Esportes para Deficientes Visuais

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Esta investigação teve como objetivo verificar se os professores de Educação física conhecem as atividades motoras, ou as adaptações destas atividades para a prática do desporto. Para tal foi utilizado um questionário com a seguinte pergunta: “Cite 3 esportes que você considera impossível de encontrar pessoas cegas praticando?”. Os resultados verificaram que a maioria dos esportes relatados foram os esportes de precisão, porém com a tecnologia atual podem-se fazer adaptações e permitir que o esporte seja praticado com pequenas alterações em suas regras conforme a deficiência do indivíduo.

Introdução

O esporte para pessoas com deficiências no Brasil teve início oficial em 1958, mas apenas recentemente os profissionais de Educação Física têm se preocupado com atividades físicas adaptada para este público e, não menos importante, com a concepção da inclusão social e maior divulgação e popularização do desporto (CPB, 2007).

As pessoas com deficiência têm as mesmas necessidades básicas de uma pessoa dita “normal”. Mesmo com uma aparência física diferente dos indivíduos com partes físicas, mentais e sensoriais regular, elas também querem ter sucesso, reconhecimento, aprovação, quer ter os mesmos direitos e deveres de todos da sociedade.

Freitas (1997) cita Mataruna et al (2005) por, que relata que o objetivo da Educação Física Adaptada é oferecer atendimento especializado aos educandos portadores de necessidades educativas especiais, respeitando-se as diferenças individuais, visando proporcionar um desenvolvimento global dessas pessoas, tornando possível não só o reconhecimento de suas potencialidades, como também a sua integração a sociedade. A pessoa com deficiência pode encontrar no esporte uma saída para reformular suas conquistas sociais.

A Educação Física Adaptada pode proporcionar aos educandos oportunidades de utilizarem suas habilidades através das atividades motoras, jogos e desporto com o fim de desenvolver o máximo de suas capacidades.

Cada pessoa tem o direito de escolher a atividade que melhor lhe adapta, atendendo suas expectativas e objetivos. Com a pessoa deficiente não deve ser diferente, porém observando suas limitações pela característica do quadro clínico.

Segundo o Ministério da Educação e do Desporto em 1985 foi realizado no Rio de Janeiro o I Fórum Nacional: “O Excepcional e a Política de Educação Física, Desporto e Esporte para todos”, onde representantes de cada estado apontaram as principais realidades de suas respectivas localidades, dentre estas foram citados: dificuldades financeiras; falta de recursos humanos qualificados para o trabalho com os PNE’S; recursos humanos não qualificados atuando; não aproveitando professores qualificados; falta de material pedagógico.

A pessoa com deficiência irá participar de uma atividade motora se houver interesse de sua parte (fator intrínseco) e se as condições de fatores externos forem a seu favor (fatores extrínsecos).

A Educação Física para cegos vem crescendo muito por parte dos incentivos através do trabalho realizado por novos professores, feito através de seminários, congressos cursos com as principais universidades do país.

O conhecimento popular do esporte para cegos no Brasil ainda é baixo principalmente por profissionais de Educação Física, os quais sentem muitas dificuldades de trabalho para realizar a inclusão social na escola.

Sendo assim elaborou-se esta investigação para identificar se estudantes de Educação Física dos últimos períodos dos cursos de licenciatura e bacharelado de uma instituição privada da cidade do Rio de Janeiro, dispõem de conhecimento a respeito do conhecimento sobre o esporte para cegos. Com vista aos desafios das limitações impostas pela deficiência, desenvolveu-se a intenção de saber se existiria alguma modalidade que fosse inacessível a pessoa com deficiência visual. O objetivo deste artigo é descrever os esportes que já existem para cegos, e que muitos estudantes e até mesmo profissionais da área de Educação Física desconhecem.



Metodologia

O grupo de voluntários é caracterizado como de conveniência, segundo Severino (1992) contando com acadêmicos do ultimo semestre dos cursos de licenciatura e bacharelado em educação física. A duração destes cursos é de três anos para a licenciatura e um ano para o bacharelado o que contextualiza que os indivíduos que compõem o último grupo possuem quatro anos de estudos dado que é condicional para a inscrição no bacharelado a conclusão prévia da licenciatura.

Para a coleta de dados das opiniões dos estudantes de Educação Física foi solicitado que os mesmos registrassem suas respostas para a seguinte questão: “Cite três esportes que você considera impossíveis de uma pessoa com cegueira praticar”, em formulário preparado pelo pesquisador.

Esta pesquisa descritiva, do tipo survey é de natureza quantitativa, (THOMAS e NELSON, 2002). Através do questionamento aberto permitiu-se que a amostra expressasse seus conhecimentos, especificando-os apenas na nomenclatura dos esportes tidos como inviáveis a pessoas com cegueira, sem justificá-los.

Resultados e Discussão

Participaram do estudo um total de quarenta e cinco alunos do curso de licenciatura de uma instituição privada da Cidade do Rio de Janeiro, e do curso de bacharelado quarenta e dois acadêmicos.

Para a apresentação dos resultados faz se necessário entender que dividiu-se os esportes em cinco categorias utilizando o referencial apresentado por DaCosta (2005): esportes de quadra, esportes aquáticos, esportes de combate e precisão, esportes radicais e de aventura, esportes de lazer.

Sabe-se que alguns esportes apenas sofrem pequenas adaptações conforme a natureza física do indivíduo, e o grau de sua deficiência e outros não solicitam de nenhuma adaptação.

Nesta pesquisa entre os alunos que estão se graduando na licenciatura, os esportes que tiveram maior incidência na pesquisa foram “tiro ao alvo” e “arco e flecha” que estão relacionados aos esportes de precisão. A maior incidência deste esporte na pesquisa deve-se ao fato dos praticantes não possuírem visão. Porém tem como se utilizar adaptações para a prática destes desportos.

Esportes de Precisão e de Combate

Os esportes de precisão como tiro ao alvo e arco e flecha obtiveram um índice ligeiramente acentuado em relação aos demais, talvez seja pela relação da falta de visão e menor precisão para atingir o alvo que alguns alunos fizeram. Porém na Espanha e Japão onde são realizadas práticas de algumas modalidades de esportes para deficientes como laboratório. Há possibilidade de uma adaptação de um mecanismo sonoro que permite ao deficiente visual, atingir o alvo com maior precisão.

Os esportes de precisão foram os que tiveram maior incidência nesta pesquisa, tais esportes como golf, tiro ao alvo, tênis de mesa, basquete, arco e flecha, beisebol e automobilismo. Obtiveram índices elevados em relação aos demais esportes.

No Bird Golf é praticado por pessoas com baixa visão, onde o jogo é adaptado com alvos maiores, a bola possui estrutura similar a peteca, que possui mais direção do vôo e não rola ao tocar o solo.

O tiro com arco possui as mesmas regras do esporte convencional, com a diferença do sistema de mira sonora que permite ao competidor perceber se está mirando no ponto cego do alvo.

Na prática do tênis de mesa é feita em uma mesa igual à tradicional com a diferença que a bola é passada pro baixo da rede, está possui pequenas bolinhas de chumbo dentro, os pontos são marcados quando a bola toca a parte de trás da mesa, sem cair dela.

Nos esportes de combate segundo DaCosta (2005) nas artes marciais os movimentos de exibição de algumas lutas, ou seja a parte da exibição podem ser treinados e melhorados até para uma melhor percepção motora do indivíduo, melhorando a sua motricidade e sua percepção no espaço temporal, sendo assim na capoeira e no karatê.

No caso do boxe são usadas luvas sonoras para mostrar a distância e a posição da guarda utilizada.

Esportes Aquáticos

O esporte aquático que mais se destaca é a natação, pois esta é a modalidade com o maior número de participantes, e também os recordes mundiais que os nadadores cegos obtiveram não estão distantes dos nadadores dos atletas sem deficiência.

A primeira competição esportiva internacional para pessoas com cegueira e deficiência visual ocorreu na França no ano de 1970, sendo a deficiência visual inclusa nas Paraolimpíadas em 1976, na cidade de Toronto, Canadá. Mas somente em 1980 na Holanda que foram oferecidas no programa paraolímpico. (LUZ, 2006).

A prática da natação por pessoas com cegueira e deficiência visual esteve inicialmente restrita a uma utilização terapêutica, porém, com a massificação e disseminação das práticas esportivas para pessoas com deficiência, a natação passou também a ser praticada como competição. (LUZ, 2006.).

Nesta parte da pesquisa, houve poucas pessoas que responderam esportes aquáticos, sendo mais considerável esportes de demonstração artística, como saltos ornamentais e nado sincronizado com 3% enquanto que natação 1% das pessoas responderam que o cego não pode praticar, ou seja boa parte dos professores estão informados que a natação é um esporte paraolímpico.

Outros esportes aquáticos também foram citados na pesquisa tais como: nado sincronizado, mergulho e pólo aquático que é um esporte recente para deficientes visuais, mas já existe, e é desconhecido pro alguns profissionais da área.

Esportes de Quadra

O esporte de quadra é praticado pela maioria dos atletas deficientes de um modo geral, e também possui um número elevado de praticantes entre os deficientes visuais. Estes esportes de quadra são: o Goalball, o Futsal, o Futebol de cinco, o Futebol Society, o Vôlei.

Segundo DaCosta 2005 o Vôlei é praticado onde a rede fica colocada a 30 cm do chão e a bola é rolada por baixo dela: os pontos são contabilizados da seguinte forma: quando a equipe lança a bola para a quadra adversária e esta cruza os limites laterais, ou a linha de fundo da quadra, ou quando há mais de 3 toques da mesma equipe. O Vôlei foi apontado por 7% dos profissionais de Educação Física que estão se graduando na licenciatura e 4% dos profissionais que estão concluindo o bacharelado.

A prática do futebol de cinco modalidade exclusiva para atletas cegos ou deficientes visuais. Normalmente joga-se em uma quadra de futsal adaptada, mas desde os Jogos Paraolímpicos de Atenas, a modalidade também vem sendo praticada em campos de grama sintética. Somente o goleiro tem visão total e ele não pode ter atuado em competições oficiais da Fifa nos últimos cinco anos. Junto às linhas laterais, são colocadas bandas que impedem que a bola saia excessivamente do campo. (CPC, 2007).

Possui as mesmas regras do praticado convencionalmente, mas com adaptações. A primeira e mais curiosa adaptação é a de que somente o goleiro enxerga. A segunda é a utilização de um guia atrás de cada gol, para orientar os atletas. Além disso, as laterais da quadra, que possui as mesmas medidas da convencional, possuem bandas de 1,20m, também servindo de orientação para os jogadores. Fora os goleiros, os outros atletas jogam obrigatoriamente vendados, para que nenhum jogador que tem algum resquício de visão leve alguma vantagem. Além disso, o goleiro do futsal para cegos não pode sair de sua área. (Revista Sentidos, 2006)

O futebol society é uma modalidade que se aproxima bastante ao futebol de 5 e ao futsal para cegos, com a diferença que é jogado com bolas maiores e grama sintética.

Segundo DaCosta (2005) o Goalball é um desporto que é praticado em quadras cobertas, onde o objetivo principal é que a bola siga rolando e ultrapasse a linha do gol adversário, que terá que impedi-lo realizando deslocamentos laterais ao longo da quadra. A bola possui guizos, os atletas geralmente se posicionam em pé para os arremessos e agachados para realizar a defesa.

É interessante também salientar que o Brasil possui grande destaque em nível mundial nos esportes de quadra, estando entre os melhores do mundo em boa parte dessas modalidades.

Esportes de Aventura

Trabalhados juntamente com o ecoturismo – que também recebe o nome de turismo de aventura – os esportes de aventura passam por um momento bastante importante, que evidencia seu potencial, principalmente financeiro.

Os esportes em destaque são: trekking, rafting, balonismo, mountain bike, off-road, escalada, montanhismo, entre outros. Não importa o esporte de aventura, sempre que praticados eles provocam fortes emoções e integração entre os participantes, e mantendo um contato direto com a natureza. Não é por acaso que os esportes de aventura num contexto geral estão em franco crescimento, principalmente para os portadores de necessidades especiais.

Escalar paredes, descer nas corredeiras de rios “nervosos”, atravessar fendas e obstáculos naturais preso a uma corda estão entre as atividades que vêm conquistando a adesão cada vez maior desses deficientes.

O desafio agora é aumentar o acesso dos portadores de deficiência nos esportes de aventura. Não segregando, mas incluindo-os com pessoas que aparentemente não possuem deficiência. Um passo já foi dado, pelo menos por algumas agências de turismo de aventura e ecoturismo ao adaptarem seus passeios e atividades para atender também a esse segmento. O resto depende dos próprios deficientes e da sociedade superarem preconceitos e medos. Mesmo com certas limitações, o fato é que não existe diferença entre pessoas que estão em busca de diversão e aventura nos esportes.

Segundo DaCosta (2005) o montanhismo é uma prática não competitiva que tem como objetivo a exploração e a prática, a principal adaptação é o sistema de guia para permitir a prática para pessoas com cegueira, ou baixa visão, no caso de provas de travessia também é realizado o acompanhamento de um nadador que não tenha deficiência.

Outros esportes recentes para cegos também merecem destaque como: Surf, corrida de orientação, paraquedismo, entre outros esportes na natureza, onde visa principalmente aumentar o contato do deficiente com a natureza e fazer vivenciar diferentes formas e ambientes.

Esportes de Lazer

Os esportes de lazer tem como objetivo principal, estimular o convívio social do deficiente visual com as pessoas sendo ela ou não um deficiente, não tem finalidade de competição, ou seja não primam pela performance mas sim pelo bem-estar.

Nestes esportes pode-se incluir a recreação, ou qualquer outra atividade que não tenha fim competitivo, tenha um caráter apenas de desenvolver a autonomia e buscar diferentes vivências para estas pessoas.

Considerações Finais

Este trabalho procura mostrar que, estando a Educação Física presente no cotidiano dos estudantes, os profissionais que trabalham com deficientes visuais, podem ser facilitadores no processo de aprendizagem. Afinal, o aluno é sujeito atuante na construção de seu saber (Brasil, 1998). É importante demonstrar que através da prática do desporto seja ele visando ou não a performance tem como conseqüência principal o resgate da auto-estima destas pessoas.

Pensar num deficiente visual, muitas vezes sugere para muitos um sentimento de dúvida em relação as suas capacidades, por “acharem” que, devido à falta da visão, o seu mundo será totalmente restrito e sem perspectivas. Um trabalho de atividades físicas desenvolvidas para essa clientela dá conta de desmistificar essa idéia equivocada que muitas pessoas possuem.

Outro ponto importante, é que a prática esportiva serve como instrumento para a inclusão social, e além da prática de convívio em grupo de pessoas semelhantes em grau de deficiência, faz com que gere nesses indivíduos um grau maior autonomia em sua vida social fora da atividade esportiva.

A principal questão a ser debatida neste artigo é se os professores de Educação Física têm o conhecimento para poder atuar ajudando estes deficientes, orientando-lhes da melhor maneira possível, e se estão devidamente atualizados sobre estas informações.

O que se viu foi que a maioria dos profissionais desconhecerem as adaptações de alguns esportes para cegos, achando que seja impossível que eles pratiquem esta modalidade por causa da sua natureza e, na maioria dos casos, nos esportes de precisão. Sendo que com algumas alterações a essência do esporte continua e as modalidades só sofrem alterações por causa da natureza da deficiência do indivíduo.

ANEXO 1

Questionário

Cite 3 esportes que você considera impossíveis de encontrar pessoas cegas praticando?
R:

Referências:

BRASIL. MEC. Parâmetros Curriculares Nacionais. Temas Transversais. Brasília: MEC/SEF, 1998.

BRASIL.MEC. Programa Nacional de apoio à educação de deficientes visuais: Orientação e Mobilidade – Projeto Ir e Vir. Brasília: MEC/SEE, 2002.

CPB. História do Esporte Paraolímpico. Disponível em: www.cpb.org.br. Acessado em: 10 de setembro de 2007.

DaCOSTA, L. Atlas do Esporte no Brasil. Rio de Janeiro: Shape, 2005

LUZ, L. M. R. Natação paraolímpica: manual de orientação para professores de educação física – Brasília : Comitê Paraolímpico Brasileiro, 2006.

MATARUNA, L. et al. Inclusão Social para Deficientes Visuais. In: DaCosta, L. Atlas do Esporte no Brasil. Rio de Janeiro: Shape, 2005

Revista Sentidos. Futsal para cegos e Goalbal, qual a diferença?. Disponível em:http://sentidos.uol.com.br/canais/materia.asp?codpag=181&codtipo=1&subcat=86&canal=revista. Acessado em: 05 de dezembro de 2007.

SEVERINO, A.J. Metodologia do trabalho científico: diretrizes para o trabalho didático-científico na Universidade.18ª rev. amp. São Paulo: Cortez, 1992.

THOMAS J.R.; NELSON J.K. Métodos de Pesquisa em Atividade Física. 3.ed. Porto Alegre: ARTMED, 2002.

Apelação

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Conceito

São sentenças finais ou simplesmente “sentenças” as que encerram o processo. Distingue a doutrina entre sentença definitiva e sentença terminativa, conforme o encerramento da relação processual se dê com ou sem julgamento do mérito da causa.

No código anterior, os recursos variavam: da sentença terminativa cabia agravo de petição; e da sentença definitiva, apelação.

Se põe termo ao processo, haja ou não decisão do mérito, o caso será sempre de sentença (art. 162, § 1º CPC). E o recurso interponível também será sempre um só o de apelação (art. 513). Desapareceu o agravo de petição.

Apelação é o recurso que se interpõe das sentenças dos juízes de primeiro grau de jurisdição para levar a causa ao reexame dos tribunais do segundo grau, visando a obter uma reforma total ou parcial da decisão impugnada, ou mesmo sua invalidação.

Também nos procedimentos incidentes ou acessórios, a apelação é o recurso cabível contra a sentença que os encerrar. O mesmo não ocorre com o julgamento de simples incidentes do processo.

Todas as sentenças, seja qual for o valor em demanda, ensejam apelação ao vencido.

Interposição da apelação

A Apelação pode ser interposta no processo de conhecimento, cautelar e de execução, seguindo os procedimentos comum, seja ordinário ou sumário, ou algum procedimento especial.

O apelante deve manifestar seu recurso através de petição escrita, não sendo aceita a forma oral, e dirigida ao juiz de primeiro grau, que ao juiz de primeira que se pretende reformar (art. 514 do CPC).

Conterá os nomes e a qualificação das partes; os fundamentos de fato e de direito; o pedido de nova decisão (art. 514 CPC). A Apelação cível não pode ser genérica, devendo especificar quais os pontos da sentença devem ser anulados ou reformados pelo Tribunal. O recurso deve ser subscrito por advogado com mandato e instruído com o comprovante de recolhimento das custas processuais.

A apelação deve ser interposta, obrigatoriamente, por petição. A jurisprudência admite a interposição do recurso por telegrama, desde que atendido os requisitos legais, e também por fax (lei 9.800/99) para todas as petições, inclusive as dos recursos, desde que se faça chegar ao tribunal, até cinco dias depois do fim do respectivo prazo, o original da peça retransmitida magneticamente.

O pedido de nova decisão pode referir-se a um novo pronunciamento de mérito favorável ao apelante, ou apenas à invalidação da sentença por nulidade.

Quanto ao prazo para interposição do recurso, não basta ser despachada a petição dentro do prazo legal. É preciso que o recurso seja protocolado no Cartório dentro do citado prazo. Se foi submetida a prévio despacho do juiz, é indispensável que seja entregue em cartório antes do vencimento do prazo do recurso (art. 506, pu). Documentos que se referem a fatos já alegados perante o órgão a quo devem ter sido juntos aos autos pelas partes nas oportunidades próprias, consoantes as regras do arts. 396 e 397. O terceiro prejudicado que apela pode sempre instruir o recurso com documentos de que disponha: visto que não era parte, não teve qualquer oportunidade anterior de produzir prova, e contra ele não se operou preclusão.

Algumas exceções à interposição da Apelação são:

• Sentença proferida por juiz federal de primeiro grau que julga causa entre Estado estrangeiro ou organismo internacional e Município ou pessoa domiciliada ou residente no País (art. 105, inciso II, alínea “c” da Constituição Federal Brasileira de 1988).
• Sentença que julga execução fiscal com valor inferior a cinqüenta Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional – ORTN (art. 34 da Lei nº 6.830/1980).
• Sentença prolatada em ação civil nos juizados especiais cíveis (art. 41 da Lei nº 9.099/95).

O juiz de primeiro grau deve se manifestar analisando os requisitos de admissibilidade que são o cabimento, a legitimidade e o interesse recursal, a inexistência de fato extintivo ou impeditivo, a tempestividade, a regularidade formal e o pagamento das custas processuais. Deve ainda o juiz declarar os efeitos que recebe o recurso.

Em regra, é recebida nos efeitos devolutivo (já que toda a matéria de 1ª instância é devolvida á apreciação do Judiciário) e suspensivo. A Apelação deve conter o pedido para que seja remetida ao Tribunal, onde será distribuída entre as Turmas ou Câmaras Cíveis.

Efeitos da apelação

A apelação tem duplo efeito: o devolutivo e o suspensivo.

I – Efeito devolutivo: “a apelação devolverá ao tribunal o conhecimento da matéria impugnada” (art. 515). Visa esse recurso a obter um novo pronunciamento sobre a causa, com reforma total ou parcial da sentença do juiz de primeiro grau. As questões de fato e de direito tratadas no processo, sejam de natureza substancial ou processual, voltam a ser conhecidas e examinadas pelo tribunal.

A apelação pode ser parcial ou total, conforma a impugnação atinja toda a sentença ou apenas parte dela.

Em matéria de efeito devolutivo, portanto, urge fazer uma distinção entra a extensão e a profundidade da devolução:

a) a extensão é limitada pelo pedido do recorrente, visto que nenhum juiz ou órgão judicial pode prestar a tutela jurisdicional senão quando requerida pela parte; por isso, o art. 515 diz que a apelação devolverá ao tribunal a “matéria impugnada”, o que quer dizer que, em seu julgamento, o acórdão deverá se limitar a acolher ou rejeitar o que lhe for requerido pelo apelante.
b) A profundidade abrange os antecedentes lógico-jurídicos da decisão impugnada, de maneira que, fixada a extensão do objeto do recurso pelo requerimento formulado pela parte apelante, todas as questões suscitadas no processo que podem interferir assim em seu acolhimento como em sua rejeição terão de ser levadas em conta pelo tribunal (art 515, § 1º CPC).

Nessa ordem de idéias, qualquer que seja o pedido do recorrente, terá sempre o tribunal possibilidade de examinar as questões pertinentes aos pressupostos processuais e às condições de ação, visto que são matérias de ordem pública condicionadoras da formação e desenvolvimento válidos do processo, bem como de qualquer provimento jurisdicional de mérito (motivo pelo qual são conhecíveis e solucionáveis a qualquer tempo e grau de jurisdição, a requerimento de parte ou de ofício) (art. 267, § 3º).

Não são, porém, apenas as questões preliminares que se devolvem implicitamente. São, também, todas as prejudiciais de mérito propostas antes da sentença e que deveriam influir na escolha ou rejeição do pedido, ainda que o juiz a quo não as tenha enfrentado ou solucionado por inteiro.

É preciso estar atento, para não ofender o princípio da disponibilidade da tutela jurisdicional e o da adstrição do julgamento ao pedido (princípio da congruência).

Quanto às questões de fato, a regra é que a apelação fica restrita às alegadas e provadas no processo antes da sentença. O recurso devolve o conhecimento da causa tal qual foi apreciada pelo juiz de primeiro grau. Assim provada à ocorrência de força maior, poderá o apelante apresentar fato novo perante o tribunal (art. 517). Caberá, todavia, ao apelante provar não só o fato como o motivo de força maior que o impediu de arguí-lo no momento processual adequado.

Não cabe ao juiz a quo interferir na questão do fato novo, nem impedir a subida do recurso que nele se baseie. A questão será inteiramente apreciada e decidida pelo tribunal ad quem.

Observe-se, que embora omisso no código, a doutrina é uniforme em repelir a possibilidade de reformatio in pejus, isto é, de julgamento que piore a situação do apelante, sem que tenha a outra parte também recorrido. Como lembra Rogério Lauria Tucci, “não se pode perder de vista que, tanto quanto o juiz de primeira instância, o órgão colegiado de segundo grau, apesar de investido dos mesmos poderes para conhecer do processo e da lide, não pode manifestar-se sobre o que não constituía objeto do pedido – “pedido de nova de decisão” … e, outros sim, que, com a instituição do apelo incidental sob a rubrica do recurso adesivo, previsto no artigo 500 do CPC…, já não mais pode substituir qualquer dúvida sobre a vedação da reforma para pior, pois, como observa Barbosa Moreira, “a função do recurso adesivo é justamente a de levar ao conhecimento do tribunal matéria que, só por força do recurso principal, não se devolveria”. Sobre a parte da sentença que não foi objeto de recurso pelo adversário do apelante, e que e
ventualmente poderia ser alterada em prejuízo deste, incidiu a coisa julgada, diante da inércia daquele a que a reforma da sentença favoreceria. Assim, não há que se pensar em reformatio in pejus, já que qualquer providência dessa natureza esbarraria na res iudicata.

II – Efeito suspensivo: a apelação normalmente suspende os efeitos da sentença, seja esta condenatória, declaratória ou constitutiva. “Efeito suspensivo, assim, consiste na suspensão da eficácia natural da sentença, isto é, dos seus efeitos normais.
Via de regra, a apelação tem o duplo efeito suspensivo e devolutivo. Há exceções, no entanto. O artigo 520 enumera sete casos em que o efeito de apelação é apenas devolutivo, de maneira que é possível a execução provisória enquanto estiver pendente o recurso. O art. 1.184 inclui mais uma hipótese semelhante (a interdição). Assim, será recebida só no efeito devolutivo a sentença que:
I – homologar a divisão ou demarcação;
II – condenar a liquidação da sentença;
III – julgar a liquidação da sentença;
IV – decidir o processo cautelar;
V – rejeitar liminarmente embargos à execução ou julgá-los improcedentes;
VI – julgar procedente o pedido de instituição de arbitragem;
VII – confirmar a antecipação dos efeitos da tutela;
VIII – decretar a interdição.

Mesmo nas hipóteses expressamente previstas, para que a apelação tenha efeito apenas devolutivo, pode o relator, diante das particularidades da causa, determinar a suspensão do cumprimento da sentença, até que o Tribunal julgue o recurso (art. 558, pu, com redação da Lei nº 9.139/95). Para tanto, o apelante formulará requerimento que poderá constar das próprias razões recursais ou de petição à parte. O pedido de suspensão terá de demonstrar a ocorrência de risco de “lesão grave e de difícil reparação”.

