TERRAS DO SEM FIM – Jorge Amado

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TERRAS DO SEM FIM – Jorge Amado

A exploração do cacau trouxe para a região de Ilhéus, no sul da Bahia, o desenvolvimento e com este os mais diversos tipos humanos que ali aportavam, atraídos pelas histórias de terras férteis e dinheiro em abundância. Para todos, que chegavam, Ilhéus era a primeira ou a última esperança.

Dentre as pessoas vindas de longe, iludidas por essa febre, encontravam-se, no mesmo navio, o lavrador Antônio Vítor que sonhava com uma roça de cacau só sua, o aventureiro João Magalhães, jogador de cartas trapaceiro e falso engenheiro militar, que se via ganhando muito dinheiro no carteado, graças ao “azar” dos velhos coronéis milionários, e a prostituta Margot que deixara Salvador para encontrar o amante, o advogado Dr.Virgílio que, na esperança de riqueza fácil, já se encontrava em Ilhéus, esperando colocar seu conhecimento de leis a serviço da ambição dos coronéis.

Após o desembarque, encontraram em Ilhéus e vilarejos adjacentes: Ferradas e Taboca, sociedades em formação, conturbadas pela ganância dos poderosos, onde a lei era a dos mais fortes e corajosos, tornando-se por isso selvagens e violentas.

Depararam-se com o conflito entre dois grandes latifundiários: o Coronel Horácio e a família Badaró que, em busca de expansão do patrimônio e força política, lutavam pela posse das matas do Sequeiro Grande, que ficavam entre as duas propriedades.

Coronel Horácio, ex-tropeiro e empregado de uma roça no Rio-do-Braço, enriquecera plantando cacau. Como próspero fazendeiro, ajudara a construir a capela de Ferrada e a igreja de Taboca, mantendo assim sua força política no local. Viúvo, casara-se novamente com a bela e jovem Ester, que lhe deu um filho, seu orgulho.

Tudo o que fazia era em nome de um futuro brilhante para esse menino. Seu grande amor era a esposa, mulher fina, inteligente e culta; falava o francês e adorava música. Era feliz pelo que ela representava. Ester, no entanto, não o amava.

Para ela, a vida na fazenda era um tédio, um martírio; vivia apavorada com medo de insetos e cobras. Isso se refletia no frio relacionamento sexual com o marido, que tudo relevava, em nome da paixão.

Os advogados eram bem vindos em Ilhéus, onde faziam fortunas. Os grandes latifundiários, quando queriam se apossar de um roçado vizinho, para, gananciosamente, aumentar seu patrimônio, solicitavam de um advogado um “caxixe”, documento falso de propriedade, que expulsava, o pequeno lavrador de seu roçado.

Assim, de um dia para outro, este se via forçado a deixar sua lavoura, conquistada, na maioria das vezes, com muito sacrifício. Se, no entanto, punha resistência, era morto pelos jagunços do coronel que, em “tocaia”, esperavam-no passar por uma das estradas solitárias do sertão.

Virgílio e Margot viviam em casas separadas para evitar comentários do preconceituoso povoado de Tabocas. Apesar disso, ele passava a maior parte do dia em companhia da amante. Pareciam felizes. Ao contratar os serviços de Virgílio para regularizar a medição e os documentos de posse das terras de Sequeiro Grande, o coronel Horácio convida-o para um jantar em sua casa. Durante esse evento, Virgílio conhece Maneca Dantas, compadre e amigo de Horácio, e Ester que, ao final, aceitara tocar piano para eles.

Fica fascinado por ela que, por sua vez, encantara-se com a voz, a cabeleira loira, o olhar lânguido e as maneiras finas do jovem doutor. Nessa noite, Horácio se surpreendeu com a mudança da mulher na cama; mais calorosa e receptiva, entregava-se com paixão; achou que ela ainda o amava.

Na madrugada dessa mesma noite, quando todos já dormiam, Firmo chegou à fazenda. Após ter acordado todos, contou-lhes sobre o atentado que havia sofrido. O negro Damião, o melhor matador dos Badaró, esperava-o em uma tocaia, mas felizmente errara o tiro.

O pequeno sítio de Firmo localizava-se entre a mata e a propriedade dos Badaró, que já haviam proposto a sua compra. Ofereceram até mais do que a roça valia, mas Firmo, aconselhado por Horácio, não a vendeu.

Para Horácio, aquela tentativa de assassinato comprovava que eles estavam decididos entrar na mata de qualquer jeito e que a luta pela posse de Sequeiro Grande iria começar. Pede a Damião e Maneca Dantas para percorrerem todos os pequenos sítios que ficavam entre as duas propriedades e explicitarem sua proposta: todos que o ajudassem, não só manteriam suas terras como também teriam uma porção de Sequeiro Grande.

As terras na outra margem do rio, que cortava a mata, seriam divididas entre os que o ajudassem. Além disso, como a fazenda não seria uma lugar seguro, aconselha Ester a passar com o filho uns tempos no palacete de Ilhéus.

No caminho para Ilhéus, esperando Horácio resolver uns negócios, Ester passou quatro dias em Tabocas, onde conversou muito com Virgílio. Cada vez mais apaixonada, via no jovem advogado uma maneira de sair daquele lugar horrível, e este, por sua vez, não via a hora de poder se encontrar com ela a sós.

Os Badaró eram uma das famílias mais ricas e poderosas da região. Don’Ana, filha de Sinhô Badaró, era conhecida em Ilhéus como moça séria e enraizada à terra; raramente deixava a fazenda e pouco ligava para as festas da igreja e conversas de comadres.

Enquanto Sinhô Badaró era pela paz, matando somente em caso de extrema necessidade, Juca Badaró, seu irmão, resolvia tudo a tiro e morte. Juca era casado, sem filhos. Olga, sua esposa, passava, a maior parte do tempo, aos cochichos em Ilhéus e ele, por sua vez, nas lavouras de cacau, ou com as amantes.

Quando ela vinha para a fazenda, era para reclamar da vida e do marido. Don’Ana tinha pouco tempo e motivo para se condoer com ela. Como Badaró, não era contra as aventuras extraconjugais dos homens da família. Cumpriam com sua obrigação e não deixavam faltar nada, assim fora seu pai e assim deveriam ser todos os homens. Para ela, Olga era uma estranha na família.

Antônio Vítor, que, no navio, sonhava com sua volta para o Ceará, rico e bem vestido, abandonou essa ilusão, quando notou que jagunços e lavradores deixavam todo dinheiro ganho em contas no próprio armazém da fazenda e que, no final do mês, recebiam um saldo miserável, quando havia saldo. Contratado para a lavoura, tornou-se capanga de Juca Badaró, após ter-lhe salvo a vida.

A sua coragem o promoveu: trocou a foice pela espingarda; acompanhava Juca a todos os lugares. A namorada, deixada em sua cidade, estava muito longe; não existia mais. Sonhava com Raimunda, mulata de nariz chato, irmã de leite de Don’Ana e afilhada do Sinhô Badaró; estava se apaixonando por ela.

Após medição da mata, Virgílio registrou-a no cartório de Venâncio. A posse foi feita em nome de Horácio, Maneca Dantas, Braz, viúva Merenda, Firmo, Jarde e de Dr. Jessé Freitas. Os felizes proprietários não se regozijaram por muito tempo. Numa tarde, os homens de Badaró atearam fogo no cartório, perdendo-se, assim, todos os documentos.

Juca Badaró agora tinha que medir a mata com urgência para dar entrada nos papéis de posse. Como seu engenheiro viajara, contratou João Magalhães para executar a tarefa. Este que não era militar e muito menos engenheiro e que, naquele fim de mundo, não estava em busca apenas do dinheiro que lhe deixavam as mesas de pôquer, achou a oferta de Juca irrecusável; não só fez o serviço, como também passou a se interessar por Don’Ana.

O olhar afetuoso da moça sobre ele fez com que se colocasse à disposição dos Badaró, passando a discutir sobre as terras como um Badaró, sentia-se um parente.

Como Virgílio estava apaixonadíssimo por Ester, acabou brigando com Margot que, em seguida, caiu nos braços de Juca Badaró. Este se interessou por ela, desde que a vira no navio para Ilhéus. Nessa cidade, a força dos coronéis era medida pelas casas que possuíam.

Cada qual levantava uma melhor e, aos poucos, as famílias iam se acostumando e demorar mais tempo na cidade do que nas fazendas. O palacete de Horácio era maravilhoso e, ali, Ester recebia Virgílio; amavam-se e planejavam fugas às escondidas. Apesar disso, toda cidade já comentava o caso, rindo-se do coronel Horácio.

As emboscadas continuaram acontecendo. Numa noite, o irmão Merenda com três cabras de Horácio, atacaram Sinhô Badaró no atalho. Nessa mesma noite, Juca e seus homens cometeram uma série de violências na região. Mataram os irmãos Merenda, entraram na roça de Firmo e queimaram tudo, não o mataram porque ele não se encontrava em casa naquele momento.

Nas cidades distantes falavam-se das lutas em Sequeiro Grande. Diariamente chegavam jagunços de outras regiões que logo eram recrutados por alguém de um dos lados. O preço das armas e munições aumentavam; a luta exigia muito dinheiro.

Uma noite, como Horácio estava na cidade, Virgílio, impossibilitado de se encontrar com Ester, convidou Maneca Dantas para saírem. No cabaré, encontrou Margot e com ela dançou uma valsa. Quando Juca, que estava na sala de carteado, soube, entrou no salão a tempo de impedir o bis. Ao passar por Virgílio, puxando a mulher, insultou-o. Maneca Dantas, prudentemente, impediu-o de reagir.

Juca espalhou pela cidade que arrancara a mulher dos braços de Virgílio e que este nada fizera; era um cagão. Ao saber disso, Horácio explica a Virgílio que, diante daquela ofensa, se ele quisesse continuar advogando e ser respeitado na cidade, teria de mandar matar Juca.

O coronel já decidira, iria mandar matá-lo de qualquer jeito, pois este já tinha ido longe demais, acabando com quatro de seus homens. Apenas queria que fosse Virgílio a dar a ordem ao jagunço. Depois de relutar muito, o advogado concordou. Horácio ficou muito feliz; sabia então que seu amigo entraria para o rol dos homens valentes de Ilhéus.

A emboscada armada para Juca Badaró não foi bem sucedida. O homem na tocaia ficou morto em seu lugar e Antônio Vítor fora ferido para salvar o patrão. Outra infelicidade assolou a vida de Horácio; febre, que matara Sílvio, infectara-lhe também. Indiferentes aos comentários maldosos da cidade, Ester voltou para Tabocas em companhia de Virgílio.

Ali, desdobrando-se em cuidados, ficou ao lado da cabeceira do marido os sete dias em que esteve entre a vida e a morte. Dr. Jessé fez o mesmo, parou tudo, para socorrer o patrão. Graças, talvez, ao corpo forte de homem sem vícios e enfermidades, coronel Horácio não morreu.

Entretanto, logo em seguida, Ester caiu doente. Febre altíssima e delírios comeram-lhe toda a beleza. Como a febre não cedia, transportaram-na para Ilhéus, mas foi tudo em vão; Ester não agüentou, morreu.

A luta progredia, numa corrida para ver quem chegava primeiro. De um lado estavam os Badaró derrubando a mata e de outro os homens de Horácio, o barulho recomeçaria quando os dois grupos se encontrassem. Nesse período, uma festa de casamento agitou Ilhéus.

Don’Ana casou com João Magalhães que se mostrara suficientemente corajoso e envolvido com a família para continuar o trabalho dos Badaró. Raimunda e Antônio Vítor se casaram também. Todavia, durante a lua de mel de Don’Ana, uma tragédia se abateu sobre os Badaró.

Quando passava um fim de semana com Margot em Ilhéus, Juca foi assassinado. Eles sabiam quem tinha sido o mandante e sabiam também que um simples processo não resolveria a questão; Horácio deveria ser morto, mas também sabiam que isso não seria fácil.

Com a intervenção do governo federal no estado da Bahia, o governador teve de renunciar e a oposição tomou o poder. Nessa esteira, em Ilhéus, o interventor demitiu o prefeito e nomeou o Dr. Jessé para o cargo; o juiz também foi transferido, viria outro em seu lugar. Naquele momento, Sinhô Badaró tornara-se oposição e Horácio, que era governo, já imaginava Virgílio como deputado federal. Nesse ínterim a luta pela mata continuava, com muitos mortos e roças de cacau em chamas.

O cerco da casa Grande dos Badaró pelos homens de Horácio pôs fim na luta. Sinhô Badaró ainda resistiu por quatro dias e noites. Quando este caiu ferido, Don’Ana mandou-o para Ilhéus. Excetuando Don’Ana, Capitão Magalhães fez com que as outras mulheres, Olga e Raimunda, fossem também com o Sinhô. No final todos fugiram e o cerco culminou com o incêndio da casa grande.

Meses depois, Horácio foi levado a julgamento e, por unanimidade de votos, foi considerado inocente. Alguns dias mais tarde, bastante acabrunhado, procurou o compadre Maneca Dantas para lhe dizer que mandaria matar Virgílio.

Encontrara, entre os papéis de Ester, algumas cartas de Virgílio, que comprovavam que tinham sido amantes. Deu-se conta, atordoadamente, que toda mudança ocorrida no seu relacionamento com a esposa era por causa do advogado; os dois o haviam traído.

No final daquele mesmo dia, Maneca Dantas encontrou-se com Virgílio que estava de partida para Ferradas. Sem sucesso, Maneca, que gostava muito do advogado, tentou convencê-lo a não viajar naquela noite. Diante de tanta teimosia, contou-lhe os planos do compadre.

Virgílio agradeceu, mas confirmou que não voltaria atrás. Explicando-se, disse que ficara com Horácio, porque ali tudo ainda era Ester. Quando ela ainda vivia, tinha a esperança de ir embora, mas nada mais fazia sentido. Para ele, o triste era viver sem Ester; iria morrer corajosamente, segundo as leis do lugar. Despediu-se de Maneca e partiu. Naquela mesma noite foi morto em uma emboscada, a caminho de Ferradas.

A nomeação de um bispo para Ilhéus também era sinal de progresso e dentre os que saíram às ruas para saudá-lo estavam Horácio, Maneca Dantas, Sinhô Badaró, que ainda coxeava um pouco, e Don’Ana e esposo. Após as eleições, Dr. Jésse foi levado à Câmara Federal como deputado do governo.

Graças a ele, um decreto criou o município de Itabuna – ex Tabocas -, desmembrando-o de Ilhéus. Horácio elegeu Maneca Dantas para prefeito de Ilhéus e o Sr. Azevedo para prefeito de Itabuna.

“Um baiano romântico e sensual”

Autor dos mais respeitados na literatura brasileira, desde os anos trinta, Jorge Amado tem pontificado e feito sucesso de crítica e de público. Sua obra explora os mais diferentes aspectos da vida baiana: a posse violenta da terra, com as conseqüências sociais terríveis, como ocorreu na colonização da zona cacaueira do Sul da Bahia, está magistralmente imortalizada em Cacau, São Jorge de Ilhéus, Gabriela, Cravo e Canela e Terras do Sem Fim.

Os tipos folclóricos das ladeiras de Salvador estão presentes em Tenda dos Milagres, Capitães da Areia, Mar Morto. A literatura engajada, comprometida com a ideologia política do Autor faz-se presente em Os Subterrâneos da Liberdade, O Cavaleiro da Esperança. Os perfis de mulheres extraordinárias que comovem e seduzem estão em Tieta do Agreste, Dona Flor e seus Dois Maridos, Gabriela e muitos outros…

Primeiro é preciso que se tenha em mente o “descompromisso” do Autor com o registro formal culto, para se entender melhor o comentário que se faz constantemente sobre seu “estilo”. Jorge Amado já se auto proclamou “um baiano romântico e sensual”.

É o que a crítica costuma rotular de contador de estórias. Não segue, intencionalmente, o rigor da técnica de construção literária e nem dá a mínima para as normas gramaticais e ortográficas.

Incorpora, com a maior naturalidade, à língua escrita, termos e expressões típicas da língua oral e de sua Bahia idolatrada. Não espere o leitor, portanto, defrontar-se com um texto primoroso, regular, pasteurizado. Entretanto, quem se aventurar nos meandros de suas páginas, esteja preparado para o deguste de um texto saboroso e suculento que transpira a trópico, a calor, a vida. Suas histórias são tramadas sobre o povo simples e rude, numa língua que esse povo fala e entende.

