ALGUMA POESIA – Carlos Drummond de Andrade

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ALGUMA POESIA – Carlos Drummond de Andrade

Publicado em 1930, o volume apresenta 49 poesias, reunindo produções de Carlos Drummond de Andrade de 1925 a 1930, e está dedicado ao poeta e amigo Mário de Andrade, que publica, no mesmo período, Remate dos Males, obra que viria a dar uma nova conformação à poética do Papa do Modernismo.

Alguma Poesia é volume escrito sob o ímpeto da modernidade de 1922, pratica o poema-piada, utiliza os coloquialismos apregoados pela estética, cultiva a poesia do cotidiano, repudiando as tendências parnasiano-simbolistas que dominaram a poesia até então.

No entanto, o poema-piada de Drummond é antes um desabafo de um tímido que procura afogar (disfarçar) no humor os sentimentos que o amarguram. No prosaísmo esconde a procura de uma expressão poética autêntica e autônoma e, ao se voltar para o cotidiano, transcende o tempo e o espaço em busca do perene e universal.

Dos supostos acima enunciados, pode-se traçar uma espécie de linha temática que Drummond seguirá em Alguma Poesia e que permanecerá durante sua trajetória poética, que, grosso modo, pode ser identificada como se segue, a partir do que o próprio autor sugere como condução temática de sua obra:

1. O indivíduo – “um eu todo retorcido”

Seção que investiga a formação do poeta e sua visão acerca do mundo. Sempre lúcido, discorre com amargor, pessimismo, ironia e humor o que ele, atento observador, capta de si mesmo e das coisas que o rodeiam. Alguns poemas sintetizam a visão do indivíduo, como o poema de abertura “Poema de sete faces” em que vaticina seu destino

2. A família – “a família que me dei”

Uma das constantes temáticas de Drummond, presente desde Alguma Poesia até seus versos finais, é a família, sua vivência interiorana em Minas Gerais, a paisagem que marca sua memória. Contrariando o lugar-comum, ao invés de se referir à família como algo que lhe foi atribuído por Deus, o poeta coloca um “que me dei” a analisa suas relações pessoais, consciente de que se assentam na perspectiva pessoal. De modo muito individual, retrata o escoar do tempo, como é possível observar em “Infância”, “Família”, “Sesta”, alguns dos mais significativos poemas de Alguma Poesia.

3. O conhecimento amoroso – “amar-amaro”

Com o jogo de palavras amar-amaro, título emprestado de um poema do livro Lição de Coisas, o poeta acrescenta ao substantivo “amar” o adjetivo “amargo”, sentimento recorrente em alguns de seus poemas e livros escritos posteriormente. Em Alguma Poesia o tema é tratado com boas doses de humor, sátira ou pitadas de idealismo, como em “Toada do amor”, “Sentimental”, “Quero me casar”, “Quadrilha”..

4. Paisagem e viagens

Um grupo de poesias faz anotações sobre viagens, retratando paisagens vistas e vividas, mas também recuperando as influências recebidas da sempre subserviente postura brasileira ante as supercivilizações, como em “Lanterna mágica”, “Europa, França e Bahia “.

5. O social e a evolução dos tempos

Drummond constrói poemas em que contempla a mudança dos tempos, o progresso chegando e invadindo a antiga paisagem, como em “A rua diferente” ou “Sobrevivente”.

ALVEZ & CIA. – Eça de Queirós

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ALVEZ & CIA. – Eça de Queirós

Alves & Cia. é a firma da qual são sócios Machado e Alves e o título deste “pequeno romance” sobre o adultério e suas conseqüências.

Quando no dia do Aniversário de Ludovina, esposa de Godofredo (Alves), este a surpreende abraçada Machado, começa a história. Alves perturbado com a surpresa, se retira e Machado foge da sala.

