas portas das casas, das igrejas e dos conventos. Para resolver a situação emergente que se iniciou foi criada a Primeira Roda dos Expostos do Brasil, mantida pelas Santas Casas de Misericórdia.

No século XIX até o início do século XX, o atendimento à infância brasileira pautou-se na Doutrina do Direito Penal do Menor, sob a inspiração do Código Penal Imperial de 1830. Segundo essa Doutrina, o ‘menor’ só passava a ser responsabilidade do estado quando era vítima ou agente de algum tipo de delito penal. O código penal do Império estipulava a idade penal a partir dos 14 anos.

No entanto, apesar dos menores infratores entre 14 anos e 18 anos serem considerados criminosos, a sua pena era atenuada considerando aquela aplicada aos adultos. Em relação aos menores infratores abaixo de 14 anos eram considerados inimputáveis. Contudo, se houvesse constatação que os mesmos agiram com discernimento da ação do ato criminoso, seriam encaminhados pelo juiz, para serem tratados nas Casas de Correção até, no máximo, a idade de 16 anos.

Em 1860, foi instituído o primeiro Código Penal Republicano, neste código, a lei pouco mudara e, o ‘menor’ que cometia um delito era julgado como um adulto e, depois de decretada, a sentença podia ser reduzida de acordo com a sua idade. No entanto, à idade penal, foi reduzida para 9 anos. De 9 até 14 anos, caso tivessem praticado algum delito penal com discernimento, seriam internados em estabelecimentos correcionais disciplinares, até a idade 17 anos. Sendo que os mesmos, antes dessa idade, eram totalmente inimputáveis, mas as penas podiam ser penas abrandadas para aqueles que fossem menor de 14 anos..

De acordo com Rizzini (1993):

Tanto a legislação penal do Império como a primeira legislação penal da República procuravam perceber a partir de qual faixa etária o indivíduo seria responsável pelos atos que praticasse contra a ‘ordem social’ e determinava a internação em ‘casas de correção’ ou ‘casas disciplinares’ aos menores que tivessem agido com ‘discernimento’. Com o advento da República, essa pesquisa de discernimento foi considerada muito subjetiva e, por isso, foi abandonada. (p.40)

De acordo com Pereira (1999), durante o período colonial e Imperial, o atendimento as crianças eram feitas somente pela Igreja Católica. Não existiam, serviços públicos voltados para a educação e para a saúde. somente a partir de 1855, o estado passa a intervir. Uma das primeiras iniciativas por parte do Estado na área da criança e do adolescente foi a criação do Instituto para Surdos e nos anos subseqüentes a criação de algumas escolas de aprendizes e artífices, asilo para meninos desvalidos e institutos disciplinares, tais como a Escola de Aprendizes de Marinheiros, Escola XV de Novembro, Instituto de Educação de Artífices, Instituto Disciplinar e Instituto João Pinheiro.

Em 1923, foi criado o Juizado de Menores, tendo Mello Mattos como o primeiro Juiz de Menores da América Latina. No ano de 1927, foi promulgado o primeiro documento legal para a população menor de 18 anos: o Código de Menores, que ficou popularmente conhecido como Código Mello Mattos. O Código de Menores era endereçado não a todas as crianças, mas apenas àquelas tidas como estando em “situação irregular”. O código definia, já em seu Artigo 1º, a quem a lei se aplicava:

O menor de um ou outro sexo, abandonado ou delinqüente, que tiver menos de 18 anos de idade, será submetidos pela autoridade competente às medidas de assistência e proteção contidas neste código(-Decreto n° 17.943 A- de 12 de outubro de 1927).

À elaboração do Código de Menores de 27 (conhecido como Código Mello Matos), envolveu principalmente juristas, médicos, industriais, policiais e jornalistas em torno da questão da infância pobre – centraram-se nos temas da delinqüência, da universalização da escolarização, do controle do Estado sobre as famílias e no tema do trabalho. A questão do trabalho, contudo, dominou a os debates, ao se estabelecer a polêmica entre industriais, de um lado, e juristas e médicos de outro. Os primeiros defendiam a força de trabalho do menor (principalmente a indústria têxtil), acreditavam que a única possibilidade de educação para as classes populares era através do trabalho. Os juristas e médicos defendiam a fixação de uma jornada de trabalho de seis horas para os menores e a idade mínima de 14 anos.