A MORTE E A MORTE DE QUINCAS BERRO D’ÁGUA – Jorge Amado

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A MORTE E A MORTE DE QUINCAS BERRO D’ÁGUA – Jorge Amado

Autor dos mais respeitados na literatura brasileira, desde os anos trinta, Jorge Amado tem pontificado e feito sucesso de crítica e de público. Sua obra explora os mais diferentes aspectos da vida baiana: a posse violenta da terra, com as conseqüências sociais terríveis, como ocorreu na colonização da zona cacaueira do Sul da Bahia, está magistralmente imortalizada em Cacau, São Jorge de Ilhéus, Gabriela, Cravo e Canela e Terras do Sem Fim.

Os tipos folclóricos das ladeiras de Salvador estão presentes em Tenda dos Milagres, Capitães da Areia, Mar Morto. A literatura engajada, comprometida com a ideologia política do Autor faz-se presente em Os Subterrâneos da Liberdade, O Cavaleiro da Esperança. Os perfis de mulheres extraordinárias que comovem e seduzem estão em Tieta do Agreste, Dona Flor e seus Dois Maridos, Gabriela e muitos outros…

Primeiro é preciso que se tenha em mente o “descompromisso” do Autor com o registro formal culto, para se entender melhor o comentário que se faz constantemente sobre seu “estilo”. Jorge Amado já se autoproclamou “um baiano romântico e sensual”. É o que a crítica costuma rotular de contador de estórias.
Não segue, intencionalmente, o rigor da técnica de construção literária e nem dá a mínima para as normas gramaticais e ortográficas. Incorpora, com a maior naturalidade, à língua escrita, termos e expressões típicas da língua oral e de sua Bahia idolatrada.

Não espere o leitor, portanto, defrontar-se com um texto primoroso, regular, pausterizado. Entretanto, quem se aventurar nos meandros de suas páginas, esteja preparado para o deguste de um texto saboroso e suculento que transpira a trópico, a calor, a vida. Suas histórias são tramadas sobre o povo simples e rude, numa língua que esse povo fala e entende.

O texto que serve de suporte a este estudo centra-se na fixação dos tipos marginalizados para, por intermédio deles, analisar e criticar toda a sociedade. A ação dá-se, basicamente, em Salvador e gira em torno da boêmia desqualificada das cercanias do cais do porto.

A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água é uma das melhores narrativas publicadas por Jorge Amado. Veio a lume em 1958 e conquistou desde logo a admiração de quantos dela se aproximaram. Nitidamente imbricada no Realismo Mágico, mistura sonho e realidade; loucura e racionalidade; amor e desamor; ternura e rancor, de forma envolvente e instigante:

Joaquim Soares da Cunha foi funcionário público, pai e marido exemplar até o dia em que se aposentou do serviço público. A partir daí, jogou tudo para o alto: família, respeitabilidade, conhecidos, amigos, tradição. Caiu na malandragem, no alcoolismo, na jogatina. Trocou a vida familiar pela convivência com as prostitutas, os bêbados, os marinheiros, os jogadores e pequenos meliantes e contraventores da ralé de Salvador.

Sua sede era saciada com cachaça e seu descanso era no ombro acolhedor
da prostituta. Fez-se respeitado e admirado entre seus novos companheiros de infortúnio: era o paizinho, sábio e conselheiro, sempre disposto a mais uma farra ou bebedeira.

Sua opção pela bandalha representa o grito terrível do homem dominado e cerceado por preconceitos de toda sorte e que um dia rompe as amarras e grita por liberdade.

Morreu solitariamente sobre uma enxerga imunda e sua morte detonou todo o processo de reconhecimento/desconhecimento por parte da família real e da família adotada.

Os amigos durante o velório se embriagam e resolvem, bêbados, levar o defunto para um último “giro” pelo baixo-mundo que habitavam. O passeio passa pelos bordéis e botecos, terminando em um saveiro, onde há comida e mulheres. Vem uma tempestade e o corpo de Quincas cai ao mar.

Ao renunciar à família, mudar de ambiente e de costumes, Quincas morreu pela primeira vez; na solidão de seu quartinho imundo, envolvido por farrapos e curtindo a última bebedeira, morreu pela segunda vez; ao cair ao mar, não deixando qualquer testemunho físico de sua passagem pela vida, morreu pela terceira vez.

A narrativa poderia chamar-se A morte e a morte e a morte de Quincas Berro D’Água, acrescentando-se uma morte ao protagonista, que ficaria bem de acordo com a progressão da trama.

FOGO MORTO – José Lins do Rego

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FOGO MORTO – José Lins do Rego

O regionalismo de 30

Publicado em 1943, Fogo Morto é a última obra-prima do regionalismo neo-realista surgido no Brasil durante a década de 30.

A prosa de ficção dos anos 30 deu continuidade ao projeto dos primeiros modernistas, a chamada fase heróica, de 1922, de aprofundamento nos problemas brasileiros através de uma literatura regionalista, de caráter neo-realista, preocupada em apresentar os problemas e as desigualdades sociais do Brasil.

Prevalece uma narrativa direta, sem as ousadias formais dos romances de Oswald de Andrade, como Memórias Sentimentais de João Miramar, ou do Macunaíma de Mário de Andrade.

Linguagem

Os regionalistas de 30, como Jorge Amado, Graciliano Ramos e José Lins do Rego, enfatizam, assim como o modernismo inicial, o uso da linguagem coloquial, popular, na obra de arte literária. Mas há uma diferença fundamental.

Enquanto os modernistas de 22 procuravam “escrever errado”, reproduzindo as incorreções gramaticais da fala popular de maneira programática na linguagem literária, os regionalistas de 30, já livres das convenções da linguagem parnasiana acadêmica, escrevem com simplicidade, apenas ocasionalmente desrespeitando a norma culta da língua portuguesa.

O ciclo da cana-de-açúcar

Fogo Morto é também o último suspiro da série de romances a que o próprio José Lins do Rego, grande contador de histórias, diretamente influenciado pelo regionalismo do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, haveria de chamar de O ciclo da cana-de-açúcar, que têm como matéria básica o engenho Santa Rosa, do velho José Paulino, avô de seu alter-ego, Carlos de Melo.

Em nota à primeira edição de Usina (1936), considerado por José Lins como o último romance da série, o próprio escritor nos explica suas intenções ao realizar este ciclo de romances:

Com Usina termina a série de romances que chamei um tanto enfaticamente de “Ciclo da Cana-de-açúcar”.

A história desses livros é bem simples — comecei querendo apenas escrever umas memórias que fossem as de todos os meninos criados nas casas-grandes dos engenhos nordestinos. Seria apenas um pedaço de vida o que eu queria contar.

Sucede, porém, que um romancista é muitas vezes o instrumento apenas de forças que se acham escondidas no seu interior.

Veio, após o Menino de Engenho, Doidinho, em seguida Bangüê. Carlos de Melo havia crescido, sofrido e fracassado. Mas, o mundo do Santa Rosa não era só Carlos de Melo. Ao lado dos meninos de engenho havia os que nem o nome de menino podiam usar, os chamados “moleques de bagaceira”, os Ricardos.

Ricardo foi viver por fora do Santa Rosa a sua história que é tão triste quanto a do seu companheiro Carlinhos. Foi ele do Recife a Fernando de Noronha. Muita gente achou-o parecido com Carlos de Melo. Pode ser que se pareçam.

Viveram tão juntos um do outro, foram tão íntimos na infância, tão pegados (muitos Carlos beberam do mesmo leite materno dos Ricardos) que não seria de espantar que Ricardo e Carlinhos se assemelhassem. Pelo contrário.

Depois do Moleque Ricardo veio Usina, a história do Santa Rosa arrancado de suas bases, espatifado, com máquinas de fábrica, com ferramentas enormes, com moendas gigantes devorando a cana madura que as suas terras fizeram acamar pelas várzeas.

Carlos de Melo, Ricardo e o Santa Rosa se acabam, têm o mesmo destino, estão tão intimamente ligados que a vida de um tem muito da vida do outro. Uma grande melancolia os envolve de sombras. Carlinhos foge, Ricardo morre pelos seus e o Santa Rosa perde até o nome, se escraviza. Rio de Janeiro, 1936.J. L. R.

Em Menino de Engenho (1932), primeiro romance do ciclo, José Lins do Rego mostra, de maneira lírica e saudosista, o ambiente de engenho em que o garoto Carlinhos é criado após seu pai, desequilibrado mental, ter assassinado a mãe.

Criado entre os “moleques de bagaceira”, o garoto cresce sob o poder patriarcal avassalador do avô José Paulino. Aos doze anos, conhece a sexualidade através da “rapariga” Zefa Cajá, de quem contrai uma “doença do mundo”. Por fim, é mandado ao colégio interno, para “endireitar”, perder os hábitos da “bagaceira”, e se tornar um legítimo “senhor de engenho”.

Após descrever a vida de Carlos de Melo no colégio interno, em Doidinho (1933), José Lins do Rego nos mostra o seu retorno ao Santa Rosa, aos 24 anos, já formado em Direito, no seu romance seguinte, Bangüê (1934). Carlinhos tenta, então, se readaptar ao engenho, sempre permeado por uma sensação de impotência frente ao espírito autoritário de seu velho avô.

Após a morte do velho José Paulino, Carlos acaba por levar o Santa Rosa à ruína, vende o engenho ao tio Juca, e abandona para sempre as suas terras. Considerado por José Lins o último livro do ciclo, Usina (1936) apresenta o engenho transformado na usina Bom Jesus.

Dirigida pelo Dr. Juca, a usina vai perdendo a sua força. Pressionada por interesses estrangeiros e pela usina Santa Fé, que domina toda a região, acaba invadida por miseráveis em busca de alimentos e, por fim, o Dr. Juca a vende e a abandona melancolicamente. Mas o engenho Santa Rosa, assim como alguns de seus moradores, voltaria a aparecer na obra-prima de José Lins do Rego, Fogo Morto.

Decadência

O ciclo apresenta, portanto, o processo de decadência dos engenhos da zona da mata nordestina, que perdem seu poder e são engolidos pelas forças emergentes da usina e do capitalismo moderno.

Obra-prima

Embora desse o ciclo por encerrado com a publicação de Usina, em 1936, José Lins do Rego lançaria Fogo Morto sete anos mais tarde. Nesta obra, retoma a mesma idéia nuclear dos romances anteriores, assim como o engenho Santa Rosa e a figura do coronel José Paulino, ainda que de maneira periférica.

O romance, portanto, pode ser considerado com um integrante tardio do “ciclo” que José Lins havia considerado acabado.

Mais do que isso, acaba por ser a maior obra deste mesmo ciclo, pois, ao minimizar o caráter autobiográfico e nostálgico das obras precedentes, o romancista paraibano acrescenta à sua extraordinária facilidade de narrar, que mais lembra um contador de histórias marcado pela oralidade e pela naturalidade, a objetividade e a consciência compositiva que o caráter sentimental e espontâneo das obras anteriores encobria.

Em Fogo Morto, portanto, o romancista maduro e consciente se sobrepõe ao memorialista nostálgico para construir sua obra-prima: síntese, aprofundamento e condensação de todas as outras.

Espaço e tempo

O romance se passa no município de Pilar, na Zona da Mata paraibana, às margens do Rio Paraíba, distante cerca de 50 quilômetros de João Pessoa, próxima a Itabaiana. A maior parcela da ação se desenvolve nas terras do engenho Santa Fé, nos arredores do Pilar. Na cidade, passa-se boa parte da última seção da obra.

O desenrolar dos acontecimentos se dá durante os primeiros anos do século XX, com uma regressão temporal à época da fundação do engenho Santa Fé, em 1850. E embora seja traçada rapidamente a história do engenho até o momento narrado, as ações em si não duram mais do que alguns meses.

O título

Os “engenhos” do Nordeste eram, originalmente, estabelecimentos agrícolas destinados à cultura da cana e à fabricação do açúcar. Com a ascensão das usinas, que passaram a comprar dos engenhos sua produção bruta, a cana de açúcar ainda não processada, para fabricar o açúcar, a maior parte desses engenhos foi, aos poucos, deixando de “botar”, moer a cana para a fabricação do açúcar.

Passam, então, apenas a vender a matéria prima às usinas, tornando-se engenhos “de fogo morto”. Perdem, assim, boa parte de seu poder, tornando-se reféns dos preços pagos pelas usinas. É como se encontra, ao final de Fogo Morto, o decadente engenho Santa Fé.

Estrutura Triangular

Fogo Morto é dividido em três partes. Cada uma delas traz no título o nome de um dos três personagens principais do romance. Mas as três partes se entrecruzam, os personagens aparecem ao longo de todo o livro.

O coronel Lula de Holanda, senhor de engenho inepto e decadente, o mestre José Amaro, seleiro pobre e orgulhoso, e Vitorino Carneiro da Cunha, o papa-rabo, herói quixotesco, defensor estabanado dos oprimidos. É Vitorino, misto de Dom Quixote e Sancho Pança, em suas andanças e na sua busca ingênua de justiça, quem estabelece as relações entre todas as personagens, servindo como ponto central da narrativa.

Primeira Parte: O Mestre José Amaro

A primeira parte do romance centra-se na casa, à beira da estrada no engenho Santa Fé, do Mestre José Amaro, seleiro orgulhoso e machista, que recusa-se a ser dominado por qualquer um, só trabalha para quem escolhe e admira o cangaceiro Antônio Silvino.

Boa parte deste trecho da obra se constrói através dos diálogos travados por José Amaro com os passantes. Entre estes está o compadre Vitorino Carneiro da Cunha, apelidado pelas crianças de Papa-rabo. O Mestre irrita-se com o Coronel Lula de Holanda, dono das terras em que mora, e que sempre vê cruzando a estrada em seu cabriolé, sem jamais parar para cumprimentá-lo.

Vai adiando, portanto, atender ao chamado do Coronel para que vá com ele conversar na casa grande. Vemos o lento processo de enlouquecimento de Marta, sua filha, em quem José Amaro bate para tentar curar.

O Mestre recebe uma encomenda de compras de Antônio Silvino e sente-se muito orgulhoso em poder ajudá-lo. Seu caráter fechado e ranzinza vale-lhe a fama de se transformar em “lobisomem”, e as pessoas temem encontrar com ele à noite. Por fim, tem que mandar a filha para o hospício em Recife e acaba por atender ao chamado do coronel Lula, que lhe ordena que se retire de suas terras.

VIAGEM NO ESPELHO – Helena Kolody

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VIAGEM NO ESPELHO – Helena Kolody

Viagem no Espelho, de Helena Kolody, reúne livros publicados pela autora, de 1941 a 1986. Nessa publicação, encontram-se vários poemas que têm como assunto a própria poesia (metapoesia). O tempo constitui “a nota mais relevante da obra”, no dizer do crítico Antonio Manoel.

É obra representativa da poesia breve, portanto, nela, predominam os poemas curtos. Cultora do haikai, Helena Kolody tem o poder de transformar sua sabedoria de vida em poemas luminosos, ainda que seus temas possam ser densos e mesmo trágicos: o amor, a morte, o tempo, o envelhecimento, a banalização da vida, a tecnologia destrutiva e a falta de fraternidade entre os seres humanos.

Helena Kolody – A sensível percepção de mundo por Andressa Villar

Muito briguei eu comigo,
tive raiva,
me insultei.
E, de incontido desgosto,
em meu próprio ombro chorei.
(Eu Comigo – Helena Kolody)

Helena Kolody é uma das figuras mais importantes das letras paranaenses, embora ainda não haja gravado o seu nome no quadro mais amplo do reconhecimento nacional. Poetisa de atitudes discretas, alheia às autopromoções.

Contudo, pelo tom da voz, pela delicadeza dos sentimentos, pela autenticidade lírica e pela temática, ela é, com certeza, a poetisa representativa de seu estado. E isso não apenas pela maturidade regional, mas também por haver acrescentado a voz do imigrante à temática da poesia brasileira.