Alves expulsa Lulu para a casa do pai (que recebe a notícia feliz com a pensão que receberá junto) e decide que ele e Machado tirarão na sorte quem se suicidaria. Posto que Machado e as testemunhas achem isto ridículo, vai-se decidindo por um duelo de pistolas, logo por um de espadas (porque “não foi tão sério”), logo por duelo nenhum.

Ludovina viaja com o pai e volta mais tarde. Machado volta trabalhar num clima seco e frio onde antes houveram dois grandes amigos. Já nessa época Alves quer a reconciliação.

O tempo vai passando, Alves se reconcilia com Ludovina, sua amizade com Machado renasce; a firma prospera, Machado casa, enviuva, casa novamente, etc. Ao final de 30 anos, os três são felizes e ainda muito unidos, mas nunca esquecem o episódio lamentável em que se envolveram; Alves sente-se feliz que não se precipitara.

MEUS POEMAS PREFERIDOS – Manuel Bandeira

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MEUS POEMAS PREFERIDOS – Manuel Bandeira

Bom Humor Diante da Morte. (1886-1968)

Nasceu em Pernambuco, viveu e morreu no Rio.
Em 1917, estréia com “Cinza das Horas”, com características parnasianas, simbolistas e futuristas misturadas.
Viveu momentos dramáticos assistindo à morte de entes queridos e lutando pela própria vida.

Assim ele se autodefine:

Auto-Retrato

Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.

Estilo

A poesia de Manuel Bandeira caracterizou-se pela variedade criadora, desde o soneto parnasiano, pela prática do verso livre, até por experiências com a poesia concretista. Por outro lado, conservou e adaptou ao espírito moderno os ritmos e formas mais regulares, como os versos em redondilhas maiores.

Em sua poesia, observa-se uma constante nota de ternura e paixão pela vida. Seu lirismo intimista registra o cotidiano com simplicidade, atribuindo-lhe um sentido de evento e espetáculo. Nela, também, estão presentes a infância, a terra natal, a cultura popular, a doença, a preocupação com a morte, a defesa da linguagem modernista, a sensualidade, o lirismo tradicional, o antilirismo, a reflexão existencial, a infância e o humor.

A MELANCOLIA

Verificamos, em Manuel Bandeira, traços indicadores de uma sensibilidade romântica, sobretudo de uma profunda tristeza, aliada ao desencanto e à melancolia. A confissão de seu estado de espírito, da presença do “eu” em poemas e da morte como motivo poético mais freqüente conferiu-lhe uma aura romântica:

AS LEMBRANÇAS

A infância, como retorno ao passado, opõe-se a este presente de angústia e dor vivenciado pelo poeta. O folclore, suas quadras e canções populares, a família sempre aparecerão ligados à infância:

Profundamente

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

– Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

ECOS PARNASIANOS E NÉVOAS SIMBOLISTAS

Em muitos poemas, Bandeira aproxima-se da estética parnasiana através da rigidez formal, da seleção de temas, da busca do universal e da apreensão objetiva da realidade.
Em outros textos aparecem o irracionalismo, as paisagens indefiníveis, nebulosas e as atmosferas crepusculares. O Simbolismo, que além dessas características privilegiou a musicalidade, despertará no poeta o gosto pelo subjetivismo, pela introspecção.

Paisagem Noturna
(…)
O plenilúnio vai romper. . . Já da penumbra
Lentamente reslumbra
A paisagem de grandes árvores dormentes.
E cambiantes sutis, tonalidades fugidias,
Tintas delinqüescentes
Mancham para o levante as nuvens langorosas.

A REVOLTA MODERNISTA

Assimilando as conquistas dos poetas do Modernismo, Manuel Bandeira, em muitos textos nos quais discute a prática poética, define esta nova postura estética.
Primeiramente, houve uma ruptura com o Parnasianismo, ou com a tradição lírica da época; depois, estes textos negariam as confecções e manifestariam o desejo de libertação:

Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem-comportado
(…)
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare
– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Muitas propostas da “fase heróica” do Modernismo (1922-1930) estariam incorporadas à sua poesia, entre elas: a fusão prosa/poesia, versos brancos (sem rimas), versos livres (sem métrica), nova utilização de sinais gráficos (linha pontilhada para indicar a respiração, por exemplo), o diálogo, o humor negro e a linguagem coloquial. Veja se você reconhece algumas destas características presentes no texto abaixo:

Pneumatórax

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
– Diga trinta e três.
– Trinta e três… trinta e três … trinta e três…
– Respire.

– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e
o pulmão direito infiltrado.
– Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

EXPERIÊNCIAS CONCRETISTAS

O Concretismo, poesia de vanguarda que se firmou na década de 60, também mereceu a atenção de Bandeira.

Palavras soltas, sonoridade, visualização.

A onda

a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda onda
ainda anda
aonde?
aonde?
a onda a onda

A EVASÃO E A UTOPIA

A opressão da realidade, a solidão e a doença conduziram-no à busca da evasão, à procura do lugar ideal, onde praticamente tudo seria possível:

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
– Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS – Manuel A. de Almeida

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MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS – Manuel Antônio de Almeida

Aventuras e desventuras de um típico malandro brasileiro, perseguido pelo azar e protegido pela sorte.

Este delicioso livro é uma coleção de histórias que mostram, de maneira satírica, os usos e costumes de pessoas do povo, na época do Império: “Era no tempo do rei”.

Leonardo, filho de um meirinho desastrado e de uma saloia (camponesa) infiel, foi desde bebê a causa de inúmeros desgostos e confusões.

Impulsivo e candidamente pilantra, Leonardo apronta na escola, apronta nas festas, apaixona-se atrapalhadamente por Luisinha, briga com a madrasta e foge do pai.

Vidinha acende nova paixão que leva o rapaz à prisão, ao serviço militar e a novas estrepolias que ridicularizam o major Vidigal, seu superior.

O final é casar-se com o primeiro amor, Luisinha, que ficara viúva, ajudado mais uma vez pelas senhoras em quem ele desperta o instinto maternal.

EM BUSCA DE CURITIBA PERDIDA – Dalton Trevisan

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EM BUSCA DE CURITIBA PERDIDA – Dalton Trevisan

Dalton Trevisan reúne, neste livro, textos já publicados anteriormente, com alterações que lhe dão uma fisionomia renovada. São contos, crônicas e poemas. O poema “A balada do vampiro” é uma extração do conto “O vampiro de Curitiba” reescrito em versos. Dalton viaja pela Curitiba dos seus desejos e recordações, amaldiçoando a face maquiada da cidade e perscrutando os mistérios desta Curitiba de tantas faces. Os aspectos práticos, nojentos da vida conjugal se misturam com momentos de angústia e desespero.

O Chico que se fina na pensão Nápoles, o Dario que morre sem assistência numa calçada, os bêbados que comem ingá e esperam a morte, o Serginho que perde o posto de cafetão são personagens de uma Curitiba feia que, paradoxalmente, deixou saudades.
Rosa e Augusta, gordinhas gulosas; Maria que traia João; Nelsinho cheio de gula nos olhos; tantos vidrilhos que refletem a mesma realidade mudando de posição no caleidoscópio urbano. Observe:

Em busca de Curitiba perdida – O narrador faz uma “viagem” pela antiga Curitiba e vai relembrando cenas e cenários.
Pensão Nápoles – Chico, um morador de pensões, à margem do Rio Belém. Uma vidinha medíocre, sem melhoria salarial, leva-o a mudar constantemente de pensão, de noiva, de emprego.
Lamentações de Curitiba – Visão do Juízo Final de Curitiba. Em tom profético e retórico, o narrador lamenta o desaparecimento de Curitiba.
Uma vela para Dario – O desinteresse e a frieza do público para com o ser humano.