No Tribunal o Apelação é distribuída a um dos Desembargadores que exercerá a função de relator e este fará nos autos uma exposição dos pontos controvertidos sobre que versar o recurso (art. 549, parágrafo único do CPC). Após, o recurso é remetido ao Desembargador revisor que deve sugerir ao relator medidas ordinatórias do processo que tenham sido omitidas, confirmar, completar ou retificar o relatório e pedir dia para julgamento dos feitos nos quais estiver habilitado a proferir voto (art. 551 do CPC). O processo é incluído na pauta de julgamento que deve ser publicada no órgão oficial de imprensa com antecedência mínima de 48 horas.

Após a leitura do relatório, o presidente da Turma ou Câmara Cível concede a palavra aos advogados do recorrente e recorrido para apresentarem sustentação oral durante o prazo de 15 minutos (art. 554 do CPC).

No julgamento vota primeiro o Desembargador relator, seguido do revisor e do Desembargador vogal. Em seguida, o presidente da Turma ou Câmara divulga o resultado do recurso. A decisão colegiada é registrada em um acórdão.

Inovação da Lei nº 10.352/2001, a respeito do efeito devolutivo da apelação

Quebrando a tradição do processo civil brasileiro, que não admitia o tribunal enfrentar o mérito da causa, quando a sentença apelada houvesse extinto o processo por apreciação apenas de preliminar, a Lei nº 10.352 adicionou o § 3º ao art. 515, para permitir justamente aquilo que até então se vedava.

Com a nova regra, mesmo que a sentença tenha sido terminativa, o efeito devolutivo da apelação permitirá ao tribunal julgar o mérito da causa, desde que satisfeitos dois requisitos: a) se a causa versar sobre questão exclusivamente de direito; e b) o feito estiver em condições de imediato julgamento (um recurso contra o indeferimento da inicial, por exemplo, não pode ser apreciado pelo mérito da causa, porque ainda não se realizou o contraditório; assim, também, quando a extinção se deu na fase de saneamento, sem que ainda se pudesse ter o contraditório como completo).

Não basta, portanto, que a questão de mérito a decidir seja apenas de direito; é necessário que o processo esteja maduro para a solução do mérito da causa. Mesmo que não haja prova a ser produzida, não poderá o Tribunal enfrentá-lo no julgamento de apelação formulada contra a sentença terminativa, se uma das partes ainda não teve oportunidade processual adequada para debater a questão de mérito. Não é, em outras palavras, a simples circunstância de envolver o mérito da causa questão só de direito que se deve levar em conta, mas também a necessidade de cumprir o contraditório.

Se, todavia, o debate amplo já se deu em primeiro grau entre os litigantes, o Tribunal estará em condições de julgar o mérito, e deverá fazê-lo, sempre que for afastada a preliminar causadora da sentença terminativa, e que a parte interessada o requeira.

Questão de fato e questão de direito

Como dito, a inclusão do § 3º, ao artigo 515 veio a trazer inegável avanço na sistemática recursal, pois autoriza o tribunal a julgar o feito diretamente, conforme se percebe do teor do dispositivo em comento: “§ 3º Nos casos de extinção do processo sem julgamento do mérito (art. 267), o tribunal pode julgar desde logo a lide, se a causa versa sobre questão exclusivamente de direito e estiver em condições de imediato julgamento

Para aplicar-se o §3º do art. 155, a lei exige então,dois requisitos:

a) versar a causa apenas sobre questão de direito; e
b) processo maduro para julgamento de mérito.

Se houve instrução probatória, mesmo encerrada, não se aplica, portanto, a regra do art. 155, § 3º. Haverá questão de fato a acertar, mediante apreciação do quadro probatório controvertido. Enquanto estiverem em jogo versões conflitantes de fatos entre as partes, não se pode dizer que o juiz estará julgando apenas questões de direito. O julgamento só é apenas de direito, quando apoiado em fato incontroverso entre as partes.

Havendo de acertar-se questão de fato (isto é, havendo provas a analisar), não se aplica o art. 515, § 3º. O duplo grau de jurisdição será obrigatório.

Polêmica acerca da inovação operada no §3º do art. 155

Vale ainda a ressalva de que não cabe, pelo menos em princípio a alegação de que o dispositivo é inconstitucional, pois o duplo grau de jurisdição, apesar de reconhecidamente integrante do sistema pátrio, não consta expressamente da Constituição Federal.

Importante, nesse passo, citar o pensamento de CÂNDIDO RANGEL DINAMARCO: “A Constituição Federal prestigia o duplo grau como princípio, não como garantia, ao enunciar seguidas vezes a competência dos tribunais para o julgamento dos recursos; mas ela própria põe ressalvas à imposição desse princípio, especialmente ao enumerar hipóteses da competência originária dos tribunais, nas quais é quase sempre problemática a admissibilidade de algum recurso, seja para o próprio tribunal, seja para outro de nível mais elevado. Em face disso, em princípio não é inconstitucionalmente repudiada uma norma legal que confine em um só grau jurisdicional o julgamento de uma causa ou que outorgue competência ao tribunal para julgar alguma outra, ainda não julgada pelo juiz inferior.” (A Reforma da Reforma, Editora Malheiros, São Paulo, 2002, p. 151)

A mudança, deveras significativa, reside no fato de que, uma vez que o tribunal conheça e dê provimento a recurso de apelação interposto contra sentença terminativa (como a que reconheça a falta de interesse de agir), poderá desde logo apreciar o meritum causae, conquanto estejam presentes os requisitos necessários, quais sejam, a questão ser exclusivamente de direito, bem como o feito encontrar-se pronto para julgamento.

Ao falar a lei em “poder” o tribunal, no julgamento da apelação contra a sentença terminativa, enfrentar o mérito da causa, estar-se-ia criando uma faculdade ou um dever para juízo de segundo grau?

A primeira consideração a ser feita sobre o dispositivo diz respeito ao alcance da expressão questão exclusivamente de direito, o que não parece de extrema complexidade, porquanto pode-se entender que a questão será de direito a partir do momento em que não houver controvérsia sobre os fatos.

JOEL DIAS FIGUEIRA JR., ensina sobre a questão eminentemente de direito que “Significa dizer que os fatos estão suficientemente comprovados nos autos ou são tidos pelas partes como incontroversos, dos quais dispensam-se as provas.” (Comentários ao Código de Processo Civil, Volume IV, Tomo II, Editora Revista dos Tribunais, São Paulo, 2001, p. 448)

Obviamente que nenhum processo é formado por questões exclusivamente de direito, dado que os fatos são parte indissociável da formação da lide. Todavia, situações existirão onde não mais será necessária a discussão a respeito da matéria fática, como sói ocorrer nos casos de revelia, confissão, ou ainda, quando as próprias partes não controverterem a respeito dos fatos narrados na petição inicial.

Nestas hipóteses é correto dizer que a questão é exclusivamente de direito, posto ser desnecessária a produção de qualquer prova para dirimir questão fática, que, de um modo ou de outro (por vontade das partes ou da lei, no caso da verificação dos efeitos da revelia), já não mais é objeto de controvérsia entre as partes.

Note-se, no entanto, que o § 3º do artigo 515 do Código de Processo Civil não está a mencionar as possibilidades previstas no artigo 330, incisos I e II, do mesmo estatuto processual, pois não se pode admitir que, na hipótese sub examine, o tribunal venha a proferir julgamento direto da lide quando ainda haja questões de fato e de direito, mas quando as matérias forem relativas somente ao direito envolvido.

Ademais, conferir ao tribunal o poder de entender se a questão de fato existente no processo independe de prova, seria conferir elastério ao dispositivo que por certo não foi pretendido pelo legislador, razão pela qual o entendimento mais adequado deve ser no sentido de que somente estará autorizado o julgamento do mérito pelo órgão ad quem quando a questão for exclusivamente de direito.

Feitas essas digressões, passa-se a segunda parte do § 3º, do artigo 515 do CPC. Além das questões de fato serem incontroversas, é necessário ainda, para que o tribunal possa decidir diretamente a questão, que o feito comporte julgamento imediato.

A ilação a seguir, fornecida por EDUARDO CAMBI, traz luz ao problema. Explicita o autor que, “Com efeito, o tribunal estará em condições para julgar imediatamente uma questão exclusivamente de direito somente quando o fato for incontroverso. No entanto, nenhum fato se torna incontroverso antes de ser dada oportunidade para a parte exercer seu direito de defesa.” (Aspectos Polêmicos e Atuais dos Recursos e outros meios de impugnação às decisões judiciais, Editora Revista dos Tribunais, São Paulo, 2002, p. 184).

Dessarte, o feito comportará julgamento imediato, no âmbito de interpretação que deve ser conferido ao § 3º do artigo 515 do CPC, toda a vez que se verificar a desnecessidade de prova. É a afirmação do pensamento sobre a causa madura para julgamento, comum na linguagem forense, ou seja, o convencimento do magistrado de que não mais é necessária a produção de qualquer prova no feito para que possa ser emitido o juízo de valor correspondente.

Outro ponto de interesse é relativo à conjunção “e” contida no § 3º do artigo 515 do CPC, quando preceitua que “o tribunal pode julgar desde logo a lide, se a causa versar questão exclusivamente de direito e estiver em condições de imediato julgamento”, no que diz respeito à obrigatoriedade ou não da presença dos dois elementos previstos neste dispositivo.

Segundo LUIZ ORIONE NETO, “Não foi feliz o legislador ao utilizar a conjuntiva aditiva “e”, inserta no § 3º, supra, que deve ser lida e interpretada como disjuntiva “ou”. Não há necessidade de a causa versar sobre questão exclusivamente de direito e estar em condições de imediato julgamento. Basta uma situação ou outra e não as duas.” (ob. cit., p. 285)

Portanto, deve-se conferir ao previsto pelo § 3º do artigo 515 uma interpretação restritiva, jamais ampliativa, de modo a coibir abusos e evitar equívocos, que se cometidos pelo tribunal, dificilmente serão revistos pelos órgãos superiores, dados os óbices contidos nos verbetes que vedam a reapreciação de matéria de fato e valoração de prova, por exemplo, podendo-se dizer que somente estará o órgão colegiado autorizado a proferir o julgamento desde que se apresentem, concomitantemente, os dois elementos previstos nos dispositivo legal acima.

Em matéria de prestação jurisdicional, em princípio, o poder é sempre um dever para o órgão judicante. O termo poder é utilizado como designativo da competência ou poder para atuar. Uma vez, porém, determinada a competência, o respectivo órgão judicante não pode ser visto como simplesmente facultado a exercê-la. A parte passa a ter um direito subjetivo à competente prestação jurisdicional, se presentes os pressupostos do provimento pretendido. Daí falar-se, quando se cogita de jurisdição, de poder-dever, ou mais propriamente em função a ser desempenhada.

Mas uma coisa é existir a competência e outra é estar o juízo autorizado a exercê-la in concreto.

Não é só a existência do recurso que define o objeto da cognição a ser realizada pelo Tribunal ad quem. A lide é o objeto da ação, mas não basta exigir a lide e uma ação posta em juízo para que a sentença compreenda todas as questões contidas no litígio. A jurisdição ficará sempre restrita àquelas que integraram o pedido da parte. “Nenhum juiz prestará a tutela jurisdicional senão quando a parte ou o interessado a requerer, nos casos e formas legais”.

Por isso, está o magistrado obrigado a decidir a lide “nos limites em que foi proposta, sendo-lhe defeso conhecer de questões não suscitadas”.

Aquilo que limita a jurisdição, diante da ação, é o mesmo que a restringe quando interposto um recurso. Assim é que “a apelação devolverá ao tribunal o conhecimento da matéria impugnada”, e não todas as matérias envolvidas pelo processo, nem mesmo todas as questões solucionadas pela sentença.

É certo que para julgar a apelação, o tribunal poderá apreciar “todas as questões suscitadas e discutidas no processo, ainda que a sentença não as tenha julgado por inteiro” (CPC, art. 515, §1º). Essa análise, todavia, será feita não para ampliar o objeto da apelação, mas para solucioná-lo. Fala-se, nesse aspecto, em profundidade da devolução, o que não se confunde com a sua extensão.

O julgamento da apelação terá de ser no sentido de acolher ou não o pedido do recorrente. Não poderá, portanto, o acórdão, fora do pedido, decidir outras questões que não sejam pressupostos da solução a ser dada ao pedido do apelante. Nisso consiste a extensão do efeito devolutivo do recurso, terreno em que prevalece a vontade da parte.

Ampliar o julgamento do recurso para questões não suscitadas e, por isso mesmo, não debatidas entre as partes, resulta em violação não apenas dos limites legais da jurisdição, mas, sobretudo da garantia do contraditório. Mesmo nos casos em que o juiz pode apreciar, de ofício, certas questões, não lhe é dado fazê-lo sem antes submetê-las ao debate das partes.

Dessas premissas, podem-se extrair as seguintes conclusões:

a) o novo § 3º do art. 515 do CPC não criou simples faculdade para o Tribunal, que tem o dever de enfrentar o mérito, no entanto, deverá ser pleiteado pelo recorrente, para que se torne objeto da devolução operada pela apelação ao Tribunal ad quem. O tema pertence à extensão da devolução e não à sua profundidade.

Se a profundidade com que se examinam as questões recursais é definida pela lei (art. 515 §1º), a extensão do efeito devolutivo cabe exclusivamente à parte. “A extensão é, repita-se, fixada pelo recorrente, nas razões de seu apelo.

Em sentido contrário, pensa Cândido Dinamarco que o Tribunal, mesmo julgando o mérito sem pedido do apelante e contra sua posição no litígio, não haverá “quebra do due process of law, nem exclusão do contraditório, porque o julgamento feito pelo Tribunal incidirá sobre o processo precisamente no ponto em que incidiria a sentença do juiz inferior”. É certo que, já estando maduro o processo para sentença do mérito, o retorno dos autos para que o juiz de primeiro grau decidisse o mérito, não se reabrirá instrução e debate no juízo a quo. Mas a parte sucumbente terá oportunidade de rediscutir a causa perante o tribunal, enriquecendo o debate, com nova argumentação. É certo, também, que o duplo grau de jurisdição pode ser suprimido pela lei. Mas isto deverá ser feito por dispositivo expresso e de fundo razoável. Não é aceitável, todavia, que podendo o apelante definir a extensão do recurso, venha o Tribunal a decidir questão que intencionalmente a parte recorrente não quis incluir na devolução recursal. Cabend
o-lhe o poder legal de fixar o conteúdo da apelação, não é de aplicar-se o §3º do mesmo art. 515, quando o recurso contra a sentença terminativa não contenha pedido de apreciação do mérito de apreciação da causa.

Prescrição e decadência

Questionava-se sobre a extensão do efeito devolutivo no caso de a sentença apelada ter acolhido a prescrição ou a decadência. Havia uma corrente mais volumosa que negava ao tribunal a possibilidade de, afastada a prejudicial extintiva, prosseguir no exame de mérito ainda não decidido em primeira instância, para não violar o duplo grau de jurisdição.

A corrente minoritária, contudo, decidia que, sendo de mérito o julgado acerca da prescrição ou da decadência, os juízes do recurso, ao rejeitar a prejudicial, poderiam prosseguir ao julgamento da causa.

Após a Lei nº 10.352/2001, o dissídio perdeu a razão de ser. Se até no caso de decisão terminativa o julgamento da apelação pode avançar sobre o mérito ainda não julgado no juízo de origem, com muito mais razão será possível fazê-lo diante da reforma das sentenças baseadas em prejudicial de prescrição e decadência, que já pertencem ao mérito da causa.

A lei prevê acolhida da prescrição e da decadência até na decisão de indeferimento da petição inicial. Em qualquer caso de aplicação do §3º do art. 515 o Tribunal terá de ficar atento para não violar o contraditório e não impedir o direito das partes à ampla defesa.

Inovação da Lei 10.352/2001, a respeito do efeito suspensivo da apelação

Ao elenco dos casos em que a apelação não tem efeito suspensivo (art. 520), a Lei nº 10.352 acrescentou o inciso VI, que contempla a sentença que “confirmar a antecipação dos efeitos da tutela”.

O novo texto do art. 520, VII, cogita da sentença que confirma a antecipação da tutela. Mas não deve ser diferente o efeito da apelação em caso de a tutela antecipada ser deferida na própria sentença. uma vez que a antecipação não tem momento prefixado em lei para deferimento, e pode acontecer em qualquer fase do processo e em qualquer grau de jurisdição, não há motivo para negar ao juiz a possibilidade de decidi-la em capítulo da própria sentença, desde que o faça apoiado nos pressupostos do art. 273 e §§ do CPC. E se a sentença for expressa a respeito de tal provimento, a apelação acaso manejada haverá de ser recebida apenas no efeito devolutivo.

Já havia jurisprudência sobre a possibilidade de a sentença conter capítulos distintos para o mérito e a antecipação da tutela. O inconveniente era apenas o efeito devolutivo da apelação, que agora desapareceu diante da inserção do inc. VII no art. 520.

Não se há, contudo, de pensar que, doravante, o simples fato de o juiz julgar procedente uma demanda já o autoriza, imediatamente, a deferir a antecipação dos efeitos da sentença, sem aguardar o julgamento da apelação eventualmente interposta. Em qualquer circunstância em que se atenda o requerimento da tutela antecipada, ter-se-á sempre de observar os requisitos do art. 273 e §§ do CPC.

Recebimento da apelação

A petição da apelação é dirigida ao juiz da sentença impugnada. Ao recebê-la deve o juiz declarar os efeitos do recurso (art. 518). Da decisão que atribui efeito à apelação cabe agravo de instrumento. O mesmo recurso cabe, também, do recebimento ou não apelação (art. 522, 2ª parte).

“Admitida à apelação em ambos os efeitos, devolve-se o conhecimento da causa à Superior Instância, não podendo o juiz inovar o processo. Não lhe é dado, inclusive, negar o seguimento ao recurso.

Já se decidiu que “julgados pela mesma sentença ações conexas, uma comportando recurso em seus dois efeitos, outra no devolutivo apenas, será aplicável o princípio processual do maior benefício e, assim, atribuído a tal recurso, para ambas as demandas, também o efeito suspensivo”. No entanto, é mais razoável a tese segundo a qual nada impede que uma decisão recorrida se submeta por partes a efeitos recursais distintos. Assim, se numa só sentença são julgadas duas causas, o recurso interposto pode suspender o efeito dado a uma delas e não o fazer em relação à outra, se diversa é a eficácia particular que a lei prevê para as duas situações congregadas.

Deserção

Denomina-se deserção o efeito produzido sobre o recurso pelo não-cumprimento do pressuposto do preparo no prazo devido. Sem o pagamento das custas devidas, o recurso torna-se descabido, provocando a coisa julgada sobre a sentença apelada.

O preparo, a partir da Lei 8.950/94, é ato que terá de ocorrer antes do aforamento do próprio recurso. O comprovante terá de ser juntado à petição do recurso, sob pena de inadmissão do apelo por deserção. Para a Justiça Federal, no entanto, existe um regime legal específico que não obriga ao prévio preparo do recurso (Lei 9.289/96, art. 14, II).

Se, todavia, algum obstáculo impedir o apelante de realizar o preparo até o momento do ingresso do recurso em juízo, restar-lhe-á a possibilidade de provar, posteriormente, “o justo impedimento”, à vista do qual caberá ao juiz relevar a deserção, fixando-lhe prazo para efetuar o recolhimento das custas.

Segundo a nova disciplina introduzida pela Lei 8.950/94, o preparo deve ser comprovado no ato da interposição do recurso. Deve-se ponderar, no entanto, que a jurisprudência ressalva a eventualidade de haver embaraço a realização do preparo no último dia do prazo, por fato do sistema bancário. Desse modo, o prazo de preparo para a interposição de recurso pode ser prorrogado para o dia subseqüente ao do término, quando o expediente bancário for encerrado antes do fechamento do protocolo forense.

As custas do preparo são somente as do recurso e não todas as até então vencidas no processo. Mas o apelante está sujeito ao pagamento das verbas relativas aos atos tanto de primeira como de segunda instâncias, desde que previstas pelo regimento de custas para a tramitação do recurso, além das despesas de remessa e retorno dos autos.

A Apelação deve ser interposta no prazo de 15 dias, contados da ciência oficial da sentença, ressalvados os casos de prazo especial por privilégios da Defensoria Pública e da Fazenda Pública, que são em dobro, como também no litisconsórcio, desde que o pólo ativo ou passivo tenha procuradores diferentes. A parte contrária pode responder a Apelação também no mesmo prazo.

Se, todavia, o prazo é superado em razão de obstáculo do serviço forense, não pode a parte ficar prejudicada, dado que, durante o embaraço judicial, não flui nenhum prazo.

O prazo vence-se, igualmente, em cartório. De sorte que, “sem embargo de haver sido despachada no prazo legal, a apelação fica prejudicada pelo retardamento da respectiva juntada, por culpa da parte interessada”.

Mas “não fica prejudicada a apelação entregue em cartório no prazo legal, embora despachada tardiamente”.

O tribunal ad quem, antes de apreciar a apelação, deverá decidir os agravos de instrumento porventura interpostos no mesmo processo (art. 559).

EMBARGOS DE DECLARAÇÃO

Conceito

Os Embargos de Declaração, remédio processual regulamentado pelo artigo 535 do Código de Processo Civil Brasileiro – CPC.

Dá-se o nome de embargos de declaração ao recurso destinado a pedir ao juiz ou tribunal prolator da decisão que afaste obscuridade, supra omissão ou elimine contradição existente no julgado.

Qualquer decisão judicial comporta embargos declaratórios, porque é inconcebível que fiquem sem remédio a obscuridade, a contradição ou a omissão existente no pronunciamento jurisdicional, seja proferida por juiz de 1º grau ou tribunal superior, em processo de conhecimento, de execução ou cautelar, nem importa que a decisão seja terminativa, final ou interlocutória.

Pressupostos dos Embargos de Declaração

Na forma do que dispõe o artigo 535 do Código de Ritos, “cabem embargos de declaração quando: I – houver, na sentença ou no acórdão, obscuridade ou contradição; II – for omitido ponto sobre o qual devia pronunciar-se o juiz ou tribunal.”

À vista de tais disposições, verifica-se que os embargos de declaração se constituem remédio processual para cuja utilização a lei exige a prolação de uma sentença ou um acórdão, a que se repute vício de obscuridade ou contradição, ou, ainda, a ocorrência de um pronunciamento incompleto ou inexistente por parte de um juiz ou tribunal

Em qualquer desses casos , a substância do julgado será mantida , visto que os embargos de declaração não visam à reforma do acórdão ou sentença,é imposto que não se proceda a um novo julgamento da causa, mas será inevitável que ocorra alguma alteração no conteúdo do julgado, não indo além da estrita eliminação da obscuridade , contradição ou omissão.

Neste esteio, deve-se, de pronto, registrar que, embora o dispositivo legal se refira a “sentença” ou “acórdão”, o entendimento jurisprudencial do Superior Tribunal de Justiça, seguindo vasta corrente doutrinária, já se firmou no sentido de se dar interpretação mais ampla a tais referências, para se admitir a utilização dos embargos declaratórios, não apenas direcionados a sentenças e acórdãos, mas, sim, a qualquer decisão proferida pelo órgão julgador. (AgRg nos EDcl no RESP 256395 / PB – 2000/0039869-1. Rel. Min. Francisco Falcão – 23/10/2000 – DJ 11.12.2000 p. 179, RSTJ vol. 145 p. 59)

Procedimento

Feito o registro da interpretação vigente no Superior Tribunal de Justiça, depreende-se que os requisitos iniciais para a utilização dos embargos de declaração consistem na prolação de uma decisão judicial e na omissão do órgão julgador, aos quais se alia, impreterivelmente, a observância do prazo legalmente estabelecido para a sua interposição – 5 (cinco) dias -, conforme previsto no artigo 536 do CPC.

Desse modo, se nestas circunstâncias a parte interpuser o dito instrumento processual, impõe-se seu conhecimento, independentemente da constatação dos vícios alegados na peça, haja vista que a existência, ou não, de contradições, obscuridades ou omissões constitui matéria de mérito dos embargos, cuja aferição levará à sua procedência ou improcedência.

O conhecimento dos embargos, assim, está adstrito, apenas, ao seu direcionamento a uma decisão judicial ou a uma ausência de pronunciamento, bem assim à observância do prazo legal para sua interposição. Preenchidos tais requisitos, é irrelevante, para o conhecimento do remédio processual, se os vícios alegados realmente existem, porquanto sua análise deva ser procedida num momento posterior.

A contrario sensu, somente poderão deixar de ser conhecidos os embargos declaratórios interpostos fora do prazo (intempestivos), ou que não se dirijam a uma decisão judicial ou a uma ausência de pronunciamento necessário.

O ritos dos embargos de declaração sofrem pequenas alterações conforme a decisão seja sentença ou acórdão.O prazo de interposição é o mesmo de 5 dias; sua petição será encaminhada ao juiz relatando o problema.Não há preparo .

O juiz decidirá no prazo de 5 dias, sem audiência da parte contrária.

Nos tribunais, o julgamento caberá ao mesmo órgão que proferiu o acórdão embargado. O relator apresentará os embargos na mesma sessão que subseqüente proferindo seu voto.

A lei não prevê contraditório após a interposição do recurso, pois o embargos não se destinam a um novo julgamento da causa, mas um aperfeiçoamento do decisório proferido, há casos no entanto que o suprimento desta lacuna ou eliminação da contradição leve a anulação do julgado anterior para nova decisão.

O Mérito dos Embargos

Uma vez manifestados os embargos declaratórios em observância aos requisitos assinalados no tópico anterior, e, portanto, esgotada a avaliação acerca de seu conhecimento, segue-se a análise do quanto neles houver sido alegado pela parte embargante – o mérito.

É nesse momento que o julgador observará se os vícios cogitados pelo embargante realmente se fazem presentes na decisão ou omissão atacada. Em caso positivo, os embargos se farão procedentes – ou serão providos; do contrário, impõe-se o julgamento por sua improcedência – ou não provimento.