Os pais de Helena Kolody eram ucranianos. Conheceram-se e se casaram no Brasil. A primeira filha do casal, Helena, nasceu no dia 12 de outubro de 1912. Fez o curso primário em Rio Negro – PR e, em seguida, mudou-se para Curitiba, onde ficou por dois anos. Voltou a residir em Mafra/Rio Negro, onde estudou piano, pintura e escreveu seus primeiros versos aos 12 anos.

Seu primeiro poema publicado intitulava-se “A Lágrima”. Ela estava, então, com 16 anos. Nesse início de carreira, a maior divulgadora da obra de Helena Kolody foi a revista “Marinha”, de Paranaguá. Com 20 anos de idade, Helena iniciou a carreira de professora.

Trabalhou em diversos colégios. Só no atual Instituto de Educação, de Curitiba, lecionou por 23 anos. Exerceu apaixonadamente a profissão do magistério, a qual foi muito importante para sua formação e para a qual a Escola Nova (movimento eclético e de origens muito complexas) de certa forma colaborou para seu pioneirismo e arrojo e contribuiu na renovação dos conceitos e das normas educacionais.

“Paisagem Interior”, seu primeiro livro, foi dedicado ao pai, Miguel Kolody. Porém, ele não pôde vê-lo, pois faleceu dois meses antes de a obra ser publicada, no ano de 1941. Na seqüência, são publicados: “Música Submersa”, “A Sombra do Rio”, “Vida Breve”, “Era Espacial” e “Trilha Sonora”, “Tempo”, “Correnteza”, “Infinito Presente”, “Sempre Palavra”, “Poesia Mínima”, “Viagem no Espelho”, “Ontem Agora”, “Reika”.

Para ela, o amor ficou sendo só um sentimento, um sonho, e Helena Kolody soube muito bem transformar esses sentimentos em palavras melodiosas, o que levou alguns poemas seus a serem musicados. São versos carregados de um lirismo puro, que embalam reminiscências de amores de outrora (até mesmo a própria palavra tornou-se antiga) quando não era vergonhosa a expressão verdadeira dos sentimentos, como vemos no poema Cântico de 1941: A luz do teu olhar é a estrela solitária / Da noite deste amor, que é feito de silêncio.

Helena Kolody não participou do Movimento Modernista por ser retraída, mas buscava sempre manter-se informada e tinha consciência da modernidade de seus versos. Nessa época, o Movimento Modernista buscava uma superação dos pressupostos que ancoraram a Semana de Arte Moderna. Alguns poetas já tinham trilhado um caminho diferente dos versos parnasianos, restando, pois, amadurecer as idéias já plantadas.

Em seu livro Música Submersa (1945), figura o haikai “Pereira em flor”, o qual foi elogiado por Carlos Drummond de Andrade, que diz ter ficado feliz com poemas como esse, “em que à expressão mais simples e discreta se alia uma fina intuição dos ‘imponderável’ poéticos”. Eis o poema: De grinalda branca, / Toda vestida de luar, / A pereira sonha.

O haicai é uma forma de poesia japonesa, pequeno poema de três versos, com cinco, sete, e cinco sílabas poéticas sucessivamente. Com sua escrita icônica, os haikais japoneses têm sua origem no canto, faziam parte de diários de viagem, numa interação prosa/poesia e eram desenhados em um quadro, fazendo parte de um todo plástico.

A concentração verbal dos haicais consegue o máximo efeito estético numa linguagem sintética. Mas foi em 1941que Helena havia publicado seus primeiros haicais, sendo criticada com os argumentos de que aquilo não era soneto, não tinha rima, não era poesia. Mas gostava de desafios, por isso fazia haicais, mesmo criticada.

TANKAS E HAICAIS: UMA LEITURA DE REIKA, DE HELENA KOLODY
Antonio Donizeti da Cruz
Unioeste – Doutorado – Ufrgs – Capes-Picd

A poeta Helena Kolody, filha de imigrantes ucranianos, é um dos nomes mais expressivos da poesia contemporânea paranaense. Desde Paisagem interior (1941), quando surge para a literatura brasileira, a Reika (1993), sua poesia evolui no sentido de síntese reflexiva, concisão e alto grau de lirismo espontâneo, contido, com uma linguagem altamente condensada.

Helena tem publicados doze livros de poesia e doze antologias ou coleções, além de um número significativo de poemas dispersos em jornais e revistas especializados. A Poeta vem recebendo destaque junto à crítica paranaense e brasileira por sua constante produção poética.

Segundo Wilson Martins, Helena Kolody vive o paradoxo de ser, enquanto poeta, uma “figura exponencial das letras paranaense”, sem ter gravado o seu nome e sua obra no quadro mais amplo da literatura brasileira. Ela é, com certeza, “poeta do Paraná não apenas pela naturalidade regional, mas também por haver acrescentado a voz do imigrante à temática da poesia brasileira” (1995: 52).

Alice Ruiz afirma que a “marca registrada” da poesia de Helena Kolody são “a viagem da linguagem e o exercício do corte preciso” e que “Helena nos mostra, como um mestre zen, que a poesia está nas coisas, é só acertar o olhar” (1995: 50-51). Destaca ainda, o máximo de poesia é a poesia mínima. Síntese, concentração de informação, concentração de beleza. Implosão.

O não à redundância (…). Poesia não é perfumar a flor. Poesia é o perfume da flor. Tal como a poesia de Helena Kolody. Essa paranaense encantada e cheia de luz que em 1941 já publicava Haicai enquanto a maioria só publicava soneto (idem: 51).

Helena Kolody é a poeta do cotidiano, das realidades simples e comuns, interpretadas por sua sensibilidade e lirismo contagiante e libertador. Sua poesia, profundamente lírica, com acentos existenciais, transparentes, revela uma construção poética alicerçada a partir das coisas simples e cotidianas.

Nas primeiras obras de Helena percebe-se que a poeta vai se encaminhando cada vez mais para a poesia intimista, confessional e auto-indagadora em que predomina o subjetivismo, a introspecção e o mergulho no mundo interior, no qual o Eu vai se desdobrando em imagens, deixando transparecer uma consciência de mundo projetada na questão pessoal e social.

Todavia, em suas obras posteriores, nota-se que aos poucos seus poemas vão se tornando sintéticos, condensados. Cumpre destacar que já em sua primeira obra, Paisagem interior, são publicados três haicais: Prisão, Arco-íris e Felicidade, e que segundo Reinoldo Atem, “são os primeiros publicados no Paraná e demonstram sua tendência permanente e contínua para a brevidade reflexiva” (ATEM, 1990: 159).

Em Música submersa (1945), obra seguinte, percebe-se alguns poemas sintéticos, entre eles o haicai Pereira em flor (Viagem no espelho), elogiado por Carlos Drummond de Andrade, que diz ter encontrado com alegria poemas como esse, “em que à expressão mais simples e discreta se alia uma
fina intuição dos ‘imponderável’ poéticos” (In: Rumo paranaense, 1970: 4). Leia-se o poema:

De grinalda branca,
Toda vestida de luar,
A pereira sonha (p.189).

No poema ocorre uma personificação da pereira. As imagens são singulares. A flor da pereira é símbolo do caráter efêmero da existência. A respeito desse haicai, Helena relata de que forma surgiu o poema:

Eu morava na Rua Carlos de Carvalho. Uma noite, ao sair da casa de uma amiga, dei com aquela pereira completamente florescida, banhada pela luz da lua cheia. A beleza do quadro foi um impacto na minha sensibilidade. Fiz o poema bem mais tarde.

Associei a pereira com uma noiva: a noiva toda vestida de branco, sonhando, como a pereira ao luar (1986: 22).

Helena acredita que as impressões apreendidas vão se acumulando em seu inconsciente e elaborando uma espécie de húmus, no qual se misturam impressões de muitos tempos, e desse húmus brota o poema. Nesse sentido, o poema é “a metáfora do que o poeta sentiu e pensou; é a ressurreição da experiência e sua transmutação” (PAZ, 1991: 19).

Em relação ao processo de composição poemático a que se refere Helena Kolody, assemelha-se ao que Octavio Paz afirma a respeito da experiência do poeta. Suas experiências diárias não se compõem de idéias ou de sensações, mas de idéias-sensações que se manifestam no interior do poeta e são, por natureza, evanescentes.

A linguagem, num primeiro momento, apreende àquelas sensações, depois as fixa, muda-as, ransforma-as. O poeta repete a operação do que viu e sentiu de maneira infinitamente mais complexa e refinada. Assim, o poeta ao nomear o que sentiu e pensou, apresenta formas e figuras que são combinações rítmicas nas quais o som é inseparável do sentido. Tais formas e sentidos têm o poder de produzir sensações e idéias-sensações semelhantes, mas não idênticas às da experiência original vivenciada pelo poeta (idem: ibidem).

Em 13 de junho de 1993, a comunidade nipo-brasileira de Curitiba, em comemoração aos 300 anos de Curitiba e aos 85 anos de imigração japonesa, homenageia a poeta Helena Kolody com a outorga do nome haicaísta REIKA, em reconhecimento à dedicação, divulgação e grandiosidade que deu à poesia de origem japonesa: o haicai.

Reika (nome poético, ou nome de haicaísta), composto por dois ideogramas específicos, Rei e Ka, pode ser traduzido como “Perfume da literatura”, ou “Renomada fragrância de poesia”, ou ainda, “Aroma da poeta maior”.

O nome (Reika) sugere na língua japonesa, algo como um perfume que vai se espalhando pelo ar, cujo aroma é a poesia. Não é uma tradução fácil, pois não se refere ao perfume em si, mas ao contágio ou vibração que envolve as pessoas pelo encanto que a poesia emite (OSAKI & OSAKI, 1993: 2).

No que diz respeito à forma poética de composição, o haicai, Helena Kolody assimilou muito bem essa forma de poesia. Segundo a Autora, foi através do Jornal de Letras e da correspondência com a escritora paulista Fanny Dupré, que teve conhecimento da poesia japonesa, em especial o haicai..

Segundo Cláudio Daniel, o haicai, bem como toda a arte zen (os arranjos florais, a cerimônia do chá, as técnicas marciais), não é somente uma experiência verbal. Ele existe “apesar” da linguagem, pois o alfabeto de ideogramas (kanji) registra “imagens” enquanto que o Ocidental registra “idéias/sons (presentes no silabário)”. Com sua escrita icônica, os haicais japoneses têm sua origem no canto e “faziam parte de diários de viagem (nikki), num diálogo prosa/poesia e eram desenhados em um quadro (zenga)”. Assim, “o poema fazia parte de um todo plástico” (1998: 51).

O tanka é um poema clássico japonês, composto por trinta e uma sílabas distribuídas em estrofes de cinco versos. O haicai e o tanka são formas de composição da arte japonesa, que revelam momentos “tensos e transparentes”, “instantes de equilíbrio entre a vida e a morte. Vivacidade:
mortalidade” (PAZ, 1991: 198).

Reika reúne 28 poemas (haicais e tankas). Foi uma iniciativa de Nivaldo Lopes, que num trabalho em tipografia manual edita o quinto exemplar da sua editora Ócios do Ofício, e o terceiro da coleção Buquinista, da Fundação Cultural de Curitiba.

O haicai intitulado Alquimia (RE), com seu caráter ideográfico expandido: 5-7-5 sílabas aliterativas e assonantes, revela que a poesia pode ser pura alquimia:

Nas mãos inspiradas
nascem antigas palavras
com novo matiz (p. 25).

O poeta, inventor de formas e sentidos, é capaz de transformar em palavra “tudo o que toca”. O poder das palavras “antigas” são lapidadas pelas suas “mãos inspiradas”, nascendo assim, “novas palavras”. O torneio coloquial e semântico revela o poder de nomeação da linguagem. A poeta é capaz de síntese perfeita, baseando-se no jogo de palavras e no seu poder de revelação, pois seu texto convida à participação do leitor, com alto grau de comunicabilidade.

O tanka Sabedoria (RE) mostra a temática do efêmero, da brevidade da vida, do tempo e da saudade. Em seus versos salientam-se o exercício lúdico, as pausas dos versos, os acentos poéticos, as ligações dos segmentos frasais e o conteúdo das recordações do sujeito lírico, que inquieta-se perante à vida:

Tudo o tempo leva.
A própria vida não dura.
Com sabedoria,
colhe a alegria de agora
para a saudade futura (p.60).

Há uma perfeita relação semântica entre os versos do poema, revelando que a vida é finita como as coisas que passam. O texto aponta para uma questão fundamental: o ser humano, como todas as formas de vida, tem um prazo a cumprir na existência terrena. Daí a necessidade de buscar com sabedoria “a alegria de agora”, ou seja, urge cultivá-la, de maneira “plena”, tendo em vista “a saudade futura”.

Os versos são marcados por um lirismo pungente. No último verso do poema, os três signos: “sonho”, “tristeza” e “solidão”, denotam a introspecção do sujeito lírico, que se sente inquieto perante a vida. As enumerações contribuem para a manutenção do ritmo do poema.

O tom de indagação que norteia o poema revela um conflito entre o “eu” e o mundo circundante. O questionamento da linguagem pode estar relacionado à consciência tensa, inquieta do Eu poético, em constante interrogação.

Em Os tristes (RE), poema haicai, aparece de forma clara a inquietação do sujeito lírico enquanto questionamento:

Em seus caramujos,
os tristes sonham silêncios.
Que ausência os habita? (p.33).

São versos revestidos de um lirismo singular. Salienta-se a temática da solidão, pois em “ausência” e “silêncios”, os tristes sonham. A imagem do caramujo remete à idéia de isolamento e introspecção. No verso final, destaca-se a indagação do sujeito lírico.

Aquarela (RE) é um tanka que revela um grau máximo de comunicabilidade e lirismo. A poeta trabalha a linguagem numa dimensão pessoal e síntese perfeita, enfatizando paralelismos em oposição. Sua poesia busca o instantâneo e a integração da vida e da natureza. Leia-se o poema:

Sol de primavera.
Céu azul, jardim em flor.
Riso de crianças.
Na pauta de fios elétricos,
uma escala de andorinhas (p.55).

Marcada por uma surpreendente força lírica, a linguagem do poema conjuga a relação do sentimento vital integrada à constante renovação cíclica da vida. Essa tanka é um hino de graça e louvor à vida. Os elementos da natureza se relacionam de maneira harmoniosa. No “coração do poema” destaca-se o verso “riso de criança”, que simboliza a simplicidade natural, a espontaneidade.

Saudades (RE) é um haicai que tem por musa a natureza. O poema evoca um lirismo nostálgico, numa linguagem lúdica, metafórica e organizada, que se pode constatar em versos de puro “engenho” criativo:

Um sabiá cantou.
Longe, dançou o arvoredo.
Choveram saudades (p. 21).

Este poema de forma miniatural, tematiza a saudade e a natureza. O canto do sabiá, mesmo distante, é capaz de despertar o “canto” da poeta, em que ela transforma em palavras, esse “despertar inquieto”, sua observação atenta à natureza, seu encantamento lúdico com a linguagem.

O haicai é uma forma de poesia japonesa, pequeno poema de três versos, com cinco, sete e cinco sílabas sucessivamente. Ele evoca uma singela e delicada impressão do mundo, da natureza, do homem, das plantas ou dos animais; às vezes com um refinado toque de lirismo de caráter melancólico ou nostálgico, outras, com um rasgo de ligeiro humor (HUIZINGA, 1990: 138).

O haicai intitulado Depois (RE), com suas sílabas aliterativas e assonantes, aponta para a relação do homem com à natureza. O momento presente inquieta o eu lírico que sabe de sua situação enquanto “viajante das galáxias”. A afirmativa do sujeito lírico é de uma originalidade
singular:

Será sempre agora.
Viajarei pelas galáxias
Universo afora (p.25).

A temática da transitoriedade do ser, faz-se presente nos versos do poema, situando o onde, o quando e o que do acontecimento poético. No haicai, Desafio (RE), o sujeito lírico declara:

A vida bloqueada
instiga o teimoso viajante
a abrir nova estrada (p.35).

Nos versos do poema, percebe-se as ligações dos segmentos frasais, a sonoridade e o jogo de palavras. O texto mostra que é necessário vencer os obstáculos da vida, para “abrir novos caminhos”. A estrada é símbolo de viagem e transitoriedade do ser que está sempre em busca de realizações.