Balada do Vampiro – Nelsinho, 20 anos, na Rua das Flores, observa o vaivém das lindas e desejosas mocinhas de Curitiba.
O cemitério dos Elefantes – Um grupo de bêbados vive às margens do Rio Belém, comendo restos e bendo cachaça.
Dá uivos, ó porta Grita, ó Rio Belém – Cenas curitibanas: o amanhecer friorento, as criadinhas buscando pão e leite, carros nas ruas, velhinhas que vão à igreja, criançada indo pra escola.
Duas rainhas – Rosa e Augusta, duas gorduchinhas. Conversa predileta: receita de bolo.

O Senhor meu marido – João, garçom em restaurante noturno, era casado com Maria. Moravam no Juvevê. O defeito dele era ser bom demais.
Canção do exílio – Não permita Deus que eu morra / sem eu daqui me vá / sem que eu diga adeus ao pinheiro / onde já não canta o sabiá / morrer ó supremo desfrute / em Curitiba é que não dá.
Quem tem medo de vampiro – O autor-narrador travestindo-se de crítico de si mesmo, reproduz com ironia as críticas, reais e possíveis a respeito do seu estilo, sua obra e sua pessoa.
Clínica de repouso – Maria coloca a mãe, dona Candinha, no Asilo Nossa Senhora da Luz.
Cartinha a um velho poeta – Sátira impiedosa contra “certo poeta” paranaense.
Noites de Curitiba – Serginho, galã da noite, garanhão, se apaixona por Marina, bailarina que tinha um coronel.
Lamentações da Rua Ubaldino – Reclamações contra a igreja que passa a utilizar sons ensurdecedores em seus cultos.
A faca no coração – João abandonado por Maria, dialoga com um amigo que o aconselha a esquecer Maria arranjando outra mulher.
Cartinha a um velho prosador – Neste texto o autor desanca em linguagem ferina a pobreza de espírito e de estilo de um “certo escritor” paranaense.
Uma negrinha acenando – Diálogo de um caminhoneiro e uma prostituta a quem deu carona.

Receita curitibana – Não existe mulher “muito” feia. O que vale é o abraço, o beijo, o delírio, o… Um basta à discriminação.
Com o facão, dói – João não trabalha, vive bêbado e, dia sim, dia não, surra a mulher, Maria e as filhas Rosinha (13) e Odete (15). As outras filhas menores também apanham.
Que fim levou o vampiro de Curitiba – Lembranças de antigas e famosas prostitutas curitibanas: Ávila, Dinorá, Alice, Uda, Otília…
Cinco Haicais – Cinco piadinhas-relâmpago.
Curitiba revisitada – Poema livre cheio de saudades da antiga Curitiba, cheio de desgosto e críticas amargas à desumana Curitiba atual.
Curitiba foi, não é mais.

SEMINÁRIO DOS RATOS – Lygia Fagundes Telles

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SEMINÁRIO DOS RATOS – Lygia Fagundes Telles

Lygia Fagundes Telles, em 14 histórias curtas, vasculha a mente e a alma de pessoas comuns que resolvem dramas pessoais, conflitos filosóficos e existenciais.

As tramas insólitas com finais abertos e indefinidos são a confirmação de que, na vida humana, nada é definitivo e explícito.
São as formigas que montam o esqueleto de um anão; são os velhinhos que se vingam da vitalidade do rapaz envenenando-lhe a comida; é o maluco que dá uma consulta a outro, fingindo-se de psiquiatra; são os ratos, que expulsam os participantes de um seminário e assumem os destinos da nação…

A crítica social, a ironia dos costumes, o humor e o ridículo das situações se fundem com uma análise do comportamento e da alma.

Um jovem casal que se transforma em passarinho e borboleta, um tigre que se humaniza convivem nesta fantástica coleção com o despertar da paixão de uma menina pelo primo botânico e com amor obsessivo de Pombas Enamoradas pelo Antenor.

Não faltam regressões catárticas no “Noturno Amarelo” e em “A Sauna” e a presença da morte no sonho que se realiza no dia seguinte.