Desta forma, a idade biológica permitida para o trabalho, e também para a para a punição penal, se construiu de acordo com os interesses e posições dos interesses capitalistas. Para os empresários, quanto menos idade tivesse o indivíduo classificado como menor, melhor seria para a organização do trabalho em suas indústrias. “Assim como para a polícia que teria poderes para reprimir e levar ao Juiz de menores os supostos “delinqüentes”, tirando-os das ruas, espaço em que vistos e considerados transeuntes ilegítimos.

O Código de Menores de 27, também conhecido como Código Mello Matos, foi a primeira legislação específica voltada para esses menores, partia desse contexto social marcado pela criminalidade e pelas longas jornadas de trabalho a que eram submetidos os menores. Neste contexto, o termo menor significava: determinado grupo de crianças e adolescentes do início do século XX de um setor específico, identificado com a delinqüência, a marginalidade e o abandono.

O Código de Menores estabeleceu um sistema de atendimento à criança assentado nos efeitos sociais de um processo de industrialização excludente que agravou os problemas sociais. Não era qualquer criança que seria objeto de intervenção da Justiça de Menores, mas os filhos das pessoas que moravam em cortiços e subúrbios, crianças mal alimentadas e privadas de escolaridade, vivendo em situações de carências culturais, psíquicas, sociais e econômicas que as impeliam a ganhar a vida nas ruas em contato com a criminalidade tornando-se em pouco tempo delinqüentes. O Código Mello Matos direciona-se àqueles setores sociais excluídos pelo setor produtivo, instalados em subúrbios, privados dos frutos da industrialização, alijados do acesso aos colégios ou de uma política de proteção à família.

Data dos anos de 1920, também, a criação do abrigo provisório de menores, onde era feita a triagem de menores (abandonados ou delinqüentes) para encaminhá-los para outros estabelecimentos. Duas vertentes orientam a intervenção no tratamento da infância e juventude: a filantropia e o cerceamento dos direitos. O mundo da infância apresenta ao Estado a face do desamparo, e irá requerer dele, por isso, uma tutela que é menos punitiva que cerceadora, para que não se possa acusar esse Estado de atentar contra a massa desassistida. Mas, como é necessário proteger a ordem social, adota-se também uma tutela punitiva, ou seja, filantropia ou assistência, e cerceamento da liberdade sob qualquer forma, repousam sobre a mesma lógica disciplinar.

Neste momento passa a vigorar a doutrina da Situação Irregular, essa abordagem classifica a infância em duas categorias distintas: a Situação Regular, compreendendo os meninos que estavam na família, na escola e na comunidade e a Situação Irregular da qual faziam parte os meninos em abandono, trabalho precoce, delituosos, de rua, os chamados ‘menores’. Com a acepção da Doutrina da Situação Irregular, o Estado amplia seu atendimento, além das vítimas ou agentes de delitos penais, agora, todos os tipos de ‘menores’ que se encontrava em situação irregular, ou seja, aqueles considerados abandonados ou delinqüentes são de responsabilidade do Estado.

Para dar suporte ao Código de Menores vigente, foi criado em 1941 o Serviço de Assistência ao Menor (SAM) , o objetivo do Estado ao criar essa instituição era integrar as instituições privadas e estatais num sistema nacional. Nessa época já havia uma concepção de internação como forma de recompor a identidade do menor abandonado e infrator, de acordo com os padrões de comportamento aceitáveis pela sociedade brasileira.

Além da criação do SAM, considerada uma estratégia de intervenção do governo do “Estado Novo”, organizações com uma filosofia mais preventiva também se estabeleceram na década de 40, tal como o Departamento Nacional da Criança, cuja função era difundir práticas de puericultura e amparo à maternidade, infância e adolescência, a Legião Brasileira de Assistência (LBA) e, ainda, o SENAI e o SENAC, que atuavam na profissionalização dos ‘menores’.

Em 1946 com o fim do Estado Novo e com a promulgação de uma nova Constituição são a criação da Campanha Nacional de Merenda Escolar e a criação do SAMDU (Serviço de Assistência Médica Domiciliar de Urgência). No entanto, em 1960, começam a aparecer sérias críticas e denúncias contra o SAM ( desvio de verbas, falta de higiene, instalações precárias, alimentação insuficiente, até situações extremas de maus-tratos).

Em 1963, no breve governo de João Goulart, foi criado um projeto de lei estabelecendo uma Política Nacional do Bem-Estar do Menor, na qual se propunha também, a extinção do SAM e criação da Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (FUNABEM) . A partir daí atendimento público ao ‘menor’ em todo país, constituiu-se da adoção de centros de triagem nas capitais e de redes oficiais de internatos no interior.