A consciência da brevidade da vida e o futuro incerto faz com que o sujeito lírico valorize o momento presente. A morte é vista como um processo natural, surgindo como uma perspectiva certa da finitude do homem. A consciência de que a morte pode chegar a qualquer momento, não é obstáculo para que o sujeito lírico viva a cada instante, embriagando-se de alegria. A vida é para eu lírico um “mistério”. E só o fato de existir, leva-o a sentir-se fascinado e amante da vida.

A concentração verbal do haicais e tankas kolodyanos operam numa economia de recursos que consegue o máximo efeito estético, numa linguagem sintética, cujo lirismo é uma forma peculiar de “arranjo da linguagem” e de “recorte do mundo”. Seus versos apresentam uma sonoridade rítmica e rímica marcadas pelo processo de elaboração criativo e lúdico.

Os poemas de Reika exploram basicamente uma das vertentes temáticas preferidas da poesia de Helena: o poeta diante de si mesmo e da poesia. Ela é poeta vigorosa que concilia perfeitamente a experiência da subjetividade com a objetividade, ou seja, emoção e razão, atualizando-se pelo nítido espírito de modernidade. Sua linguagem é densa de significação.

Seus versos são repletos de significados, sugestões e imaginação, que resultam numa poesia intelectual e emotiva, marcada pela síntese e pela moderna procura de uma semântica inventiva, instauradora de múltiplos sentidos, preocupada com a estética. Por essas razões, a poesia kolodyana se legitima, à definição de Octavio Paz: “Operação capaz de transformar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza” (1982:15).

(Poemas retirados de Viagem no Espelho, de Helena Kolody.)

RESSONÂNCIA
Bate breve o gongo.
Na amplidão do templo ecoa
o som lento e longo.

FLECHA DE SOL
A flecha de sol
pinta estrelas na vidraça.
Despede-se o dia.

NOITE
Luar nos cabelos.
Constelações na memória.
Orvalho no olhar.

SAUDADES
Um sabiá cantou.
Longe, dançou o arvoredo.
Choveram saudades.

REPUXO ILUMINADO
Em líquidos caules,
irisadas flores d’água
cintilam ao sol.

DEPOIS
Será sempre agora.
Viajarei pelas galáxias
universo afora.

ALQUIMIA
Nas mãos inspiradas
nascem antigas palavras
com novo matiz.

JORNADA
Tão longa a jornada!
E a gente cai, de repente,
No abismo do nada.

SEMPRE MADRUGADA
Para quem viaja ao encontro do sol,
é sempre madrugada.

RETRATO ANTIGO (1988)
Quem é essa
que me olha
de tão longe,
com olhos que foram meus?

VOZ DA NOITE (1986)
O sol se apaga.
De mansinho,
a sombra cresce.

A voz da noite
diz, baixinho:
esquece… esquece…

A MIRAGEM NO CAMINHO (1978)
Perdeu-se em nada,
caminhou sozinho,
a perseguir um grande sonho louco.

(E a felicidade
era aquele pouco
que desprezou ao longo do caminho).

DOM
Deus dá a todos uma estrela.
Uns fazem da estrela um sol.
Outros nem conseguem vê-la.

POESIA MÍNIMA
Pintou estrelas no muro
e teve o céu
ao alcance das mãos.

CHOVE SOBRE MINHA INFÂNCIA – Miguel Sanches Neto

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CHOVE SOBRE MINHA INFÂNCIA – Miguel Sanches Neto

O romance Chove sobre minha infância (Record, 2000), é narrado em primeira pessoa pelo personagem principal Miguel Sanches Neto. Apesar do tom memorialista e autobiográfico, por causa do uso de nomes reais, é um texto de ficção, que busca sua verossimilhança na realidade existencial, psicológica e histórica do próprio autor.

É um livro escrito para comover o leitor. Quanto à construção, temos um romance montado a partir de uma linguagem simbólica que assimila as linguagens da crônica, da poesia e do conto – o que confere à leitura do texto uma leveza e um ritmo alucinante – contrariando as fórmulas narrativas inventadas pelo pós-modernismo.

O livro inicia com o protagonista adulto lançando seu olhar sobre o passado, sua infância:
“Chovia demais naquela manhã, uma chuva que molhava o piso de vermelhão da varanda da casa onde morávamos, naquela época já de aluguel. Uma casa velha de madeira, a varanda circundada pela mureta de alvenaria. A chuva alagando o território onde aquele que fui brincava de escorregar no piso.
(…)
Sozinho na varanda, a chuva a me isolar dos amigos e da família, a sensação de abandono me punha a escrever nas paredes, náufrago do tempo lutando para estabelecer contatos.
Quem seria esse interlocutor que o menino procurava?

Um amigo? Alguém da família? (…) Talvez todos, mas principalmente o adulto que a criança se tornaria.
A partir daí a narração assume o ponto de vista do menino, com uma linguagem simples, lírica, confessional, própria da idade, que vai contar os fatos que marcaram sua vida dos três aos dezessete anos. Fatos estes que se transformam em símbolos, pela força das metáforas, que vão moldar o caráter e a formação moral do personagem.

Primeiro, o fato que divide sua história em pré-história e história propriamente dita: a morte do pai analfabeto, de quem herdou os cadernos em branco e a missão de preenchê-los. Pois é a partir daí que se delineia sua vocação de homem das letras, que passa do papel passivo do leitor para o papel ativo do escritor. Leitor de sua realidade, escritor de seu próprio destino.

O segundo fato marcante é a chegada do padrasto. De repente, o menino vai até o quarto da mãe e descobre na cama, ao lado dela, um homem. É Sebastião, que consigo traz mais dois irmãos para o pequeno Miguel. É o início de sua via-crucis, pois os valores ortodoxos e anacrônicos do padrasto vão construir uma barreira intransponível entre eles.

Já na escola fica marcada a diferença entre os meninos. Zé Carlos e Luís tiram notas menores que Miguel, porém trabalham melhor do que ele e por isso recebem mais elogios do pai, que só recebe recriminações. As surras parecem sempre mais doloridas para ele do que para os outros. E o ódio pelo padrasto aumenta cada vez mais. Ele não quer ser o sucessor do padrasto em seus negócios rurais.

Miguel encontra nos livros o sossego e o mundo que o ajuda a suportar a realidade. Para o padrasto, ele é um caso perdido. O hábito da leitura o acompanha quando ingressa no Colégio Agrícola, lugar onde, na contramão do senso-comum, envereda pelos livros que vão consolidar sua consciência crítica: de Augusto dos Anjos a Marx, passando por Kafka e Eduardo Galeano. A partir daí, Miguel vai transformando seu gosto pela literatura em vocação. Já escreve seus primeiros poemas.

Porém, antes de se tornar escritor, torna-se professor. Faz mestrado, doutorado. Enfim, vence na vida seguindo o caminho que escolheu. É sua vingança contra um padrasto que encarnou todos os percalços enfrentados por um menino-adolescente na sua descoberta da vida, nos seus ritos de passagem, na sua história social, que de resto se parece com a história de muitos meninos brasileiros pobres do interior.

É a formação, o amadurecimento psicológico de um indivíduo dentro de condições sociais e afetivas díspares.

Um terceiro fato marcante para o entendimento da obra é a reprodução de uma carta escrita por sua irmã Carmen (na verdade, um truque narrativo), que no final do livro vem para desmitificar o pai e apresentar o discurso do padrasto, discurso este de apaziguamento entre os dois. O livro acaba sendo uma espécie de acerto de contas com a vida. Lutou contra uma destinação (ser lavrador) e cumpriu, assim, o seu destino (ser escritor):

“Vindo de um povo basicamente iletrado, recebi a tarefa de ser seu porta-voz. Escrevo por isso, para fazer com que falem estes entes sem discurso. Pode até ser uma justificativa tola, mas como ela pesa para mim. Se você não a compreende, é porque sua história é outra, você não sente o travo amargo de um silêncio centenário.

(…)

Daí esta minha vontade de habitar folhas em branco para gastar este extenso estoque de silêncio, para dissipar esta herança de desejos. Aprender a escrever foi a única saída para dar uma condição letrada à extensa ignorância de meus antepassados.”

O romance se encerra com o protagonista já adulto voltando à sua cidade, para perceber que já ele não pertence mais a ela, nem ela pertence mais às lembranças de seu passado:

“A mulher se aproxima do balcão para perguntar se sou daqui. Respondo seco:
— Fui.
— Muita gente que partiu tem voltado, mas não conheço ninguém. Sou nova na cidade.
Não digo nada, apenas olho as árvores do outro lado da rua, a velha praça e o local onde havia uma televisão. Ali, nós, crianças pobres, assistíamos velhas novelas.
— Onde o senhor mora?
— Numa cidadezinha chamada memória.
— Não sei onde fica – diz a mulher enquanto me vira as costas para atender um jovem.”

DADOS DO AUTOR

O autor nasceu em Bela Vista do Paraíso (PR), em 1965, e cresceu perto dali, em Peabiru, norte paranaense. Formado em Letras, mestre pela UFSC e doutor pela UNICAMP. Atualmente reside em Ponta Grossa, e leciona Literatura Brasileira na UEPG. Também é crítico literário da Gazeta do Povo com mais de 400 artigos publicados. Chove sobre minha infância é seu primeiro romance. Publicou ainda Inscrições a giz, poemas; Venho de um país obscuro, poemas; Abandono, haicais; Você sempre à minha volta, cartas; Biblioteca Trevisan, crítica; Hóspede secreto, contos; e Entre dois tempos, crítica.

ENTREVISTA DE MIGUEL SANCHES NETO
A MÁRCIO RENATO DOS SANTOS, E,

1. Vindo da crítica e da poesia, o que significou para você o domínio de um código de expressão tão diferente como o romance?

Nunca tive bem definida a fronteira entre estas formas literárias, e isto se reflete claramente em Chove sobre minha infância, que vai da crônica, em alguns momentos, ao poético e ao conto, para, em conjunto, formar um romance em blocos. É um livro escrito sem o desejo de pertencer a uma categoria específica, com suas leis de construção rígidas. Ao contrário, é obra composta por partes que se somam, mas que também guardam significação isolada, numa tentativa de ser, estruturalmente, o menos repetitivo possível. Não houve também uma intenção de trabalhar sobre um modelo, eu antes escrevi este livro como se tivesse vivendo um sonho, num transe narrativo que lhe deu uma configuração um tanto estranha, que pode fisgar o leitor e levá-lo até o fim numa viagem rápida, dada a intensidade do que se narra.

2. A impressão que se tem, realmente, é a de um sonho, pois você não se prende muito às minúcias realistas, buscando do real os seus signos.

Esta foi a intenção desde o início, porque me agradava encenar toda uma vida em poucas páginas, investindo muito mais na verticalidade do relato do que em sua horizontalidade, tanto de enredo quanto de língua. E para conseguir este aprofundamento me vali de situações-símbolos, cujo significado cria uma abertura metafórica. Quando falo, por exemplo, das frutas ácidas, estas entram na história muito mais como metáfora da acidez crítica do narrador do que como partícipe do mundo das coisas. É assim também com o aprendizado dolorido das quatro operações matemáticas, representação da entrada em nossa vida de uma nova família, que vai se multiplicando. Nunca tive dúvida quanto à preponderância do simbólico sobre o meramente descritivo, o que aproxima Chove sobre minha infância da estrutura poética – o epílogo, por exemplo, nasceu bem antes do livro e no formato de um longo poema, mas acabou entrando como conclusão do romance.
Não obstante esta presença do poético, não há fechamento de linguagem, sendo o livro de fácil compreensão, fundado principalmente na gramática da comoção e na leveza.

3. A literatura moderna tem medo de comover?

Não só tem medo de comover, como de ser comovida. A comoção, que sempre esteve presente nas grandes obras (penso, por exemplo, em Germinal, de Zola), ficou de quarentena nas últimas décadas, quando imperou um olhar irônico e desconfiado sobre tudo. A morte do eu na literatura deu lugar ao culto do simulacro, de tal forma que se tornou constrangedora a identificação com personagens que, previamente, se assumem como falsários. Na contramão desta corrente, ousei escrever um romance que busca, em cada uma de suas páginas, a comoção, tentando levar o leitor a se identificar com o narrador, que no caso é a mesma entidade do autor. Sou eu que narro minha história, uma história sofrida, cheia de verdades cotidianas, apresentada por um personagem que tem os olhos marejados – daí, inclusive, o sentido do título do romance.

4. Você não acha perigosa a proximidade, em Chove sobre minha infância, entre a ficção e a autobiografia?

Embora nascida de vivências reais, esta narrativa nem de longe se confunde com o estilo das memórias ou da autobiografia. Ao narrar em primeira pessoa a sua vida, o autor se coloca numa posição secundária: é sua história que se conta por ele, cabendo-lhe o papel de intermediário. Logicamente, quanto melhor for o autor, melhor serão suas memórias, principalmente pelo uso estilístico da língua. Outra característica fundamental para o gênero memória é o primado da verdade. O ficcionista, mesmo quando se vale de experiências vividas, não busca a verdade factual, mas a psicológica, seguindo não o fio linear da vida, mas fundando estruturas sobre o vivido. Portanto, meu romance é uma construção semântica sobre fatos vividos por mim. Não contei tudo o que se passou em minha formação, mas apenas as situações-chave. Eu exerci sobre minha história uma força de linguagem e de estrutura, é por isso que ela pertence ao mundo da ficção e não ao da realidade relembrada.

5. Mas o fato de você usar os nomes reais das pessoas e de incluir um caderno fotográfico não significa justamente o contrário?

As fotos fazem parte da própria semântica do livro, vindo inclusive com frases que não são meramente identificatórias, mas que se somam ao narrado. O caderno de fotos foi pensado como um capítulo do romance e não como ilustração. Já o uso de muitos nomes reais é também um recurso narrativo que busca desvelar o personagem em sua integralidade. Se o narrador não tivesse o meu nome, ele seria mais pobre do ponto de vista do relato. O peso do nome que ele sente ficaria diminuído no caso de alguma alteração. Eu tentei mudar os nomes, buscando equivalentes, mas a perda de carga simbólica foi tão grande que me entreguei à sua forma verdadeira, embora todas as pessoas sejam tratadas como personagens e não como gente real. O padrasto que aparece no romance não é a cópia fiel do meu próprio padrasto, mas uma invenção do narrador que se sentia oprimido por ele.

6. Você não corre com isso o risco de ser autocomplacente?

Chove sobre minha infância é uma narrativa que vai se construindo pela memória do narrador, que avalia tudo aquilo pelo qual passa por uma ótica pessoal, centrada em seus sofrimentos. Estamos diante de um menino de extrema sensibilidade para o confronto com o mundo e com a morte, que luta desesperadamente contra a orfandade, não só a real mas principalmente contra a orfandade cultural – ele vem de uma família de analfabetos, dedicada à agricultura, e se sente destinado para o mundo dos livros. Esta ausência do pai, morto na primeira infância, representa a própria ausência de uma herança cultural. O menino triste vai crescendo como observador de uma força negativa que o impede de ser ele mesmo. Esta força se concentrou na figura do padrasto, que nega seu projeto. O padrasto, portanto, é pintado com tintas fortes até o momento em que há, depois da consolidação da vocação do menino, agora um adulto, uma revelação que o concilia com o mundo do padrasto. O livro não é complacente com o narrador, porque ele acaba tendo destruído o relato em que se vê como vítima.

7. A família está muito presente neste livro. Ela é ao mesmo tempo odiada e amada. Como você sente este impasse?

É dele que nasce o drama e a grandeza de minha história. Quer queiramos ou não, toda relação familiar se dá nesta imprecisa fronteira do amor e do ódio. Comigo, isto foi intensificado, porque à família biológica se juntou outra, a da padrasto, que trouxe valores muitos conflitantes com os nossos. Amar odiando e odiar amando a família foi e continua sendo um grande material romanesco, porque nos livra de visões maniqueístas e planificadoras.