Mesmo quando é a personagem mulher que abre sua alma, Lygia F. Telles perscruta o íntimo do ser humano, quer seja a solteirona frustrada, e de sexualidade mal resolvida em “Senhor Diretor”, quer seja a esquizofrenia do rapaz que reencarna a irmã em “WM”, quer seja a alegria de pessoas miseráveis que se esquecem de si para se alegrarem com o ganhador de uma fortuna na televisão, em “O X do problema”.

Enfim o enfoque temático e linguagem narrativa traduz de cada conto não só a condição social mas também o modo de pensar das personagens.

200 CRÔNICAS ESCOLHIDAS – Rubem Braga

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200 CRÔNICAS ESCOLHIDAS – Rubem Braga

Com uma linguagem sensível e poética, Rubem Braga capta flagrantes da vida cotidiana que ele próprio viveu ou testemunhou. São lembranças de cenas da Segunda Guerra.

As Meninas e Eu

Estava de pé na praia. Podia ser um momento feliz, em si mesmo talvez fosse; e aquele singelo quadro de beleza me fez bem; mas uma fina, indefinível tido azul, as duas meninas rindo, saltando com seus vestidos colados ao corpo, brilhando ao sol; o vento. . .

Quando ele foi repórter da frente de batalha.

A Menina Silvana

A menina estava quase inteiramente nua, porque cinco ou seis estilhaços de uma granada alemã a haviam atingido em várias partes do corpo. Os médicos e os enfermeiros, acostumados a cuidar rudes corpos de homens, inclinavam-se sob a lâmpada para extrair os pedaços de aço que haviam dilacerado aquele corpo branco e delicado como um lírio agora marcado de sangue.

São recordações de momentos marcantes de sua infância e de sua juventude com os amigos.

A equipe

Uma velha, amarelada fotografia de nosso time. No primeiro plano, vê-se a linha intrépida, ajoelhada sobre o joelho esquerdo, prestes a erguer-se, uma vez batida a chapa, e atacar com fúria. A defesa está atrás de pé pelo Brasil.

São casos de amor e amizade com mulheres fantásticas que marcaram sua vida.

As Luvas

Só ontem o descobri, atirado atrás de uns livros, o pequeno par de luvas pretas. Fiquei um instante a imaginar de quem poderia ser, e logo concluí que sua dona é aquela mulher miúda, de risada clara e brusca e lágrimas fáceis, que veio duas vezes, nunca me quis dar o telefone nem o endereço, e sumiu há mais de uma semana.

São cenas que retratam o convívio diário com outras pessoas, os choques de opiniões e interesses, o dia-a-dia do trabalho de um jornalista que precisa escrever sua crônica diária para sobreviver.

O telefone

Honrado Senhor Diretor da Companhia Telefônica: Quem vos escreve é um desses desagradáveis sujeitos chamados assinantes; e do tipo mais baixo: dos que atingiram essa qualidade depois de uma longa espera na fila.

Acima de tudo, Rubem Braga tenta redescobrir o lado humano na selva urbana de pedra, busca despertar nas pessoas a amizade e cordialidade na convivência.

MELHORES POEMAS – José Paulo Paes

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MELHORES POEMAS – José Paulo Paes

Tendência constante ao poema de forma condensada (epigrama); poesia de “essências e medulas”.
Aprendizado inicial com Bandeira, Drummond, Murilo e Oswald (traços surrealistas).

Busca da poesia que se revela nas coisas simples.
Observação precisa, linguagem enxuta; recusa ao supérfluo e a todo sentimentalismo (contato com o concretismo). Abertura para a história e para o tempo presente: incorporação do “sentimento do mundo” de Drummond (o vasto mundo perceptível através do pequeno).

Relação com as pequenas coisas concretas do mundo ao redor; a casa, a cidade natal, a infância, o jabuti do jardim, a vida familiar, a tinta de escrever, o espelho, os óculos, a bengala, o fósforo, o alfinete.
Presença da interioridade, da consciência subjetiva e da emoção, mesmo na ironia e no negativismo.