Mas é fundamental registrar que, tanto num como noutro caso, o mérito dos embargos de declaração não pode ser confundido com as hipóteses de seu conhecimento. Afinal, só se analisa a existência de vícios de contradição, omissão e obscuridade após já se os tiver conhecido. Em outras palavras, jamais se poderá justificar o não conhecimento de embargos de declaração pela inexistência dos vícios apontados pelo embargante

Sendo constatada a inexistência dos vícios alegados pela parte, e, portanto, julgados improcedentes os embargos declaratórios, neste estágio se finda a prestação jurisdicional acerca do remédio processual, tendo-se seu conhecimento e improcedência, sem prejuízo da análise de sua utilização com efeitos meramente protelatórios, a ensejar a aplicação das penalidades próprias, estabelecidas no parágrafo único do artigo 538 do CPC.

Não raras vezes, o resultado dos embargos de declaração, quanto ao seu mérito, é proclamado como se o julgador (monocrático ou colegiado) os tivesse “acolhido” ou “rejeitado”. Todavia, a sistemática processual civil brasileira não autoriza tais expressões, porquanto os embargos de declaração estejam incluídos dentre as espécies de recursos (art. 496, CPC) e, assim, sendo objeto de interposição, e não oposição. Nas lições de Bernardo Pimentel Souza, “apesar de prestigiados na legislação pretérita, os vocábulos ‘oposição’ e ´opostos’ não deveriam mais ser utilizados em relação aos recursos de embargos, que são, em linguagem técnica, ‘interpostos’”.

Afastada a hipótese de oposição, os embargos de declaração não podem ser “acolhidos” ou “rejeitados”, do que resulta, em observância à melhor técnica jurídica e em face da inequívoca natureza recursal de que se revestem, devam ser, quanto ao mérito, julgados “procedentes” ou “improcedentes”, se na primeira instância, ou serem “providos” ou “improvidos”, se fruto de julgamento colegiado.

Efeito Modificativo

Reconhecida a procedência dos embargos de declaração, cabe ao julgador, corrigindo os vícios constatados na decisão, delimitar os efeitos que nela se acometerão em decorrência de seu saneamento, ou seja, se a correção do vício ensejará alguma modificação no teor da decisão originária – o efeito modificativo.

De logo, faz-se necessário salientar que tal possibilidade se limita às hipóteses de correção de vícios de omissão e contradição, haja vista que, sendo constatada a ocorrência de obscuridade, seu saneamento importa, apenas, o esclarecimento do quanto foi decidido, sem permitir a análise de elementos desconsiderados, tampouco à adoção de um, dentre posicionamentos conflitantes. Em síntese, o saneamento da obscuridade significa mero esclarecimento do julgado.

Já quanto a eventuais contradições e omissões, seu saneamento pode implicar alteração substancial da decisão embargada, já que disso pode decorrer a análise de uma alegação ainda não apreciada – omissão, ou a alteração de uma conclusão contida no decisum que não guarda correlação com sua fundamentação – contradição.

Desta feita, ao apreciar os mesmos embargos, o magistrado haveria de reconhecer a omissão, saná-la, porém rejeitar o argumento do réu, ou seja, mantendo a procedência do pedido.

Como se pode inferir, o efeito modificativo dos embargos declaratórios tem como premissa a procedência destes, porém com ela não se confunde, haja vista que os embargos podem ser procedentes, sem que isso implique alteração da decisão embargada.

Logo, os embargos de cujo julgamento não decorre alteração da decisão embargada não são necessariamente improcedentes, posto que as análises do mérito dos embargos e de seu eventual efeito modificativo afiguram-se procedimentos distintos.

Efeito interruptivo

Segundo a lei 8.950/94, os embargos passaram ater efeitos interruptivo em relação ao prazo dos demais recursos, ao invés de suspender o prazo para interpor outros recursos como o texto primitivo do art. 538, que valia tanto para o embargante como para a parte contrária. Após o julgamento dos declaratórios , recomeça-se a contagem por inteiro do prazo para a interposição dom outro recurso cabível na espécie contra a decisão embargada.

Interrompe-se o prazo do recurso principal na data do ajuizamento dos embargos e permanece sem fluir até a intimação para decidir.

Ainda quanto ao efeito modificativo dos embargos de declaração, merece registro o procedimento a lhes ser emprestado quando se avente esta possibilidade, posto se tenha assentado nos tribunais superiores o entendimento de que, em casos que tais, deve-se observar o princípio constitucional do Contraditório.

(Destarte, ao apreciar embargos de declaração de cujo julgamento possa decorrer modificação do julgado, deve o magistrado, antes da decisão que os julgar, conceder vista da peça)

Neste ínterim, a oportunidade para manifestação da parte “embargada” deve observar o mesmo prazo previsto para a interposição dos embargos, qual seja, o de 5 (cinco) dias .

Logo, a diferenciação entre o “não conhecimento” e a “improcedência” dos embargos afigura-se de extrema importância, já que da correta aplicação da norma legal dependem os efeitos processuais subseqüentes.

Embargos manifestamente protelatórios

Os embargos de declaração terão sempre efeito de impedir o fluxo do prazo dos outros recursos. Mas quando o embargante utilizar o recurso como medida manifestamente protelatória, o tribunal reconhecendo a ilicitude da conduta, condenará o embargante a pagar ao embargado multa, que não poderá exceder 1% sobre o valor da causa. No caso, porém de reiteração dos embargos protelatórios, a multa será elevada a até 10%.

Não devem ser qualificados como protelatórios, os embargos manifestados com o propósito de atender as exigências de pré-questionamento para recurso especial ou extraordinário.

A aplicação da penalidade deve se de fazer ex-officio pelo tribunal. Se houver omissão a respeito da pena, o embargado poderá lançar mão de novos embargos declaratórios para compelir o tribunal a suprir a falta.

Assim, tem-se:

a) o conhecimento dos embargos declaratórios depende da observância do prazo para sua interposição e do seu direcionamento a uma decisão judicial ou a uma ausência de pronunciamento do juiz ou tribunal, não se cogitando, para tanto, a efetiva presença de vícios na decisão embargada;
b) é no mérito que se analisa a existência dos vícios que permitem a utilização dos embargos – omissão, contradição ou obscuridade -, cuja confirmação ou negativa levam, respectivamente, à sua procedência ou improcedência, independentemente dos efeitos que disso resultem;
c) não se pode deixar de conhecer embargos de declaração com fundamento em inexistência de vícios na decisão, pois que isso é matéria de mérito;
d) julgados procedentes – ou providos – os embargos, em razão de contradição ou omissão, a eles pode ser dado efeito modificativo;
e) sendo possível a ocorrência do efeito modificativo, o julgamento dos embargos deve ser precedido de oportunidade de manifestação da parte contrária;
f) somente os embargos de declaração não conhecidos é que não interrompem o prazo para a interposição de recursos; se conhecidos, o efeito processual interruptivo é inafastável.

Educando com Amor

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Bem que poderia aproveitar esse artigo para falar sobre diversos temas, mas preferi falar de coisas de crianças.

Há anos vejo pais, professores e crianças na busca pela “educação”

Quando nos propomos a estar com estes seres ímpares, frágeis, delicados e fortes tão semelhantes… Muitas vezes nos surpreendemos com suas palavras e com suas ações.

Falta a nós, adultos, muitas vezes sensibilidade para estar com eles, conduzi-los, ajuda-los em seu desenvolvimento… O sorriso da criança é algo incomparável, gostoso de ouvir. Nos primeiros anos ele brota naturalmente, e, com o tempo, muitas vezes é estancado, cedendo espaço a uma fisionomia triste, rebelde… O que será que acontece com estes seres?…

Há quem acredite que os pais são “fiéis depositários” de seus filhos, e deverão prestar contas dos mesmos… Gaiarça, um psiquiatra conhecido no Brasil, desenvolveu a “teoria da vingança póstuma”, em que atribui o abandono dos idosos ao abandono emocional destes para com os filhos ainda na infância. É algo que nos faz pensar… Que tipo de vivência emocional estamos oferecendo e que tipos de vivência emocional estão plantando para o futuro?…

Vimos gerações criarem seus filhos de forma rígida e autoritária. De repente, alguém disse: “Não é nada disso. Elas não devem ser contrariadas”. Hoje falamos em uma educação equilibrada, formando pessoas para ser felizes, e isso não significa ter tudo nas mãos. Significa aprender a fazer conquistas, também a lidar com as frustrações que a vida traz. Ah! Para quem não sabe, a vida é cheia de imprevistos e precisamos aprender a ganhar e perder.

Em termos físicos nós já sabemos do que precisa uma criança, mas emocionalmente ela também necessita de elementos para se desenvolver.

A criança vem ao mundo sem muita noção de quem é, elas precisam de liberdade, ”Che Guevara” diz: (Esta liberdade surgirá quando cada um de nós compreender sua responsabilidade em relação ao todo) Como também demonstra Platão, ela só poderá se enxergar através do olhar do outro. Ela saberá quem é, a partir do momento em que alguém do seu relacionamento lhe mostrar. Podemos apresentar-lhes a si mesmos como fortes ou fracos bons ou ruins, bonitos ou feios, amados ou odiados, dignos ou indignos da vida. Assim, ao convivermos com crianças estimulamos ou aniquilamos suas possibilidades de sucesso…

O que se diz aos filhos, aos alunos, aos irmãos mais novos é de suma importância. Às vezes vejo com enorme preocupação o modo traumatizado, com que alguns pais nutrem sentimentos de revolta, porque o irmão, professor “brincava” dizendo que seus filhos eram feios magrelos ou narigudos… São brincadeirinhas que podem matar… Matar a auto-estima, ajudar na formação de uma auto-imagem deturpada de uma pessoa que se constrói incapaz de se relacionar, incapaz de amar, incapaz de produzir.

Frases como “esse menino é burro” jamais deveria sair da boca de quem ama.

Mas vamos esconder as limitações? Não! Vamos observar as nossas limitações, mas focar nas potencialidades e não nas dificuldades.

Toda criança precisa de Afeto, carinho, tempo, elogio…

Observando em escolas percebemos que boa parte do comportamento inadequado na sala de aula deve-se ao “querer chamar a atenção”… Mas, para quê alguém quer chamar a atenção? Só para ser visto? Não! É para ser amado, valorizado em alguma coisa.

Que possamos sinalizar às nossas crianças que elas podem ser valorizadas por aquilo que fazem de bom, de positivo. Não pelo negativo.

Toda criança precisa de brincar. Voltaire em uma de suas obras disse: “Brincar para a criança é mais que brincar. São suas mais sérias ações”.

Enquanto a criança brinca ela pode desenvolver sua criatividade, elaborar suas vivências emocionais conflituosas, aprender. No entanto, ainda existem educadores que privam as crianças de brincar… Por quê? “Por que brincar suja, estraga os brinquedos”. Julgam não ser importante.

Brincar é fundamental. Aliás, os adultos jamais deveriam deixar de brincar…

É muito bom para a criança quando alguém “importante”, “adulto” brinca com ela. É por isso que ela insiste te chamando pra brincar…

Aos 16 anos de idade tive uma diretora numa escola em que estudei por apenas um ano na cidade de Petrópolis RJ – seu nome era Marta Souza – (Acredito ser a única diretora que ainda lembre o nome) que brincava conosco no recreio. Ainda sou capaz de me lembrar de brincadeiras ensinadas por ela.

Seja importante para suas crianças. Brinque!

Tenha sensibilidade… Crianças não gostam do que nós também não gostamos.

Todos odeiam ser advertidos publicamente. A vergonha não faz crescer, intimida.

A criança deve ser corrigida em particular, e, preferencialmente quando não estamos com raiva. Lembre-se: Educamos para que ela aprenda e não para “descontar” a nossa ira.

Todos detestam ser comparados. Aprendemos que Deus nos criou únicos. Que possamos valorizar a unicidade de cada ser. Esqueça que ela deve ser “estudiosa como a prima”, “organizada como a vizinha”, “educada como a menina da televisão”.

A criança precisa ser comparada com ela mesma e devemos nos surpreender quando esta age de forma inapropriada… Afinal “isso nem parece com ela”… Você mal pode acreditar que ela, uma criança tão boa, inteligente, esperta tenha feito aquilo…

Lembre-se que educar é um ato de persistência. Cumpra o que você prometeu…

Fale poucos “nãos”, mas que sejam justificados. A criança precisa compreender o porquê não pode. Ajude-a pensar. Você não tem que saber todas as coisas…

Seja sensível e aproveite a presença dessa criança que está aí pertinho de você.

Síntese das Teorias

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A – Teoria Behaviorista

O Behaviorismo é uma tendência teórica também conhecida como comportamentalismo, teoria do comportamento ou análise experimental do comportamento humano e suas manifestações em diferentes condições e diferentes sujeitos. Estuda a relação entre os aspectos do comportamento e os aspectos do meio acreditando que só desta forma é possível fazer uma psicologia científica. Nesta linha teórica o homem é estudado como produto da aprendizagem pela qual passa desde a infância. O ponto de partida para uma ciência do comportamento é o uso do estímulo e resposta.

Um dos principais teóricos do Behaviorismo, B.F. Skinner (1904-1990), representou o Behaviorismo como a eficiência na escola e teorizou as leis da aprendizagem.

O Behaviorismo distingue duas classes de comportamento: o comportamento respondente (reflexo) e o comportamento operante (voluntário):

• O comportamento respondente é o comportamento efetuado pelo organismo em resposta a um estímulo. Por exemplo, a salivação diante do cheiro de comida.
• O comportamento operante é efetuado em decorrência de sua relação com o meio externo, sem que se possam identificar estímulos específicos que o teriam provocado. Por exemplo, os movimentos de braço e pernas de uma criança.

Uma das aplicações da teoria Behaviorista em sala de aula ocorre no processo de alfabetização, um professor que admite que os estudantes possam ser maus, neutros ou passivos ensinará de maneira a desenvolver os poderes da mente infantil e provavelmente daria de início uma lista de palavras que os alunos deveriam aprender a reconhecer, ler e soletrar. Poderia utilizar cartões com palavras para leitura rápida. Exercitaria as almas, poderia testá-los diariamente e fazer com que os alunos de baixo rendimento, retomassem a escola após o horário regular para mais exercícios.

Ainda nos dias de hoje os métodos behavioristas são muito utilizados em vários momentos: não só na escola como na vida familiar. O sujeito educado pelo método behaviorista recebe informações e não reflete sobre elas, ou seja, o seu comportamento é condicionado. Este conhecimento passa a ser nulo no momento em que os estímulos cessam.

Na estruturação do educando, o que acontece é que o real aprendizado se dá de forma conturbada e aleatória, pois a qualquer momento, o educador pode mudar seu método de ensino. A aprendizagem para os teóricos do behaviorismo é o próprio comportamento condicionado, somente o que é visto e observado pode ser considerado e avaliado. Os estímulos e respostas, que são à base da teoria do comportamento, são externos, sem reflexão de atos e pensamentos.

B – Teoria Gestalt

O termo Gestalt, em português, significa forma ou configuração, porém não muito utilizado em Psicologia por não condizer com seu significado nesta área especificamente.

Esta doutrina traz em si a concepção de que não se pode conhecer o todo através das partes, e sim as partes por meio do conjunto. Este tem suas próprias leis, que coordenam seus elementos. Só assim o cérebro percebe, interpreta e incorpora uma imagem ou uma idéia. Segundo o psicólogo austríaco Christian Von Ehrenfels, que em 1890 lançou as sementes das futuras pesquisas sobre a Psicologia da Gestalt, há duas características da forma – as sensíveis, inerentes ao objeto, e a formais, que incluem as nossas impressões sobre a matéria, que se impregna de nossos ideais e de nossas visões de mundo. A união destas sensações gera a percepção. É muito importante nesta teoria a idéia de que o conjunto é mais que a soma dos seus elementos.

A Teoria da Gestalt estuda a percepção e a sensação do movimento, os processos psicológicos envolvidos diante de um estímulo e como este é percebido pelo sujeito.

A Teoria da Gestalt, em suas análises estruturais, descobriu certas leis que regem a percepção humana das formas, facilitando a compreensão das imagens e idéias. Essas leis são nada menos que conclusões sobre o comportamento natural do cérebro, quando age no processo de percepção. Os elementos constitutivos são agrupados de acordo com as características que possuem entre si, como semelhança, proximidade, boa continuidade, pregnância, clausura e experiência passada.

C – Teoria Cognitivista – Bruner, Ausubel e Freinet

Quando a criança passa a significar as coisas que a ela se apresentam, ela passa para um pensamento lógico de modo a organizar, classificar e seriar suas novas aquisições, logo, atribuindo significado, sentido ao meio que a envolve ela passa a estabelecer novas relações e construir, relaborar o que agora passa a teorias outra forma ainda mais significativa, e assim sucessivamente.

Jerome Bruner

Na estrutura teórica de Bruner, o aprendizado é um processo ativo, no qual aprendizes constroem novas idéias ou conceitos, baseados em seus conhecimentos passados e atuais.

Bruner tem como uma idéia central da sua teoria a necessidade do professor e dos alunos conhecerem a estrutura de uma determinada área de conhecimento/assunto. Quando o aluno está acomodado com os conhecimentos adquiridos, cabe ao professor propor-lhe dúvidas, motivando-o a descobrir por si mesmo os princípios. Afirma ainda que se pode ensinar qualquer coisa para qualquer criança em qualquer estágio de desenvolvimento, pois o fundamental é a interação entre: criança, assunto e modo pelo qual ele é apresentado, assim, o aluno pode transferir a aprendizagem para uma nova situação.

Segundo Bruner, o desenvolvimento do homem, está ligado a sua capacidade de construir modelos de representação do mundo, que lhe permitem ir além da informação dada, sendo que a construção dos modelos iniciais ocorre através de fatores que a cultura fornece ao indivíduo. Portanto, ele constrói modelos iniciais segundo convenções sócio-culturais, para só então criar seus próprios modelos. Para Bruner o desenvolvimento é caracterizado pelo domínio progressivo de três formas de representação do conhecimento: ativa, icônica e simbólica. É interessante ressaltar que tais estágios de representação não estão ligados a fatores biológicos, mas sim a fatores culturais. Bruner destaca a importância do erro por manter o indivíduo interessado na tarefa.

David Ausubel.

Ausubel pode ser interpretado como o teórico que se preocupou com uma das maiores inquietações dos educandos: No que este conteúdo irá contribuir? De que adianta esse conhecimento? Assim percebe-se a importância que esta teoria tem no diálogo entre educador e educando.

O educador deve antes de aplicar o conteúdo conhecer o ambiente a qual vai realizar seu trabalho, isso se desejar uma aprendizagem dinâmica e eficaz. A perda do ritmo coletivo de aprendizagem ou a insatisfação e o fracasso individual podem ser sintomas da falta de diálogo entre educando e educador.

A teoria de Ausubel reforça esta importância quando se refere entre a aprendizagem significativa e a mecânica. Claro que o objetivo é implementar a aprendizagem significativa em detrimento da mecânica, mas não podemos nos deixar tomar pela utopia, a aprendizagem mecânica é inevitável e Ausubel salientava isso. A leitura feita por este teórico sobre a aprendizagem, afirma que ela é uma organização de conhecimentos na estrutura cognitiva do indivíduo. Mais do que compreender idéias, os indivíduos devem ser capazes de aplicá-las no cotidiano, dando utilidade ao conhecimento adquirido na escola.

A aprendizagem significativa de Ausubel é importante, para que os educandos ganhem autonomia no processo de aprendizagem construindo seus próprios conceitos e seus próprios caminhos. Quando o educador ensina de acordo com o conhecimento adquirido anteriormente ele dinamiza suas aulas, mas obvio que o educando deve mostrar interesse pelo relacionamento com o conteúdo. Se o educador utilizar a sua paixão com o conhecimento curricular podemos entender que o interesse do aluno estará muito próximo de concretizar-se.

Celestin Freinet

Na sua concepção, a sociedade é plena de contradições que refletem os interesses antagônicos das classes sociais que nela existem, sendo que tais contradições penetram em todos os aspectos da vida social, inclusive na escola. Para ele, a relação direta do homem com o mundo físico e social é feita através do trabalho (atividade coletiva) e liberdade é aquilo que decidimos em conjunto.

Em suas concepções educacionais dirige pesadas críticas à escola tradicional, que considera inimiga do “tatear experimental”, fechada, contrária à descoberta, ao interesse e ao prazer da criança. Para Freinet, a atividade natural da criança se desenvolve no grupo, em cooperativa. Por isso mesmo, não devemos obrigar a criança a realizar tarefas não naturais, nem deixá-la por completo entregue à atividade espontânea do jogo. Ele afirma que nossa sociedade explora o trabalho humano, principalmente o menos qualificado. Além disso, ele tende a separar o jogo do trabalho, reservando o primeiro às profissões “liberais”. A pedagogia social ou popular deve opor-se à pedagogia dos ricos e promover a integração do jogo com o trabalho.

Freinet centraliza seu método em torno do uso da imprensa na escola, procurando estimular os alunos a utilizarem os meios de expressão com máxima liberdade possível. Seu método procura, acima de tudo, dar oportunidade à criança de exteriorizar seu pensamento e seus sentimentos pela linguagem, pela escrita, pela imprensa, pelo desenho, pela atividade manual, pelo jogo, etc.

D -Teoria Construtivista – Jean Piaget

A teoria construtivista tem sido e será um referencial muito importante para o educador poder criar metas, analisar, contextualizar e tomar decisões em relação de como colocá-la em prática, sabendo da grande necessidade desta teoria, que não é contrária à educação e que não ignora a sua aplicação na educação.

De acordo com Piaget, o ser humano aprende assimilando a realidade e acomodando os esquemas e as operações de sua mente para novas assimilações. Daí pode-se tirar conclusões em nível pedagógico.

É importante saber em que estágio se encontra o individuo que aprende. A partir disso, muni-lo de material adequado, farto de quantidade e variedade, para que ele possa fazer funcionar as estruturas mentais próprias do nível em que se encontra e ao mesmo tempo devem-se apresentar a ele situações problemas que desafiem a inteligência. Quem se encontra no estagio sensório motor, precisa de objetos variados em forma, cor e textura, que possa manusear.

A participação do adulto na vida da criança no estagio pré-operacional é de suma importância para que ela atinja o pensamento simbólico e se capacite para a linguagem verbal. A linguagem a socialização propiciam o aprofundamento de seu relacionamento com os demais humanos.

Piaget ressalta também a importância do contato da criança com seus colegas da mesma idade, pois eles trarão desafios que podem ser enfrentados de igual para igual. Ele coloca que a atividade comum entre crianças ajuda a aprendizagem da descentralização, sair de si mesma e superar o egocentrismo.

No estágio das operações concretas a criança é capaz de uma ação mental coordenada, flexível, reversível, mas que esta operação só ocorrerá enquanto houver referencia há algo concreto, que possa ser tocado. O que vai ajudar a criança a dominar reversibilidades, seriações e classificações, que caracterizam este estágio. Assim sendo fica impossível uma aula de matemática sem palitos, sementes ou outros objetos.

No quarto estágio, das operações formais, o pensamento atua a partir de suposições, sem o dado, concreto, atento apenas à seqüência lógica. Chega à conclusão a partir de hipóteses. O Ensinar deve ser visto como criação de condições para o desenvolvimento intelectual do aluno.

E – Teoria Sócio Interacionista – Lev Semenovich Vygotsky

Percebe a criança como sujeito social e histórico que fazem e se fazem na cultura. Seus estudos embasam – se em estatísticas trabalhando como crítica literária, pesquisava o processo de mudança do sujeito, buscando uma psicologia historicamente, fundamentada e enraizada no materialismo histórico e dicilético.

Vygostky prioriza o ambiente social, ao enfocar o ambiente social em que a criança nasceu, reconhece que em variando o ambiente, o desenvolvimento também variará. Neste sentido, para Vygostky não se pode aceitar uma visão única universal de desenvolvimento humano.

Considerando o ambiente como fator fundamental para o desenvolvimento, Vygostky contradiz “Piaget”, afirmando de que o processo de construção do conhecimento se dá social para o individual. Pois, acredita que ao nascer à criança por já se inserir em um mundo social, ela passa a formar seus primeiros conceitos de mundo através da sua interação com os adultos, ou com crianças mais experientes. Logo a construção do real é então mediada pelo interpessoal antes de ser internalizada pela criança. Desta forma procede do social para o individuo do longo de seu desenvolvimento.

Vygostky percebe o desenvolvimento e a aprendizagem como processos que se influenciam reciprocamente, de modo que quanto mais aprende mais desenvolve. Deste modo observa-se o contexto histórico da humanidade, no que se refere às estruturas de pensamentos dos indivíduos, modificam-se de acordo com as suas raízes na sociedade e na cultura. O ser humano assimila os valores culturais de seu ambiente e ao mesmo tempo desenvolve uma consciência crítica sobre os mesmo, tornando-se então capazes de transformar para assim atender as novas exigências no contexto social. Logo, o pensamento e a linguagem são processos interdependentes, desde o inicio da vida.

Tendo esta visão Vygostky, atribui o desenvolvimento do pensamento como processo essencialmente dialético, em que o sujeito transforma e é transformado seja realidade física, social cultural em que se encontra.

Bibliografia

PILETT, Nelson.Psicologia Educacional.SP: Ática, 1990.

MARINHO FALCÃO, Gérson. Psicologia da Aprendizagem. SP: Ática, 1988.

GADOTTI, Moacir – História das Idéias Pedagógicas. São Paulo: Editora Ática.

MIZUKAMI, M.G.N. Ensino : As abordagens do Processo.

CÓRIA-SABINI,M Aparecida. Psicologia do Desenvolvimento. SP: Ática, 1999.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_behaviorista

Biografia de Romero Britto

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Nos últimos anos, depois de ver consolidada sua carreira no exterior, Britto sentiu a necessidade de se integrar ainda mais com o público e entrar definitivamente no circuito cultural brasileiro, pois sentiu a visitação contínua de seus fãs a seu estúdio de Miami, assim como às galerias no mundo inteiro que têm seus trabalhos. O melhor caminho foi montar a Britto Central de São Paulo, que tem servido como ponto de referência para o segmento artístico. Na verdade, essa idéia é fruto de uma visita do próprio artista ao Brasil, há quatro anos, quando sentiu a grande receptividade das pessoas ao seu trabalho durante duas exposições realizadas no Rio de Janeiro e em São Paulo. “Notei que precisava ter em meu país, um local que fosse um ponto de encontro para quem desejasse contemplar minha arte”, recorda Britto. Guardadas as diferenças de arquitetura, que são muitas, a galeria é uma réplica e uma extensão da Britto Central de Miami, estúdio-atelier que ele tem há dez anos no 818 da Lincoln Road, em South Beach, epicentro da vida cultural e social da cidade norte-americana de Miami, na Flórida.