8. O que significa para a sua família este romance?

Como se trata de uma família praticamente analfabeta, de pouca instrução e muita solidão de linguagem, acredito que meu romance é um acerto de contas com este doloroso passado sem discurso. Uma família destinada ao silêncio e à lavoura súbito encontra em um de seus descendentes o porta-voz desta solidão que anseia ser linguagem. Embora a primeira redação deste livro tenha sido muito rápida, tomando-me pouco mais de um mês, eu costumo dizer que ele demorou cem anos para ser escrito. Desde minha bisavó, depois minha avó e minha mãe, todas com grande sensibilidade literária, esta história veio se escrevendo no código imperfeito dos sentimentos repartidos. Como fui eu o primeiro a adquirir instrumentos e instrução literária adequada, a história se concretizou em minhas mãos, mas veio com uma grande potência atávica.

9. O livro trata de uma trajetória brasileira de grande força, em que o narrador se constrói pela linguagem, amadurecendo nela. Foi difícil acompanhar a linguagem do narrador?

Da criança ingênua que comete alguns erros de visão e de língua ao adulto que olha seu passado com olhos úmidos vai realmente uma distância de linguagem. Este amadurece ao poucos de forma a manter verossimilhança com o imaginário das várias fases do narrador. Por isso insisto que não se trata apenas de uma história contada, mas de uma narrativa construída com a busca minuciosa de uma familiaridade com a língua. Assim, quando o menino se sente traído por sua própria inteligência, há dois capítulos em que a escrita atinge uma situação de violência, representado por um ritmo alcoolizado, que no fundo é o rito de passagem para a vida adulta.
10. Como você, que é crítico, vê este livro no atual momento literário brasileiro?

Primeiro, trata-se de um livro à parte, por sua construção e por sua intenção. Eu quis escrever um romance de formação diferente, contrariando os simulacros de um pós-modernismo desgastado pelo uso repetitivo de fórmulas narrativas, recuperando assim um personagem que funciona como máquina de comover. É um livro para ser amado ou odiado. Mesmo se valendo muito delas, Chove sobre minha infância não prioriza a linguagem ou a estrutura como fim último do relato, mas como elementos de intensificação de uma história triste e bonita, vivida por gente comum, que um dia se fez autor, sujeito de sua própria existência. Ou seja, é um livro que tem um valor para além do literário por concretizar o sonho de três gerações que viveram à sombra do mundo letrado.

11. Este romance terá continuidade?

Não sei se é, propriamente, uma continuidade, mas já estou trabalhando numa nova obra que vai ser um estudo sobre as mulheres em minha família. Considero-me um herdeiro da sensibilidade destas mulheres que com fibra se insurgiram, desde o final do século passado, contra a representação do poder econômico que se encontrava nos homens. Pretendo trabalhar os erros e acertos de decisões extremamente corajosas de várias antepassadas, que construíram a história de minha família vencendo e sofrendo preconceitos.

12. É ainda a força centrípeta da família sobre a sua obra?

Sem dúvida. Eu recebi tantas informações sobre o passado de meus familiares que me sinto na obrigação de dar uma forma narrativa para tudo isso.

OS CEM MELHORES CONTOS BRASILEIROS DO SÉCULO- Ítalo Moriconi

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OS CEM MELHORES CONTOS BRASILEIROS DO SÉCULO – Ítalo Moriconi

Uma antologia de obras-primas da ficção curta. Para Júlio Cortazar, conto é aquele texto que corre em poucas linhas e em alta velocidade narrativa, capaz de nocautear o leitor com seu impacto dramático concentrado. Coube ao professor Ítalo Moriconi o desafio lançado pela Objetiva de garimpar os cem melhores textos do gênero produzidos no Brasil ao longo do século 20.

Um trabalho que deixasse de lado os rígidos critérios acadêmicos e fosse pautado somente pela qualidade e sabor dessas pequenas obras-primas. O resultado é a coletânea OS CEM MELHORES CONTOS BRASILEIROS DO SÉCULO, um passeio pela mais deliciosa e contundente ficção curta produzida no Brasil entre 1900 e o fim dos anos 90.

Uma antologia capaz de traduzir as mudanças do país e as inquietações de várias gerações de brasileiros, em cem anos de produção literária. A prova de que a arte do gênero não cessa de melhorar em nossa literatura.

Abrindo o volume, Pai contra mãe, de Machado de Assis que, por sorte do leitor, ainda estava vivo nos primeiros anos do século 20 (morreu em 1908). A edição separou os contos por períodos históricos, precedidos de nota introdutória apresentando os traços mais característicos do período: os diferentes caminhos da literatura no início do século; a consagração do modernismo nos anos 40 e 50; os conflitos de identidade dos anos 60; a violência da vida urbana dos anos 70; a exploração sem censura do corpo dos anos 80; a criativa irreverência dos anos 90.

Durante o trabalho de seleção dos contos, Ítalo Moriconi se deparou com algumas constatações. Entre elas a de que o Brasil produz um dos mais bem acabados contos do mundo, e que eles só melhoram com o passar do tempo.

Ainda: a partir dos anos 60, o texto curto explodiu no País, consolidando-se nos anos 70, que entrou para a história da literatura brasileira como a década do conto. Nos anos 80, houve um retorno do romance. Mas é justamente nesta época, ressalta Moriconi, que saltaram às prateleiras produções como as de Caio Fernando Abreu e Sérgio Sant`Anna.

Para ilustrar esse instigante e rico panorama, Moriconi escalou craques: João do Rio, Clarice Lispector, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Dinah Silveira de Queiroz, J.J.Veiga, Rubem Fonseca, Ana C. César, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Hilda Hilst, Dalton Trevisan, Moacyr Scliar, Lygia Fagundes Telles, Victor Giudice, João Antônio, Luiz Fernando Veríssimo, Raduan Nassar e Nélida Piñon, entre outros.

Ítalo Moriconi é doutor em Letras e professor de literatura brasileira e comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

DE 1900 AOS ANOS 30
MEMÓRIAS DE FERRO, DESEJOS DE TARLATANA
“Entre o passado triste e rural que persiste e o futuro vertiginoso que não chegou, o presente das primeiras décadas do século 20 explora linguagens diversas. Estamos rompendo os ferros da escravidão, alimentamos sonhos de carnaval e tarlatana, velocidade e multidão. São décadas em que ainda não existe uma linguagem brasileira padrão. Por isso, os contistas experimentam os mais variados estilos – desde os estrangeirismos à la mode de João do Rio aos regionalismos gaúcho e paulista de Simões Lopes Neto e Alcântara Machado, passando pelo insuperável, o eterno e moderno Machado de Assis. Por sorte, o maior escritor brasileiro do século 19 ainda estava vivo nos primeiros anos do século 20 (morreu em 1908). Tempo suficiente para escrever a obra-prima com que abrimos este volume”. (Ítalo Moriconi)

Pai contra mãe
Machado de Assis
Cândido Neves não gostava de trabalhar e não ficava muito tempo em emprego algum, depois de tentar vários ofícios assume a função de capturar escravos fugidos. Cândido casa-se com Clara que era órfã e morava com a tia Mônica. Os três passam a morar juntos e apesar da pobreza, divertem-se e fazem pancadas (festas). Até que o casal decide ter um filho, a contra gosto da tia.
Durante a gravidez, a situação financeira da família vai piorando até que no nono mês de gravidez de Clara, eles são despejados. Quando nasce o filho, tia Mônica insiste para que o menino seja entregue na “Roda dos enjeitados” para ser adotado. Cândido e Clara sofrem muito, mas aceitam. No caminho para a Roda, Cândido vê uma escrava fugida, captura a mulher e recebe uma gorda recompensa, podendo então manter seu filho em casa. Acontece que a escrava capturada estava grávida, e provavelmente abortou com os castigos recebidos pelo seu dono quando a recebera. Ficando,então, da amarga ironia de vida do filho de Candinho ter custado a vida do filho da escrava. Nesse final se justifica o título do conto Pai (Candinho) contra Mãe (escrava fugida).

O bebê de tarlatana rosa
João do Rio
Heitor de Alencar conta aos amigos barão Belfort, Anatólio de Azambuja e Maria Flor uma história que acontecera com ele num carnaval.
Na busca da luxúria e do prazer, Heitor cerca-se de amigos e atrizes no carnaval. Na primeira noite decidem ir a um clube de baixo nível o popular Recreio. Nesta boite Heitor se interessou por uma mulher fantasiada de bebê de tarlatana rosa, dá-lhe um beliscão e se separam.
Encontram-se brevemente mais uma vez na segunda de carnaval e na terça, quando Heitor no final da festa ia para casa, encontra novamente o “bebê”. Leva a moça para uma rua escura e começa a beijá-la, sente que ela tem um nariz postiço da fantasia, pede para tirá-lo e o “bebê” diz não. Mas Heitor insiste e enquanto beija, arranca o nariz postiço e vê “uma cabeça estranha, cabeça sem nariz, com dois buracos sangrentos atulhados de algodão, uma caveira com carne…” Sentindo nojo, Heitor começa a sacudi-la quando um guarda apita, Heitor sai correndo em desespero. Quando chega em casa percebe em sua mão “uma pasta oleosa e sangrenta”. Era o nariz do bebê de tarlatana rosa.

A nova Califórnia
Lima Barreto
É uma crítica à ganância. Neste conto, um químico misterioso chamado Raimundo Flamel aparece na cidade de Tubiacanga. Anos depois de sua chegada, faz uma experiência na qual transforma ossos humanos em ouro. Ele convida três testemunhas (o farmacêutico, um fazendeiro e o coletor) para o ato, o realiza e depois desaparece da cidade. Então, os túmulos do cemitério da cidade, o “Sossego”, começam a ser violados. Quando depois de um escândalo prendem dois violadores, eles eram o fazendeiro e o coletor, duas das testemunhas da experiência alquímica. Os dois revelam que havia um terceiro violador: era o farmacêutico. Quando a população descobre, vai até a casa do farmacêutico que promete divulgar a fórmula para transformar ossos humanos em ouro no dia seguinte. Assim, naquela madrugada a população inteira se esgueira para o cemitério para violar tantos túmulos quanto puderem (e ter tanto ouro quanto puderem depois). O que acontece é uma carnificina que deixa no cemitério em uma noite mais mortos que nos 30 anos anteriores. O único que não se mete na confusão é um bêbado da cidade, que calmamente anda na cidade-fantasma.

Dentro da noite
João do Rio
Um homem no metrô ouve o diálogo entre Rodolfo e Justino. O segundo pergunta ao primeiro porque andava sumido. Perguntava-se na cidade o motivo do rompimento do noivado de Rodolfo com Clotilde, jovem bela que então vivia chorando, ela e a família que estavam antes tão felizes com o noivado. Rodolfo então explica que fora obrigado a terminar o compromisso com a moça depois de os pais descobrirem suas tendências sádicas. Rodolfo conta que sentia prazer em enfiar alfinetes nos braços de Clotilde e ela vendo que a perturbação mental do rapaz só diminuía com a satisfação daquela tara, resignada consentia. Depois de descoberto, Rodolfo é obrigado a terminar o noivado e passa a pagar prostitutas para satisfazer seu sadismo e ainda conversando com Justino no metrô revela que ultimamente andava a escolher suas vítimas na rua, e quando uma loura embarcou noutro vagão, Rodolfo deixa-o para persegui-la.

A caolha
Júlia Lopes de Almeida
Conta-se a história de uma mulher repugnante, sem o olho esquerdo e que vivia a soltar pus da cavidade ocular vazia. A caolha tinha um filho – Antonico – que desde cedo sofria humilhações por causa do defeito da mãe – era chamado “o filho da caolha”. Quando criança Antonico abraçava e beijava a mãe, mas com o tempo passou a ter nojo e vergonha dela.
Depois de ser humilhado na escola e nos empregos por que passava, Antonico, já na juventude trabalhando de alfaiate, arranja uma namorada que lhe impõe como condição para que se casem que o rapaz abandone sua mãe.
Quando Antonico vai comunicar sua saída de casa, inventando uma necessidade de trabalho, a mãe o expulsa dizendo saber que ele tem vergonha dela. Arrependido, no dia seguinte, Antonico procura a madrinha, única amiga da caolha, para que interceda em seu favor junto à mãe.
A madrinha o leva à casa da caolha e revela o que sempre a mãe ocultava ao filho: que ela havia ficado caolha por culpa do filho que quando neném enfiou-lhe um garfo no olho esquerdo. Ao saber disso o filho desmaia e a mãe lamenta.

O homem que sabia javanês
Lima Barreto
O Homem que sabia Javanês não o sabia realmente. O conto é um relato de um amigo a outro sobre uma das espertezas que usou para sobreviver: fingir saber javanês e ensiná-lo. Logo aprendeu o alfabeto e meia dúzia de palavras e pôs-se a ensinar o velho que o contratou; logo já “lia” em javanês para o velho (que desistira de aprender) e publicava sobre Java. Foi nomeado cônsul e representou o Brasil em uma reunião de sábios; deu palestras e publicou pelo mundo sobre Java. No final do conto ainda estava em cargos consulares por “saber” javanês.

Pílades e Orestes
Machado de Assis
Quintanilha e Gonçalves eram muito amigos, na verdade o primeiro travava o segundo como um pai, ou até mais. Quintanilha tinha por Gonçalves verdadeira adoração, brigou com sua família por causa do amigo, emprestava-lhe dinheiro, ajudava-o em seu trabalho, dava-lhe presentes.
Até que um dia Quintanilha se aproxima de uma prima chamada Camila e se apaixona por ela. Quando vai revelar isso a Gonçalves, percebe que o amigo também amava Camila e mesmo sofrendo desiste de seu amor em favor do amigo.
Camila e Gonçalves casam e Quintanilha torna-se padrinho dos filhos do casal. Quintanilha morre tempo depois, atingido por uma bala perdida. Em sua lápide a simples frase: “Orai por ele!”
O título remete à mitologia grega.

Contrabandista
João Simões Lopes Neto
Conto em 3a pessoa, escrito numa linguagem “gaúcha”, marca de seu autor, repleto de coloquialismos, neologismos e expressões regionais. Entre flashbacks e referências à história do Brasil e do Rio Grande (Farrapos, Paraguai) conta-se a história de Jango Jorge, homem velho e valente que daria festa de casamento à sua filha. Na madrugada de véspera do casamento saiu para trazer o enxoval da filha, mas naquela época, segundo o narrador, que era um dos convidados, não se podia haver comércio na região e o que se fazia era o contrabando. Quando todos esperavam no dia seguinte pelo vestido, chega Jango Jorge em seu cavalo, estava baleado. No momento em que tiram-no do cavalo percebem que ele trazia o vestido branco da filha manchado com o seu sangue.