A crise político-institucional da qual possibilitou aos militares implantar o golpe militar teve inicio com a renúncia do presidente Jânio Quadros, em 1961 e foi se agravando com o governo João Goulart (1961-1964), com a radicalização populista do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e de várias organizações de esquerda e com a reação da direita conservadora.

Quando João Goulart assumiu o país, a economia crescia pouco e a inflação aumentava. A única saída para resolver os problemas seria destruir as estruturas arcaicas e modernizar o capitalismo brasileiro. O presidente João Goulart tentou mobilizar as massas trabalhadoras em torno das reformas de base, que alterariam as relações econômicas e sociais no país. O Presidente não teve tempo para colocar em prática as novas propostas, pois, o mesmo foi deposto com o golpe militar foi efetivado em 1964.

Em novembro de 1964 (Lei nº 4.513), a Política Nacional do Bem-Estar do Menor, da qual a FUNABEM fazia parte como órgão nacional maior, passou a expressar uma contradição, pois seus princípios doutrinários se opunham à doutrina que norteava a manutenção da ditadura militar, ou seja, a Doutrina da Segurança Nacional . A FUNABEM surgiu em meio à ditadura militar com uma proposta diferente, tentando fazer um trabalho um pouco mais diferenciado, tentando colocar a questão da criança como prioridade. Para isso, assume as Escolas de Quintino, que já existiam no antigo SAM, porém com uma proposta política de educação um pouco mais avançada para aquela época.

Em 1979, em plena ditadura militar foi aprovado o 2° código de menores que se constituiu em uma revisão do Código de Menores de 27, não rompendo, no entanto, com sua linha principal de arbitrariedade, assistencialismo e repressão junto à população infanto-juvenil. Esta lei introduziu o conceito de “menor em situação irregular”, que reunia o conjunto de meninos e meninas que estavam dentro do que alguns autores denominam infância em “perigo” e infância “perigosa”. Esta população era colocada como objeto potencial da administração da Justiça de Menores.

A aprovação da “Doutrina da Proteção Integral das Nações Unidas para a Infância”, foi de suma relevância para a elaboração de tratados e normativas referentes á proteção da criança e do adolescente em todo mundo, como por exemplo, a aprovação da Declaração Universal dos Direitos da Criança, em 1959, e a Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança, em 1989. No Brasil, a Doutrina da Proteção Integral só se expressa em lei a partir da aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) em 1990, inaugurando uma nova concepção do ser humano criança. Fale sobre essas mudanças, explicando do que se trata essa proteção integral da criança, buscando situar as principais inovações que distinguem o ECA dos antigos Códigos de Menores.

Assim a década de 80 permitiu que a abertura democrática se tornasse uma realidade. Isto se materializou com a promulgação, em 1988, da Constituição Federal. Para os movimentos sociais pela infância brasileira, a década de 80 representou também importantes e decisivas conquistas. A organização dos grupos em torno do tema da infância era basicamente de dois tipos: os menoristas e os estatutistas. Os primeiros defendiam a manutenção do Código de Menores, que se propunha a regulamentar a situação das crianças e adolescentes que estivessem em situação irregular (Doutrina da Situação Irregular). Já os estatutistas defendiam uma grande mudança no código, instituindo novos e amplos direitos às crianças e aos adolescentes, que passariam a ser sujeito de direitos e a contar com uma Política de Proteção Integral. O grupo dos estatutistas era articulado, tendo representação e capacidade de atuação importante.

Na Assembléia Constituinte organizou-se um grupo de trabalho comprometido com o tema da criança e do adolescente, cujo resultado concretizou-se no artigo 227, que introduz conteúdo e enfoque próprios da Doutrina de Proteção Integral da Organização das Nações Unidas, trazendo os avanços da normativa internacional para a população infanto-juvenil brasileira. Este artigo garantia às crianças e adolescentes os direitos fundamentais de sobrevivência, desenvolvimento pessoal, social, integridade física, psicológica e moral, além de protegê-los de forma especial, ou seja, através de dispositivos legais diferenciados, contra negligência, maus tratos, violência, exploração, crueldade e opressão.