Romero Britto, pernambucano de Recife é unanimidade artística em Miami. Seu sucesso por lá é tanto que ele é visto quase que como um símbolo da cidade. Mas o interesse por seu trabalho vai muito além da Flórida, desperta interesse verdadeiramente global. Britto já realizou exposições nos mais importantes centros culturais do planeta, de Paris a Tóquio, de Londres a Madri, de Roma a Nova York. Suas obras são representadas por mais de cento e vinte galerias em todo o mundo. Seus quadros estão em grandes museus e também nas coleções de celebridades. Sua arte é requisitada no mundo inteiro para projetos beneficentes e para campanhas de publicidade. Mais do que isso, setores da crítica atribuem a Romero Britto o mérito de ter reinventado a Pop Art, e creditam a ele importância comparável à de dois ícones das artes plásticas contemporâneas, Andy Warhol e Roy Lichtenstein.

Afilhado de batismo de Gilberto Freire, autor de Casa-Grande & Senzala, Romero Britto começou a desenhar aos oito anos, reproduzindo o mundo de fantasia de sua mente. Sem educação formal, criava, em qualquer papel que lhe caia às mãos, pinturas de dias alegres, sóis brilhantes e animais brincando. Começou depois a trabalhar suas imagens em todos os meios possíveis – aquarela, bico de pena, pintura a dedo.

Fez sua primeira exposição aos 16 anos e, desde então, coleciona prêmios e elogios. Em 1986 deixou o Brasil em busca de novas perspectivas para sua arte. Passou um ano na Europa, visitando museus e galerias, e seguiu depois para os Estados Unidos. Dez anos se passaram e o trabalho de Romero Britto só cresceu. Ganhou importância e repercussão, alcançou o reconhecimento da crítica, chegou ao grande público através, por exemplo, de trabalhos especialmente criados para campanhas publicitárias de Absolut, Apple, Pepsi-Cola e IBM. Britto, que recentemente recebeu o título de “Doutor Honoris Causa” pelo International Fine Arts College, uma das mais conceituadas escolas de arte dos Estados Unidos, continua experimentando. Ele conta, por exemplo, que agora está integrando cor nas linhas que demarcam as formas – antes sempre negras e sólidas. Outra mudança é que antes seus quadros mostravam uma figura como único elemento, agora incorporam mais figuras e usam cores menos brilhantes, para contrastes mais suaves. “Quem observar meu trabalho ao longo desses anos”, diz, “vai perceber que ele vem mudando, mas lentamente, sem transformações drásticas”.

As experiências do artista se dão também na multiplicidade de suas formas de expressão, e na variedade de suportes, das tradicionais telas a papéis coloridos, papel-cartão e tecidos. Britto não se limita à pintura, faz também gravuras, desenhos, esculturas e tem investido em projetos ligados à moda. Ele também está comprometido com inúmeras causas beneficentes e humanitárias, especialmente aquelas que envolvem crianças.

Biografia de Romero Britto:

Nascido no Recife, Pernambuco, em 06 de outubro de 1963, no Brasil, aos oito anos começou a mostrar interesse e talento pelas artes. Com muita imaginação e criatividade, pintava em sucatas, papelão e jornal. Sua família o ajudava a desenvolver seu talento natural, dando-lhe livros de arte para estudar. “Eu ficava sentado e copiava Tolouse e outros mestres dos livros, por dias e dias.“


Aos 14 anos fez sua primeira exibição pública e vendeu seu primeiro quadro à Organização dos Estados Americanos. Embora encorajado por este sucesso precoce, as circunstâncias modestas de sua vida o motivaram a estabelecer metas e a criar seu próprio futuro. “Na condição de criança pobre no Brasil, tive contato com o lado mais sombrio da humanidade. Como resultado, passei a pintar para trazer luz e cor para minha vida.“

Freqüentou escolas públicas, recebeu bolsa de estudos para uma escola preparatória e aos 17 anos entrou para a Universidade Católica de Pernambuco, no curso de Direito. Viajou para a Europa para visitar lugares novos e ver a arte que só conhecia nos livros. Durante um ano pintou e exibiu seus trabalhos em vários países como Espanha, Inglaterra, Alemanha e outros. Quando retornou ao Brasil, seu desejo de ter contato com o mundo ficou ainda mais forte, queria continuar a viajar e mostrar sua arte. Com isso, desistiu do curso de Direito e decidiu ir visitar um amigo de infância, Leonardo Conte, que estava estudando inglês em Miami, nos Estados Unidos.

Lá se deu conta que tinha muita empatia com o ritmo acelerado do “american way of life“. A diversa paisagem cultural e a beleza tropical o fizeram lembrar do Brasil. Fez de Miami, então, sua residência permanente.

Trabalhou como atendente em lanchonete e lava-rápido, como ajudante de jardineiro e caixa de loja. Durante esse percurso, ele fez muitas amizades e através desses amigos conheceu Cheryl Ann com quem se casou e teve um filho, Brendan Britto.

Durante o processo de busca de uma galeria onde pudesse expor sua arte, Romero começou a mostrar seu trabalho nas calçadas de Coconut Grove, na Flórida. Depois chegou até a Steiner Gallery, em Bal Harbour, também na Flórida.

Foi nessa galeria que Berenice Steiner e Robyn Tauber começaram a vender seus trabalhos a entusiastas da arte do mundo inteiro.


Nesse período, Romero iniciou uma parceria com uma loja que vendia móveis artísticos em Coral Gables, Coconut Grove e Bayside Marketplace, em Miami. Estas lojas começaram a vender suas obras. Sr. Mato, o dono das lojas, ficou tão entusiasmado com as vendas das obras do jovem Romero que decidiu assinar um contrato de aluguel de curto prazo, no então famoso Mayfair Shops, em Coconut Grove.

O local a ser alugado era anteriormente um salão de beleza e o Sr. Mato decidiu não renovar o contrato, de tal modo que as obras de Romero Britto foram sendo mostradas entre os equipamentos do salão. Assim se formou o estúdio de Romero. O Sr. Mato deu ao artista a oportunidade de manter a loja até o termino do período de locação. Após o encerramento desse período de 4 meses, Romero assumiu a locação e manteve seu estúdio em Mayfair Shops por 6 anos.

Foi no estúdio de Mayfair que Michael Roux, então Diretor Presidente da Absolut Vodka, convidou Romero para criar uma pintura para ser usada em uma nova campanha publicitária da vodka. Trabalharam nesta campanha artistas pop muito conhecidos e conceituados como Andy Warhol, Keith Haring, Kenny Scharf e Ed Ruscha.

Romero Britto foi o quinto artista a ser contratado pela Absolut Vodka. Os anúncios publicitários apareceram nas mais importantes revistas da América. Foram 62 publicações nos Estados Unidos. Essas publicações foram distribuídas ao redor do mundo muito rápido e foram vistas por milhares de pessoas.

Seguindo a trajetória da Absolut, empresas de renome como a Grand Manier, Pepsi Cola, Disney, IBM e outras interessadas em cultura popular passaram a incorporar as pinturas de Romero Britto em seus projetos especiais.

Ao longo desses anos, Romero tem dedicado seu talento, sua arte e sua energia a muitas causas filantrópicas. Usando sua capacidade e influência, oferece oportunidades de arrecadação de fundos para importantes e respeitáveis organizações em vários países.

Reengenharia e Readministração

1. REENGENHARIA

1.1. INTRODUÇÃO

Um conjunto de princípios estabelecidos há mais de dois séculos moldou a estrutura, a gestão e o desempenho das empresas, através dos séculos XIX e X. As pessoas fundaram e construíram empresas em torno da brilhante descoberta de Adam Smith de que o trabalho industrial deve ser decomposto em suas tarefas mais simples e básicas. Os empresários, executivos e gerentes criaram e conduziram empresas que por mais de 100 anos atenderam a demanda crescente pelos produtos e serviços do mercado de massa. Os gerentes e as empresas por eles geridos fixaram padrão e desempenho para o resto do mundo empresarial. Esse não é mais o caso. Chegou à hora de se aposentarem esses princípios e de se adotar um novo conjunto.

As novas organizações serão empresas projetadas especificamente para funcionar no mundo de hoje e de amanhã, e não instituições provindas de uma era anterior, gloriosa, mas que deixou de ser relevante.

Na era empresarial pós-industrial, as empresas serão fundadas e construídas em torno da idéias da reunificação dessas tarefas em processos empresariais coerentes.

As empresas atuais precisam se reinventar. Chamamos as técnicas de que podem se valer para isso de reengenharia empresarial. As grandes empresas, inclusive as mais bem sucedidas e promissoras, precisam abraçar e aplicar os princípios da reengenharia empresarial, ou serão eclipsadas pelo maior sucesso daquelas que o fizerem.


1.2. CONCEITOS E EXEMPLOS

1.2.1. Reengenharia

A reengenharia foi uma reação ao colossal abismo existente entre as mudanças ambientais velozes e intensas e a total inabilidade das organizações em ajustar-se a essas mudanças. Para reduzir a enorme distância entre a velocidade das mudanças ambientais e a permanência das organizações tratou-se de aplicar um remédio forte e amargo. Reengenharia significa fazer uma nova engenharia da estrutura organizacional. Representa uma reconstrução e não simplesmente uma reforma total ou parcial da empresa. Não se trata de fazer reparos rápidos ou mudanças cosméticas na engenharia atual, mas de fazer um desenho organizacional totalmente novo e diferente. A reengenharia se baseia nos processos empresariais e considera que eles é que devem fundamentar o formato organizacional.

1.2.2. Fundamentos de Reengenharia

Para alguns autores, a reengenharia é o reprojeto dos processos de trabalho e a implementação de novos projetos, enquanto para outros é o repensar fundamental e a reestruturação radical dos processos empresariais visando alcançar drásticas melhorias no desempenho de custos, qualidade, atendimento e velocidade. Assim, a reengenharia se fundamenta em quatro palavras-chave:

a) Fundamental: busca reduzir a organização ao essencial e fundamental. As questões: Por que fazemos o que fazemos? E por que fazemos dessa maneira?
b) Radical: impõe uma renovação radical, desconsiderando as estruturas e procedimentos atuais para inventar novas maneiras de fazer o trabalho.
c) Drástica: a reengenharia joga fora tudo o que existe atualmente na empresa. Destrói o antigo e busca sua substituição por algo inteiramente novo. Não aproveita nada do que existe.
d) Processos: a reengenharia reorienta o foco para os processos e não mais para as tarefas ou serviços, nem para pessoas ou para a estrutura organizacional. Busca entender o “quê” e o “porquê” e não o “como” do processo.

1.2.3. Exemplos de Empresas Adeptas da Reengenharia

1.3. CONCLUSÃO

A reengenharia introduz conceitos novos e revolucionários, os quais requerem mentes abertas e podem ser aplicados de forma pragmática em outros conceitos de mudança. Trata de processos e procura simplificá-los de forma a eliminar as fontes de erro e de atrasos, bem como, de custos desnecessários.

A reengenharia encontra oposição, porque implica outras formas de trabalhar, mas tem de ser feita com aqueles que serão afetados e nunca contra eles. Portanto, é importante salientar a necessidade de uma nova forma de relacionamento com os empregados e com todos os grupos ligados à organização. São esses grupos que levarão a cabo qualquer projeto de reengenharia e que devem ser a força criativa que determinará o futuro da organização.

Os processos devem ter em vista satisfazer o cliente da forma mais satisfatória para este e da forma mis eficiente e econômica para a empresa.

Assim sendo, a reengenharia pode ser vista como o grau mais elevado dos processos de melhoria contínua, sendo portadora de um conjunto valioso de conceitos e técnicas, os quais não precisam de ser aplicados integralmente, nem de forma ortodoxa. Consiste no repensar fundamental e no redesenhar radical dos processos de trabalho com o objetivo de obter melhorias dramáticas nas medidas contemporâneas críticas da performance da empresa, seja nos custos, na qualidade, no serviço ou no tempo.

2. READMINISTRAÇÃO

2.1. CONCEITO

Readministração é uma forma de gerir as organizações, de um lado organizações eficientes, eficazes e efetivas e, de outro, indivíduos satisfeitos, atualizados e recompensados com e pelo que fazem.

A idéia de readministração surgiu como contraponto da idéia de reengenharia, que é considerada revolucionária, radical e drástica, que causava grande impacto nas pessoas e nas atividades, e sua visão era somente em curto prazo, sistêmica e técnica. A readministração visava à vantagem competitiva, a satisfação do cliente e dos membros da organização. Enfocava as responsabilidades sociais, ecológicas e técnicas, e compreendia a empresa com uma visão holística e abordagem evolucionária e programada. Assim, a readministração tem como propostas:

• Questionar a aplicabilidade da Reengenharia
• Propor uma reformulação mais abrangente e menos radical das orientações administrativas e gerências, mais aplicável em longo prazo com uma teoria ou filosofia administrativa renovada.



2.2. REENGENHARIA x READMINISTRAÇÃO

Os modelos administrativos adotados na maioria das nossas empresas tiveram sua origem no início do século, numa época em que o mercado consumidor era amplamente comprador, e nossos clientes tinham um nível de exigências primitivo.

Desta época data-se a primeira grande revolução da produtividade conhecida como Administração Científica, na qual o Engenheiro Frederick W. Taylor revolucionou os processos industriais ao propor a divisão e a subdivisão do trabalho, a organização racional do trabalho, a utilização das linhas de montagem, e o conceito do “homem econômico”, pelo qual o homem trabalha apenas pelo dinheiro que o trabalho proporciona. Tais conceitos rapidamente ganharam adeptos como: Henry Ford, Frank e Lilian Gilbreth, Henri Fayol, Alfred Sloan, dentre outros.

Mas ao mesmo tempo em que a “Administração Científica” ganhava adeptos, ela ganhava contestadores na mesma velocidade, e desta forma surgiu em 1927 a “Escola Neoclássica”, principalmente quando Elton Mayo efetuou a famosa experiência de Hawthorne, a partir da qual descobriu-se questões relativas aos aspéctos emocionais e psicológicos dos trabalhadores, dando origem à Teoria das Relações Humanas, cujo principal papel foi à posição antagônica que a mesma defendia frente à Administração Científica.

Desta forma, enquanto a Administração Científica considerava o homem apenas como um autômato do processo produtivo, dando completo destaque à parte mecanicista das organizações, a Teoria das Relações Humanas abordava o aspecto humano e as relações entre as pessoas que compunham as organizações, e o mundo empresarial jamais chegou a uma conclusão sobre qual destes conceitos administrativos eram mais aplicáveis dentro das empresas, a tal ponto que apesar de antagônicos passaram a ser aplicados concomitantemente.

Quase 100 anos nos separam das publicações de Taylor, e outros 70 anos nos separam das primeiras experiências de Mayo, o mercado consumidor é completamente diferente, fala-se em qualidade, em produtividade, em eficácia, porém o velho dilema persiste, é bem verdade que travestido de uma nova roupagem, talvez parecendo até que existe alguma coisa de novo no ar.

Nos anos 90 surgiu uma nova corrente de pensamento, denominada Reengenharia, que prometia fazer verdadeiros milagres dentro das empresas, destacando-se ganhos de até 80% em produtividade após a implementação das mudanças no processo produtivo, porém depois de algum tempo descobriu-se que a Reengenharia não passava da velha e conhecida “Organização Racional do Trabalho”, somente que desta vez ela estava sendo aplicada a processos adaptados às novas exigências dos consumidores.

Quase que imediatamente, a nova tendência foi criticada pelos adeptos da chamada readministração, que condenavam os métodos utilizados pela reengenharia quanto à forma com que ela tratava os participantes da organização, repetindo os mesmos conceitos desenvolvidos pela teoria das Relações Humanas.

Se estabelecermos um quadro comparativo entre os princípios da reengenharia e da readministração, teremos a situação abaixo:



3. BIBLIOGRAFIA

Introdução à Teoria Geral da Administração: CHIAVENATO, Idalberto

A Readministração: FERREIRA, Ademir Antônio

Regulamentação e Normas da Saúde

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SUMÁRIO

1 Introdução
2 Finalidade
3 Campos da Atenção à Saúde
4 Sistema de Saúde Municipal
5 Relações entre os Sistemas Municipais
6 Papel do Gestor Estadual
7 Papel do Gestor Federal
8 Direção e Articulação
9 Bases para um Novo Modelo de Atenção à Saúde
10 Financiamento das Ações e Serviços de Saúde
10.1 Responsabilidades
10.2 Fontes
10.3 Transferências Intergovernamentais e Contrapartidas
10.4 Tetos financeiros dos Recursos Federais
11 Programação, Controle, Avaliação e Auditoria
11.1 Programação Pactuada e Integrada – PPI
11.2 Controle, Avaliação e Auditoria
12 Custeio da Assistência Hospitalar e Ambulatorial
12.1 Transferência Regular e Automática Fundo a Fundo
12.1.1 Piso Assistencial Básico (PAB)
12.1.2 Incentivo aos Programas de Saúde da Família (PSF) e de Agentes Comunitários de Saúde (PACS)
12.1.3 Fração Assistencial Especializada (FAE)
12.1.4 Teto Financeiro da Assistência do Município (TFAM)
12.1.5 Teto Financeiro da Assistência do Estado (TFAE)
12.1.6 Índice de Valorização de Resultados (IVR)
12.2 Remuneração por Serviços Produzidos
12.2.1 Remuneração de Internações Hospitalares
12.2.2 Remuneração de Procedimentos Ambulatoriais de Alto Custo/ Complexidade
12.2.3 Remuneração Transitória por Serviços Produzidos
13 Custeio das Ações de Vigilância Sanitária
13.1 Transferência Regular e Automática Fundo a Fundo
13.1.1 Piso Básico de Vigilância Sanitária (PBVS)
13.1.2 Índice de Valorização do Impacto em Vigilância Sanitária (IVISA)
13.2 Remuneração Transitória por Serviços Produzidos
13.2.1 Programa Desconcentrado de Ações de Vigilância Sanitária (PDAVS)
13.2.2 Ações de Média e Alta Complexidade em Vigilância Sanitária
14 Custeio das Ações de Epidemiologia e de Controle de Doenças
14.1 Transferência Regular e Automática Fundo a Fundo
14.2 Remuneração por Serviços Produzidos
14.3 Transferência por Convênio
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 Introdução

Os ideais históricos de civilidade, no âmbito da saúde, consolidados na Constituição de 1988, concretizam-se, na vivência cotidiana do povo brasileiro, por intermédio de um crescente entendimento e incorporação de seus princípios ideológicos e doutrinários, como, também, pelo exercício de seus princípios organizacionais.

Esses ideais foram transformados, na Carta Magna, em direito à saúde, o que significa que cada um e todos os brasileiros devem construir e usufruir de políticas públicas – econômicas e sociais – que reduzam riscos e agravos à saúde. Esse direito significa, igualmente, o acesso universal (para todos) e equânime (com justa igualdade) a serviços e ações de promoção, proteção e recuperação da saúde (atendimento integral).

A partir da nova Constituição da República, várias iniciativas institucionais, legais e comunitárias foram criando as condições de viabilização plena do direito à saúde. Destacam-se, neste sentido, no âmbito jurídico institucional, as chamadas Leis Orgânicas da Saúde (Nº. 8.080/90 e 8.142/90), o Decreto Nº. 99.438/90 e as Normas Operacionais Básicas (NOB), editadas em 1991 e 1993.

Com a Lei Nº 8.080/90, fica regulamentado o Sistema Único de Saúde – SUS, estabelecido pela Constituição Federal de 1988, que agrega todos os serviços estatais – das esferas federal, estadual e municipal – e os serviços privados (desde que contratados ou conveniados) e que é responsabilizado, ainda que sem exclusividade, pela concretização dos princípios constitucionais.

As Normas Operacionais Básicas, por sua vez, a partir da avaliação do estágio de implantação e desempenho do SUS, se voltam, mais direta e imediatamente, para a definição de estratégias e movimentos táticos, que orientam a operacionalidade deste Sistema.



2 Finalidade

A presente Norma Operacional Básica tem por finalidade primordial promover e consolidar o pleno exercício, por parte do poder público municipal e do Distrito Federal, da função de gestor da atenção à saúde dos seus munícipes (Artigo 30, incisos V e VII, e Artigo 32, Parágrafo 1º, da Constituição Federal), com a conseqüente redefinição das responsabilidades dos Estados, do Distrito Federal e da União, avançando na consolidação dos princípios do SUS.

Esse exercício, viabilizado com a imprescindível cooperação técnica e financeira dos poderes públicos estaduais e federais, compreende, portanto, não só a responsabilidade por algum tipo de prestação de serviços de saúde (Artigo 30, inciso VII), como, da mesma forma, a responsabilidade pela gestão de um sistema que atenda, com integralidade, à demanda das pessoas pela assistência à saúde e às exigências sanitárias ambientais (Artigo 30, inciso V).

Busca-se, dessa forma, a plena responsabilidade do poder público municipal. Assim, esse poder se responsabiliza como também pode ser responsabilizado, ainda que não isoladamente. Os poderes públicos estaduais e federais são sempre co-responsáveis, na respectiva competência ou na ausência da função municipal (inciso II do Artigo 23, da Constituição Federal). Essa responsabilidade, no entanto, não exclui o papel da família, da comunidade e dos próprios indivíduos, na promoção, proteção e recuperação da saúde.

Isso implica aperfeiçoar a gestão dos serviços de saúde no país e a própria organização do Sistema, visto que o município passa a ser, de fato, o responsável imediato pelo atendimento das necessidades e demandas de saúde do seu povo e das exigências de intervenções saneadoras em seu território.

Ao tempo em que aperfeiçoa a gestão do SUS, esta NOB aponta para uma reordenação do modelo de atenção à saúde, na medida em que redefine:

a) Os papéis de cada esfera de governo e, em especial, no tocante à direção única;
b) Os instrumentos gerenciais para que municípios e estados superem o papel exclusivo de prestadores de serviços e assumam seus respectivos papéis de gestores do SUS;
c) Os mecanismos e fluxos de financiamento, reduzindo progressiva e continuamente a remuneração por produção de serviços e ampliando as transferências de caráter global, fundo a fundo, com base em programações ascendentes, pactuadas e integradas;
d) A prática do acompanhamento, controle e avaliação no SUS, superando os mecanismos tradicionais, centrados no faturamento de serviços produzidos, e valorizando os resultados advindos de programações com critérios epidemiológicos e desempenho com qualidade;
e) Os vínculos dos serviços com os seus usuários, privilegiando os núcleos familiares e comunitários, criando, assim, condições para uma efetiva participação e controle social.

3 Campos da Atenção à Saúde

A atenção à saúde, que encerra todo o conjunto de ações levadas a efeito pelo SUS, em todos os níveis de governo, para o atendimento das demandas pessoais e das exigências ambientais, compreende três grandes campos, a saber:

a) O da assistência, em que as atividades são dirigidas às pessoas, individual ou coletivamente, e que é prestada no âmbito ambulatorial e hospitalar, bem como em outros espaços, especialmente no domiciliar;

b) O das intervenções ambientais, no seu sentido mais amplo, incluindo as relações e as condições sanitárias nos ambientes de vida e de trabalho, o controle de vetores e hospedeiros e a operação de sistemas de saneamento ambiental (mediante o pacto de interesses, as normalizações, as fiscalizações e outros); e

c) O das políticas externas ao setor saúde, que interferem nos determinantes sociais do processo saúde-doença das coletividades, de que são partes importantes questões relativas às políticas macroeconômicas, ao emprego, à habitação, à educação, ao lazer e à disponibilidade e qualidade dos alimentos.

Convém ressaltar que as ações de política setorial em saúde, bem como as administrativas – planejamento, comando e controle – são inerentes e integrantes do contexto daquelas envolvidas na assistência e nas intervenções ambientais. Ações de comunicação e de educação também compõem, obrigatória e permanentemente, a atenção à saúde.

Nos três campos referidos, enquadra-se, então, todo o espectro de ações compreendidas nos chamados níveis de atenção à saúde, representados pela promoção, pela proteção e pela recuperação, nos quais deve ser sempre priorizado o caráter preventivo.

É importante assinalar que existem, da mesma forma, conjuntos de ações que configuram campos clássicos de atividades na área da saúde pública, constituídos por uma agregação simultânea de ações próprias do campo da assistência e de algumas próprias do campo das intervenções ambientais, de que são partes importantes as atividades de vigilância epidemiológica e de vigilância sanitária.



4 Sistema de Saúde Municipal

A totalidade das ações e de serviços de atenção à saúde, no âmbito do SUS, deve ser desenvolvida em um conjunto de estabelecimentos, organizados em rede regionalizada e hierarquizada, e disciplinados segundo subsistemas, um para cada município – o SUS – Municipal – voltado ao atendimento integral de sua própria população e inserido de forma indissociável no SUS, em suas abrangências estadual e nacional.

Os estabelecimentos desse subsistema municipal, do SUS – Municipal, não precisam ser, obrigatoriamente, de propriedade da prefeitura, nem precisam ter sede no território do município. Suas ações, desenvolvidas pelas unidades estatais (próprias, estaduais ou federais) ou privadas (contratadas ou conveniadas, com prioridade para as entidades filantrópicas), têm que estar organizadas e coordenadas, de modo que o gestor municipal possa garantir à população o acesso aos serviços e a disponibilidade das ações e dos meios para o atendimento integral.

Isso significa dizer que, independentemente da gerência dos estabelecimentos prestadores de serviços ser estatal ou privada, a gestão de todo o sistema municipal é, necessariamente, da competência do poder público e exclusiva desta esfera de governo, respeitadas as atribuições do respectivo Conselho e de outras diferentes instâncias de poder. Assim, nesta NOB gerência é conceituada como sendo a administração de uma unidade ou órgão de saúde (ambulatório, hospital, instituto, fundação etc.), que se caracteriza como prestador de serviços ao Sistema. Por sua vez, gestão é a atividade e a responsabilidade de dirigir um sistema de saúde (municipal, estadual ou nacional), mediante o exercício de funções de coordenação, articulação, negociação, planejamento, acompanhamento, controle, avaliação e auditoria. São, portanto, gestores do SUS os Secretários Municipais e Estaduais de Saúde e o Ministro da Saúde, que representam, respectivamente, os governos municipais, estaduais e federal.

A criação e o funcionamento desse sistema municipal possibilitam uma grande responsabilização dos municípios, no que se refere à saúde de todos os residentes em seu território. No entanto, possibilita também, um elevado risco de atomização desordenada dessas partes do SUS, permitindo que um sistema municipal se desenvolva em detrimento de outro, ameaçando, até mesmo, a unicidade do SUS. Há que se integrar, harmonizar e modernizar, com eqüidade, os sistemas municipais.