Negrinha
Monteiro Lobato
Negrinha é narrativa em terceira pessoa, impregnada de uma carga emocional muito forte. “Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados. Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças.”
D. Inácia era viúva sem filhos e não suportava choro de crianças. Se Negrinha, bebezinho, chorava nos braços da mãe, a mulher gritava. A mãe, desesperada, abafava o choro do bebê, e afastando-se com ela para os fundos da casa, torcia-lhe beliscões desesperados. O choro não era sem razão: era fome, era frio.
Assim cresceu Negrinha magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a idéia dos grandes. Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra, provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretexto de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta.
– Sentadinha aí e bico, hein?”
Ela ficava imóvel, a coitadinha. Seu único divertimento era ver o cuco sair do relógio, de hora em hora. Ensinaram Negrinha a fazer crochê e lá ficava ela espichando trancinhas sem fim…
Nunca tivera uma palavra sequer de carinho e os apelidos que lhe davam eram os mais diversos: pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata choca, pinto gorado, mosca morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa ruim, lixo. Foi chamada bubônica, por causa da peste que grassava…
O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e beliscões a mesma atração que o ímã exerce para o aço. Mãos em cujos nós de dedos comichasse um cocre, era mão que se descarregaria dos fluidos em sua cabeça. De passagem. Coisa de rir e ver a careta…”
D. Inácia era má demais e apesar da Abolição já ter sido proclamada, conservava em casa Negrinha para aliviar-se com “uma boa roda de cocres bem fincados!…”
Uma criada furtou um pedaço de carne ao prato de Negrinha e a menina xingou-a com os mesmos nomes com os quais a xingavam todos os dias. Sabendo do caso, D. Inácia tomou providências: mandou cozinhar um ovo e, tirando-o da água fervente, colocou-o na boca da menina. Não bastasse isso, amordaçou-a com as mãos, o urro abafado da menina saindo pelo nariz…
O padre chegava naquele instante e D. Inácia fala com ele sobre o quanto cansa ser caridosa…
Em um certo dezembro, vieram passar as férias na fazenda duas sobrinhas de D. Inácia: lindas, reconchudas, louras, “criadas em ninho de plumas.”
E negrinha viu-as irromperem pela sala, saltitantes e felizes, viu também Inácia sorrir quando as via brincar. Negrinha arregalava os olhos: havia um cavalinho de pau, uma boneca loura, de louça. Interrogada se nunca havia visto uma boneca, a menina disse que não… e pôde, então, pegar aquele serzinho angelical : “E muito sem jeito, como quem pega o Senhor Menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relanços d’olhos para a porta. Fora de si, literalmente…”
Teve medo quando viu a patroa, mas D. Inácia, diante da surpresa das meninas que mal acreditavam que Negrinha nunca tivesse visto uma boneca, deixou-a em paz, permitiu que ela brincasse também no jardim.
Negrinha tomou consciência do mundo e da alegria, deixara de ser uma coisa humana, vibrava e sentia.
Mas se foram as meninas, a boneca também se foi e a casa caiu na mesmice de sempre.
Sabedora do que tinha sido a vida, a alma desabrochada, Negrinha caiu em tristeza profunda e morreu, assim, de repente: “Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos…”
No final da narrativa, o narrador nos alerta:
“E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica, na memória das meninas ricas”.
– “Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?”
Outra de saudade, no nó dos dedos de dona Inácia:
– “Como era boa para um cocre!…”
É interessante considerar aqui algumas coisas: em primeiro lugar o tema da caridade azeda e má, que cria infortúnio para os dela protegidos, um dos temas recorrentes de Monteiro Lobato; o segundo aspecto que poderia ser observado é o fenômeno da epifania, a revelação que, inesperadamente, atinge os seres, mostrando-lhes o mundo e seu esplendor. A partir daí, tais criaturas sucumbem, tal qual Negrinha o fez.
Ter estado anos a fio a desconhecer o riso e a graça da existência, sentada ao pé da patroa má, das criaturas perversas, nos cantos da cozinha ou da sala, deram a Negrinha a condição de bicho-gente que suportava beliscões e palavrórios, mas a partir do instante em que a boneca aparece, sua vida muda.
É a epifania que se realiza, mostrando-lhe o mundo do riso e das brincadeiras infantis das quais Negrinha poderia fazer parte, se não houvesse a perversidade das criaturas. É aí que adoece e morre, preferindo ausentar-se do mundo a continuar seus dias sem esperança.

Galinha cega
João Alphonsus
Conto com toques de realismo fantástico, em 3a pessoa.
Um carroceiro compra uma galinha pela qual tem incomum carinho. Tempos depois de comprá-la, seu dono percebe que a galinha ficara cega. Então passa a dar-lhe de comer e beber pessoalmente todos os dias. Certo dia, crianças brincam de chutar a galinha e o carroceiro as chicoteia. Um dos meninos é filho do delegado e o dono da galinha é preso. Voltando pra casa, vê que a sua galinha fora estrangulada, pergunta à mulher quem fora e ela diz ter sido um gambá. Após esbofetear a mulher por não ter defendido sua galinha, o carroceiro é preso mais uma vez.
Depois de sair da prisão, o carroceiro arquiteta a vingança contra o gambá. Faz uma armadilha deixando cachaça para o animal. À noite quando finalmente está diante do gambá embriagado e pronto para a vingança, o carroceiro deixa o animal ir embora. O gambá sai do galinheiro.

Gaetaninho
Alcântara Machado
Gaetaninhio era um jovem que sonhava sempre em ir na frente de um cortejo fúnebre; atropelado por um bonde, acaba realizando, morto, seu sonho.
Observamos na obra de Alcântara Machado, como traço mais característico o uso de expressões italianas para marcar a influência da imigração e da miscigenação racial na constituição da sociedade paulistana.
Em Gaetaninho há uma divisão do conto em cinco cenas, característica notadamente cinematográfica, dada pelo corte narrativo existente de uma cena para outra, introduzindo uma nova situação, em um tempo e espaço também novos. Essa superposição de cenas compõe o todo como uma colagem, como se o narrador estive com uma câmera fotografando cena por cena.
Um dos recursos utilizados pelo autor para ilustrar a ação do personagem é a linguagem radiofônica. Como se fosse um locutor esportivo, o narrador descreve os fatos.
O ambiente da trama é constituído por traços leves, demonstrando uma certa preocupação jornalística, mas que, no entanto, consegue identificar perfeitamente a condição sócio-econômica das personagens, como na passagem:
“Ali na Rua Oriente a ralé quando muito andava de bonde. De automóvel ou carro só mesmo em dia de enterro. De enterro ou de casamento. Por isso mesmo o sonho de Gaetaninho era de realização muito difícil. Um sonho.”
Ainda neste trecho, notamos um certo valor social presente no desejo de Gaetaninho de andar de automóvel e ser admirado pelas pessoas, valor que talvez fosse associado como representação da elite, do status econômico.
O final do conto é surpreendente, tanto pela rapidez com que se dá a morte de Gaetaninho, quanto pela ambigüidade causada pela frase “Amassou o bonde”. Tomando-se o sentido do verbo amassar em português e sabendo que em italiano ammazzare significa matar, permite uma dupla interpretação do trecho final, já que não se sabe se foi o garoto que atropelou o bonde ou contrário, o que garante, para um final que parecia ser trágico, um caráter cômico.

Baleia
Graciliano Ramos
Baleia é um dos capítulos da obra Vidas Secas de Graciliano Ramos. Esta história começa com a fuga de uma família da trágica seca do sertão nordestino: Fabiano, o pai, Sinhá-Vitória, a mãe, os dois filhos e a cachorra Baleia. Fabiano é um vaqueiro, homem bruto que tem enorme dificuldade em articular palavras e pensamentos, que se sente um bicho e muitas vezes age como tal, grunhindo e se portando como um selvagem. Sinhá-Vitória, sua esposa, se sai melhor em seus pensamentos e diálogos, apesar de restritos. O menino mais novo parece não ter nome e nem uma forma comum de se comunicar. Sua única aspiração é ser como Fabiano. Nas mesmas situações está o filho mais velho, que só quer um amigo, conformando-se com a presença da cachorra Baleia. Esta, muitas vezes, parece ter um pensamento mais linear e humano que o resto da família, portando-se não só como um bicho, mas como um ser humano, uma companheira que ajuda Fabiano e sua gente a suportar as péssimas condições.
A história se desenvolve com o estabelecimento da família numa fazenda e a contratação de Fabiano como vaqueiro.
Em um dado momento da história, Baleia adoece e Fabiano se vê na árdua tarefa de sacrificá-la. Fere o pobre bicho com um tiro, mas não consegue matá-lo, já que este foge para longe. Baleia vem a falecer durante a noite, perto da casa, sonhando com um mundo cheio de lebres…

Uma senhora
Marques Rebelo
Dona Quinota é empregada, casada com seu Juca e mãe de Élcio, Élcia e Elcina. Trabalha o ano todo para extravasar no carnaval, esta festa é o único momento em que Dona Quinota esbanja e vive intensamente, fantasia a si e à família e aluga um carro para desfilar.
Após o término do baile, o vizinho invejoso, Adalberto, pergunta se os vizinhos se divertiram e dona Quinota responde “assim, assim”, mas na verdade Quinota apenas esconde sua realização da inveja do vizinho. O conto termina com a indignação de Quinota diante do resultado de um concurso de blocos.
ANOS 40/50
MODERNOS, MADUROS, LÍRICOS
Em torno da primeira metade do século, nossos escritores estão mais maduros. Escrevem numa língua que também amadureceu, está mais uniforme e representativa daquela usada no cotidiano pelos brasileiros educados, de qualquer lugar do país. O passado rural começa a desaparecer efetivamente, tornando-se objeto mais de nostalgia do que de rejeição. As relações afetivas passam a constituir a verdadeira utopia do brasileiro, e também exibem seu lado difícil. Descompassos na família. Saudades. Lirismos. Na época da consagração definitiva do movimento modernista, predominam na literatura o romance, a crônica e a poesia, mas a amostra apresentada nesta seção revela que alguns dos mais belos clássicos do conto brasileiro moderno foram publicados nesse período. (Ítalo Moriconi)

COMO E PORQUE SOU ROMANCISTA – José de Alencar

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COMO E PORQUE SOU ROMANCISTA – José de Alencar

APRESENTAÇÃO
“Como e Porque Sou Romancista” é a autobiografia intelectual de José de Alencar, importante para o conhecimento de sua personalidade e dos alicerces de sua formação literária.

O texto sob a forma de carta, foi escrito em 1873 e publicado em 1893, pela Tipografia Leuzinger. Entre suas reedições, merece menção a da Academia Brasileira de Letras, de 1987, conservando a ortografia original, apresentada pelo Prof. Afrânio Coutinho, com a erudição e clareza marcantes de sua crítica.

A presente edição, com o objetivo de tornar mais acessível a leitura, atualizou a ortografia do texto alencariano. Manteve-se, entretanto, a pontuação original que, no dizer de M. Cavalcanti Proença, é “elemento característico da prosa alencariana, subordinando-se muito menos às regras vigentes na época do que ao ritmo fraseológico, tal qual o concebera e criara”.

Afrânio Coutinho definiu esta carta como “autêntico roteiro de teoria literária, o qual, reunido a outros ensaios de sua lavra, pode bem constituir um corpo de doutrina estética literária, que o norteou em sua obra de criação propriamente dita, sobretudo no romance”.

O autor enfatizou, em sua formação escolar, a importância dada à leitura, com a correção, nobreza, eloqüência e alma que o mestre Januário Mateus Ferreira sabia transmitir a seus alunos. Ainda menino, como ledor dos serões da família, teve oportunidade de contínuo e repetido contacto com um escasso repertório de romances, cujos esquemas iam ficando gravados em seu espírito.

Já cursando a Faculdade de direito, em São Paulo, com grande esforço, dominou o idioma francês para ler obras de Balzac, Dumas, Vigny, Chateaubriand e Victor Hugo.

“A escola francesa, que eu então estudava nesses mestres da moderna literatura, achava-me preparado para ela. O molde do romance, qual mo havia revelado pôr mera casualidade aquele arrojo de criança a tecer uma novela com os fios de uma ventura real, fui encontra-lo fundido com, a elegância e beleza que jamais lhe poderia dar.”

À influência das leituras na sua formação de escritor, sobrepôs Alencar o valor da imaginação:
“Mas não tivera eu herdado de minha santa mãe a imaginação de que o mundo apenas vê flores, desbotadas embora, e de que eu sinto a chama incessante, que essa leitura de novelas mal teria feito de mim um mecânico literário, desses que escrevem presepes em vez de romances.”

Discordou da crítica literária que atribuía à influência de Cooper o paisagismo de O Guarani.
“Disse alguém, e repete-se pôr aí, de outiva, que O Guarani é um romance ao gosto de Cooper. Se assim fosse, haveria coincidência, e nunca imitação; mas não é. Meus escritos se parecem tanto com os do ilustre romancista americano, como as várzeas do ceará com as margens do Delaware.”

Segundo Heron de Alencar, “já houve quem colocasse em dúvida algumas das afirmativas que Alencar inseriu em sua autobiografia literária. Ao escrevê-la, já era um escritor de renome e no auge de sua carreira, quatro anos antes de falecer. É possível, desse modo, que tenha, alguma vez querido vestir de fantasia a realidade de sua formação literária, para que a posteridade – sua grande e permanente preocupação – não lhe regateasse admiração e fidelidade. Isso em nada altera o julgamento que deve resultar da leitura de sua obra, e esse é o único julgamento que prevalece.”

Para Antônio Cândido, “O escrito mais importante para conhecimento da personalidade é a autobiografia literária “Como e Porque Sou Romancista”…., um dos mais belos documentos pessoais da nossa literatura. Não há ainda biografia à altura do assunto, podendo-se dizer o mesmo da interpretação crítica. Mas há um conjunto de estudos que, somados, permitem bom conhecimento.”

04. FRAGMENTOS DA OBRA
I
Meu amigo,
Na conversa que tivemos, há cinco dias, exprimiu V. o desejo de colher acerca de minha peregrinação literária, alguns pormenores dessa parte íntima de nossa existência, que geralmente fica à sombra, no regaço da família ou na reserva da amizade.

Sabendo de seus constantes esforços para enriquecer o ilustrado autor do Dicionário Bibliográfico, de copiosas notícias que ele dificilmente obteria a respeito de escritores brasileiros, sem a valiosa coadjuvação de tão erudito glossólogo, pensei que me não devia eximir de satisfazer seu desejo e trazer a minha pequena quota para a amortização desta dívida de nossa ainda infante literatura.

Como bem reflexionou V., há na existência dos escritores fatos comuns, do viver quotidiano, que todavia exercem uma influência notável em seu futuro e imprimem em suas obras o cunho individual.
Estes fatos jornaleiros, que à própria pessoa muitas vezes passam despercebidos sob a monotonia do presente, formam na biografia do escritor a urdidura da tela, que o mundo somente vê pela face do matiz e dos recamos.

Já me lembrei de escrever para meus filhos essa autobiografia literária, onde se acharia a história das criaturinhas enfezadas, de que, pôr mal de meus pecados, tenho povoado as estantes do Sr. Garnier.
Seria esse o livro de meus livros.

Se alguma hora de pachorra, me dispusesse a refazer a cansada jornada dos quarenta e quatro anos, já completos os curiosos de anedotas literárias saberiam, além de muitas outras coisas mínimas, como a inspiração d’O Guarani, pôr mim escrito aos 27 anos, caiu na imaginação da criança de nove, ao atravessar as matas e sertões do norte, em jornada do Ceará à Bahia.
Enquanto não vem ao lume do papel, que para o da imprensa ainda é cedo, essa obra futura, quero em sua intenção fazer o rascunho de um capítulo.

Será daquele, onde se referem as circunstâncias, a que atribuo a predileção de meu espírito pela forma literária do romance.
(…)
Toda a minha vida colegial se desenha no espírito com tão vivas cores, que parecem frescas de ontem, e todavia mais de trinta anos já lhes pairaram sobre. Vejo o enxame dos meninos, alvoriçando na loja, que servia de saguão; assisto aos manejos da cabala para a próxima eleição do monitor geral; ouço o tropel do bando que sobe as escadas, e se dispersa no vasto salão, onde cada um busca o seu banco numerado.

Mas o que sobretudo assoma nessa tela é o vulto grave de Januário Mateus Ferreira, como eu o via passeando diante da classe, com um livro na mão e a cabeça reclinada pelo hábito da reflexão.
Usava ele de sapatos rinchadores; nenhum dos alunos do seu colégio ouvia de longe aquele som particular, na volta de um corredor, que não sentisse um involuntário sobressalto.

Januário era talvez ríspido e severo em demasia; orem nenhum professor o excedeu no zelo e entusiasmo com que desempenhava o seu árduo ministério. Identificava-se com o discípulo; transmitia-lhe suas emoções e tinha o dom de criar no coração infantil os mais nobres estímulos, educando o espírito com a emulação escolástica para os grandes certames da inteligência.

Dividia-se o diretor pôr todas as classes, embora tivesse cada uma seu professor especial; desse modo andava sempre ao corrente do aproveitamento de seus alunos, e trazia os mestres como os discípulos em constante inspeção. Quando, nesse revezamento de lições, que ele de propósito salteava, acontecia achar atrasada alguma classe, demorava-se com ela dias e semanas, até que obtinha adiantá-la e só então a restituía ao respectivo professor.
(…)
Era eu quem lia para minha boa mãe não somente as cartas e os jornais, como os volumes de uma diminuta livraria romântica formada ao gosto do tempo.
(…)
Morávamos, então, na Rua do Conde, nº 55. Aí nessa casa preparou-se a grande revolução parlamentar que entregou ao Sr. D. Pedro II o exercício antecipado de suas prerrogativas constitucionais.
A propósito desse acontecimento histórico, deixe passar aqui nesta confidência inteiramente literária, uma observação que me acode e, se escapa agora, talvez não volte nunca mais.

Uma noite pôr semana, entravam misteriosamente em nossa casa os altos personagens filiados ao Clube Maiorista de que era presidente o Conselheiro Antônio Carlos e Secretário o Senador Alencar.
Celebravam-se os serões em um aposento do fundo, fechando-se nessas ocasiões a casa às visitas habituais, a fim de que nem elas nem os curiosos da rua suspeitassem do plano político, vendo iluminada a sala de frente.