Dessa forma a promulgação do ECA (Lei 8.069/90) ocorreu em 13 de Julho de 1990, consolidando uma grande conquista da sociedade brasileira: a produção de um documento de direitos humanos que contempla o que há de mais avançado na normativa internacional em respeito aos direitos da população infanto-juvenil. Este novo documento altera significativamente as possibilidades de uma intervenção arbitrária do Estado na vida de crianças e jovens. Como exemplo disto pode-se citar a restrição que o ECA impõe à medida de internação, aplicando-a como último recurso, restrito aos casos de cometimento de ato infracional.

Com a Promulgação do ECA a criança e o adolescente passa a ter os mesmos direitos que uma pessoa adulta e, além disso, têm alguns direitos especiais, por estarem em desenvolvimento físico, psicológico, moral e social. A lei do Estatuto da Criança e do Adolescente assegura às crianças e aos adolescentes todas as facilidades e oportunidades a fim de ajudar no seu desenvolvimento físico, mental, moral, social e espiritual com liberdade e dignidade. Na Constituição Brasileira existe um artigo, o 227, que exige a proteção integral à criança e ao adolescente

É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão (Art.227)

Desde a promulgação do ECA, um grande esforço para a sua implementação vem sido feito nos âmbitos governamental e não–governamental. A crescente participação do terceiro setor nas políticas sociais, fato que ocorre com evidência a partir de 1990, é particularmente forte na área da infância e da juventude. A constituição dos conselhos dos direitos, uma das diretrizes da política de atendimento apregoada na lei, determina que a formulação de políticas para a infância e a juventude deve vir de um grupo formado paritariamente por membros representantes de organizações da sociedade civil e membros representantes das instituições governamentais

De acordo com Machado (2003), outra importante inovação surgida com o Eca foi a obrigatoriedade da criação dos conselhos de direito e Tutelar; criação do fundo; e a participação social; integração entre o poder judiciário(ministério público, defensoria, segurança pública)e executivo(assistência social). Também garante a participação da sociedade civil organizada na formulação e no controle das ações em todos os níveis através dos conselhos e conferências, implantando assim o regime de co-gestão.

Outro autor que mostra a importância da participação da sociedade no processo democrático é Teixeira (2001), para quem, a participação da sociedade civil é importante no sentido de poder dialogar com o Estado. Ao se elaborar grupos de trabalhos, procura-se discutir e levantar as demandas do município com a sociedade civil, porque ela sabe das necessidades de suas organizações aquilo que precisa ser feito. Esse processo que envolve a sociedade civil legitima o princípio de participação previsto nas legislações específicas, bem como, coloca a mesma como parceira e co-responsável pelas decisões tomadas e da efetivação dessa política social.

Em Ipatinga cada período administrativo teve sua própria marca caracterizada por filosofias administrativas de acordo com a ideologia de cada prefeito. A partir de 1989 quando o partido dos Trabalhadores assume o poder local, a administração passa a ser feita no intuito de efetivar as conquistas sociais. Dentro deste contexto é que surge o atendimento a criança e adolescente no município de Ipatinga. No inicio de 1980, foram fundadas duas instituições para atender crianças: Game e Mundo Infantil seu objetivo era acolher menores em situação de abandono, em situação de rua, os chamados delinqüentes.

Nesta época surgiu uma ONG ligada à igreja católica, (SEPH) serviço de Promoção Humana, que fundou o clube de engraxates e lavadores de carros. Que atendia crianças excluídas socialmente. Posteriormente foi criada a Creche Mãe Dolores que atendia as mães que trabalhavam e também aquelas moradoras de rua.

Em 1987, instituiu-se o Projeto Bom menino que era um programa Federal, que teve breve duração.Com a promulgação do Estatuto da Criança, em 1991, o Conselho Municipal da Criança e do Adolescente foi criado, tendo como primeiro Presidente D. Ione Toffanelli que também participou da elaboração da Lei Municipal que criava o Conselho Municipal da Criança e do Adolescente de Ipatinga.

Conforme Veronese (1996), a criação dos conselhos, estabelecida pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, é uma inovação no processo democrático brasileiro. Ambos os conselhos são espaços de participação da sociedade na esfera pública, mas o papel de cada um é bastante distinto. Assim, o Conselho Municipal deve como base em um bom diagnóstico, estabelecer prioridades para as políticas públicas municipais e ser articulador de redes em favor dos direitos da infância e da adolescência. Ainda segundo a autora, os conselhos surgem a partir do Estatuto da Criança e do Adolescente (1990) e refletem uma visão da Constituição Federal de 1988, de que era preciso abrir o Estado Brasileiro para a participação da sociedade civil nas decisões políticas.