A realidade objetiva do poder público, nos municípios brasileiros, é muito diferenciada, caracterizando diferentes modelos de organização, de diversificação de atividades, de disponibilidade de recursos e de capacitação gerencial, o que, necessariamente, configura modelos distintos de gestão.

O caráter diferenciado do modelo de gestão é transitório, vez que todo e qualquer município pode ter uma gestão plenamente desenvolvida, levando em conta que o poder constituído, neste nível, tem uma capacidade de gestão intrinsecamente igual e os seus segmentos populacionais dispõem dos mesmos direitos.

A operacionalização das condições de gestão, propostas por esta NOB, considera e valoriza os vários estágios já alcançados pelos estados e pelos municípios, na construção de uma gestão plena.

Já a redefinição dos papéis dos gestores estadual e federal, consoante a finalidade desta Norma Operacional, é, portanto, fundamental para que possam exercer as suas competências específicas de gestão e prestar a devida cooperação técnica e financeira aos municípios.

O poder público estadual tem, então, como uma de suas responsabilidades nucleares, mediar à relação entre os sistemas municipais; o federal de mediar entre os sistemas estaduais. Entretanto, quando ou enquanto um município não assumir a gestão do sistema municipal, é o Estado que responde, provisoriamente, pela gestão de um conjunto de serviços capaz de dar atenção integral àquela população que necessita de um sistema que lhe é próprio.

As instâncias básicas para a viabilização desses propósitos integradores e harmonizadores são os fóruns de negociação, integrados pelos gestores municipal, estadual e federal – a Comissão Intergestores Tripartite (CIT) – e pelos gestores estadual e municipal – a Comissão Intergestores Bipartite (CIB). Por meio dessas instâncias e dos Conselhos de Saúde, são viabilizados os princípios de unicidade e de eqüidade.

Nas CIB e CIT são apreciadas as composições dos sistemas municipais de saúde, bem assim pactuadas as programações entre gestores e integradas entre as esferas de governo. Da mesma forma, são pactuados os tetos financeiros possíveis – dentro das disponibilidades orçamentárias conjunturais – oriundos dos recursos das três esferas de governo, capazes de viabilizar a atenção às necessidades assistenciais e às exigências ambientais. O pacto e a integração das programações constituem, fundamentalmente, a conseqüência prática da relação entre os gestores do SUS.

A composição dos sistemas municipais e a ratificação dessas programações, nos Conselhos de Saúde respectivos, permitem a construção de redes regionais que, certamente, ampliam o acesso, com qualidade e menor custo. Essa dinâmica contribui para que seja evitado um processo acumulativo injusto, por parte de alguns municípios (quer por maior disponibilidade tecnológica, quer por mais recursos financeiros ou de informação), com a conseqüente espoliação crescente de outros.

As tarefas de harmonização, de integração e de modernização dos sistemas municipais, realizadas com a devida eqüidade (admitido o princípio da discriminação positiva, no sentido da busca da justiça, quando do exercício do papel redistributivo), competem, portanto, por especial, ao poder público estadual. Ao federal, incumbe promovê-las entre as Unidades da Federação.

O desempenho de todos esses papéis é condição para a consolidação da direção única do SUS, em cada esfera de governo, para a efetivação e a permanente revisão do processo de descentralização e para a organização de redes regionais de serviços hierarquizados.

5 Relações entre os Sistemas Municipais

Os sistemas municipais de saúde apresentam níveis diferentes de complexidade, sendo comum estabelecimentos ou órgãos de saúde de um município atenderem usuários encaminhados por outro. Em vista disso, quando o serviço requerido para o atendimento da população estiver localizado em outro município, as negociações para tanto devem ser efetivadas exclusivamente entre os gestores municipais.

Essa relação, mediada pelo estado, tem como instrumento de garantia a programação pactuada e integrada na CIB regional ou estadual e submetida ao Conselho de Saúde correspondente. A discussão de eventuais impasses, relativos à sua operacionalização, deve ser realizada também no âmbito dessa Comissão, cabendo, ao gestor estadual, a decisão sobre problemas surgidos na execução das políticas aprovadas. No caso de recurso, este deve ser apresentado ao Conselho Estadual de Saúde (CES).

Outro aspecto importante a ser ressaltado é que a gerência (comando) dos estabelecimentos ou órgãos de saúde de um município é da pessoa jurídica que opera o serviço, sejam estes estatais (federal, estadual ou municipal) ou privados. Assim, a relação desse gerente deve ocorrer somente com o gestor do município onde o seu estabelecimento está sediado, seja para atender a população local, seja para atender a referenciada de outros municípios.

O gestor do sistema municipal é responsável pelo controle, pela avaliação e pela auditoria dos prestadores de serviços de saúde (estatais ou privados) situados em seu município. No entanto, quando um gestor municipal julgar necessário uma avaliação específica ou auditagem de uma entidade que lhe presta serviços, localizada em outro município, recorre ao gestor estadual.

Em função dessas peculiaridades, o pagamento final a um estabelecimento pela prestação de serviços requeridos na localidade ou encaminhados de outro município é sempre feito pelo poder público do município sede do estabelecimento.

Os recursos destinados ao pagamento das diversas ações de atenção à saúde prestadas entre municípios são alocados, previamente, pelo gestor que demanda esses serviços, ao município sede do prestador.

Este município incorpora os recursos ao seu teto financeiro. A orçamentação é feita com base na programação pactuada e integrada entre gestores, que, conforme já referido, é mediada pelo estado e aprovada na CIB regional e estadual e no respectivo Conselho de Saúde.

Quando um município, que demanda serviços a outro, ampliar a sua própria capacidade resolutiva, pode requerer, ao gestor estadual, que a parte de recursos alocados no município vizinho seja realocada para o seu município.

Esses mecanismos conferem um caráter dinâmico e permanente ao processo de negociação da programação integrada, em particular quanto à referência intermunicipal.



6 Papel do Gestor Estadual

São identificados quatro papéis básicos para o estado, os quais não são, necessariamente, exclusivos e seqüenciais. A explicitação a seguir apresentada tem por finalidade permitir o entendimento da função estratégica perseguida para a gestão neste nível de Governo. O primeiro desses papéis é exercer a gestão do SUS, no âmbito estadual. O segundo papel é promover as condições e incentivar o poder municipal para que assuma a gestão da atenção a saúde de seus munícipes, sempre na perspectiva da atenção integral.

O terceiro é assumir, em caráter transitório (o que não significa caráter complementar ou concorrente), a gestão da atenção à saúde daquelas populações pertencentes a municípios que ainda não tomaram para si esta responsabilidade.

As necessidades reais não atendidas são sempre a força motriz para exercer esse papel, no entanto, é necessário um esforço do gestor estadual para superar tendências históricas de complementar a responsabilidade do município ou concorrer com esta função, o que exige o pleno exercício do segundo papel.

Finalmente, o quarto, o mais importante e permanente papel do estado é ser o promotor da harmonização, da integração e da modernização dos sistemas municipais, compondo, assim, o SUS – Estadual.

O exercício desse papel pelo gestor requer a configuração de sistemas de apoio logístico e de atuação estratégica que envolvem responsabilidades nas três esferas de governo e são sumariamente caracterizados como de:

a) informação informatizada;
b) financiamento;
c) programação, acompanhamento, controle e avaliação;
d) apropriação de custos e avaliação econômica;
e) desenvolvimento de recursos humanos;
f) desenvolvimento e apropriação de ciência e tecnologias; e
g) comunicação social e educação em saúde.

O desenvolvimento desses sistemas, no âmbito estadual, depende do pleno funcionamento do CES e da CIB, nos quais se viabilizam a negociação e o pacto com os diversos atores envolvidos. Depende, igualmente, da ratificação das programações e decisões relativas aos tópicos a seguir especificados:

a) plano estadual de saúde, contendo as estratégias, as prioridades e as respectivas metas de ações e serviços resultantes, sobretudo, da integração das programações dos sistemas municipais;
b) estruturação e operacionalização do componente estadual do Sistema Nacional de Auditoria;
c) estruturação e operacionalização dos sistemas de processamento de dados, de informação epidemiológica, de produção de serviços e de insumos críticos;
d) estruturação e operacionalização dos sistemas de vigilância epidemiológica, de vigilância sanitária e de vigilância alimentar e nutricional;
e) estruturação e operacionalização dos sistemas de recursos humanos e de ciência e tecnologia;
f) elaboração do componente estadual de programações de abrangência nacional, relativas a agravos que constituam riscos de disseminação para além do seu limite territorial;
g) elaboração do componente estadual da rede de laboratórios de saúde pública;
h) estruturação e operacionalização do componente estadual de assistência farmacêutica;
i) responsabilidade estadual no tocante à prestação de serviços ambulatoriais e hospitalares de alto custo, ao tratamento fora do domicílio e à disponibilidade de medicamentos e insumos especiais, sem prejuízo das competências dos sistemas municipais;
j) definição e operação das políticas de sangue e hemoderivados; e
k) manutenção de quadros técnicos permanentes e compatíveis com o exercício do papel de gestor estadual;
l) implementação de mecanismos visando à integração das políticas e das ações de relevância para a saúde da população, de que são exemplos aquelas relativas a saneamento, recursos hídricos, habitação e meio ambiente.

7 Papel do Gestor Federal

No que respeita ao gestor federal, são identificados quatro papéis básicos, quais sejam:

a) exercer a gestão do SUS, no âmbito nacional;
b) promover as condições e incentivar o gestor estadual com vistas ao desenvolvimento dos sistemas municipais, de modo a conformar o SUS – Estadual;
c) fomentar a harmonização, a integração e a modernização dos sistemas estaduais compondo, assim, o SUS-Nacional; e
d) exercer as funções de normalização e de coordenação no que se refere à gestão nacional do SUS.

Da mesma forma que no âmbito estadual, o exercício dos papéis do gestor federal requer a configuração de sistemas de apoio logístico e de atuação estratégica, que consolidam os sistemas estaduais e propiciam, ao SUS, maior eficiência com qualidade, quais sejam:

a) informação informatizada;
b) financiamento;
c) programação, acompanhamento, controle e avaliação;
d) apropriação de custos e avaliação econômica;
e) desenvolvimento de recursos humanos;
f) desenvolvimento e apropriação de ciência e tecnologias; e
g) comunicação social e educação em saúde.

O desenvolvimento desses sistemas depende, igualmente, da viabilização de negociações com os diversos atores envolvidos e da ratificação das programações e decisões, o que ocorre mediante o pleno funcionamento do Conselho Nacional de Saúde (CNS) e da CIT.

Depende, além disso, do redimensionamento da direção nacional do Sistema, tanto em termos da estrutura, quanto de agilidade e de integração, como no que se refere às estratégias, aos mecanismos e aos instrumentos de articulação com os demais níveis de gestão, destacando-se:

a) a elaboração do Plano Nacional de Saúde, contendo as estratégias, as prioridades nacionais e as metas da programação integrada nacional, resultante, sobretudo, das programações estaduais e dos demais órgãos governamentais, que atuam na prestação de serviços, no setor saúde;
b) a viabilização de processo permanente de articulação das políticas externas ao setor, em especial com os órgãos que detém, no seu conjunto de atribuições, a responsabilidade por ações atinentes aos determinantes sociais do processo saúde-doença das coletividades;
c) o aperfeiçoamento das normas consubstanciadas em diferentes instrumentos legais, que regulamentam, atualmente, as transferências automáticas de recursos financeiros, bem como as modalidades de prestação de contas;
d) a definição e a explicitação dos fluxos financeiros próprios do SUS, frente aos órgãos
e) governamentais de controle interno e externo e aos Conselhos de Saúde, com ênfase na diferenciação entre as transferências automáticas a estados e municípios com função gestora;
f) a criação e a consolidação de critérios e mecanismos de alocação de recursos federais e estaduais para investimento, fundados em prioridades definidas pelas programações e pelas estratégias das políticas de reorientação do Sistema;
g) a transformação nos mecanismos de financiamento federal das ações, com o respectivo desenvolvimento de novas formas de informatização, compatíveis à natureza dos grupos de ações, especialmente as básicas, de serviços complementares e de procedimentos de alta e média complexidade, estimulando o uso dos mesmos pelos gestores estaduais e municipais; g) o desenvolvimento de sistemáticas de transferência de recursos vinculada ao fornecimento regular, oportuno e suficiente de informações específicas, e que agreguem o conjunto de ações e serviços de atenção à saúde, relativo a grupos prioritários de eventos vitais ou nosológicos;
h) a adoção, como referência mínima, das tabelas nacionais de valores do SUS, bem assim a flexibilização do seu uso diferenciado pelos gestores estaduais e municipais, segundo prioridades locais e ou regionais;
i) o incentivo aos gestores estadual e municipal ao pleno exercício das funções de controle, avaliação e auditoria, mediante o desenvolvimento e a implementação de instrumentos operacionais, para o uso das esferas gestoras e para a construção efetiva do Sistema Nacional de Auditoria;
j) o desenvolvimento de atividades de educação e de comunicação social;
k) o incremento da capacidade reguladora da direção nacional do SUS, em relação aos sistemas complementares de prestação de serviços ambulatoriais e hospitalares de alto custo, de tratamento fora do domicílio, bem assim de disponibilidade de medicamentos e insumos especiais;
l) a reorientação e a implementação dos sistemas de vigilância epidemiológica, de vigilância sanitária, de vigilância alimentar e nutricional, bem como o redimensionamento das atividades relativas à saúde do trabalhador e às de execução da vigilância sanitária de portos, aeroportos e fronteiras;
m) a reorientação e a implementação dos diversos sistemas de informações epidemiológicas, bem assim de produção de serviços e de insumos críticos;
n) a reorientação e a implementação do sistema de redes de laboratórios de referência para o controle da qualidade, para a vigilância sanitária e para a vigilância epidemiológica;
o) a reorientação e a implementação da política nacional de assistência farmacêutica;
p) o apoio e a cooperação a estados e municípios para a implementação de ações voltadas ao controle de agravos, que constituam risco de disseminação nacional;
q) a promoção da atenção à saúde das populações indígenas, realizando, para tanto, as articulações necessárias, intra e intersetorial;
r) a elaboração de programação nacional, pactuada com os estados, relativa à execução de ações específicas voltadas ao controle de vetores responsáveis pela transmissão de doenças, que constituem risco de disseminação regional ou nacional, e que exijam a eventual intervenção do poder federal;
s) a identificação dos serviços estaduais e municipais de referência nacional, com vistas ao estabelecimento dos padrões técnicos da assistência à saúde;
t) a estimulação, a indução e a coordenação do desenvolvimento científico e tecnológico no campo da saúde, mediante interlocução crítica das inovações científicas e tecnológicas, por meio da articulação intra e intersetorial;
u) a participação na formulação da política e na execução das ações de saneamento básico.

8 Direção e Articulação

A direção do Sistema Único de Saúde (SUS), em cada esfera de governo, é composta pelo órgão setorial do poder executivo e pelo respectivo Conselho de Saúde, nos termos das Leis Nº 8.080/90 e Nº 8.142/1990.

O processo de articulação entre os gestores, nos diferentes níveis do Sistema, ocorre, preferencialmente, em dois colegiados de negociação: a Comissão Intergestores Tripartite (CIT) e a Comissão Intergestores Bipartite (CIB).

A CIT é composta, paritariamente, por representação do Ministério da Saúde (MS), do

Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde (CONASS) e do Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (CONASEMS).

A CIB, composta igualmente de forma paritária, é integrada por representação da Secretaria Estadual de Saúde (SES) e do Conselho Estadual de Secretários Municipais de Saúde (COSEMS) ou órgão equivalente. Um dos representantes dos municípios é o Secretário de Saúde da Capital. A Bipartite pode operar com subcomissões regionais.

As conclusões das negociações pactuadas na CIT e na CIB são formalizadas em ato próprio do gestor respectivo. Aquelas referentes a matérias de competência dos Conselhos de Saúde, definidas por força da Lei Orgânica, desta NOB ou de resolução específica dos respectivos Conselhos são submetidas previamente a estes para aprovação. As demais resoluções devem ser encaminhadas, no prazo máximo de 15 dias decorridos de sua publicação, para conhecimento, avaliação e eventual recurso da parte que se julgar prejudicada, inclusive no que se refere à habilitação dos estados e municípios às condições de gestão desta Norma.

9 Bases para um Novo Modelo de Atenção à Saúde

A composição harmônica, integrada e modernizada do SUS visa, fundamentalmente, atingir a dois propósitos essenciais à concretização dos ideais constitucionais e, portanto, do direito à saúde, que são:

a) a consolidação de vínculos entre diferentes segmentos sociais e o SUS; e
b) a criação de condições elementares e fundamentais para a eficiência e a eficácia gerenciais, com qualidade.

O primeiro propósito é possível porque, com a nova formulação dos sistemas municipais, tanto os segmentos sociais, minimamente agregados entre si com sentimento comunitário – os munícipes -, quanto à instância de poder político-administrativo, historicamente reconhecida e legitimada – o poder municipal – apropriam-se de um conjunto de serviços bem definido, capaz de desenvolver uma programação de atividades publicamente pactuada. Com isso, fica bem caracterizado o gestor responsável; as atividades são gerenciadas por pessoas perfeitamente identificáveis; e os resultados mais facilmente usufruídos pela população.

O conjunto desses elementos propicia uma nova condição de participação com vínculo, mais criativa e realizadora para as pessoas, e que acontece não – somente nas instâncias colegiadas formais – conferências e conselhos – mas em outros espaços constituídos por atividades sistemáticas e permanentes, inclusive dentro dos próprios serviços de atendimento.

Cada sistema municipal deve materializar, de forma efetiva, a vinculação aqui explicitada. Um dos meios, certamente, é a instituição do cartão SUS-MUNICIPAL, com numeração nacional, de modo a identificar o cidadão com o seu sistema e agregá-lo ao sistema nacional. Essa numeração possibilita uma melhor referência intermunicipal e garante o atendimento de urgência por qualquer serviço de saúde, estatal ou privado, em todo o País. A regulamentação desse mecanismo de vinculação será objeto de discussão e aprovação pelas instâncias colegiadas competentes, com conseqüente formalização por ato do MS.

O segundo propósito é factível, na medida em que estão perfeitamente identificados os elementos críticos essenciais a uma gestão eficiente e a uma produção eficaz, a saber:

a) a clientela que, direta e imediatamente, usufrui dos serviços;
b) o conjunto organizado dos estabelecimentos produtores desses serviços; e
c) a programação pactuada, com a correspondente orçamentação participativa.

Os elementos, acima apresentados, contribuem para um gerenciamento que conduz à obtenção de resultados efetivos, a despeito da indisponibilidade de estímulos de um mercado consumidor espontâneo. Conta, no entanto, com estímulos agregados, decorrentes de um processo de gerenciamento participativo e, sobretudo, da concreta possibilidade de comparação com realidades muito próximas, representadas pelos resultados obtidos nos sistemas vizinhos.

A ameaça da ocorrência de gastos exagerados, em decorrência de um processo de incorporação tecnológica acrítico e desregulado, é um risco que pode ser minimizado pela radicalização na reorganização do SUS: um Sistema regido pelo interesse público e balizado, por um lado, pela exigência da universalização e integralidade com eqüidade e, por outro, pela própria limitação de recursos, que deve ser programaticamente respeitada.

Esses dois balizamentos são objeto da programação elaborada no âmbito municipal, e sujeita à ratificação que, negociada e pactuada nas instâncias estadual e federal, adquire a devida racionalidade na alocação de recursos em face às necessidades.

Assim, tendo como referência os propósitos anteriormente explicitados, a presente Norma Operacional Básica constitui um importante mecanismo indutor da conformação de um novo modelo de atenção à saúde, na medida em que disciplina o processo de organização da gestão desta atenção, com ênfase na consolidação da direção única em cada esfera de governo e na construção da rede regionalizada e hierarquizada de serviços.

Essencialmente, o novo modelo de atenção deve resultar na ampliação do enfoque do modelo atual, alcançando-se, assim, a efetiva integralidade das ações. Essa ampliação é representada pela incorporação, ao modelo clínico dominante (centrado na doença), do modelo epidemiológico, o qual requer o estabelecimento de vínculos e processos mais abrangentes.

O modelo vigente, que concentra sua atenção no caso clínico, na relação individualizada entre o profissional e o paciente, na intervenção terapêutica armada (cirúrgica ou medicamentosa) específica, deve ser associado, enriquecido, transformado em um modelo de atenção centrado na qualidade de vida das pessoas e do seu meio ambiente, bem como na relação da equipe de saúde com a comunidade, especialmente, com os seus núcleos sociais primários – as famílias. Essa prática, inclusive, favorece e impulsiona as mudanças globais, intersetoriais.

O enfoque epidemiológico atende ao compromisso da integralidade da atenção, ao incorporar, como objeto das ações, a pessoa, o meio ambiente e os comportamentos interpessoais. Nessa circunstância, o método para conhecimento da realidade complexa e para a realização da intervenção necessária fundamenta-se mais na síntese do que nas análises, agregando, mais do que isolando, diferentes fatores e variáveis.

Os conhecimentos – resultantes de identificações e compreensões – que se faziam cada vez mais particularizados e isolados (com grande sofisticação e detalhamento analítico) devem possibilitar, igualmente, um grande esforço de visibilidade e entendimento integrador e globalizante, com o aprimoramento dos processos de síntese, sejam lineares, sistêmicos ou dialéticos.

Além da ampliação do objeto e da mudança no método, o modelo adota novas tecnologias, em que os processos de educação e de comunicação social constituem parte essencial em qualquer nível ou ação, na medida em que permitem a compreensão globalizadora a ser perseguida, e fundamentam a negociação necessária à mudança e à associação de interesses conscientes. É importante, nesse âmbito, a valorização da informação informatizada.

Além da ampliação do objeto, da mudança do método e da tecnologia predominantes, enfoque central deve ser dado à questão da ética. O modelo vigente – assentado na lógica da clínica – baseia-se, principalmente, na ética do médico, na qual a pessoa (o seu objeto) constitui o foco nuclear da atenção.

O novo modelo de atenção deve perseguir a construção da ética do coletivo que incorpora e transcende a ética do individual. Dessa forma é incentivada a associação dos enfoques clínico e epidemiológico.

Isso exige, seguramente, de um lado, a transformação na relação entre o usuário e os agentes do sistema de saúde (restabelecendo o vínculo entre quem presta o serviço e quem o recebe) e, de outro, a intervenção ambiental, para que sejam modificados fatores determinantes da situação de saúde.

Nessa nova relação, a pessoa é estimulada a ser agente da sua própria saúde e da saúde da comunidade que integra. Na intervenção ambiental, o SUS assume algumas ações específicas e busca a articulação necessária com outros setores, visando à criação das condições indispensáveis à promoção, à proteção e à recuperação da saúde.

10 Financiamento das Ações e Serviços de Saúde

10.1 Responsabilidades

O financiamento do SUS é de responsabilidade das três esferas de governo e cada uma deve assegurar o aporte regular de recursos, ao respectivo fundo de saúde.

Conforme determina o Artigo 194 da Constituição Federal, a Saúde integra a Seguridade Social, juntamente com a Previdência e a Assistência Social. No inciso VI do parágrafo único desse mesmo Artigo, está determinado que a Seguridade Social será organizada pelo poder público, observada a “diversidade da base de financiamento”.

Já o Artigo 195 determina que a Seguridade Social será financiada com recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e de Contribuições Sociais.

10.2 Fontes

As principais fontes específicas da Seguridade Social incidem sobre a Folha de Salários (Fonte 154), o Faturamento (Fonte 153 – COFINS) e o Lucro (Fonte 151 – Lucro Líquido).

Até 1992, todas essas fontes integravam o orçamento do Ministério da Saúde e ainda havia aporte significativo de fontes fiscais (Fonte 100 – Recursos Ordinários, provenientes principalmente da receita de impostos e taxas). A partir de 1993, deixou de ser repassada ao MS a parcela da Contribuição sobre a Folha de Salários (Fonte 154, arrecadada pelo Instituto Nacional de Seguridade Social – INSS).

Atualmente, as fontes que asseguram o maior aporte de recursos ao MS são a Contribuição sobre o Faturamento (Fonte 153 – COFINS) e a Contribuição sobre o Lucro Líquido (Fonte 151), sendo que os aportes provenientes de Fontes Fiscais são destinados praticamente à cobertura de despesas com Pessoal e Encargos Sociais.

Dentro da previsibilidade de Contribuições Sociais na esfera federal, no âmbito da Seguridade Social, uma fonte específica para financiamento do SUS – a Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras – está criada, ainda que em caráter provisório. A solução definitiva depende de uma reforma tributária que reveja esta e todas as demais bases tributárias e financeiras do Governo, da Seguridade e, portanto, da Saúde.

Nas esferas estadual e municipal, além dos recursos oriundos do respectivo Tesouro, o financiamento do SUS conta com recursos transferidos pela União aos Estados e pela União e Estados aos Municípios. Esses recursos devem ser previstos no orçamento e identificados nos fundos de saúde estadual e municipal como receita operacional proveniente da esfera federal e ou estadual e utilizados na execução de ações previstas nos respectivos planos de saúde e na PPI.

10.3 Transferências Intergovernamentais e Contrapartidas

As transferências, regulares ou eventuais, da União para estados, municípios e Distrito Federal estão condicionadas à contrapartida destes níveis de governo, em conformidade com as normas legais vigentes (Lei de Diretrizes Orçamentárias e outras).

O reembolso das despesas, realizadas em função de atendimentos prestados por unidades públicas a beneficiários de planos privados de saúde, constitui fonte adicional de recursos. Por isso, e consoante à legislação federal específica, estados e municípios devem viabilizar estrutura e mecanismos operacionais para a arrecadação desses recursos e a sua destinação exclusiva aos respectivos fundos de saúde.

Os recursos de investimento são alocados pelo MS, mediante a apresentação pela SES da programação de prioridades de investimentos, devidamente negociada na CIB e aprovada pelo CES, até o valor estabelecido no orçamento do Ministério, e executados de acordo com a legislação pertinente.

10.4 Tetos financeiros dos Recursos Federais

Os recursos de custeio da esfera federal, destinados às ações e serviços de saúde, configuram o Teto Financeiro Global (TFG), cujo valor, para cada estado e cada município, é definido com base na PPI. O teto financeiro do estado contém os tetos de todos os municípios, habilitados ou não a qualquer uma das condições de gestão.

O Teto Financeiro Global do Estado (TFGE) é constituído, para efeito desta NOB, pela soma dos Tetos Financeiros da Assistência (TFA), da Vigilância Sanitária (TFVS) e da Epidemiologia e Controle de Doenças (TFECD).