Enquanto deliberavam os membros do Clube, minha boa mãe assistia ao preparo de chocolate com bolinhos, que era costume oferecer aos convidados pôr volta de nove horas, e eu, ao lado com impertinências de filho querido, insistia pôr saber o que ali ia fazer aquela gente.
Conforme o humor em que estava, minha boa mãe às vezes divertia-se logrando com histórias a minha curiosidade infantil; outras deixava-me falar às paredes e não se distraía de suas ocupações de dona de casa.

Até que chegava a hora do chocolate. Vendo partir carregada de tantas gulosinas a bandeja que voltava completamente destroçada, eu que tinha os convidados na conta de cidadãos respeitáveis, preocupados dos mais graves assuntos, indignava-me ante aquela devastação e dizia com a mais profunda convicção:
-O que estes homens vêm fazer aqui é regalarem-se de chocolate.

Essa, a primeira observação do menino em coisas de política, ainda a não desmentiu a experiência do homem. No fundo de todas as evoluções lá está o chocolate embora sob vários aspectos.
Há caracteres íntegros, como o do Senador Alencar, apóstolos sinceros de uma idéia e mártires dela. Mas estes são esquecidos na hora do triunfo, quando não servem de vítimas para aplacar as iras celestes.
Suprima este mau trecho que insinuou-se malgrado e contra todas as usanças em uma palestra, senão au coin du feu, em todo o caso aqui neste cantinho da imprensa.
Afora os dias de sessão, a sala do fundo era a estação habitual da família.

Não havendo visitas de cerimônia sentava-se minha boa mãe e sua irmã D. Florinda com os amigos que pareciam, ao redor de uma mesa redonda de jacarandá, no centro da qual havia um candeeiro.
Minha mãe e minha tia se ocupavam com trabalhos de costuras, e as amigas para não ficarem ociosas as ajudavam. Dados os primeiros momentos à conversação, passava-se à leitura e era eu chamado ao lugar de honra.

Muitas vezes, confesso, essa honra me arrancava bem a contragosto de um sono começado ou de um folguedo querido; já naquela idade a reputação é um fardo e bem pesado.

Lia-se até a hora do chá, e tópicos havia tão interessantes que eu era obrigado à repetição. Compensavam esse excesso, as pausas para dar lugar às expansões do auditório, o qual desfazia-se em recriminações contra algum mau personagem, ou acompanhava de seus votos e simpatias o herói perseguido.
Uma noite, daquelas em que eu estava mais possuído do livro, lia com expressão uma das páginas mais comoventes da nossa biblioteca. As senhoras, de cabeça baixa, levavam o lenço ao rosto, e poucos momentos depois não puderam conter os soluços que rompiam-lhes o seio.

Com a voz afogada pela comoção e a vista empanada pelas lágrimas, eu também cerrando ao peito o livro aberto, disparei em pranto e respondia com palavras de consolo às lamentações de minha mãe e suas amigas.

Nesse instante assomava à porta um parente nosso, o Revd.º Padre Carlos Peixoto de Alencar, já assustado com o choro que ouvira ao entrar – Vendo-nos a todos naquele estado de aflição, ainda mais perturbou-se:
-Que aconteceu? Alguma desgraça? Perguntou arrebatadamente.
As senhoras, escondendo o rosto no lenço para ocultar do Padre Carlos o pranto e evitar seus remoques, não proferiram palavra. Tomei eu a mim responder:

-Foi o pai de Amanda que morreu! Disse, mostrando-lhe o livro aberto.
Compreendeu o Padre Carlos e soltou uma gargalhada, como ele as sabia dar, verdadeira gargalhada homérica, que mais parecia uma salva de sinos a repicarem do que riso humano. E após esta, outra e outra, que era ele inesgotável, quando ria de abundância de coração, com o gênio prazenteiro de que a natureza o dotara.
(…)
Foi essa leitura contínua e repetida de novelas e romances que primeiro imprimiu em meu espírito a tendência para essa forma literária que é entre todas a de minha predileção?
Não me animo a resolver esta questão psicológica, mas creio que ninguém contestará a influência das primeiras impressões.

Entretanto é preciso que lhe diga. Se a novela foi a minha primeira lição de literatura, não foi ela que me estreou na carreira de escritor. Este título cabe a outra composição, modesta e ligeira, e pôr isso mesmo mais própria para exercitar um espírito infantil.
(…)
A cena era em Pajeú de Flores, nome que só pôr si enchia-me o espírito da fragrância dos campos nativos, sem falar dos encantos com que os descrevia o meu amigo.
Esse primeiro rascunho foi-se com os folguedos da infância que o viram nascer. Das minhas primícias literárias nada conservo; lancei-as ao vento, como palhiço que eram da primeira copa.
(…)
Ao cabo de quatro anos de tirocínio na advocacia, a imprensa diária, na qual apenas me arriscara como folhetinista, arrebatou-me. Em fins de 1856 achei-me redator-chefe do Diário do Rio de Janeiro.
(…)
Escrevi Cinco Minutos em meia dúzia de folhetins que iam saindo na folha dia pôr dia, e que foram depois tirados em avulso sem nome do autor. A prontidão com que em geral antigos e novos assinantes reclamavam seu exemplar, e a procura de algumas pessoas que insistiam pôr comprar a brochura, somente destinada à distribuição gratuita entre os subscritores do jornal; foi a única, muda mas real, animação que recebeu essa primeira prova
(…)
Logo depois do primeiro ensaio, veio A Viuvinha. Havia eu em época anterior começado este romancete, invertendo a ordem cronológica dos acontecimentos. Deliberei porém mudar o plano, e abri a cena com o princípio da ação.
(…)
Há de ter ouvido algures, que eu sou um mimoso do público, cortejado pela imprensa, cercado de uma voga de favor, vivendo da falsa e ridícula idolatria a um romance oficial. Aí tem as provas cabais; e pôr elas avalie dessa nova conspiração do despeito que veio substituir a antiga conspiração do silêncio e da indiferença.

Apesar do desdém da crítica de barrete, Lucíola conquistou seu público, e não somente fez caminho como ganhou popularidade. Em um ano esgotou-se a primeira edição de mil exemplares, e o Sr. Garnier comprou-me a segunda, propondo-me tomar em iguais condições ouro perfil de mulher, que eu então gizava.
Pôr esse tempo fundou a sua Biblioteca Brasileira, o meu amigo Sr. Quintino Bocaiúva, que teve sempre um fraco pelas minhas sensaborias literárias.

Reservou-me um de seus volumes, e pediu-me com que enche-lo. Além de esboços e fragmentos, não guardava na pasta senão uns dez capítulos de romance começado.
Aceitou-os, e em boa hora os deu a lume; pois esse primeiro tomo desgarrado excitou alguma curiosidade que induziu o Sr. Garnier a editar a conclusão. Sem aquela insistência de Quintino Bocaiúva, As Minas de Prata, obra de maior traço, nunca sairia da crisálida e os capítulos já escritos estariam fazendo companhia a Os Contrabandistas.

De volta de São Paulo, onde fiz uma excursão de saúde, e já em férias de política, com a dissolução de 13 de maio de 1863, escrevi Diva que saiu a lume no ano seguinte, editada pelo Sr. Garnier.

Foi dos meus romances – e já andava no quinto, não contando o volume d’As Minas de Prata – o primeiro que recebeu hospedagem da imprensa diária, e foi acolhido com os cumprimentos banais da cortesia jornalística. Teve mais: o Sr. H Muzzio consagrou-lhe no Diário do Rio um elegante folhetim, mas de amigo que não de crítico.

Pouco depois (20 de junho de 1864) deixei a existência descuidosa e solteira para entrar na vida da família onde o homem se completa. Como a literatura nunca fora para mim uma Boêmia, e somente um modesto Tibur para o espírito arredio, este sempre grande acontecimento da história individual não marca época na minha crônica literária.

A composição dos cinco últimos volumes d’As Minas de Prata ocupou-me três meses entre 1864 e 1865, porém a demorada impressão estorvou-me um ano, que tanto durou. Ninguém sabe da má influência que tem exercido na minha carreira de escritor, o atraso de nossa arte tipográfica, que um constante caiporismo torna em péssima para mim.

Se eu tivesse a fortuna de achar oficinas bem montadas com hábeis revisores, meus livros sairiam mais corretos; a atenção e o tempo pôr mim despendidos em rever, e mal, provas truncadas, seriam melhor aproveitados em compor outra obra.

Para publicar Iracema em 1869, fui obrigado a edita-lo pôr minha conta; e não andei mal inspirado, pois antes de dois anos a edição extinguiu-se.

De todos os meus trabalhos deste gênero nenhum havia merecido as honras que a simpatia e a confraternidade literária se esmeram em prestar-lhes. Além de agasalhado pôr todos os jornais, inspirou a Machado de Assis uma de suas mais elegantes revistas bibliográficas.

Até com surpresa minha atravessou o oceano, e granjeou a atenção de um crítico ilustrado e primoroso escritor português, o Sr. Pinheiros Chagas, que dedicou-lhe um de seus ensaios críticos.

Em 1868 a alta política arrebatou-me às letras para só restituir-me em 1870. Tão vivas eram as saudades dos meus borrões, que apenas despedi a pasta auri-verde dos negócios de estado, fui tirar da gaveta onde a havia escondido, a outra pasta de velho papelão, todo rabiscado, que era então a arca de meu tesouro.
Aí começa outra idade de autor, a qual eu chamei de minha velhice literária, adotando o pseudônimo de Sênio, e outros querem seja a da decrepitude. Não me afligi com isto, eu que, digo-lhe com todas as veras, desejaria fazer-me escritor póstumo, trocando de boa vontade os favores do presente pelas severidades do futuro.

Desta segunda idade, que V. tem acompanhado, nada lhe poderia referir de novo, senão um ou outro pormenor de psicologia literária, que omito pôr não alongar-me ainda mais. Afora isso, o resto é monótono, e não passaria de datas, entremeadas da inesgotável serrazina dos autores contra os tipógrafos que lhes estripam o pensamento.

Ao cabo de vinte e dois anos de gleba na imprensa, achei afinal um editor, o Senhor B. Garnier, que espontaneamente ofereceu-me um contrato vantajoso em meados de 1870.

O que lhe deve a minha coleção, ainda antes do contrato, terá visto nesta carta; depois, trouxe-me esta vantagem, que na concepção de um romance e na sua feitura, não me turva a mente a lembrança do tropeço material, que pode matar o livro, ou fazer dele uma larva.

Deixe arrotarem os poetas mendicantes. O Magnus Apollo da poesia moderna, o deus da inspiração e pai das musas deste século, é essa entidade que se chama editor e o seu Parnaso uma livraria. Se outrora houvesse Homeros, Sófocles, Virgílios, Horácios e Dantes, sem tipografia nem impressor, é porque então escrevia-se nessa página imortal que se chama a tradição. O poeta cantava; e seus carmes se iam gravando no coração do povo.

Todavia ainda para o que teve a fortuna de obter um editor, o bom livro é no Brasil e pôr muito tempo será para seu autor, um desastre financeiro. O cabedal de inteligência e trabalho que nele se emprega, daria em qualquer outra aplicação, lucro cêntuplo.

Mas muita gente acredita que eu me estou cevando em ouro, produto de minhas obras. E, ninguém ousaria acredita-lo, imputaram-me isso a crime, alguma cousa como sórdida cobiça.

Que país é este onde forja-se uma falsidade, e para que? Para tornar odiosa e desprezível a riqueza honestamente ganha pelo mais nobre trabalho, o da inteligência!

Dir-me-á que em toda a parte há dessa praga; sem dúvida, mas é praga; e não tem foros e respeitos de jornal,admitindo ao grêmio da imprensa.
Excedi-me além do que devia; o prazer da conversa…
Maio de 1873.

AS MENTIRAS QUE OS HOMENS CONTAM – Luis Fernando Veríssimo

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AS MENTIRAS QUE OS HOMENS CONTAM – Luis Fernando Veríssimo

Breve informação sobre a crônica

• Cronos, divindade mitológica que representa o tempo
• Primeiro grande cronista da Língua Portuguesa: Fernão Lopes
• Crônicas modernas deixaram de lado o aspecto de registro histórico da classe dominante e anotam com humor, ironia ou lirismo as banalidades do cotidiano
• Crônicas, geralmente, tem a intenção de divertir
• Existem diferentes tipos de crônica:

Crônica descritiva: predomina a caracterização de elementos no espaço
Crônica narrativa: história envolvendo personagens, enredo, etc.
Crônica narrativo-descritiva: predomínio das narrações e descrições
Crônica lírica: linguagem poética e metafórica
Crônica metalingüística: fala sobre o próprio ato de escrever
Crônica reflexiva: reflexões filosóficas sobre vários assuntos

• Na introdução do livro, L.F.V. escreve:

“O cronista também precisa respeitar certas convenções e limites mas está livre para produzir seus ovos em qualquer formato. Nesta coleção existem textos que são contos, outros que são paródias, outros que são puros exercícios de estilo ou simples anedotas e até alguns que se submetem ao conceito acadêmico de crônica.(…)”
“Você, que é o consumidor do ovo e do texto, só tem que saboreá-lo e decidir se é bom ou ruim, não se é crônica ou não é. Os textos estão na mesa: fritos, estrelados, quentes, mexidos… Você só precisa de um bom apetite.” (A crônica e o ovo)

Estrutura da Obra e Temática
Constituído de quarenta e um textos relativamente curtos, como são as crônicas, possuem uma linguagem propositalmente descontraída e informal

Temas:

• Mentiras de homens e mulheres.
• Começa na infância. E a primeira vítima é a mãe. Depois vêm as namoradas, a esposa, a sogra, a amante, os amigos, o chefe. E se torna um comportamento compulsivo.
• Muitas vezes lançamos mão delas para evitar algum tipo de constrangimento ou para escapar de broncas, outras pela terrível necessidade de não magoar os outros, ou até mesmo por mera brincadeira.

• Não tem como escapar — as mentiras vão sempre estar presentes no cotidiano do ser humano. E se muitas vezes são mentiras inocentes, sem maiores conseqüências, em outras situações elas assumem dimensões gravíssimas e podem levar a um desfecho trágico.
• Quem nunca se deparou com um estranho na rua com a constrangedora pergunta: “Lembra de mim?” E você, mesmo sem saber de quem se trata, responde: “Claro.” E, aí, tenta ganhar tempo e mais algumas dicas para decifrar a identidade do inconveniente sujeito.
• Quem nunca inventou, para a mãe, uma dor ou mal-estar pra fugir de um dia de aula?
• Quem nunca usou o trânsito para justificar o atraso a um compromisso?
• Afinal, quem nunca contou uma mentira que atire a primeira pedra.

IV – Enredos – Prefácio

“ Nós nunca mentimos. Quando mentimos, é para o bem de vocês. Verdade. “
• História sobre a doença para não ir à escola
“ Assim, lhe dávamos a alegria de se preocupar conosco, que é a coisa que a mãe mais gosta, e a poupávamos de descobrir a nossa falta de caráter. Melhor um doente do que um vagabundo.”

• Primeira namorada: “ A paixão nessa idade pode ser um sumidouro”
“Outras namoradas. Outras mentiras.
– Eu quero só ver, juro. Não vou tocar.
Vocês não queriam ser tocadas, mas ao mesmo tempo se a gente nem tentasse. Nem desse a vocês a oportunidade de afastar a nossa mão, indignadas. Ou de descobrir como era ser tocada.”
• Casamento: mentiras sobre o medo de ladrão

““ Fiquei fazendo companhia ao Almeidinha, coitado, ele ainda não se refez” significa que a nova gata do Almeidinha só saía com ele se ele conseguisse um par para a prima dela, e nós fazemos tudo por um amigo, mas não queremos estragar a ilusão de vocês de que a separação deixou o Almeidinha arrasado, como ele merecia.”
• “ Está quase igual ao da mamãe.”

2 – Grande Edgar

• Dois amigos se encontram e um não se lembra do outro
• Possibilidade de soluções:
“ Um, o curto, grosso e sincero. – Não.”