Outro princípio da legislação é a municipalização das políticas públicas, pois a cidade é a esfera estatal mais próxima do cidadão, que melhor o conhece. Os conselhos atendem a essa premissa também. Dessa forma, a criação desses espaços é regulamentada por uma Lei Municipal, que pode ser proposta pelo Executivo, pelo Legislativo ou mesmo pela sociedade civil. A criação dos conselhos é obrigatória, é Lei, e não fazê-lo pode implicar em sanções para o município. Não há hierarquia entre os conselhos. A atuação deve ser complementar e de parceria, uma vez que cada um cumpre papel distinto e igualmente importante para o município (JUNIOR, etal, 2004).

No entanto, muitos indícios sugerem que o papel reservado pela legislação aos Conselhos não vem se efetivando como seria de se esperar. Muitos municípios ainda não criaram seus Conselhos, embora esta seja uma obrigação expressa de todas as administrações municipais. Por outro lado, muitos Conselhos foram constituídos formalmente, mas encontram diversos tipos de dificuldade para atuar de forma consistente e superar restrições que os transformam em meras estruturas burocráticas formais e/ou simples elos de transmissão de políticas assistencialistas ou autoritárias, incompatíveis com as determinações da Constituição Brasileira.

Fatos como o supracitado podem ser comprovados tendo em vista o que aconteceu no município de Ipatinga na época da última conferência realizada pelo CMDCA, onde se restringiu a participação popular. Este fato muito chocou aqueles que estão acostumados com a atuação democrática tanto desse órgão, quanto da própria administração, uma vez que. Ipatinga sempre esteve na vanguarda das inovações de âmbito social, sendo um dos primeiros municípios a participar do processo de articulação de elaboração da Lei Orgânica de Assistência Social e do Seminário de Assistência Social Brasileira na década de 1990.

Nesse sentido, é essencial que os conselheiros sejam orientados para buscar uma relação de cooperação, e não de subordinação, com os executivos municipais. O ponto de partida para tanto é o correto entendimento das atribuições que a Lei reserva aos Conselhos e aos Executivos Municipais: aos Conselhos compete deliberar sobre (e controlar) a política de atendimento aos direitos da criança e do adolescente; às administrações públicas compete fornecer os recursos físicos, técnicos, administrativos e institucionais necessários ao adequado exercício da competência dos Conselhos. Só assim estes órgãos se tornarão agentes efetivos de um processo de gestão compartilhada e descentralizada, para uma maior efetividade da política social.

Sem dúvida que os avanços em termos legislativos e até políticos institucionais são significativos quando se trata da garantia de direitos individuais, coletivos das liberdades fundamentais das crianças e adolescentes principalmente como provedores de instrumentos de garantias de direitos como Conselho Tutelar, fundo da criança. Entretanto, observa-se que há um distanciamento no que preconiza a lei e sua real efetividade. Assim, a instauração dos conselhos e a compreensão da importância do seu papel, a participação da sociedade civil organizada são outros fatores que podem contribuir para a efetivação real do marco legal.

Entendemos que, neste caminho de consolidação dos Conselhos Municipais é preciso criar mecanismos que possam promover e garantir novas relações democrático-participativas, inibindo as antigas práticas autoritárias, clientelistas, repressivas e assistencialistas que se consolidaram durante quase um século em nosso país.

Referencias bibliográficas

BOSI, A. Dialética da Colonização. São Paulo: Cia das Letras, 1992.

BRASIL Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei 8.069/90 de 13 de julho de 1990. Brasília: Congresso Nacional, 1990.

JUNIOR. Orlando Alves dos Santos (org.) Governança democrática e poder Local. Rio de Janeiro. Revan, Fase, 2004a experiência dos Conselhos municipais no Brasil

PEREIRA, Almir Rogério. Histórico da Política de Atendimento à Criança e ao Adolescente no Brasil. In: Visualizando a Política de Atendimento à Criança e ao Adolescente. Rio de Janeiro: KROART Editores, 1999.

Revista Ipatinga anos 20, 1984.

Revista Um século de história: Vale do Aço 2000, 1999.

RIZZINI, Irma. Assistência à Infância no Brasil. uma análise de sua construção. Rio de Janeiro: USU, 1993.

VERONESE, Josiane Rose Petry. Os Direitos da Criança e do Adolescente Origem, desenvolvimento e perspectivas: uma abordagem sócio-jurídica. Tese de professor titular, UFSC, 1996