O TFGE, definido com base na PPI, é submetido pela SES ao MS, após negociação na CIB e aprovação pelo CES. O valor final do teto e suas revisões são fixados com base nas negociações realizadas no âmbito da CIT – observadas as reais disponibilidades financeiras do MS – e formalizado em ato do Ministério.

O Teto Financeiro Global do Município (TFGM), também definido consoante à programação integrada, é submetido pela SMS à SES, após aprovação pelo CMS. O valor final desse Teto e suas revisões são fixados com base nas negociações realizadas no âmbito da CIB – observados os limites do TFGE – e formalizado em ato próprio do Secretário Estadual de Saúde.

Todos os valores referentes a pisos, tetos, frações, índices, bem como suas revisões, são definidos com base na PPI, negociados nas Comissões Intergestores (CIB e CIT), formalizados em atos dos gestores estadual e federal e aprovados previamente nos respectivos Conselhos (CES e CNS).

As obrigações que vierem a ser assumidas pelo Ministério da Saúde, decorrentes da implantação desta NOB e que gerem aumento de despesa, serão previamente discutidas com o Ministério do Planejamento e Orçamento e o Ministério da Fazenda.

11 Programação, Controle, Avaliação e Auditoria

11.1 Programação Pactuada e Integrada – PPI

11.1.1. A PPI envolve as atividades de assistência ambulatorial e hospitalar, de vigilância sanitária e de epidemiologia e controle de doenças, constituindo um instrumento essencial de reorganização do modelo de atenção e da gestão do SUS, de alocação dos recursos e de explicitação do pacto estabelecido entre as três esferas de governo. Essa Programação traduz as responsabilidades de cada município com a garantia de acesso da população aos serviços de saúde, quer pela oferta existente no próprio município, quer pelo encaminhamento a outros municípios, sempre por intermédio de relações entre gestores municipais, mediadas pelo gestor estadual.

11.1.2. O processo de elaboração da Programação Pactuada entre gestores e Integrada entre esferas de governo deve respeitar a autonomia de cada gestor: o município elabora sua própria programação, aprovando-a no CMS; o estado harmoniza e compatibiliza as programações municipais, incorporando as ações sob sua responsabilidade direta, mediante negociação na CIB, cujo resultado é deliberado pelo CES.

11.1.3. A elaboração da PPI deve se dar num processo ascendente, de base municipal, configurando, também, as responsabilidades do estado na busca crescente da eqüidade, da qualidade da atenção e na conformação da rede regionalizada e hierarquizada de serviços.

11.1.4. A Programação observa os princípios da integralidade das ações de saúde e da direção única em cada nível de governo, traduzindo todo o conjunto de atividades relacionadas a uma população específica e desenvolvidas num território determinado, independente da vinculação institucional do órgão responsável pela execução destas atividades. Os órgãos federais, estaduais e municipais, bem como os prestadores conveniados e contratados têm suas ações expressas na programação do município em que estão localizados, na medida em que estão subordinados ao gestor municipal.

11.1.5. A União define normas, critérios, instrumentos e prazos, aprova a programação de ações sob seu controle – inscritas na programação pelo estado e seus municípios – incorpora as ações sob sua responsabilidade direta e aloca os recursos disponíveis, segundo os valores apurados na programação e negociados na CIT, cujo resultado é deliberado pelo CNS.

11.1.6.A elaboração da programação observa critérios e parâmetros definidos pelas Comissões Intergestores e aprovados pelos respectivos Conselhos. No tocante aos recursos de origem federal, os critérios, prazos e fluxos de elaboração da programação integrada e de suas reprogramações periódicas ou extraordinárias são fixados em ato normativo do MS e traduzem as negociações efetuadas na CIT e as deliberações do CNS.

11.2 Controle, Avaliação e Auditoria

11.2.1. O cadastro de unidades prestadoras de serviços de saúde (UPS), completo e atualizado, é requisito básico para programar a contratação de serviços assistenciais e para realizar o controle da regularidade dos faturamentos. Compete ao órgão gestor do SUS responsável pelo relacionamento com cada UPS, seja própria, contratada ou conveniada, a garantia da atualização permanente dos dados cadastrais, no banco de dados nacional.

11.2.2. Os bancos de dados nacionais, cujas normas são definidas pelos órgãos do MS, constituem instrumentos essenciais ao exercício das funções de controle, avaliação e auditoria. Por conseguinte, os gestores municipais e estaduais do SUS devem garantir a alimentação permanente e regular desses bancos, de acordo com a relação de dados, informações e cronogramas previamente estabelecidos pelo MS e pelo CNS.

11.2.3. As ações de auditoria analítica e operacional constituem responsabilidades das três esferas gestoras do SUS, o que exige a estruturação do respectivo órgão de controle, avaliação e auditoria, incluindo a definição dos recursos e da metodologia adequada de trabalho. É função desse órgão definir, também, instrumentos para a realização das atividades, consolidar as informações necessárias, analisar os resultados obtidos em decorrência de suas ações, propor medidas corretivas e interagir com outras áreas da administração, visando o pleno exercício, pelo gestor, de suas atribuições, de acordo com a legislação que regulamenta o Sistema Nacional de Auditoria no âmbito do SUS.

11.2.4. As ações de controle devem priorizar os procedimentos técnicos e administrativos prévios à realização de serviços e à ordenação dos respectivos pagamentos, com ênfase na garantia da autorização de internações e procedimentos ambulatoriais – tendo como critério fundamental a necessidade dos usuários – e o rigoroso monitoramento da regularidade e da fidedignidade dos registros de produção e faturamento de serviços.

11.2.5. O exercício da função gestora no SUS, em todos os níveis de governo, exige a articulação permanente das ações de programação, controle, avaliação e auditoria; a integração operacional das unidades organizacionais, que desempenham estas atividades, no âmbito de cada órgão gestor do Sistema; e a apropriação dos seus resultados e a identificação de prioridades, no processo de decisão política da alocação dos recursos.

11.2.6. O processo de reorientação do modelo de atenção e de consolidação do SUS requer o aperfeiçoamento e a disseminação dos instrumentos e técnicas de avaliação de resultados e do impacto das ações do Sistema sobre as condições de saúde da população, priorizando o enfoque epidemiológico e propiciando a permanente seleção de prioridade de intervenção e a reprogramação contínua da alocação de recursos. O acompanhamento da execução das ações programadas é feito permanentemente pelos gestores e periodicamente pelos respectivos Conselhos de Saúde, com base em informações sistematizadas, que devem possibilitar a avaliação qualitativa e quantitativa destas ações. A avaliação do cumprimento das ações programadas em cada nível de governo deve ser feita em Relatório de Gestão Anual, cujo roteiro de elaboração será apresentado pelo MS e apreciado pela CIT e pelo CNS.

12 Custeio da Assistência Hospitalar e Ambulatorial

Os recursos de custeio da esfera federal destinados à assistência hospitalar e ambulatorial, conforme mencionado anteriormente, configuram o TFA, e os seus valores podem ser executados segundo duas modalidades: Transferência Regular e Automática (Fundo a Fundo) e Remuneração por Serviços Produzidos.

12.1 Transferência Regular e Automática Fundo a Fundo

Consiste na transferência de valores diretamente do Fundo Nacional de Saúde aos fundos estaduais e municipais, independente de convênio ou instrumento congênere, segundo as condições de gestão estabelecidas nesta NOB. Esses recursos podem corresponder a uma ou mais de uma das situações descritas a seguir.

12.1.1 Piso Assistencial Básico (PAB)

O PAB consiste em um montante de recursos financeiros destinado ao custeio de procedimentos e ações de assistência básica, de responsabilidade tipicamente municipal. Esse Piso é definido pela multiplicação de um valor per capita nacional pela população de cada município (fornecida pelo IBGE), e transferido regular e automaticamente ao fundo de saúde ou conta especial dos municípios e, transitoriamente, ao fundo estadual, conforme condições estipuladas nesta NOB. As transferências do PAB aos estados correspondem, exclusivamente, ao valor para cobertura da população residente em municípios ainda não habilitados na forma desta Norma Operacional.

O elenco de procedimentos custeados pelo PAB, assim como o valor per capita nacional único – base de cálculo deste Piso – são propostos pela CIT e votados no CNS. Nessas definições deve ser observado o perfil de serviços disponíveis na maioria dos municípios, objetivando o progressivo incremento desses serviços, até que a atenção integral à saúde esteja plenamente organizada, em todo o País. O valor percapita nacional único é reajustado com a mesma periodicidade, tendo por base, no mínimo, o incremento médio da tabela de procedimentos do Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (SIA/SUS).

A transferência total do PAB será suspensa no caso da não-alimentação, pela SMS junto à SES, dos bancos de dados de interesse nacional, por mais de dois meses consecutivos.

12.1.2 Incentivo aos Programas de Saúde da Família (PSF) e de Agentes Comunitários de Saúde (PACS)

Fica estabelecido um acréscimo percentual ao montante do PAB, de acordo com os critérios a seguir relacionados, sempre que estiverem atuando integradamente à rede municipal, equipes de saúde da família, agentes comunitários de saúde, ou estratégias similares de garantia da integralidade da assistência, avaliadas pelo órgão do MS (SAS/MS) com base em normas da direção nacional do SUS.

a) Programa de Saúde da Família (PSF):

• acréscimo de 3% sobre o valor do PAB para cada 5% da população coberta, até atingir 60% da população total do município;
• acréscimo de 5% para cada 5% da população coberta entre 60% e 90% da população total do município; e
• acréscimo de 7% para cada 5% da população coberta entre 90% e 100% da população total do município.

Esses acréscimos têm como limite, 80% do valor do PAB original do município.

b) Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS):

• acréscimo de 1% sobre o valor do PAB para cada 5% da população coberta até atingir 60% da população total do município;
• acréscimo de 2% para cada 5% da população coberta entre 60% e 90% da população total do município; e
• acréscimo de 3% para cada 5% da população coberta entre 90% e 100% da população total do município.

Esses acréscimos têm, como limite, 30% do valor do PAB original do município.

c) Os percentuais não são cumulativos quando a população coberta pelo PSF e pelo PACS ou por estratégias similares for à mesma.

Os percentuais acima referidos são revistos quando do incremento do valor per capita nacional único, utilizado para o cálculo do PAB e do elenco de procedimentos relacionados a este Piso. Essa revisão é proposta na CIT e votada no CNS. Por ocasião da incorporação desses acréscimos, o teto financeiro da assistência do estado é renegociado na CIT e apreciado pelo CNS.

A ausência de informações que comprovem a produção mensal das equipes, durante dois meses consecutivos ou quatro alternados em um ano, acarreta a suspensão da transferência deste acréscimo.

12.1.3 Fração Assistencial Especializada (FAE)

É um montante que corresponde a procedimentos ambulatoriais de média complexidade, medicamentos e insumos excepcionais, órteses e próteses ambulatoriais e Tratamento Fora do Domicílio (TFD), sob gestão do estado.

O órgão competente do MS formaliza, por portaria, esse elenco a partir de negociação na CIT e que deve ser objeto da programação integrada quanto a sua oferta global no estado.

A CIB explicita os quantitativos e respectivos valores desses procedimentos, que integram os tetos financeiros da assistência dos municípios em gestão plena do sistema de saúde e os que permanecem sob gestão estadual. Neste último, o valor programado da FAE é transferido, regular e automaticamente, do Fundo Nacional ao Fundo Estadual de Saúde, conforme as condições de gestão das SES definidas nesta NOB. Não integram o elenco de procedimentos cobertos pela FAE aqueles relativos ao PAB e os definidos como de alto custo/complexidade por portaria do órgão competente do Ministério (SAS/MS).

12.1.4 Teto Financeiro da Assistência do Município (TFAM)

É um montante que corresponde ao financiamento do conjunto das ações assistenciais assumidas pela SMS. O TFAM é transferido, regular e automaticamente, do Fundo Nacional ao Fundo Municipal de Saúde, de acordo com as condições de gestão estabelecidas por esta NOB e destina-se ao custeio dos serviços localizados no território do município (exceção feita àqueles eventualmente excluídos da gestão municipal por negociação na CIB).

12.1.5 Teto Financeiro da Assistência do Estado (TFAE)

É um montante que corresponde ao financiamento do conjunto das ações assistenciais sob a responsabilidade da SES. O TFAE corresponde ao TFA fixado na CIT e formalizado em portaria do órgão competente do Ministério (SAS/MS).

Esses valores são transferidos, regular e automaticamente, do Fundo Nacional ao Fundo Estadual de Saúde, de acordo com as condições de gestão estabelecidas por esta NOB, deduzidos os valores comprometidos com as transferências regulares e automáticas ao conjunto de municípios do estado (PAB e TFAM).

12.1.6 Índice de Valorização de Resultados (IVR)

Consiste na atribuição de valores adicionais equivalentes a até 2% do teto financeiro da assistência do estado, transferidos, regular e automaticamente, do Fundo Nacional ao Fundo Estadual de Saúde, como incentivo à obtenção de resultados de impacto positivo sobre as condições de saúde da população, segundo critérios definidos pela CIT e fixados em portaria do órgão competente do Ministério (SAS/MS). Os recursos do IVR podem ser transferidos pela SES às SMS, conforme definição da CIB.

12.2 Remuneração por Serviços Produzidos

Consiste no pagamento direto aos prestadores estatais ou privados contratados e conveniados, contra apresentação de faturas, referente a serviços realizados conforme programação e mediante prévia autorização do gestor, segundo valores fixados em tabelas editadas pelo órgão competente do Ministério (SAS/MS).

Esses valores estão incluídos no TFA do estado e do município e são executados mediante ordenação de pagamento por parte do gestor. Para municípios e estados que recebem transferências de tetos da assistência (TFAM e TFAE, respectivamente), conforme as condições de gestão estabelecidas nesta NOB, os valores relativos à remuneração por serviços produzidos estão incluídos nos tetos da assistência, definidos na CIB.

A modalidade de pagamento direto, pelo gestor federal, a prestadores de serviços ocorre apenas nas situações em que não fazem parte das transferências regulares e automáticas fundo a fundo, conforme itens a seguir especificados.

12.2.1 Remuneração de Internações Hospitalares

Consiste no pagamento dos valores apurados por intermédio do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS), englobando o conjunto de procedimentos realizados em regime de internação, com base na Autorização de Internação Hospitalar (AIH), documento este de autorização e fatura de serviços.

12.2.2 Remuneração de Procedimentos Ambulatoriais de Alto Custo/ Complexidade

Consiste no pagamento dos valores apurados por intermédio do SIA/SUS, com base na Autorização de Procedimentos de Alto Custo (APAC), documento este que identifica cada paciente e assegura a prévia autorização e o registro adequado dos serviços que lhe foram prestados. Compreende procedimentos ambulatoriais integrantes do SIA/SUS definidos na CIT e formalizados por portaria do órgão competente do Ministério (SAS/MS).

12.2.3 Remuneração Transitória por Serviços Produzidos

O MS é responsável pela remuneração direta, por serviços produzidos, dos procedimentos relacionados ao PAB e à FAE, enquanto houver municípios que não estejam na condição de gestão semiplena da NOB 01/93 ou nas condições de gestão municipal definidas nesta NOB naqueles estados em condição de gestão convencional.

12.2.4 Fatores de Incentivo e Índices de Valorização

O Fator de Incentivo ao Desenvolvimento do Ensino e da Pesquisa em Saúde (FIDEPS) e o Índice de Valorização Hospitalar de Emergência (IVH-E), bem como outros fatores e ou índices que incidam sobre a remuneração por produção de serviços, eventualmente estabelecidos, estão condicionados aos critérios definidos em nível federal e à avaliação da CIB em cada Estado. Esses fatores e índices integram o teto financeiro da assistência do município e do respectivo estado.



13 Custeio das Ações de Vigilância Sanitária

Os recursos da esfera federal destinados à vigilância sanitária configuram o Teto Financeiro da Vigilância Sanitária (TFVS) e os seus valores podem ser executados segundo duas modalidades: Transferência Regular e Automática Fundo a Fundo e Remuneração de Serviços Produzidos.

13.1 Transferência Regular e Automática Fundo a Fundo

Consiste na transferência de valores diretamente do Fundo Nacional de Saúde aos fundos estaduais e municipais, independente de convênio ou instrumento congênere, segundo as condições de gestão estabelecidas nesta NOB. Esses recursos podem corresponder a uma ou mais de uma das situações descritas a seguir.

13.1.1 Piso Básico de Vigilância Sanitária (PBVS)

Consiste em um montante de recursos financeiros destinado ao custeio de procedimentos e ações básicas da vigilância sanitária, de responsabilidade tipicamente municipal. Esse Piso é definido pela multiplicação de um valor per capita nacional pela população de cada município (fornecida pelo IBGE), transferido, regular e automaticamente, ao fundo de saúde ou conta especial dos municípios e, transitoriamente, dos estados, conforme condições estipuladas nesta NOB. O PBVS somente será transferido a estados para cobertura da população residente em municípios ainda não habilitados na forma desta Norma Operacional.

O elenco de procedimentos custeados pelo PBVS, assim como o valor per capita nacional único – base de cálculo deste Piso – são definidos em negociação na CIT e formalizados por portaria do órgão competente do Ministério (Secretaria de Vigilância Sanitária – SVS/MS), previamente aprovados no CNS. Nessa definição deve ser observado o perfil de serviços disponíveis na maioria dos municípios, objetivando o
progressivo incremento das ações básicas de vigilância sanitária em todo o País. Esses procedimentos integram o Sistema de Informação de Vigilância Sanitária do SUS (SIVS/SUS).

13.1.2 Índice de Valorização do Impacto em Vigilância Sanitária (IVISA)

Consiste na atribuição de valores adicionais equivalentes a até 2% do teto financeiro da vigilância sanitária do estado, a serem transferidos, regular e automaticamente, do Fundo Nacional ao Fundo Estadual de Saúde, como incentivo à obtenção de resultados de impacto significativo sobre as condições de vida da população, segundo critérios definidos na CIT, e fixados em portaria do órgão competente do Ministério (SVS/MS), previamente aprovados no CNS. Os recursos do IVISA podem ser transferidos pela SES às SMS, conforme definição da CIB.

13.2 Remuneração Transitória por Serviços Produzidos

13.2.1 Programa Desconcentrado de Ações de Vigilância Sanitária (PDAVS)

Consiste no pagamento direto às SES e SMS, pela prestação de serviços relacionados às ações de competência exclusiva da SVS/MS, contra a apresentação de demonstrativo de atividades realizadas pela SES ao Ministério. Após negociação e aprovação na CIT e prévia aprovação no CNS, e observadas às condições estabelecidas nesta NOB, a SVS/MS publica a tabela de procedimentos do PDAVS e o valor de sua remuneração.

13.2.2 Ações de Média e Alta Complexidade em Vigilância Sanitária

Consiste no pagamento direto às SES e às SMS, pela execução de ações de média e alta complexidade de competência estadual e municipal contra a apresentação de demonstrativo de atividades realizadas ao MS. Essas ações e o valor de sua remuneração são definidos em negociação na CIT e formalizados em portaria do órgão competente do Ministério (SVS/MS), previamente aprovadas no CNS.



14 Custeio das Ações de Epidemiologia e de Controle de Doenças

Os recursos da esfera federal destinados às ações de epidemiologia e controle de doenças não contidas no elenco de procedimentos do SIA/SUS e SIH/SUS configuram o Teto Financeiro de Epidemiologia e Controle de Doenças (TFECD).

O elenco de procedimentos a serem custeados com o TFECD é definido em negociação na CIT, aprovado pelo CNS e formalizado em ato próprio do órgão específico do MS (Fundação Nacional de Saúde – FNS/MS). As informações referentes ao desenvolvimento dessas ações integram sistemas próprios de informação definidos pelo Ministério da Saúde.

O valor desse Teto para cada estado é definido em negociação na CIT, com base na PPI, a partir das informações fornecidas pelo Comitê Interinstitucional de Epidemiologia e formalizado em ato próprio do órgão específico do MS (FNS/MS).

Esse Comitê, vinculado ao Secretário Estadual de Saúde, articulando os órgãos de epidemiologia da SES, do MS no estado e de outras entidades que atuam no campo da epidemiologia e controle de doenças, é uma instância permanente de estudos, pesquisas, análises de informações e de integração de instituições afins.

Os valores do TFECD podem ser executados por ordenação do órgão específico do MS, conforme as modalidades apresentadas a seguir.

14.1 Transferência Regular e Automática Fundo a Fundo

Consiste na transferência de valores diretamente do Fundo Nacional de Saúde aos Fundos Estaduais e Municipais, independentemente de convênio ou instrumento congênere, segundo as condições de gestão estabelecidas nesta NOB e na PPI, aprovada na CIT e no CNS.

14.2 Remuneração por Serviços Produzidos

Consiste no pagamento direto às SES e SMS, pelas ações de epidemiologia e controle de doenças, conforme tabela de procedimentos discutidos na CIT e aprovada no CNS, editadas pelo MS, observadas as condições de gestão estabelecidas nesta NOB, contra apresentação de demonstrativo de atividades realizadas, encaminhado pela SES ou SMS ao MS.

14.3 Transferência por Convênio

Consiste na transferência de recursos oriundos do órgão específico do MS (FNS/MS), por intermédio do Fundo Nacional de Saúde, mediante programação e critérios discutidos na CIT e aprovados pelo CNS, para:

a) Estímulo às atividades de epidemiologia e controle de doenças;
b) Custeio de operações especiais em epidemiologia e controle de doenças;
c) Financiamento de projetos de cooperação técnico-científica na área de epidemiologia e controle de doenças, quando encaminhados pela CIB.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHAVES, Maria Marta Nolasco. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Enfermagem em Saúde Pública. Curitiba-PR, 2002

Hipertensão Arterial

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A pressão sanguínea é a força exercida pelo sangue contra as paredes das artérias.

As artérias são vasos sangüíneos que saem do coração e levam o sangue oxigenado com nutrientes para todas as regiões do nosso organismo. Normalmente, a pressão do sangue apresenta pequenas oscilações durante o dia, isto é, aumenta e diminui.

Entretanto, quando na maior parte do tempo, ela permanece elevada é chamada de pressão alta ou hipertensão.

A pressão sanguínea é expressa por dois números, sendo o maior conhecido por pressão máxima (Sistólica), é medida quando o coração contrai. O menor número é conhecido por pressão mínima (Diastólica), é medida quando o coração relaxa depois da batida forte.

Assim, a medida de 120/80 mmHg (milímetros de mercúrio) é expressa verbalmente como “120 por 80” ou também “12 por 8.

Os valores de pressão arterial considerados ótimos para adultos acima de 18 anos são: menor que 120 mmHg para a sistólica e menor que 80 mmHG para a diastólica.

Pressão alta, ou hipertensão. É aquela de 140/90 mmHg ou superior. Ambos os números são importantes. Uma vez que a pressão alta aparece, ela geralmente dura por toda a vida. a boa notícia é que a pressão alta pode ser tratada e controlada.

Hipertensão é chamada de “assassina silenciosa” porque geralmente não apresenta sintomas. Algumas pessoas podem não descobrir que têm pressão alta até que apresentem problemas no coração, cérebro, rins, olhos e casos sangüíneos.

Quando a pressão alta não for descoberta e tratada ela pode causar:

• Aumento do coração, o qual pode ocasionar a falha deste.
• Aneurismas nos vasos sanguíneos, mais comumente na aorta e artérias no cérebro, pernas e intestino.
• Estreitamento dos vasos sanguíneos nos rins, o que pode causar a falha destes.
• Endurecimento precoce das artérias pelo corpo, especialmente aquelas no coração, cérebro, rins e pernas. Isso pode causar ataque cardíaco, infarto, falha nos rins ou amputação de parte das pernas.
• Sangramento ou ruptura de vasos sangüíneos nos olhos, o que causa alterações na visão e pode resultar em cegueira.

A Hipertensão não tem cura, mas tem controle. Nunca abandone o seu tratamento.

Transtornos do Pânico

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INTRODUÇÃO

O Transtorno do Pânico (TP) é uma entidade clínica recente e era antigamente chamada de neurastenia cardiocirculatória ou doença do coração do soldado (“coração irritável” denominação dada por Da Costa em 1860 durante a guerra civil americana), embora a primeira descrição sintomatológica tenha sido feita por Freud, que a classificou como neurose ansiosa. Até 1980, o quadro foi agrupado sob o título de “neurose de ansiedade” e atualmente este mesmo grupo foi subdividido em Doença do Pânico e Transtorno de Ansiedade Aguda ou Generalizada.

As diferenças clínicas, razão pela qual derivou a subdivisão do grupo em Reações de Ansiedade Aguda e TP, residem no fato de que os fatores geradores da primeira são motivados por agentes externos que ameaçam de forma clara e consistente a vida do indivíduo tais como catástrofes, panes em aviões, trens, veículos, incêndios em teatros e cinemas entre outros.

No distúrbio que deflagra a “crise de pânico” o agente externo freqüentemente encontra-se ausente e a ameaça está dentro do próprio paciente (endógena). Ambas as desordens vem acompanhadas de grande estímulo do sistema nervoso autônomo caracterizados por boca seca, aceleração dos batimentos cardíacos, palpitações, palidez, sudorese e falta de ar. Este conjunto de manifestações qualifica o que se denomina “reação de alarme” adaptando o organismo às situações de fuga, luta ou perigo iminente. Esses achados constituem os elementos básicos para que se cogitena possibilidade de estarmos diante de um paciente portador de TP.

O TP é causa freqüente de procura a psiquiatras e psicoterapeutas sendo considerada uma doença da “modernidade” ligada ao stress cotidiano. É uma patologia real (alguns a rotulam como frescura) e incapacitante devido a seus sintomas extremamente desagradáveis. Só quem padece de TP é que sabe valorizar a intensidade de sua sintomatologia.

1 ORIGEM DA PALAVRA PÂNICO

A palavra pânico é proveniente do grego “panikon” que tem como significado susto ou pavor repetitivo. Na mitologia grega o Deus Pã, que possuía chifres e pés de bode, provocava com seu aparecimento, horror nos pastores e camponeses. Desta forma a palavra tem em nossa língua o significado de medo ou pavor violento e repetitivo. Em Atenas, teria sido erguido na Acrópole um templo ao Deus Pã, ao lado da Ágora, praça do mercado onde se reunia a assembléia popular para discutir os problemas da cidade, sendo daí derivado o termo agorafobia, usado em psiquiatria e que possui como significado o medo de lugares abertos.

1.1 O Grande Problema

Este fato é devido em grande parte ao desconhecimento do TP por médicos não especialistas (não psiquiatras) o que determina a demora no diagnóstico do caso com o conseqüente e indesejável desenvolvimento das complicações.