“Outro caminho, menos honesto mas igualmente razoável, é o da dissimulação.(…)
– Desculpe, deve ser a velhice, mas…”

“E há um terceiro caminho. O menos racional e recomendável. O que leva à tragédia e ruína. E o que , naturalmente, você escolhe.”
• Diversas tentativas e nomes são sugeridos pelo interlocutor
“Você abandonou todos os escrúpulos. Ao Diabo com a cautela. Já que o vexame é inevitável, que ele seja total, arrasador. Você está tomado por uma espécie de euforia terminal. De delírio do abismo. Como que conhece o Bituca?”

“ Ao se afastar, você ainda ouve, satisfeito, ele dizer “ Grande Edgar”.Mas jura que é a última vez que fará isso. Na próxima vez que alguém lhe perguntar” Você está me reconhecendo?” Não dirá nem não. Sairá correndo.”

3 – O Falcão

• História da vida difícil de um homem, que é seqüestrado por engano
“Só uma palavra descrevia a vida de Antônio. Foi a palavra que ele usou quando viu o tamanho da fila do ônibus.
– Que merda!
Estava mal empregado, mal casado, mal tudo.”
• Antônio faz tentativas frustradas de mostrar aos seqüestradores o engano
• É morto e jogado da ponte.

4- Blefes

• Detalhes sobre um jogo de pôquer
“Ninguém conhece a alma humana do que um jogador de pôquer. A sua e a do próximo.”
• Explicações de como se pode ganhar um jogo com um blefe
• Crítica sutil a alguns governantes brasileiros

“A história dos presidentes do Brasil desde Jânio tem sido uma sucessão de blefes. Jango também foi um blefe, na medida em que aparentava ter um poder que não tinha. O golpe de 64 foi um blefe para quem acreditou nele. Um blefe involuntário. Sarney não foi um blefe completo porque ninguém esperava que ele fosse muito diferente. Collor foi um blefe deliberado que manteve a versão política do poker face, que é um cara de pau mesmo sob a ameaça do ridículo.

E chegamos a social-democracia no poder, que pode estar agradando a muita gente, mas é outro blefe em relação às expectativas que criou e ao que podia ter sido. Ou talvez esse blefe tenha uma história antiga, e a gente é que não tinha notado.”

5 – A Aliança

• História de um homem, que voltando do trabalho, fura o pneu do carro
• Na troca, perde a aliança num bueiro
• Pensa na conversa que teria com a esposa
“ – O que aconteceu?

E ele contaria. Tudo exatamente como acontecera. O macaco. O óleo. A aliança no asfalto. O chute involuntário. E a aliança voando para o bueiro e desaparecendo.
– Que coisa – diria a mulher, calmamente.
– Não é difícil de acreditar? // – Não. É perfeitamente possível.
– Pois é. Eu… // – SEU CRETINO!”

• Discussão com a esposa / Chega em casa sem dizer nada, pouca conversa.
“- Tirei para namorar. Pra fazer um programa. E perdi no motel. Pronto. Não tenho desculpas. Se você quiser encerrar nosso casamneto agora, eu compreenderei. (…)
– O mais importante é que você não mentiu para mim.
E foi tratar do jantar.”

6 – Os Moralistas

• Paulo separa de sua esposa Margarida
“ Paulo está ao mesmo tempo comovido e surpreso com os três amigos. Assim que souberam do seu divórcio iminente, correram para visitá-lo no hotel. A solidariedade lhe faz bem. Mas não entende aquela insistência deles em dissuadi-lo. Afinal, todos sabiam que ele não se acertava com a mulher.”

• Todos estão tentando convencê-lo a voltar com a mulher, mostrando-lhe as desvantagens de se separar: família, filhos(“mas nós não temos filhos”), festas nas casas dos outros.(“Você se transformará num paria social, Paulo.”)
• Na verdade, a preocupação deles era outra

“- Também, a idéia dele. Largar o gol dos casados logo agora. Em cima da hora. Quando não dava mais para arranjar mais substituto.
– Os casados nunca terão um goleiro como ele.(…)”

7 – O Dia da Amante

• A pergunta é: “ Por que não existe um dia dos Amantes?”
“Já existe o Dia dos Namorados e hoje em dia a diferença entre namorado e amante tornou-se um pouco vaga. Quando é que namorados se transformam em amantes? Segundo uma moça, experimentada na questão, que consultamos, se a mulher der para o mesmo homem mais de 17 vezes seguidas ele deixa de ser namorado e, tecnicamente, passa a ser seu amante.(…)”

• Diferenças entre um amante e um namorado solteiros: sexo
“No caso do homem casado e com uma amante a coisa se torna mais complicada, e pouco invejável. No caso do homem casado e com várias amantes, se torna mais complicada ainda, e mais invejável.(…)”
• Propagandas para o Dia dos Amantes.
“Tudo para o seu segundo lar.”
“Faça-a sentir-se como se fosse a legítima. Dê uma máquina de lavar roupa.”
“Já que ela não pode ter um a aliança, dê um anel.”
“No Dia dos Amantes, dê a ela um despertador. Assim você nunca se arriscará a chegar tarde em casa.”

• Confusões inevitáveis: marido e mulher se encontram numa loja de lingerie
• Marido comprando uma camisola / Mulher leva um susto
“- Há anos que eu tento esconder isso de você. Agora você pegou e vou revelar tudo. Adoro dormir de renda preta! Só me controlei até hoje por causa das crianças!
Ela compreende. Tenta acalmá-lo. Mas ele agora está agitado. Bate no balcão e grita:
– Também quero ligas vermelhas, um chapelão e chinelos de pompom grená!”
• Conclusão: a amante ficará sem o presente, mas não existiria suspeitas
• Dica: telefone para casa antes de ir para a casa da amante

“ Você se dirige para a casa da amante, com o embrulho do presente embaixo do braço. Começa a pensar na ausência da sua mulher em casa. Onde ela teria ido? Lembra-se então de que a viu mais de uma vez olhando com interesse uma vitrine cheia de cachimbos. Na certa pensando num presente para lhe dar. E súbito você pára na calçada como se tivesse batido num elefante. Você não fuma cachimbos!”

8 – A verdade

• História de uma donzela que estava na beira de um riacho
• Perde um anel de diamante que é levado pelas águas
• Com medo do pai, ela inventa uma história de que foi assaltada.
• Os irmãos vão até a floresta e encontram um homem e o matam
• Voltam à floresta e encontram um segundo homem, que também é morto.
• A moça inventa uma história de que existia um terceiro homem
• Os irmãos,cansados de sangue, levam-no para a aldeia.
“- Foi ele que assaltou a donzela, e arrancou o anel de seu dedo, e a deixou desfalecida – gritaram os aldeiões.- Matem-no.

– Esperem! – gritou o homem, no momento em que passavam a corda da forca pelo seu pescoço.- Eu não roubei o anel. Foi ela que me deu!”
“O homem contou que estava à beira do riacho, pescando, quando a donzela se aproximou dele e pediu um beijo. Ele deu o beijo. Depois a donzela tirou a roupa e pedira que ele a possuísse, pois queria saber o que era o amor. Mas como era um homem honrado, ele resistira, e dissera que a donzela deveria ter paciência, pois conheceria o amor do marido no seu leito de núpcias. Então a donzela lhe oferecera o anel dizendo:”Já que meus encantos não o seduzem, este anel comprará seu amor.”E ele sucumbira, pois era pobre, e a necessidade é o algoz da honra.”

• Todos se viraram contra a donzela: ”Rameira!Impura!Diaba!”
• Antes da morte, a donzela quis falar com o pescador
“- A sua mentira ra maior que a minha. Eles mataram pela minha mentira e vão matar pela sua. Onde está, afinal, a verdade?(…)
– A verdade é que eu achei o anel na barriga de um peixe. Mas quem acreditaria nisso? O pessoal quer violência e sexo, não histórias de pescador.”

O Autor e o Estilo

• Nascido em Porto Alegre, L.F.V. desde cedo trabalhou em redações de jornais, fato que faz suas crônicas sempre tratarem de temas atuais
• Linguagem simples, clara, despreocupada com a construção acadêmica ou vanguardística
• Sempre procura, tanto na forma como conteúdo, uma comunicação direta com o leitor
• Escritor de texto refinado, sem rodeios

• A objetividade de L.F.V. faz o que escreve fluir na cabeça de quem lê
• Vive citando nomes, locais e fatos pouco conhecidos do grande público
• “Faz rir. Faz chorar. Faz pensar. É político. É humano. É, sem dúvida, um gigolô das palavras. E nem as come ! As deixa inteiras para que o leitor possa obter máximo prazer.”

ANGÚSTIA – Graciliano Ramos

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ANGÚSTIA – Graciliano Ramos

• Romance de confissão – livro escuro e sombrio
• Economia vocabular – a palavra que corta como faca
• Estudo completo da frustração
• Sem predomínio de regionalismo
• A paisagem interessa na medida que interage com psicológico

I- Personagens:

• Luís da Silva – homem tímido e solitário
• Marina – vizinha
• Julião Tavares – homem rico e ousado
• Seu Ramalho ( humilde ) e D. Adélia ( simples )
• Seu Ivo – presente
• Criada Vitória
• D. Mercedes – espanhola
• Camilo Pereira da Silva, Velho Trajano, Amaro Vaqueiro

II- Obsessão da água purificadora

“Lavo as mãos uma infinidade de vezes por dia, lavo as canetas antes de escrever, tenho horror às apresentações, aos cumprimentos, em que é necessário apertar a mão que não sei por onde andou… Preciso muita água e muito sabão.”

“Minha mão está suja. – banheiro desempenha papel importante.
Preciso cortá-la.
Não adianta lavar. – drama coletivo
A água está podre. – gente acuada, esmagada pela vida.
Nem me ensaboar.
O sabão é ruim. – falta de equilíbrio emocional.
A mão está suja,
Suja há muitos anos.”
(Drummond)

“Alguns dias depois achava-me no banheiro, nu, fumando, fantasiando maluqueiras, o que sempre me acontece. Fico assim duas horas, sentado no cimento. Tomo uma xícara de café às seis horas e entro no banheiro. Saio às oito, depois das oito. Visto-me à pressa e corro para a repartição. Enquanto estou fumando, nu, as pernas estiradas, dão-se grandes revoluções na minha vida. Faço um livro, livro notável, um romance. Os jornais gritam, uns me atacam, outros me defendem. “

III- Uma explicação sexual

“O amor para mim sempre foi uma coisa dolorosa, complicada e incompleta.”

• Três aspectos sexuais de seu abafamento:

Infância : “Sempre brinquei só. “
Isolamento imposto pelo pai
Solidão em que sempre viveu

• Três símbolos fálicos:

As cobras da fazenda do avô
Os canos de água de sua casa
A corda

III- Observações:

• A essência do erótico está no esconder-se.
• Uso de monólogo interior.
• Todo fato é estímulo para Luís repassar acontecimentos e sentimentos da infância, que pesariam na vida de adulto.
• Raskolnikoff – Crime e Castigo
• Romance mais complexo do autor
• Características do autor: ódio ao burguês e a vocação literária.

I- Autor
– Mais importante ficcionista de geração de 30.
– O realismo do autor tem sempre o caráter crítico.
– O herói é sempre problemático e não aceita o mundo, nem os outros e nem a si mesmo.
– Não há predomínio do regionalismo.
– A paisagem só interessa na medida em que interage com o Psicológico.
– Economia vocabular.
– A palavra que corta como faca.
– Uso restrito dos objetos e sintaxe clássica (próximo de Machado).

II- Obra (1936 – Romance de confissão)
– Livro fuliginoso e opaco (escuro, sombrio)
– Raro = encontrar na nossa literatura estudo tão completo da frustração.

Luís da Silva – Frustado, violento, cruel, irremediável, que traz em si reservas inesgotáveis de amargura e negação.
– Fuligem que encobre, sufoca e dá desejos impossíveis de libertação.

A – Obsessão da água purificada

• O banheiro desempenha papel importante (nojo pelas paredes sujas do quarto)
• Sentimento de inferioridade se anula pela Autopunição – só alcança o equilíbrio quando assassina o rival.

Equilíbrio precário, que o deixa arrasado – mas é a única forma AFIRMAR.

Desespero irremediável, tão surdo e profundo.

– Oriundo do sentimento de uma drama não só pessoal, mas também coletivo.
– Drama da vida mal-feita, dos homens mal-vividos.
– Gente acuada, bloqueada, esmagada pela vida, sem entender o porquê disso tudo.
– Incrível dureza desse mundo sem dinheiro nem horizonte.

B – Aprofundando para is círculos mais ásperos dos motivos, talvez pudéssemos encontrar, em parte, uma Explicação Sexual para a consciência estrangulada de Luís da Silva.
Há no livro três aspectos sexuais do abafamento:
• Na infância – “Sempre brinquei só”.
• Isolamento imposto pelo pai – Vive sem mulheres (represando luxúria)
• Solidão- em que desenvolveram os sonhos e os germes da inadaptação.

“O amor para mim sempre fora uma coisa dolorosa, complicada e incompleta”.

Quando encontra com Marina, surge Julião Tavares e a carrega:
– Angústia do ciúme
– Desejo insatisfeito
Luís – Tensão dramática do sexo reprimido.
– Obsessão da intimidade dos outros.
– Vê em tudo manifestações eróticos e vestígios de posse.
– Marcados por três símbolos fálicos:

• as cobras da fazenda do avô
• os carros de água de sua casa
• a corda com que enforca Julião

C – Uso de Monólogo interior

– narrador não é onisciente (Narra sua própria experiência)
– tonalidade egocêntrica.
– O livro parece ao leitor as horas de um longo pesadelo.
– Todo fato é estimulado para Luís repassar acontecimentos e sentimentos da infância, quanto pesam na vida de adulto.

Julião Tavares – Símbolo da adulteração de todas as idéias de Luís.
– Rico, imbecil, conquistador, vulgar.

Marian – Bonita;
– Molecagem e alegria transfere para depressão e vergonha (gravidez)

Dª Adelia – Mãe, faz todas as vontades.

Camilo Pereira da Solva – Velho Trajano – Amaro Vaqueiro – Infância

O RECADO DO MORRO – Guimarães Rosa

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O RECADO DO MORRO – Guimarães Rosa

A história ilustra o mundo sem lei. No sertão, vigora a regra, e não a lei – a regra da aliança e da vingança. Para o autor, estão em jogo ali novamente os destinos da civilização e da cidadania brasileira.

O recado do morro, os personagens-viajantes se deslocam pelo interior de Minas e por vários campos do saber, ao mesmo tempo em que recontam e decifram antigas estórias, relatos da loucura e mitos anônimos. Nesse conto, uma rede de narradores é estabelecida para passar adiante uma estória que, ao final, ainda é a mesma embora já seja outra.

O recado do morro, ouvido por Gorgulho, é contado para seu irmão Catraz, que o reconta para o jovem Joãozezim, que o narra para Guégue, o guia que se orienta por referências móveis. A partir daí, o recado vira boato e pode ser ouvido no discurso apocalíptico de Nômini Dômini, nos números inscritos pelo Coletor na parede da igreja, ou na letra cantada ao violão por Laudelim, até que se torna compreendido por seu destinatário, o guia Pedro Orósio, que sempre ouvira as diversas variações da mesma história sem atinar para o fato de que isso era um aviso de sua própria morte.

Constituído pelas relações cooperativas e desarmônicas entre saber e não-saber – entre aquele que sabe e aquele que não sabe, entre o que cada personagem sabe e as formas como o sabe e o compartilha -, o conto opera com formas e temas não-excludentes, que podem ser verificados pelos freqüentes processos de tradução capazes de dar sustentação a uma poderosa estrutura fractal
e em rede.

À medida que a comitiva avança sertão adentro, o recado vai sendo passado de boca em boca a personagens excêntricos: bobos, loucos, lunáticos, fanáticos religiosos e um menino, até chegar aos ouvidos do músico Laudelim, que transforma a mensagem numa canção. Traduzido para a música, o recado é então compreendido por Pedro Orósio, a tempo de receber o aviso do Morro sobre as intenções de seus falsos amigos.

O morro da Garça, em Minas Gerais, assume papel de destaque no conto, ao enviar mensagem de morte à personagem principal do conto, captada por um visionário sertanejo e afinal percebida a tempo por tal personagem.