Visão minimalista

Influência da formação provinciana (Curitiba) que lembra o estilo resumido de Dalton Trevisan e o detalhismo minucioso de Guimarães Rosa que estabelece a oposição rural X urbano, particular X universal (como em Drummond).
Sátira à repressão do golpe militar de 64, ironia ao ilusório milagre econômico.

À MODA DA CASA
feijoada
marmelada
goleada
quartelada

SEU METALÁXICO

Economiopia
Desenvolvimentir
Utopiada
Consumidoidos
Patriotários
Suicidadãos

Visão irônica de si mesmo:

O POETA, AO ESPELHO, BARBEANDO-SE

o rito
do dia
o ríctus
do dia
o risco
do dia
EU?
UE?

Consciência da passagem do “pequeno mundo” provinciano para o “vasto mundo”

À TINTA DE ESCREVER

Ao teu azul fidalgo mortifica
registrar a notícia, escrever
o bilhete, assinar a promissória
esses filhos do momento. Sonhos

Diante do fato terrível que foi a amputação de sua perna esquerda, o poeta compõe um poema que sintetiza toda sua obra: a experiência pessoal serve para prestar contas do destino de um homem

À MINHA PERNA ESQUERDA

Pernas
para que vos quero?
Se já não tenho
por que dançar,
Se já não pretendo
ir a parte alguma.
Pernas?
Basta uma.

Forma epigramática: poemas curtos com um tom de chiste, ironia sutil

L’AFFAIRE SARDINHA

O bispo ensinou ao bugre
Que pão não é pão, mas Deus
Presente em eucaristia
E como um dia faltasse
Pão ao bugre, ele comeu
O bispo, eucaristicamente

Paródia e intertextualidade

CANÇÃO DO EXÍLIO FACILITADA

lá?
ah!
sabiá…
papá…
maná…
sofá…
sinhá…
cá?
bah!

Experiências concretistas

O SUICIDA OU DESCARTES ÀS AVESSAS

cogito
ergo
pum!

EPITÁFIO PARA UM BANQUEIRO

negócio
ego
ócio
cio
O

Interioridade, consciência subjetiva e Dora, a musa de sua vida.

MADRIGAL
Meu amor é simples, Dora,
como água e o pão.
Como o céu refletido
Nas pupilas de um cão.

O SANTO E A PORCA – Ariano Suassuna

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O SANTO E A PORCA – Ariano Suassuna

Esta deliciosa comédia é uma reprodução da comédia latina Aulularia, de Plauto.

A avareza doentia de Euricão vai deixá-lo pobre e solitário, como ele se dizia ser e vivia, para evitar os fantasmagóricos “ladrões” que o assediavam.

Caroba criada de Euricão, para se casar com Pinhão, que trabalha para o milionário Eudoro, arquiteta um mirabolante, audacioso, confuso e hilário plano.

Todos se deixam envolver tendo de um lado os “oprimidos” de todas as espécies e, de outro, os supostos opressores Euricão e Eudoro.

As cenas apresentam a realidade eterna da mediocridade dos poderosos exploradores, vencida pela criatividade dos “humildes”, num cenário de usos e costumes nordestinos.

O PAGADOR DE PROMESSAS – Dias Gomes

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O PAGADOR DE PROMESSAS – Dias Gomes

Esta é uma peça de teatro ganhadora de inúmeros prêmios e que, transformada em filme, recebeu a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes.

Os choques entre a crença ingênua e a religião dogmática; a credulidade simples e a armação maliciosa; a sinceridade das intenções e a completa distorção dos fatos; a inocência e a malícia; a verdade e seu falseamento são alguns dos componentes do embate entre a cultura do campo e a da cidade, cuja raiz é a má vontade que coloca a incomunicabilidade como obstáculo intransponível a dividir as pessoas.

Zé-do-Burro é a vítima-símbolo do criminoso, agressivo, massacrante e cruel sistema social e político de que até a religião se torna instrumento.