A grande maioria dos pacientes, devido à predominância dos sintomas ligados ao aparelho cardiovascular, são atendidos em pronto-socorros cardiológicos por clínicos e/ou cardiologistas e medicados com fármacos que não são capazes de bloquear as “crises ou ataques de pânico”. A medida as crises se sucedem, sem que os pacientes observem melhora, os leva a insegurança e ao desespero. São realizados inúmeros exames sem se chegar a uma conclusão diagnóstica sendo os sintomas atribuídos a situações genéricas como estafa, nervosismo, fraqueza ou com frases do tipo: “o Sr.(a) não tem nada”.

2 MAS AFINAL O QUE É A SÍNDROME DO PÂNICO?

O ar parece faltar, o coração fica acelerado, o suor empapa a roupa. Esses são apenas alguns sintomas de uma crise de síndrome do pânico, também caracterizada por boca seca, tremores, tonturas e um mal-estar geral, acompanhados pela sensação de que algo terrível irá acontecer. A pessoa sente que pode morrer ou enlouquecer nos minutos seguintes.

Esse transtorno é causado pela chamada ansiedade patológica. De acordo com os psicólogos, a ansiedade é um estado emocional natural, e é completamente normal o sentimento de querer antecipar o futuro para evitar perigos ou tentar controlar danos. O problema fica caracterizado quando essa ansiedade começa a causar sofrimento demais para a pessoa. A preocupação culmina nas crises, e a pessoa fica ainda mais ansiosa porque não sabe quando a próxima irá acontecer.

Geralmente, a síndrome do pânico acontece no começo da vida adulta, e aparece em situações de estresse, como pressões no trabalho, no casamento ou na família, em que a pessoa se sente desamparada. O transtorno é de duas a quatro vezes mais freqüente nas mulheres, mas também pode ocorrer com sinais semelhantes nos homens. É claro que um único episódio de crise de ansiedade não caracteriza a síndrome do pânico, mas crises repetidas levam ao desenvolvimento do transtorno.

A maioria dos pacientes passa por vários médicos de especialidades diferentes em busca de uma resposta e do tratamento para tamanha ansiedade, sem saber ou, às vezes, aceitar, que tantos sintomas físicos sejam proveniente de problemas emocionais. Felizmente, o transtorno tem tratamento e, quanto mais precoce o diagnóstico, maiores são as chances de recuperação. Cada caso é especial, mas geralmente a pessoa é tratada com sessões de psicoterapia e medicamentos. Ela já começa a melhorar entre duas e quatro semanas, mas geralmente leva um ano para se recuperar. Raramente há cura espontânea e, apesar de muitas pessoas ainda colocarem em xeque a relevância de complicações psicológicas, a síndrome do pânico deve ser tratada como doença. Caso contrário, ou pode levar a complicações ainda maiores: depressão, desenvolvimento de outros transtornos de ansiedade, e abuso de álcool e/ou de sedativos, com prejuízos para a vida profissional, social e familiar.

A Síndrome do Pânico é uma doença caracterizada pelo distúrbio dos neurotransmissores serotonina e noradrenalina, possuindo como aspecto essencial, os ataques de ansiedade e nervosismo. Os ataques de pânico manifestam-se, via de regra através de períodos discretos de ataques repentinos, de intensa apreensão e medo, frequentemente associados com sentimentos de perigo de destruição iminente. A doença atinge pessoas de qualquer classe social, de qualquer profissão, seja na área urbana ou rural. Em 70% dos casos a doença começa a se manifestar entre os 20 e 35 anos uma fase de pleno crescimento profissional.

2.1 Etiologia (causa)

São consideradas possíveis 3 hipóteses básicas:

• Hiperatividade ou disfunção de sistemas ligados aos neurotransmissores (substâncias responsáveis pela transmissão do estímulo nervoso entre as células) cerebrais relacionados com vários elementos dos sistemas de alerta, reação e defesa do Sistema Nervoso Central (SNC).
• Alteração ainda não bem determinada na sensibilidade do SNC a mudanças bruscas de pH e concentrações de CO2 intracerebral e/ou hipersensibilidade de receptores pós-sinápticos (zona distal de contato entre duas células nervosas) de 5 hidroxitriptamina envolvidos no sistema cerebral aversivo.
• fatores genéticos.

2.2 Epidemiologia

Pesquisas realizadas nos EUA demonstram que para cada 1000 indivíduos cerca de 1 a 3 são afetados pelo TP.

No Brasil, infelizmente, as estatísticas são inconclusivas. Ocorre sobretudo em adultos jovens na faixa etária entre 20 e 45 anos de ambos os sexos, com predileção pelo feminino na proporção de 3:1. Nesta faixa etária os pacientes estão na plenitude de seu potencial de trabalho e ao apresentarem a doença são geradas conseqüências desastrosas voltadas tanto para o desenvolvimento profissional quanto social.

2.2.1 Critérios Diagnósticos do TP

O diagnóstico baseia-se nos seguintes critérios segundo o Manual de Diagnóstico e Estatística de Doenças Mentais (DSM-IV) da Associação Psiquiátrica Americana:

Ataques de pânico recorrentes e inesperados. Critérios para o Ataque de Pânico:

Um curto período de intenso medo ou desconforto em que 4 ou mais dos seguintes sintomas aparecem abruptamente e alcançam o pico em cerca de 10 minutos.Sudorese palpitações e taquicardia (aceleração dos batimentos cardíacos) tremores ou abalos sensação de falta de ar ou de sufocamento sensação de asfixia náusea ou desconforto abdominal sensação de instabilidade, vertigem, tontura ou desmaio sensação de irrealidade (desrealização) ou despersonalização (estardistante de si mesmo) medo de morrer medo de perder o controle da situação ou enlouquecer parestesias (sensação de anestesia ou formigamento) calafrios ou ondas de calor .

Pelo menos um dos ataques ter sido seguido por 1 mês ou mais de uma ou mais das seguintes condições:

• medo persistente de ter novo ataque;
• preocupação acerca das implicações do ataque ou suas conseqüências (isto é, perda de controle, ter um ataque cardíaco, ficar maluco);
• uma significativa alteração do comportamento relacionada aos ataques
O Ataque de Pânico não ser devido a efeitos fisiológicos diretos de substâncias (drogas ou medicamentos) como: álcool, ioimbina, cocaína, crack, cafeína, ecstasy ou de outra condição médica geral (hipertireoidismo, feocromocitoma, etc…)
Os ataques não devem ser conseqüência de outra doença mental, como Fobia Social (exposição a situações sociais que geram medo), Fobia Específica (medo de avião, de elevador, etc…), Transtorno Obsessivo-Compulsivo, Pós-traumático ou de Separação.

2.2.2 O Ataque e o TP

Devemos observar que existem critérios diagnósticos para considerar um paciente como portador de TP e eles devem ser bem estabelecidos. Um episódio de ataque de pânico isolado não preenche as condições necessárias para o diagnóstico de TP. Os sintomas que caracterizam o ataque devem ser recorrentes e não precipitados por uma situação ou acontecimento externo.

2.2.3 Diagnóstico Diferencial

Se os critérios diagnósticos são preenchidos há grande possibilidade de estarmos diante de um caso de TP, mas como muitos sinais e sintomas coincidem com os de outras doenças orgânicas e psiquiátricas, faz-se mister estabelecer-se o diagnóstico diferencial entre elas:

1. Doenças Orgânicas

• hipertireoidismo e hipotireoidismo;
• hiperpatireoidismo;
• prolapso da válvula mitral;
• arritmias cardíacas;
• insuficiência coronária;
• crises epilépticas (principalmente as do lobo temporal);
• feocromocitoma;
• hipoglicemia;
• labirintite, lesões neurológicas;
• abstinência de álcool e/ou outras drogas

Para que sejam avaliadas estas doenças é extremamente importante uma boa anamnese e avaliação clínica, como também tornam-se necessários exames laboratoriais (dosagem da glicemia, de hormônios, de ácidovanil-mandélico, etc…), gráficos (eletrocardiograma, teste ergométrico, Holter, eletroencefalograma basal com foto estimulação, hiperpnéia, privação de sono e sono induzido, etc…) e de imagem (tomografia computadorizada, ressonância nuclear magnética, ecocardiograma, etc…).

O SPECT (Single Photon Emission Computed Tomography), exame atualmenterealizado em pesquisas (cintilografia com medida do fluxo sangüíneo regional cerebral, marcado com contraste radioativo) tem reveladoassimetria (direita > esquerda) no giro parahipocampal dos lobostemporais e na região órbito-frontal dos córtices pré-frontais dospacientes portadores de TP.

Outro fato que merece destaque é que cerca de 36 a 40% dos pacientes portadores de TP apresentam prolapso valvular mitral associado, revelado na ecocardiografia.

2. Distúrbios Psiquiátricos

• De ansiedade generalizada ;
• De depressão;
• De despersonalização ;
• somatiforme ;
• Esquizofrenia ;
• De caráter;
• Complicações e Interferências sócio-econômicas e familiares

As complicações decorrentes dos repetidos ataques de pânico induzem a gastos excessivos por parte dos pacientes com médicos e exames complementares, muitas vezes dispensáveis. Afastamento do trabalho, faltas, impossibilidade de aceitar promoções (por medo de assumir maiores responsabilidades) e até pedidos de demissão , são situações corriqueiras na vida destes pacientes, sobretudo se o TP não é diagnosticada precocemente e vem acompanhada de agorafobia (medo de freqüentar lugares públicos e abertos). Somando-se a estes fatos há uma deterioração econômica progressiva.

Socialmente, as sucessivas recusas a convites recebidos geram afastamento e perda dos contatos sociais.

No que tange ao relacionamento familiar, o paciente recebe inicialmente os cuidados dos parentes mais intimamente envolvidos. Após várias “peregrinações” a consultórios médicos, onde os exames insistentemente não demonstram patologia palpável, os familiares adotam atitude de estímulo para que o paciente saia da crise. Porém, com o tempo, esse mesmo paciente passa a ser alvo de críticas desferidas não só pela família como também de amigos que, lamentavelmente, só contribuem para o agravamento da situação.

O desenvolvimento da agorafobia ocorre porque os pacientes passam a ter medo de sofrer novo ataque de pânico onde um anterior já tenha acontecido (teatro ou cinema por exemplo).

Deve também ser lembrada a “ansiedade antecipatória” (vou ter a crise novamente?) apresentada pelos pacientes no desempenho de tarefas complexa sou mesmo simples como pegar seu carro e dirigir até o trabalho.

Se o diagnóstico e o tratamento eficaz não são estabelecidos precocemente maior será seu isolamento, assim como a tendência a não sair de casa. A perda de peso é freqüentemente observada.

3 TRATAMENTO DO TP

O fator primordial no início do tratamento é o efetivo bloqueio dos ataques ou redução na sua freqüência e intensidade, através do uso de medicamentos e desta forma (sem o sofrimento com os ataques) permitir outras abordagens terapêuticas.

É necessário que se estabeleça uma boa relação médico-paciente, um vínculo terapêutico e de informação. O conhecimento pelo paciente de sua doença, evolução, efeitos colaterais possíveis das drogas, necessidade do uso contínuo da medicação (o ajuste da dose capaz de bloquear os ataques terá que ser feito) pelo tempo necessário para o controle dos sintomas é imperativo. Os efeitos adversos das medicações devem ser informados para que não haja motivos de frustração ou culpa nos relacionamentos mais íntimos.

3.1 Drogas Antipânico

Embora ainda pouco conhecido, mas sabidamente eficaz, o mecanismo de ação destas drogas parece exercer seus efeitos através de ações às vezes aparentemente antagônicas, a nível dos sistemas de neurotransmissão cerebral, principalmente a noradrenérgica e serotoninérgica (neurotransmissores). As drogas aumentam a transmissão destas substâncias anível cerebral assim como a diminuição de sua captação.

No tratamento são usadas drogas sabidamente capazes de bloquear os ataques de pânico como

• Os benzodiazepínicos, antidepressivos tricíclicos, inibidores da monoaminaoxidase, inibidores seletivos da recaptação deserotonina e os inibidores seletivos de serotonina e noradrenalina;
• Benzodiazepínicos: alprazolam e clonazepam;
• Antidepressivos Tricíclicos (ADT): imipramina, clorimipramina, amitriptilina, nortriptilina;
• Inibidores da Monoaminaoxidase (IMAO): tranilcipromina, moclobemida;
• Inibidores Seletivos da recaptação de serotonina: sertralina, fluoxetina, paroxetina, fluvoxamina e citalopram;
• Inibidores Seletivos da recaptação de serotonina e noradrenalina: venlafaxina.

Todos os medicamentos devem ser prescritos por médicos pois possuem efeitos colaterais.

Há grande controvérsia quanto ao tempo necessário para manutenção do tratamento. Grande parte dos autores admite ser a duração ideal entre 6 meses a dois anos com posterior suspensão gradativa dos fármacos e reavaliação se os ataques de pânicos voltam a ocorrer. Apesar de adotados estes critérios o índice de recaída após a suspensão da droga varia entre 20 e 50%.

O paciente deve ser informado de que o início da melhora da sintomatologia pode levar algumas semanas e depende do ajuste das doses necessárias para o bloqueio dos ataques, assim como de sua fiel adesão a terapêutica instituída. Este fato deve ser bem esclarecido ao paciente para que o portador de TP não fique ansioso ou deprimido com a expectativa de melhora imediata.

3.2 Apoio Psicoterápico

É também de fundamental importância. Visa à manutenção da adesão a terapêutica e a orientação quanto ao desenvolvimento e combate às complicações associadas. As técnicas cognitivo-comportamentais parecem serão mais eficazes neste sentido, aumentando inclusive a resposta ao tratamento medicamentoso.

À medida que os ataques de pânico se sucedem o paciente desenvolve hipocondria, fobias associadas direta ou indiretamente com as circunstâncias nas quais teve a crise, ansiedade basal e antecipatória, agorafobia, autodepreciação, depressão, desmoralização, alcoolismo e/ou uso abusivo de drogas. Qualquer combinação é possível e independe das características de personalidade embora estejam na dependência da severidade e freqüência das crises, assim como a demora no diagnóstico. O paciente deve ser paulatinamente encorajado (após bloqueados os ataques farmacológicamente) a enfrentar os lugares ou situações onde foi acometido pelo ataque e desta forma ir ganhando autoconfiança ao enfrentar suas adversidades.

4 FATORES PREDISPONENTES

Distúrbio de Ansiedade de separação na infância e a perda súbita de suportes sociais ou interrupção de relacionamentos interpessoais importantes, aparentemente predispõem o desenvolvimento deste distúrbio.

Pode-se citar como principais sintomas da doença os seguintes:

• Falta de ar;
• Vertigem;
• Palpitações (taquicardia);
• Tremor nos braços e/ou nas pernas;
• Sudorese;
• Sufocamento;
• Náusea ou desconforto abdominal;
• Despersonalização;
• Anestesia ou formigamento;
• Ondas de calor ou calafrios;
• Dor ou desconforto no peito;
• Medo de morrer;
• Medo de enlouquecer.

A ocorrência simultânea de quatro sintomas, dentre os acima discriminados, é suficiente para demonstrar a existência da doença. É importante ressaltar, ainda, que há ataques de pânico recorrentes várias vezes por semana ou até diariamente e que estes ataques podem ou não ser acompanhados de agorafobia.

4.1 Agorafobia

Medo de estar em lugares ou situações nas quais seja difícil sair, ou não haja ajuda disponível na hipótese da ocorrência de um ataque de pânico. Dentre as situações mais freqüentes de ago-rafobia, pode-se mencionar aquelas em que o indivíduo está sozinho e fora de casa, ou ainda, numa multidão, em uma fila, em uma ponte, numa viagem de ônibus, trem ou automóvel, etc.

4.2 Diferenças entre Fobia e Síndrome do Pânico

FOBIA – Medo exagerado e desproporcional ao estímulo, não conseguindo avaliar a realidade da situação. Surgem pensamentos catastróficos e a pessoa sabe que o medo é exagerado, mas não consegue evitar a ansiedade, sendo que quando elimina o estímulo aterrorizante desaparecem os sintomas.

SÍNDROME DO PÂNICO – Não existe estímulo externo, sendo que surgem ataques de pânico independente do lugar e da hora. É um distúrbio de ansiedade, no qual fundamenta-se em base orgânica e psicológica. Freud descreveu a Síndrome do Pânico como Neurose de Angústia em 1894, que apresenta traços de muita tensão e atividade mental associado aos sintomas somáticos como tremores, taquicardia, hiper-ventilação e vertigens. Angústia é uma forma de esperar o perigo ou preparar-se para ele, ainda que possa ser desconhecido.

5 CARACTERÍSTICAS DA PERSONALIDADE

São pessoas com tendência ao perfeccionismo tendo uma autocrítica muito grande e não se permitindo falhar em nenhum aspecto. Há uma cobrança extrema quanto à execução de atividades corretamente e de certa forma esperando a mesma atitude alheia. Apresentam-se como workaholics com dificuldades para relaxar e centralizadores. Profissionalmente possuem ótima capacidade intelectual, mas denotam dificuldade nos relacionamentos afetivos.

5.1 Durante as crises

No momento da crise os pacientes tomam tranqüilizantes e, posteriormente há uma melhora da crise. A crise desaparece por volta de 05 a 30 minutos, com ou sem os medicamentos.

– o tranqüilizante, tomado por via oral ou intramuscular leva de 40 a 60 minutos para surtir efeito, donde se conclui que, o efeito do medica-mento se dá no momento em que a crise já cessou.
– o tranqüilizante ajuda na fase pós crise, relaxando o paciente justamente no período de mais necessidade, já que ele fica ansioso, cansado e com medo de que a crise volte. -o controle das crises pode ser obtido mais ou menos dentro de 02 a 04 semanas com uso de medicamentos.
– somente após o bloqueio das crises é que se deve estimular o paciente a enfrentar de forma progressiva as situações temidas.
– quando a pessoa estiver no meio de uma crise, inspire pelo nariz e conte até quatro depois expire pela boca e conte novamente até quatro. Repita esse movimento várias vezes até a sensação de tontura passar.
– pode ser feito um relaxamento autógeno ou qualquer outro tipo de relaxamento para que o paciente consiga um auto controle sobre o seu físico, pois após a crise há um desgaste emocional e físico muito grande.
– é importante desviar a concentração da mente para situações agradáveis ou conversar com alguém para ajudar nesse processo.
– o familiar que estiver acompanhando o tratamento deve deixar o paciente sem tensão ou cobrança, pois nesse momento o próprio paciente fica em desespero para que volte ao normal. O ambiente familiar deve ser propício para que isso aconteça. – o paciente não precisa sentir vergonha dessa fragilidade, pois a maioria das pessoas sentem as mesmas aflições.

5.2 Complicações da Síndrome do Pânico

Com a repetição das crises podem surgir algumas complicações tais como: hipocondria; fobias associadas direta ou indiretamente com as situações nas quais teve a crise; ansiedade basal; ansiedade de antecipação; agorafobia; auto depreciação e desmoralização; depressão; alcoolismo e/ ou abuso de drogas.

5.2.1 Ansiedade Basal

Tensão muscular; dores provenientes da tensão; dificuldade para relaxar, sendo que o paciente fica sempre em alerta esperando uma nova crise; intolerância a barulho; impaciência; irritabilidade; agressividade verbal; insônia; fadiga no final do dia.

5.2.2 Ansiedade de antecipação da crise

O paciente pode associar a crise aos locais onde as teve, criando um condicionamento e, dessa forma sente-se ansioso podendo até ter crises de pânico quando se confronta fisicamente com a situação.

5.2.3 Evitação Fóbica

Cada vez que o paciente tenta enfrentar uma situação fica mais ansioso, chegando ao ponto de ter a crise de pânico. Quanto mais se evita uma situação, mais receio dela se vai adquirindo.

5.2.4 Hipocondria

Uma preocupação excessiva com a saúde física, o que se nota pelo fato da pessoa observar com mais freqüência suas funções, em particular a cardiovascular. O paciente começa a acreditar que deve haver algo muito sério com sua saúde física, algo que os médicos e exames não são capazes de detectar ou então estão lhe escondendo.

5.2.5 Fobias

Associadas direta ou indiretamente com as situações nas quais teve as crises. Como a crise de pânico não escolhe lugar nem hora, a tendência é ir ampliando progressivamente as fobias ou a ter medo de praticamente tudo.

5.2.6 Auto depreciação e desmoralização

As limitações impostas pelo estado fóbico-ansioso comumente levam a outras complicações, tais como: sentimentos de auto depreciação e desmoralização. Há queda de qualidade de vida do paciente e da família, além do sentimento de responsabilidade pela doença e por uma hipotética falta de força de vontade para superar o problema.

5.2.7 Depressão

Pacientes com pânico e suas complicações podem desenvolver depressão, a qual é reativa as limitações fóbicas ansiosas impostas à vida do indivíduo. Essa depressão é secundária e ela desaparece quando o paciente melhora do pânico.

5.3 Gravidade do evitamento Agorafóbico

LEVE: Algum evitamento, mas estilo de vida relativamente normal, por exemplo, viaja desacompanhado quando necessário, tal como a trabalho ou a compras.

MODERADO: Resulta num estilo de vida restrito, por exemplo, a pessoa é capaz de deixar a casa sozinha, porém, somente consegue percorrer alguns quilômetros desacompanhada.

GRAVE: Por evitamento, resulta em estar parcial ou completamente restrita a casa ou incapaz de sair desacompanhada.

5.4 Gravidade dos ataques de Pânico

LEVE: Durante o último mês, ou todos, ou não houve mais do que um ataque de pânico.

MODERADO: Durante o último mês os ataques foram intermediários entre ataques leves e graves.

GRAVE: Durante o último mês houveram pelo menos oito ataques de pânico.

As conseqüências da síndrome do pânico afetam três áreas:

• ECONÔMICA: Os gastos excessivos com médicos e exames são dispensáveis, exceto o ecocardiograma . Este exame revela que 30% dos pacientes com pânico possuem uma alteração benigna chamada Prolapso da Válvula Mitral. Outro prejuízo econômico são as faltas e os afastamentos do trabalho em auxílio-doença e, às vezes internações em UTI ou clínicas e hospitais psiquiátricos sem nenhum benefício. Podem ocorrer recusas de promoções por falta de segurança e desmoralização, ou pedido de demissão e dispensa por causa da agorafobia.
• SOCIAL: O paciente se restringe ao seu convívio familiar, recusando os convites sociais e, por outro lado, os amigos vão se afastando em virtude das dificuldades de relacionamento que o paciente vai adquirindo com a ocorrência sucessiva das crises.
• FAMILIAR: Após várias consultas médicas e exames mostrando que o paciente não tem aparentemente nada, os familiares acham que tudo não passa de falta de força de vontade ou talvez consideram responsabilidade do próprio paciente a superação do problema. Como às vezes o paciente só sai ou faz algo acompanhado pode tolher-se a liberdade da pessoa de quem se depende, trazendo aborrecimentos e gerando dificuldades de relacionamento conjugal ou com a família.

6 FORMAS DE TRATAMENTO

PSIQUIÁTRICO – Há necessidade de medicação para equilibrar os neurotransmissores.

Os quadros em que as pessoas apresentam a ansiedade como principal fator a caracterizar sua patologia são denominados Transtornos Ansiosos e os principais são:

• Transtorno do Pânico;
• Fobia Simples;
• Fobia Social;
• Transtorno Obsessivo-compulsivo;
• Estado de estresse pós traumático;
• Ansiedade generalizada;
• Distúrbio Misto depressivo – ansioso

TRATAMENTO CLÍNICO – Devido aos comprometimentos que o transtorno do pânico trás a seus portadores é muito importante que se já instituída uma conduta terapêutica adequada. O tratamento poderá, em muitos casos deverá, ser realizada através de medicamentos e de psicoterapia.

Os medicamentos mais úteis no tratamento do TP são os anti-depressivos. Geralmente, em doses baixas eles são capazes de bloquear os ataques de pânico, revertendo suas conseqüências e permitindo a retomada das atividades do paciente. Uma porcentagem significativa dos pacientes apresentam uma piora dos sintomas ansiosos, com piora dos ataques, ao iniciar o tratamento com anti-depressivos. Essa resposta ao início da medicação tende a desaparecer após alguns dias de uso do medicamento, não constituindo motivo para abandonar o tratamento farmacológico. Medidas como iniciar com doses baixas de antidepressivos reduzem o risco desse tipo de reação inicial.

Atualmente dispomos de diversos antidepressivos no mercado, que podem ser utilizados com sucesso no manejo dos pacientes com TP.

São eles:

• Antidepressivos Tricíclicos (ADT): Clomipramina (Anafranil); Imipramina (Tofranil).

Apesar de drogas bastante eficazes no controle dos ataques de pânico, apresentam muitos efeitos colaterais (boca seca, sudorese, obstinação intestinal, retardo ejaculatório, e ganho de peso, entre os principais) que podem fazer o paciente abandonar o tratamento.

• Inibidores Seletivos da Recaptura da Seratonina (ISRS): Fluoxetina (Prozac, Eufor, Daforin, etc), Paroxetina (Aropax), Sertralina (Zoloft, Sercerim) entre outros.

Medicamentos mais novos que por atuarem especificamente sobre o neurotransmissor serotonina acabam tendo poucos efeitos colaterais sobre o organismo dos pacientes. Mesmo assim algumas pessoas tendem a reclamar de dor de cabeça (transitória), náuseas, dor de estômago e vômitos (transitório) e perda de libido.

• Inibidores da Mono Amino Oxidase (IMAO): Tranilcipromina (Parnate), Fenelzina, Moclobemida (Aurorix).

Alguns pacientes se beneficiam do uso de IMAOs, porém tirando a Moclobemida, o manejo terapêutico das outras drogas dessa família não é simples, para quem não esta acostumado, pois são necessárias várias restrições alimentares, não podendo, também associar essa droga com diversos medicamentos.

Normalmente o efeito benéfico dos antidepressivos se faz presente após uma a duas semanas de uso dessa medicação. Mesmo estando bem, tendo voltado ao estado normal, o paciente deve manter o uso da medicação por um período de aproximadamente um ano, para reduzir o risco dos ataques voltarem após a descontinuação da medicação. Apesar de todo o medo que as pessoas têm em relação ao uso desse tipo de medicação (ficar dependente,mudar seu jeito de ser, fazer coisas sem saber, ficar “dopado”), seu uso é bastante seguro quando orientado por um psiquiatra experiente.

• Além do uso de antidepressivos, é muito comum a utilização de ansiolíticos que são conhecidos como Benzodiazepínicos: Al;prazolan(Frontal, Clonazepan (Rivotril), Diazepam (Diempax, Valium, etc.).

Apesar de muito utilizados, os resultados obtidos tendem a ser parciais, pois conseguem combater alguns sintomas da crise que esta acontecendo, mas não impedem o aparecimento de novas crises. Além disso, tendem a deixar o paciente sonolento, sem contar o risco de levar o paciente à dependência. Não devem ser utilizados por longos períodos de tempo, pois o organismo tende a se acostumar e passa a exigir doses maiores para ter o mesmo efeito.

• Ainda em relação a drogas que combatem sintomas dos ataques de pânico, podemos citar os beta-bloqueadores (inderal, Propranolol) que diminuem a taquicardia que em alguns pacientes parece ser o pior dos sintomas.

De qualquer forma a melhor pessoa para indicar e acompanhar seu tratamento, do ponto de vista medicamentoso, é o psiquiatra. Desaconselhamos à auto-medicação, pois qualquer medicamento tomado de forma incorreta pode ser mais prejudicial do que benéfico.

Uma outra razão importante para procurar um médico que conheça o problema é que ele poderá orientar quanto à investigação do seu problema procurando descartar outras condições clínicas que possam causar sintomas parecidos com um ataque de pânico. Entre as várias
patologias que devem ser decartadas podemos citar:

• Doenças Endócrinas (hipertireoidismo, feocromocitoma, etc.);
• Doenças Cardiovasculares (Infarto do miocárdio, arritmias,PVM;
• Doenças respiratórias (asma brônquica, hipoxia, etc.);
• Doenças neurológicas (tumores cerebrais, epilepsia, cefaléias;
• Disfunções metabólicas (acidose, desidratação, etc.);
• Intoxicação por drogas (cocaína, anfetamina, cafeína, álcool,etc.);
• Síndrome tensão pré-mestrual.

Muitas vezes não há necessidade de se realizar dezenas de exames laboratoriais bastando um bom histórico clínico para que o médico possa descartar certas doenças.

PSICOTERÁPICO – Focado no enfrentamento das fobias da técnica da terapia cognitiva comportamental, no qual limita o paciente em várias áreas. Depois um enfoque profundo na psicodinâmica independente da linha psicológica, elaborando as mudanças de alguns comportamentos inadequados. O paciente precisa redimensionar alguns conteúdos da personalidade, tais como: perfeccionismo, controle das situações, poder, centro das atenções, workaholic, auto crítica exacerbada. No processo psicoterápico a pessoa precisa trabalhar as complicações da doença para que sinta mais segurança e equilíbrio no dia a dia.

6.1 Qual é a população atingida?

As pessoas que tem o T.P., em sua maioria, são pessoas jovens (faixa etária de 21 a 40 anos), que encontram-se na plenitude de suas vidas profissionais. O perfil da personalidade das pessoas que sofrem do T.P., costuma apresentar aspectos em comum: geralmente são pessoas extremamente produtivas a nível profissional, costumam assumir uma carga excessiva de responsabilidades e afazeres, são bastantes exigentes consigo mesmos, não convivem bem com erros ou imprevistos, têm tendência a se preocuparem excessivamente com problemas cotidianos, alto nível de criatividade, perfeccionismo, excessiva necessidade de estar no controle e de aprovação, auto-expectativas extremamente altas, pensamento rígido, competente e confiável, repressão de alguns ou todos os sentimentos negativos (os mais comuns são, o orgulho e a irritação), tendência a ignorar as necessidades físicas do corpo, entre outras. Essa forma de ser acaba por predispor estas pessoas a situações de stress acentuado, fato este que pode levar ao aumento intenso da atividade de determinadas regiões do cérebro desencadeando assim um desequilíbrio bioquímico e consequentemente o aparecimento do T.P.

Vale ressaltar ainda que alguns medicamentos como anfetaminas (usados em dietas de emagrecimento) ou drogas (cocaína, maconha, crack, ecstasy, etc), podem aumentar a atividade e o medo promovendo alterações químicas que podem levar ao T.P.

7 ENTREVISTA COM Márcio Bernik é médico psiquiatra e coordenador do Ambulatório de Ansiedade do Hospital das Clínicas do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo.

Síndrome do pânico

A síndrome do pânico, na linguagem psiquiátrica chamada de transtorno do pânico, é uma enfermidade que se caracteriza por crises absolutamente inesperadas de medo e desespero. A pessoa tem a impressão de que vai morrer naquele momento de um ataque cardíaco porque o coração dispara, sente falta de ar e tem sudorese abundante.

Quem padece de síndrome do pânico sofre durante as crises e ainda mais nos intervalos entre uma e outra, pois não faz a menor idéia de quando elas ocorrerão novamente, se dali a cinco minutos, cinco dias ou cinco meses. Isso traz tamanha insegurança que a qualidade de vida do paciente fica seriamente comprometida.

Drauzio – Que diferença existe entre ansiedade normal e a que caracteriza a síndrome do pânico?

Bernik – Ansiedade é um estado emocional normal. Uma das características do sucesso da espécie humana é a capacidade de antecipar o perigo, o que requer uma preparação geradora de ansiedade. A ansiedade é patológica quando deixa de ser útil e passa a causar sofrimento excessivo ou prejuízo para o desempenho da pessoa. O transtorno do pânico é uma das formas de manifestação da ansiedade patológica.

Drauzio – No dia-a-dia, quando as pessoas dizem que estão ansiosas a que exatamente estão se referindo?

Bernik – Provavelmente se referem a um estado emocional normal, um tipo de ansiedade que as faz ficar acordadas até mais tarde na véspera de uma prova ou de uma entrevista para um emprego novo. É a ansiedade que nos permite, apesar do cansaço, jogar bola até o final do segundo tempo sem deitar e dar um cochilo no campo.

A ansiedade advinda da preocupação de que alguma coisa possa dar errado é útil dentro do contexto apropriado. Por isso, quando as pessoas se dizem ansiosas, estão mesmo, e isso pode não representar inconveniente maior.

A ansiedade patológica é desproporcional ao contexto. As sensações que o paciente com transtorno do pânico experimenta nas crises podem ser absolutamente normais e apropriadas se a pessoa estiver dentro de um prédio pegando fogo, com a diferença de que, nesse momento, sua atenção estará voltada para a própria sobrevivência e ela não dará importância às manifestações de taquicardia, sudorese e falta de ar que se instalaram.

Drauzio – Os sintomas que o transtorno do pânico provoca são semelhantes ao da ansiedade normal, apenas mais intensos, ou são diferentes?

Bernik – Os sintomas são relativamente similares. As sensações físicas da ansiedade são uma reação normal, por exemplo, caso a pessoa tenha fobia de lagartixa ou de falar em público e se veja diante de uma dessas situações. O que caracteriza o pânico é a forma abrupta e inesperada que os sintomas aparecem e o fato de a crise atingir o ápice em dez minutos. Na verdade, bastam 30 segundos para o paciente, que estava se sentindo bem, ser tomado inexplicavelmente por sintomas que de certa forma todos conhecemos: boca seca, tremores, taquicardia, falta de ar, mal-estar na barriga ou no peito, sufocamento, tonturas. Muitas vezes, tudo isso vem acompanhado da sensação de que algo trágico, como morte súbita ou enlouquecimento, está por acontecer. Nesses casos, é comum a pessoa ter uma reação comportamental de pânico e sair à procura de socorro. Aliás, a sala de espera dos prontos-socorros é um dos lugares onde o médico mais se depara com transtornos de pânico.

Drauzio – Nessa hora a sensação é terrível. Muitos acham que realmente vão morrer, não é?

Bernik – No episódio de pânico, a sensação de morte iminente provocada por um problema cardíaco tem duas explicações: a rapidez e a forma inesperada com que a crise acontece. A ansiedade normal tende a ocorrer em ondas, não em picos intensos. Mesmo o pânico que as pessoas sentem numa montanha-russa extremamente radical pode ser até agradável se estiver dentro de um contexto compreensível. Entretanto, a reação será muito diferente, se ele vier do out of the blue, como dizem os americanos, ou do azul do céu, como dizemos nós.

Drauzio – Quais são os gatilhos mais freqüentes para as crises do transtorno de pânico? Por que uma pessoa passa 30 anos sem ter nada e um dia, por ter ficado fechada dentro de um elevador quebrado, começa a manifestar o problema em situações que nada tem a ver com esse fato?

Bernik – O transtorno de pânico é uma doença que se manifesta especialmente em jovens e acomete mais as mulheres do que os homens. A maioria dos pacientes tem a primeira crise entre 15 e 20 anos desencadeada sem motivo aparente.

Com o passar do tempo, as crises vão se repetindo de maneira aleatória. Não prever quando podem surgir novamente gera uma ansiedade chamada de antecipatória. A pessoa fica preocupada com o fato de que os sintomas possam aparecer numa situação para a qual não encontre saída nem ajuda, como dentro de elevadores, metrô, aviões, salas-de-espera de médicos e dentistas, congestionamentos de trânsito. Se reagir de forma a evitar esses lugares a partir dessa experiência, desenvolverá uma segunda doença, a agorafobia, um quadro fóbico provocado pelo pânico não tratado e que se caracteriza por fugir de situações nas quais uma crise de pânico possa representar perigo, causar embaraço ou a sensação de estar presa numa armadilha. Geralmente os pacientes com pânico sofrem mais pela agorafobia do que pelo pânico em si. É o medo do medo.

Drauzio – Isso não seria de certo modo inevitável?

Bernik – Não é inevitável. É raro, mas algumas pessoas com personalidade mais robusta, mesmo com crises freqüentes, não desenvolvem agorafobia. Outras, depois de duas ou três crises, praticamente ficam presas ao lar. Nos casos mais graves, o paciente não consegue sair de casa sozinho. É importante registrar que a maioria das pessoas rapidamente desenvolve algum grau de limitação. Em geral, só conseguem ir trabalhar, se puderem percorrer o mesmo caminho. Pegar um avião ou uma estrada congestionada num feriado é hipótese fora de cogitação.

Outra característica importante da agorafobia é que, uma vez estabelecida, não constitui uma fase passageira da doença e não cura sozinha. Além disso, as crises não desaparecem com a idade. Começam quando a pessoa é jovem e se manifestam até a idade madura.

Até pouco tempo atrás, as crises de transtorno do pânico eram atribuídas ao nervosismo ou desequilíbrio psicológico. Nos prontos-socorros, recebiam o diagnóstico de piripaque ou distúrbio neurovegetativo, uma maneira mais ou menos pejorativa de os médicos dizerem que o paciente não tinha nada, embora estivesse apresentando um episódio patológico de origem cerebral.

Drauzio – Qual a participação do sistema nervoso central na crise do pânico?

Bernik – Nada é puramente psicológico porque os fenômenos psicológicos passam pelo cérebro. As estruturas que deflagram o pânico num indivíduo são as mesmas que existem em todos nós para desencadear uma reação de fuga e luta numa situação de emergência.

Ao longo da evolução da espécie humana, o cérebro humano desenvolveu sistemas fundamentais para responder a perigos próximos ou distantes que levem à destruição imediata do organismo. O pânico resulta da hiperatividade desse sistema cerebral que foi desenhado para produzir respostas imediatas ao perigo iminente.

Drauzio – Como costumam evoluir os casos não tratados de transtorno do pânico?

Bernik – O transtorno do pânico tem um curso bastante característico. O paciente típico é uma mulher (o quadro é duas a quatro vezes mais freqüente nelas), mas a doença também pode ocorrer com evolução e sintomas idênticos nos homens. Atribui-se essa freqüência maior no sexo feminino à sensibilização das estruturas cerebrais pela flutuação hormonal, visto que a incidência de pânico aumenta no período fértil da vida.

Geralmente, depois da primeira crise, ocorrem outras – duas a quatro por semana – que vêm e passam. A partir de então, num período que se estende de um até cinco anos, uma série de conseqüências começa a manifestar-se. A pessoa tranqüila de antes se torna tensa por dois motivos especiais: a expectativa da próxima e inesperada crise e, paradoxalmente, porque a tensão protege contra o pânico. Se antes possuía uma personalidade relaxada e autoconfiante, fica insegura e leva uma vida mais restrita por causa da agorafobia que se instalou. A longo prazo, 60% dos pacientes com pânico apresentam depressão e 12% tentam suicídio.

Existe também uma associação entre transtorno do pânico e alcoolismo secundário como forma de autotratamento contra a ansiedade.

Drauzio – Como você orienta o tratamento de uma pessoa que diz ter crises de pânico em determinadas situações?

Bernik – O pânico pode indicar um problema primário próprio do transtorno de pânico ou ser a manifestação secundária do uso exagerado de medicamentos que podem provocar crises de pânico em pessoas propensas, como os corticóides e a maioria das anfetaminas, no Brasil, largamente usadas por mulheres jovens que querem emagrecer. É preciso pesquisar também o uso de psico-estimulantes, como a cocaína e o ecstasy, uma anfetamina halogenada de ação serotonérgica extremamente rápida. Portanto, é fundamental verificar se o quadro de pânico é secundário a outras patologias. O hipertireoidismo, por exemplo, pode provocar sintomas muito parecidos com os das crises de pânico.

Uma vez afastadas essas possibilidades, é relativamente simples firmar o diagnóstico clínico do transtorno de pânico. Os sintomas são muito claros. Deve-se, ainda, tentar fazer uma análise funcional para estabelecer as limitações que a doença acarretou a fim de estimular uma melhora na qualidade de vida do paciente.

Drauzio – O tratamento implica uma parte medicamentosa e outra comportamental. Qual é a orientação que se dá aos doentes?

Bernik – O que se sabe hoje é que a técnica de combinar medicamentos e terapia comportamental é mais eficiente, pois é muito penoso para o paciente adotar um programa comportamental baseado na exposição a situações que provocam pânico, sistematicamente, de forma gradual e progressiva, até que ocorra a dessensibilização.

A terapia de exposição baseia-se na capacidade de o ser humano habituar-se ao estresse. É como se assistisse a um filme de terror 15 vezes. Na primeira vez, os cabelos ficam em pé. Na segunda, como já sabe o que vai rolar e que vai espirrar sangue no teto, a reação é menos intensa. Na última, o filme não desperta mais nenhuma resposta emocional. Todavia, os pacientes aceitam melhor o tratamento e melhoram mais depressa se simultaneamente tomarem antidepressivos, medicação que se torna obrigatória para os 60% daqueles que têm depressão associada ao pânico.

Drauzio – O tratamento deve ser mantido por quanto tempo?

Bernik – O tratamento deve ser mantido por seis meses no mínimo e idealmente por um ano. A melhora costuma ocorrer entre duas e quatro semanas, mas parece que as alterações biológicas demoram meses para desaparecer. Desse modo, se o tratamento for interrompido nos primeiros sinais de melhora, 80% dos pacientes vão sofrer recidiva em quatro a seis semanas.

Drauzio – O tratamento leva de duas a três semanas para começar a surtir resultados e os medicamentos dão alguns efeitos colaterais. Essas duas razões podem levar o paciente a abandonar o tratamento?

Bernik – Mesmo que o médico inspire confiança e haja ótimo relacionamento entre ele e o paciente, um a cada três abandona o tratamento porque, numa equação infeliz, os efeitos colaterais aparecem no primeiro dia e a melhora, só duas ou três semanas depois. Há ainda a agravante de que as crises de pânico pioram nas primeiras 48 horas do tratamento com remédios.

Drauzio – Há pacientes que precisam tomar remédio a vida inteira como em certos casos de depressão?

Bernik – Procuro manter meus pacientes tomando remédio pelo menos por um ano, o tempo ideal para evitar uma recidiva precoce.

O pânico é mais recidivante do que a depressão. No entanto, o remédio que funcionou na primeira crise vai funcionar nas outras. De qualquer forma, é importante alertar os pacientes de que, em 80% dos casos, as crises podem voltar. Mas, se voltarem, os medicamentos serão os mesmos porque não induzem tolerância.

Drauzio – Terapias alternativas como meditação e ioga fazem algum efeito?

Bernik – Sou fã dessas duas que você mencionou nem tanto para o pânico que, às vezes, é uma doença biológica. No entanto, para os problemas de ansiedade e para as pessoas que manifestam preocupação excessiva chamada de ansiedade generalizada, atividades contemplativas como a meditação e ioga ajudam a assumir uma atitude menos agressiva perante o mundo, menos carregada de espírito competitivo, ou seja, a desenvolver um comportamento oposto ao que as empresas preconizam.

Terapias alternativas que incluem remédios como o Hipericum ou à base de flores não têm sua eficácia comprovada e, aparentemente, funcionam como placebos. No caso específico do Hipericum, há relatos de hemorragia por causa de sua propriedade anticoagulante. O fato de ser uma erva não quer dizer que não faça mal.

Drauzio – É sempre bom lembrar que muitos dos piores venenos que conhecemos vêm de ervas.

Drauzio – Qual é o papel do exercício físico nos transtornos de pânico?

Bernik – Além de fazer bem para todo o mundo porque é excelente para o condicionamento cardiovascular, o exercício físico provoca algumas sensações semelhantes às da síndrome do pânico. É impossível fazer um exercício físico vigoroso sem sentir taquicardia, sudorese, perna bamba. Por isso, não se pode diagnosticar transtorno de pânico se os sintomas ocorrerem após atividade física extenuante.

Entretanto, experimentar essas sensações de pânico num contexto agradável, por exemplo, numa partida de vôlei ou num jogo de futebol, ajuda no processo de dessensibilização. Por isso, se não houver contra-indicações, exercícios físicos mais vigorosos representam uma forma de terapia de exposição às sensações internas que o pânico causa.

Drauzio – Como a família deve portar-se diante de um portador do transtorno de pânico?

Bernik – O pânico, como todas as doenças psiquiátricas, não dá pintas vermelhas na cara como o sarampo nem 39º de febre. Por isso, é muito comum a família entendê-lo como uma forma de fraqueza moral e de personalidade e reagir da seguinte maneira: “eu também não gosto de trânsito, mas vou trabalhar todos os dias”.

Por isso, é de importância fundamental a conscientização da família. Grupos de auto-ajuda, livros sobre o assunto ou mesmo a internet podem ser úteis para que os familiares entendam a natureza da doença. O mal-estar que o paciente experimenta num congestionamento é muito diferente do desconforto que qualquer um de nós possa sentir. Por outro lado, o excesso de compreensão pode favorecer a esquiva fóbica e a pessoa não sai mais de casa nem para ir à padaria. Na verdade, a agorafobia cresce com os bons cuidados. A família deve incentivar a atividade do doente. “Eu sei que você não se sente bem, mas é importante continuar indo à escola”, ou “se você conseguisse ir ao clube, ir trabalhar e não pedisse demissão seria melhor para sua auto-estima” são estímulos importantes para os pacientes com síndrome do pânico.

Repouso é bom para gripe. Para doenças crônicas como depressão e pânico que muitas vezes a pessoa carrega pela vida afora, o pior é ficar em casa repousando. O certo é levar vida o mais normal possível apesar das dificuldades.

Drauzio – Qual o papel da maconha nos pacientes com transtorno do pânico?

Bernik – Um dos mecanismos de ação da maconha é o estímulo serotonérgico, também provocado pelo LSD, uma droga alucinógena ligada às crises de pânico. Não há quem não tenha ouvido falar no bad trip, a viagem sem volta, caracterizado por um mal-estar intenso que pode levar ao suicídio.

Embora haja relatos de que a maconha é relaxante, dá sono e fome, está demonstrado que pode desencadear crises de pânico em pessoas predispostas. Por isso, pacientes com transtorno de pânico não devem fumar maconha.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Existem pessoas, não importa de que classe social, vagam pelos consultórios e clínicas do mundo inteiro sem que ninguém seja capaz de lhes dizer qual a verdadeira origem de seus males. A pessoa passa por uma série interminável de consultas e exames, em boa parte pagos com dinheiro público, acaba entrando nas estatísticas de certas doenças, mas não tem seu problema resolvido. Três quartos das pessoas com distúrbio mental não estão onde deveriam estar: no psiquiatra ou no psicólogo. Estão nas mãos do cardiologista, do neurologista ou de outro especialista qualquer. É uma multidão que não trata a sua doença de forma adequada, pois um mau diagnóstico pode levar essas pessoas a conviver com enormes desconfortos, que acabam se estendendo a toda a sua família.

Transtorno do pânico é um problema sério de saúde. Este distúrbio é nitidamente diferente de outros tipos de ansiedade, caracterizando-se por crises súbitas, sem fatores desencadeantes aparentes e, frequentemente, incapacitantes. Depois de ter uma crise de pânico – por exemplo, enquanto dirige, fazendo compras em uma loja lotada ou dentro de um elevador – a pessoa pode desenvolver medos irracionais (chamados fobias) destas situações e começar a evitá-las. Gradativamente o nível de ansiedade e o medo de uma nova crise podem atingir proporções tais, que a pessoa com o transtorno do pânico pode se tornar incapaz de dirigir ou mesmo pôr o pé fora de casa. Neste estágio, diz-se que a pessoa tem transtorno do pânico com agorafobia. Desta forma, o distúrbio do pânico pode ter um impacto tão grande na vida cotidiana de uma pessoa como outras doenças mais graves – a menos que ela receba tratamento eficaz e seja compreendida pelos demais.

O T.P. já é considerado um problema sério de saúde. Atualmente 2 a 4% da população mundial sofre deste mal, que acomete mais mulheres do que homens em uma proporção de 3 para 1. Há muito que o T.P. deixou de ser um diagnóstico de exclusão. Hoje, mais do que nunca, há necessidade de um diagnóstico de certeza para tal entidade clínica. As pessoas que sofrem deste mal costumam fazer uma verdadeira “via-crucis” a diversos especialistas médicos (“doctor shopping”) e após uma quantidade exagerada de exames complementares recebem, muitas vezes, o patético diagnóstico do “nada”, o que aumenta sua insegurança e seu desespero. Por vezes esta situação dramática é reduzida a termos evasivos como: estafa, nervosismo, stress, fraqueza emocional ou problema de cabeça. Isto pode criar uma incorreta impressão de que não há um problema de fato e de que não existe tratamento para tal patologia.

O T.P. é real e potencialmente incapacitante, mas pode ser controlado com tratamentos específicos. Por causa dos seus sintomas desagradáveis, ele pode ser confundido com uma doença cardíaca ou outra doença grave. Frequentemente as pessoas procuram um pronto-socorro quando têm a crise de pânico e podem passar desnecessariamente por extensos exames médicos para excluir outras doenças.

Os médicos em geral tentam confortar o paciente em crise de pânico, fazendo-o entender que não está em perigo. Mas estas tentativas podem às vezes piorar as dificuldades do paciente: se o médico usar expressões como “não é nada grave”, “é um problema de cabeça” ou “não há nada para se preocupar”, isto pode produzir uma impressão incorreta de que não há problema real e de que não existe tratamento ou de que este não é necessário, conforme já comentado.

REFERÊNCIAS

http://www.associacaonsp.com.br/inicio.htmhttp://drauziovarella.ig.com.br/entrevistas/panico.aspwww.sti.com.bthttp://valleser.rumo.com.br/pan.htm

Filme o Sorriso de Monalisa

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A história do filme “O Sorriso de Mona Lisa”, se passa mais precisamente na década de 50, quando o papel das mulheres era determinado pela família e pelo marido, retratando também a realidade americana do trabalho docente feminino da época.

A professora feminista representada por Katherine foi contratada para dar aulas de História da Arte num bem conceituado e tradicional colégio de moças, o Wellesley College, a mestra se vê entre moças inteligentes, mas isso não faz delas perfeitas.

A professora percebe que elas não tinham autonomia de pensamento, o que elas sabiam era o que estava exposto nas apostilas, tinham sonho conformista, de um casamento feliz sem qualquer perspectiva profissional ou mesmo de aprofundamento nos estudos.

As alunas eram preocupadas apenas em casarem-se, constituírem família, serem boas esposas e mães. Katherine tenta incentivá-las, apesar de ir contra todas as convenções escolares e sociais vigentes já que a Wellesley era uma escola tradicionalíssima.

Como toda professora novata, ela foi questionada não apenas pelo seu jeito de lecionar, mas também pela sua vida pessoal, afinal, na década de 50, não era comum ver mulheres que abriam mão da estabilidade de um casamento em favor do sucesso profissional.

A mestra sentindo que estava havendo uma competição ente professoras alunas, “uma certa rejeição”, impedindo o desempenho de suas aulas, que por sua vez não despertava o interesse que ela imaginara, decide mudar, desobedecendo às regras e normas do colégio, colocando as alunas frente a frente com a matéria, ou melhor, com a pintura, fazendo com que as mesmas sentissem a necessidade de pensar, imaginar e criar, onde seu objetivo era mostrar a essas meninas que são pessoas objetivas e determinadas, e poderiam ir além dos objetivos impostos pela época. O esforço de Katherine foi dirigido para levar as alunas a se interessarem vivamente por arte e, através deste interesse, construírem a si próprias, para pensar e agir de uma forma mais crítica enquanto pessoas, que tem opiniões pessoais, que gostam ou odeiam, e que se posicionam sobre o que está à sua volta, em vez de seguir padrões estabelecidos como as crenças e valores de suas famílias, e de sua sociedade, quebrando assim vários valores e tabus de uma classe dominante e mesquinha.

Até que a própria Katherine se vê envolvida, ela própria, na escolha do amor ou da carreira, e sai em busca desta última, deixando, porém na escola uma lembrança forte e entre as alunas uma carinhosa memória.

O filme é empolgante e acontece numa época onde o machismo e o preconceito de uma sociedade conervadora se traduz na ideologia tanto do colégio feminino quanto das alunas e professores.

O filme é ótimo, além de nos retratar a sociedade totalmente opressora, como nos diz o filme “uma escola disfarçada de aulas de boas maneiras”. Podemos ver que o professor pode nos dar conhecimento não só na sala de aula, mas também são capazes de transmitir através de uma mensagem direta o que esta além das apostilas.

O filme retrata também uma visão tradicionalista da crítica em relação ás artes, há qualidades notáveis na jovem professora Katherine Watson (Julia Roberts) que podem servir de inspiração para nosso trabalho em sala de aula. Entre as principais poderíamos destacar a capacidade de superação em momentos de grande adversidade a paixão pelo seu trabalho ou ainda por utilizar recursos e estratégias diferenciadas para alcançar o objetivo final.

Referência bibliográfica

Material gravado em DVD, O Sorriso de Mona Lisa, País, EUA/Ano de produção 2003.